Escambo

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Árvore de pau-brasil localizada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sua importância comercial se dava pelo pigmento vermelho extraído do seu tronco. A cor, que pode ser visualizada na imagem, era de difícil obtenção na Europa de então.

Escambo, de maneira geral, significa troca ou permuta. Na história do Brasil colonial, porém, o termo aparece frequentemente associado ao tipo de relações estabelecidas entre portugueses e indígenas nas primeiras décadas do século XVI. Fornecendo certos instrumentos de ferro, espelhos e outros objetos, os europeus recebiam dos nativos as toras de pau-brasil. Se por um lado esses objetos citados eram triviais aos europeus, o mesmo vale para o pau-brasil em relação aos indígenas. Dadas as particularidades, ambos os lados compartilhavam o que tinham de abundante em troca de artigos de grande valor pelo caráter de "novidade".

História[editar | editar código-fonte]

Brasil[editar | editar código-fonte]

Os primeiros contatos entre os povos nativos da costa do Brasil e os europeus foram marcados por relações de troca conhecidas na historiografia como escambo.

Antes da escravização indígena nas lavouras, os primeiros contatos entre portugueses e nativos se caracterizavam pela troca de produtos e serviços por outras mercadorias: o escambo. Vários navegadores registraram o comércio realizado com os nativos, como foi o caso do navegador francês Paulmier de Gonneville. Ele esteve no atual estado de Santa Catarina entre 1503 e 1504 e afirmou que os indígenas trocavam diversos artigos que interessavam aos europeus, como pele de animais, plumagens, madeira etc., por “pentes, facas, machados e outras bugigangas e quinquilharias”.
Os portugueses consideravam o comportamento dos povos nativos néscio, pois aceitavam objetos de pouco valor na Europa em troca de objetos valiosos na mesma, como o pau-brasil. Porém, para os indígenas, o escambo era uma forma proveitosa, já que eles trocavam seus itens em abundância por itens que não possuíam nem tinham como fabricar. Se para o europeu um espelho não representava quase nada, para o indígena era um objeto útil, valioso, já que ele não podia fabricar.

Para os indígenas, esses objetos os diferenciavam perante outros grupos, reconhecendo-os como aliados dos estrangeiros. Os adornos tinham um valor simbólico para a sociedade da época e permitiam ao índio um reconhecimento no mundo colonial. Assim, itens que pareciam ser supérfluos acabaram por ter um papel fundamental naquela sociedade, não porque os índios desconheciam o valor pecuniário dos objetos, mas sim porque a eles foram dados significados diferentes.[1]

Escambo como uma forma de subsistência[editar | editar código-fonte]

Em 1500 no primeiro momento de chegada ao Novo Mundo, os navegadores europeus já iniciaram a prática do escambo, devido a necessidade de alimentos e de informações para a sobrevivência dos viajantes. O escambo foi o primeiro modo de comunicação efetiva entre os indígenas e os europeus, motivando relações sociais mais complexas entre si. Por meio do escambo era estimulada a captura de nativos, ocasionando em alguns casos guerras entre povos originários de etnias diferentes. Com relevante colaboração dos portugueses, essa tática foi utilizada em todo território colonial.

Laminas de Faca e Anzol do século XVI

Em 1549, Tomé de Souza chegou ao Brasil como primero governador-geral. Ele fora encarregado de reafirmar o domínio territorial português na colônia, defendê-las dos indígenas considerados hostis e dos franceses[2]. Entretanto, ao chegar em Salvador, descobriu outro problema: a falta de mantimentos. A solução encontrada por Tomé de Souza foi importar os alimentos e utilizar o escambo para completar a dieta dos colonos da cidade de Salvador. A negociação foi bem aceita pelos indígenas, interessados especialmente em algumas mercadorias ofertadas pelos colonos, tais como como anzóis, tesouras, facas e machado.[3] Estes objetos eram úteis no cotidiano dos nativos, que, por sua vez, possuíam os alimentos necessários para a manutenção da colônia. O que diferia Tomé de Souza dos outros governadores, era a sua preocupação em fazer com que a prioridade do escambo girasse ao redor de fornecer alimentos ao invés de mão de obra escravizada.

