Escola metódica

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A escola metódica surgiu na França em finais do século XIX em um contexto de forte sentimento patriótico e de formação da unidade nacional. Neste período, buscava-se consagrar à História o status de ciência com a utilização de métodos científicos que a distanciassem da literatura. Charles Victor Langlois e Charles Seignobos apreendem as ideias de Gabriel Monod, então fundador da Revue Historique juntamente com Gustave Charles Faganiez, e produziram um manual intitulado Introdução aos Estudos Históricos, publicado em 1898, e que contém as suas ideias e métodos que os historiadores deveriam se basear para o seu ofício.

Surgimento[editar | editar código-fonte]

A escola metódica teve como precursores Gabriel Monod, Gustave Charles Faganiez e um grupo de intelectuais de diversas áreas. O marco inicial da escola é a publicação da Revue Historique em 1876, que teve como objetivo ser uma coletânea da ciência positiva e um espaço de livre discussão.[1] [2] A independência política e religiosa da disciplina História estava na base do surgimento da escola metódica. A História deveria ser estudada tendo como fim a si mesma, e não servir a outros fins.[2] A escola estabeleceu o compromisso de fortalecer a pesquisa histórica dentro da França. Nutridos por um sentimento de revanchismo com relação à Alemanha e a derrota na guerra franco-prussiana, queriam que a França voltasse a estar no lugar de superioridade intelectual que um dia esteve.[3]

Com o objetivo de construir uma erudição histórica na França, os metódicos se propuseram a elevar o nível de cientificidade, entendida enquanto algo construído com base no levantamento bibliográfico e na análise crítica das fontes, no intuito de melhorar a qualidade das produções históricas.[4] O trabalho proposto pelos metódicos se opunha ao modelo de história produzido pelos seus antecessores Augustin Thierry, François Guizot, Jules Michelet, Adolphe Thiers, entre outros. De acordo com Gabriel Monod, a história produzida por esses historiadores poderia ser chamada de literária por causa de sua forma de escrita; pelo fato de que esses historiadores, em sua maioria, eram autodidatas, não tendo passado por uma formação acadêmica; e por eles não retomarem suas obras afim de efetuar correções visando o progresso da ciência.[5]

Charles Victor Langlois e Charles Seignobos apreenderam as ideias de Gabriel Monod e produziram, vinte anos depois do lançamento da Revue Historique, um manual intitulado Introdução aos Estudos Históricos, publicado em 1898, e que contém ideias e métodos de análise que os historiadores deveriam se basear para o seu ofício.[6][7] Essa obra foi uma das principais no que diz respeito aos métodos difundidos pela escola, sendo referência para gerações de historiadores [8] Interessava a esses historiadores atingir uma imparcialidade e o objetividade na produção historiográfica, e para isso se propuseram a elaborar técnicas de análise visando uma história profissional.[9] Langlois e Seignobos afirmaram a importância da crítica para o trabalho histórico, pois, o documento não fala por si mesmo, sendo necessário o trabalho do historiador na análise crítica.[10]

Inspiração alemã[editar | editar código-fonte]

Diversos pesquisadores apontam o importante papel que a Alemanha teve no avanço da ciência histórica.[11] Em relação à escola metódica, os historiadores alemães disponibilizaram a base teórica do conhecimento histórico.[1] Gabriel Monod e Gustave Charles Faganiez, historiadores franceses que fundaram a escola metódica, tiveram grande influência no conhecimento e na pesquisa histórica que era produzida na Alemanha pelo acesso a publicações, entre revistas e obras, e também pelos congressos e eventos acadêmicos que participaram.[12] Muitos historiadores franceses foram estudar na Alemanha após a guerra franco-prussiana no intuito de tentar entender o que os levou a perder a guerra e aperfeiçoar o conhecimento francês em diversas áreas, especialmente a cientifica e a militar. Monod, Ernest Lavisse, Charles Seignobos, entre outros, estudaram na Alemanha e retornaram à França com o pensamento histórico científico alemão.[4]

Como afirmou Monod, “nenhum país contribuiu mais que a Alemanha para dar aos estudos históricos [o] caráter de rigor científico”.[13] Dentre os pesquisadores alemães que tiveram maior impacto na produção francesa estão Christian Lassen, Carsten Niebuhr, August Boeckh, Theodor Mommsen, Karl Eichhorn, Friedrich Karl von Savigny, Georg Waitz, Georg Heinrich Pertz, Georg Gottfried Gervinus e Leopold von Ranke.[14] A concepções históricas de Ranke tiveram especial importância para a escola metódica, principalmente na posição de que a apreensão dos acontecimentos deveria se dar a partir dos documentos.[15] Ranke lançou muitas questões pertinentes para a instituição da História enquanto ciência, sendo comumente chamado pai da história científica.[16] Para Ranke, a história era constituída por uma fusão entre ciência e arte, estabelecendo uma aproximação da história com a filosofia e com a poesia.[17]

