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Ernst Theodor Lechler

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Ernst Theodor Lechler
Nome completoErnst Theodor Lechler
Pseudônimo(s)Pastor Lechler
Nascimento
23 de junho de 1872

Morte
18 de janeiro de 1950 (78 anos)

NacionalidadeAlemão
OcupaçãoTeólogo, missionário, professor, chefe escoteiro
ReligiãoEvangélica

Ernst Theodor Lechler (Esslingen am Neckar, 23 de junho de 1872 – Stetten am Heuchelberg, 18 de janeiro de 1950) foi um teólogo evangélico alemão, pastor missionário no Rio Grande do Sul, educador e chefe escoteiro.[1]

Vida e educação

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Filho do pastor e maquinista de trem Christian Lechler e de Bertha Marie Ernestine Schütz, Ernst Theodor Lechler passou a infância em Esslingen, com saúde frágil e educação inicialmente doméstica. Em 1878 entrou em escola particular e depois em escola pública local. Em 1884 iniciou estudos no Lyceum de Esslingen. Com a transferência do pai, continuou o ensino secundário em Stuttgart, frequentando o Gymnasium Real até 1891, exceto um período afastado por doença grave. Seu Lebenslauf (currículo autobiográfico escrito em 1898) relata episódios de tifo e longas convalescenças.[2]

Estudos universitários

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Em 1890/91, Lechler serviu como voluntário no exército em Ulm, no 2º Regimento de Artilharia de Württemberg. No semestre de inverno de 1891/92, iniciou os estudos de Teologia Protestante no Evangelisches Stift Tübingen em Tübingen, residindo e estudando ao mesmo tempo na Universidade de Tübingen. Em 1893 mudou-se para Erlangen, onde teve contato com professores como Albert Hauck e Franz Delitzsch. Na Leipzig, seguiu cursos de Christoph Ernst Luthardt e Hermann Cremer. Essas experiências consolidaram sua formação teológica, descrita no próprio Lebenslauf.[3]

Vinda para o Brasil (1898)

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Em 1898, aos 26 anos de idade, Pastor Lechler se despediu de sua família e transferiu-se para a sua nova morada, a comunidade de Três Forquilhas (hoje Itati) no Rio Grande do Sul.[4] Ernst se vinculou à Igreja Evangélica da Confissão Luterana (IECLB), atuando em diversas frentes missionárias.

Trabalho em Três Forquilhas (Itati)

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Ao chegar em 1898 à comunidade de Três Forquilhas, hoje Itati, Lechler encontrou uma região marcada por epidemias, enchentes, assassinatos e precariedade na educação. A memória local registra que, diante dessa realidade, o pastor se destacou por sua atuação pastoral e comunitária.[5]

Entre as ações relatadas estão:

  • Educação: organizou uma escola paroquial, promovendo alfabetização em português e alemão.
  • Música: fundou um coral comunitário bilíngue, em que os refrãos eram mantidos em alemão, mas as demais estrofes eram traduzidas ao português, permitindo a participação da comunidade afrodescendente e dos colonos não germanófonos.
  • Assistência espiritual: o livro registra sua presença junto às famílias em luto, em velórios e sepultamentos, em especial durante epidemias de febre tifoide e surtos gripais.
  • Vida comunitária: incentivou encontros sociais, corais e momentos de oração, fortalecendo a solidariedade entre moradores que viviam em meio a crises.
  • Inclusão: dedicou atenção especial às famílias afrodescendentes, integrando-as à vida comunitária, algo pouco comum em outras paróquias do período.[6] [7]

As memórias locais destacam que sua presença trouxe não apenas apoio religioso, mas também incentivo cultural e social, sendo lembrado como um marco na história da comunidade. Esse pastorado se estendeu até 1907, quando Lechler foi chamado para a Comunidade Evangélica de Santa Cruz do Sul. [8]

Santa Cruz do Sul

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Na nova comunidade, Lechler tornou-se figura central. Entre 1914 e 1927 foi diretor do Colégio Mauá, expandindo sua estrutura e fortalecendo a educação bilíngue na região.[9] Em 1922 lançou a pedra fundamental do novo templo da comunidade evangélica, inaugurado em 1924, marco arquitetônico e litúrgico da cidade.[10]

Associação com o Movimento Escoteiro

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O Pastor Lechler, ou melhor, o Chefe Lechler, sempre ia na frente de seus rapazes para os incentivar, entoando canções, brincadeiras e ensinamentos. Em 1917, junto com outras lideranças, participou de viagem a Porto Alegre para fundar a Associação dos Escoteiros Teutobrasileiros (26/01/1917), vinculada à União dos Escoteiros Alemães.[11] Em 1928, ao se despedir da liderança escoteira local, foi homenageado com uma marcha pública de escoteiros até a praça central, sinal do reconhecimento comunitário.[12]

Resistência ao nazismo em Ilsenburg

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Na década de 1930, Lechler esteve ligado ao Kirchliches Auslandsseminar, transferido em 1930 para Ilsenburg am Harz. O seminário, voltado à formação de pastores para comunidades no exterior, tornou-se foco da Bekennende Kirche contra a política nazista de controle da Igreja.