Um grande exemplo de como o escambo funcionava e era essencial para a manutenção da colônia, pode ser visto quando Tomé de Souza recebe a autorização do Rei de Portugal João III, para designar um dia da semana, ou mais, caso fosse necessário, para construir um "mercado" [4]em que os indígenas vendessem sua produção aos portugueses.[5]

Animais no escambo[editar | editar código-fonte]

Manto Tupinambá feito utilizando penas de galinha

A troca de exemplares da fauna nativa e de origem europeia não só era comum, como ocorreu desde o começo do século XVI, de forma que esses animais foram incorporados em ambas sociedades desde os primeiros contatos. Um exemplo disto é a galinha, cuja origem europeia não impediu a sua plena adaptação entre os povos tupinambás. Podemos observar sua incorporação através do uso das suas penas na produção dos tradicionais mantos rituais tupis. Inicialmente eles eram confeccionados com penas de guará. A partir de estudos feitos em peças remanescentes, especialmente um exemplar localizado no Museu de Copenhagen, sabe-se da incorporação das penas de galinha tingidas de vermelho com a tinta do pau-brasil. Outro animal bastante significativo destas trocas é o papagaio, que foi intensamente enviado para a Europa e incorporado na cultura local de vários reinos.[6]

A maneira de domesticação dos animais e a forma de convivência com eles, em parte consequência dessas trocas, alterou a sociedade europeia. Uma incorporação mais próxima dos animais no ambiente doméstico, comum entre os povos ameríndios, se desenvolveu no continente europeu.[7]

Atualidade[editar | editar código-fonte]

Apesar da monetização da sociedade moderna, o escambo continua fazendo parte do cotidiano, como quando um amigo oferece a outro consertar seu computador em troca de uma carona, ou uma criança na escola oferece uma bolacha de seu lanche em troca de uma bala do seu colega e/ou apresenta algo em forma de crédito, promessa de futuro pagamento. E chega a ser parte importante da economia em regiões menos desenvolvidas ou que aderem a certas tradições ou princípios, a exemplo de comunidades indígenas.

A prática do escambo vem se revitalizando com a Internet, através de sítios na web para troca on-line de mercadorias e serviços.[8] A troca empresarial, como por exemplo a utilização do Bitcoin, também vem ganhando espaço, com estimativas atribuindo a ela a circulação em valor equivalente ao de bilhões de dólares anuais.[9] O escambo também tem a tendência de ser utilizado em países onde a moeda oficial está a desvalorizar,[10]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. GARCIA, Elisa Frühauf (2014). "Trocas, guerras e alianças na formação da sociedade colonial". In: Fragoso, João & Gouvêa, Fátima (orgs.). O Brasil Colonial, v. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 327 páginas 
  2. MARCHANT, Alexander (1990). Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional. p. 111 
  3. MARCHANT, Alexander (1980). Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional. p. 113 
  4. MARCHANT, Alexander (1980). Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional. p. 124 
  5. "E asy ordenareis que nas ditas vilas e povoações se faça em hum dia de cada somana ou mais se vos parecerem necessários feira a que os jemtios posão vir vender o que teverem e quiserem e comprar o que ouverem mester e asy ordenareys que os christãos não vão as aldeas dos jemtios a tratar com eles salvo os senhorios e jemte dos emjenhos porque estes poderão em todo o tempo tratar com os jemtios das alldeas que estiverem nasterras e limites dos ditos emjenhos e porem parecendo vos que fara inconveniente· poderem todos os de cada emjenho ter liberdade pera tratarem com os ditos jemtios segundo forma deste capitoloE temdo allguns christãos necesidade de em a!lguns outros dias que não forem de feira comprar allguas cousas dos dytos jemtios o dirão ao capitão e ele dara licença pera as irem comprar quoamdo e omde lhe bem parecer". In: MARCHANT, Alexander (1980). Do Escambo à Escravidão: as relações econômicas de Portugueses e índios na colonização do Brasi. São Paulo: Companhia Editora Nacional. p.124.
  6. GARCIA, E. F.. Os índios brasileiros na formação do mundo moderno. Alianças, comércio e trocas culturais. In: Gesteira, Heloísa. (Org.). Magalhães-Elcano: a primeira viagem ao redor do mundo 1519-1522. 1ed.Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio, 2021, v. , p. 112-137.
  7. Norton, Marcy. «The Chicken or the Iegue: Human-Animal Relationships and the Columbian Exchange». The American Historical Review: 28–60. 
  8. Monica Campi (2 de junho de 2011). «Consumo colaborativo é o novo escambo 2.0». Info Exame. Consultado em 31 de dezembro de 2013 
  9. «Escambo volta à moda e movimenta US$ 10 bi». Estadão.com. 16 de março de 2003. Consultado em 31 de dezembro de 2013 
  10. Anelise Infante (20 de janeiro de 2012). «Crise traz de volta a prática de escambo na Europa». BBC Brasil. Consultado em 31 de dezembro de 2013 
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