Lechler aparece em registros arquivísticos do arquivo da EKiR, identificado como Pfarrer Lechler, participando do *Prüfungsbetrieb* (exames do seminário) e de aulas clandestinas realizadas entre 1936 e 1938.[13] As fotografias do EKiR estão disponíveis apenas em consulta online, não sendo de uso livre.[14]

Essas aulas e exames continuaram mesmo após as proibições oficiais, em um movimento hoje reconhecido como parte da resistência eclesiástica ao nazismo.[15]

Lechler deixou um legado educacional, comunitário e cultural significativo. No Brasil, dirigiu o Colégio Mauá entre 1914 e 1927, ampliando sua estrutura e fortalecendo a educação luterana.[16] Foi pastor durante a construção e inauguração do templo da Comunidade Evangélica de Santa Cruz em 1924.[17] No escotismo, além de fundador, recebeu homenagem pública em 1928 com marcha escoteira de despedida, consolidando sua imagem como mentor comunitário.[18] Na Alemanha, sua memória é preservada em fichas oficiais da WKGO, no Arquivo da Igreja Evangélica no Rheinland e em exposições sobre a resistência eclesiástica, assegurando sua presença documentada em contextos de fé, educação e oposição ao autoritarismo.[19]

Referências

  1. «Lechler, Ernst [(Ernst Theodor)] * 23.6.1872». Deutsche Digitale Bibliothek (em alemão). Consultado em 20 de setembro de 2025 
  2. «WKGO – Ernst Theodor Lechler». Württembergische Kirchengeschichte Online (em alemão). Consultado em 21 de setembro de 2025 
  3. «WKGO – Ernst Theodor Lechler». Württembergische Kirchengeschichte Online (em alemão). Consultado em 21 de setembro de 2025 
  4. «Documentos do Arquivo Histórico - Sínodo Riograndense». Issuu (em inglês). 27 de março de 2014. Consultado em 20 de setembro de 2025 
  5. «*E a Vida Continua* – Memórias da Figueira, Vol. VII». Scribd. Consultado em 21 de setembro de 2025 
  6. «*E a Vida Continua* – Memórias da Figueira, Vol. VII». Scribd. Consultado em 21 de setembro de 2025 
  7. «Estudos Teológicos - Witt - 905-3588-1-pb». Scribd. Consultado em 20 de setembro de 2025 
  8. «EKLBB | Ev.-luth. Kirchenkreis Neustadt-Wunstorf». kirche-neustadt-wunstorf.de. Consultado em 20 de setembro de 2025 
  9. «Colégio Mauá – Portal Luteranos». Consultado em 21 de setembro de 2025 
  10. «Comunidade Evangélica de Santa Cruz do Sul – história do templo». Consultado em 21 de setembro de 2025 
  11. Kober, Julian (5 de julho de 2025). «Santa Cruz foi um dos primeiros municípios a ter grupo de escoteiros no Estado». GAZ - Notícias de Santa Cruz do Sul e Região. Consultado em 20 de setembro de 2025 
  12. Kober, Julian (5 de julho de 2025). «Santa Cruz foi um dos primeiros municípios a ter grupo de escoteiros no Estado». GAZ - Notícias de Santa Cruz do Sul e Região. Consultado em 21 de setembro de 2025 
  13. «EKiR Fotoarchiv – Fotografien mit Pfarrer Lechler». Consultado em 21 de setembro de 2025 
  14. «EKiR Archiv – Coleção Ilsenburg». Consultado em 21 de setembro de 2025 
  15. «Evangelischer Widerstand – memória da resistência luterana» (em alemão). Consultado em 21 de setembro de 2025 
  16. «Colégio Mauá – Portal Luteranos». Consultado em 21 de setembro de 2025 
  17. «Comunidade Evangélica de Santa Cruz do Sul – história do templo». Consultado em 21 de setembro de 2025 
  18. Kober, Julian (5 de julho de 2025). «Santa Cruz foi um dos primeiros municípios a ter grupo de escoteiros no Estado». GAZ - Notícias de Santa Cruz do Sul e Região. Consultado em 21 de setembro de 2025 
  19. «WKGO – Ernst Lechler». Württembergische Kirchengeschichte Online. Consultado em 21 de setembro de 2025 

Controle de autoridade

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Ligações externas

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