Em muitos aspectos, a Alemanha se encontrava, no final do século XIX, mais organizada e modernizada em comparação com outros lugares do mundo, especialmente em relação à França.[18] A Alemanha contava com uma estrutura forte no campo educacional, possuía muitas universidades e um elevado investimento em ciência. O ensino acompanhou as vicissitudes que ocorreram progressivamente durante os séculos, as tradições eclesiásticas foram perdendo espaço enquanto a laicidade passou a ser valorizada.[14] A combinação desses fatores possibilitou um grande número de pesquisas e o progresso intelectual. Os fundadores da escola metódica percebiam que para superar o atraso científico francês havia a necessidade de um trabalho metódico que serviria de base para a uma verdadeira erudição histórica. Dentre as ações nesse caminho estavam a publicação de textos, a crítica minuciosa, a utilização de documentos e o fortalecimento no campo educacional.[19] Foi na Alemanha que inicialmente foi dado grande importância para o levantamento e a crítica documental.[20]

As publicações alemãs circulavam por toda a Europa, sendo muitas vezes traduzidas para outras línguas e publicadas. Uma dessas obras que contavam com grande circulação era a Historische Zeitschrift (Revista histórica) fundada em 1859 por Heinrich Sybel. Entre os intelectuais que publicavam na revista está Leopold von Ranke, Heinrich von Treitschke, Johann Gustav Droysen, Georg von Below e Friedrich Meinecke. A Historische Zeitschrift era bastante representativa do pensamento historiográfico alemão e do historicismo.[21] A influência alemã também pode ser percebida no campo da história econômica e social.[22]. Com o historicismo alemão é construída uma cultura histórica e uma consciência temporal entre passado e presente, que opunha-se à filosofia da história iluminista e hegeliana. Nesse momento a história passa a aspirar a objetividade,[23] princípio seguido pelos metódicos. Mesmo a ideia de produção de manuais para a história, como o produzido por Langlois e Charles Victor Seignobos já era prática antes pela Escola Histórica Alemã, como deixa vislumbrar o Manual de Teoria da História de Droysen, publicado em 1858.[24]

Por uma História científica[editar | editar código-fonte]

No contexto da III República francesa, buscou-se consagrar à História o estatuto de ciência a partir de uma narrativa objetiva e neutra, que pudesse ser comprovada por meio fontes e métodos de análise.[25] [26][27] Nesse período, passou-se a valorizar o discurso histórico disciplinado por fontes primárias, ao passo em que a aplicação da metodologia científica teve como objetivo expurgar os então chamados micróbios literários da narrativa historiográfica.[26][28][6] Havia um esforço dos historiadores metódicos em afastar-se da história enquanto literatura, produzida por historiadores românticos como Jules Michelet e Augustin Thierry, por ser vista como uma história impregnada de sentimento, subjetividade e idealismo.[29] Os metódicos criticavam os chamados cronistas e os literatos, pois não produziam uma ciência histórica entendida enquanto algo apreendido a partir da análise crítica das fontes.[30] Eles acreditavam que os seus antecessores tinham paixões políticas e religiosas que impediam o avanço da ciência.[31] A profissionalização da história enquanto disciplina científica está ligada principalmente a chamada geração de 1870, da qual os metódicos fazem parte. Contudo, alguns estudiosos apontam que fazer história usando parâmetros científicos já era uma pretensão da geração anterior.[32]

Foram os progressos nas ciências e nos métodos científicos do século XVII e XVIII que possibilitaram pensar em novos meios de investigação histórica. Entre eles a filologia comparada, a antropologia, a geologia, a paleografia, entre outras.[33] Como conhecimento científico, a História se funda no trabalho de análise crítica e comparação. A partir de uma investigação lenta, metódica e progressiva, seu avanço segue do particular ao geral desvelando os acontecimentos com base em provas.[34] Os historiadores pertencentes à escola metódica se diziam distantes de qualquer doutrina, desejando apenas reconstruir a partir das fontes a verdadeira história.[35] Se preocupavam em produzir uma história científica, procurando empregar métodos de pesquisa e análise que visavam a objetividade, a universalidade epistemológica, o distanciamento do objeto de análise e a valorização dos eventos.[36][37]

A importância do documento[editar | editar código-fonte]

Os metódicos atribuíam ao documento valor essencial na pesquisa histórica. O uso de fontes e pesquisas com um embasamento em provas materiais se torna base para a ciência histórica a partir da crítica documental.[38] O historiador deveria se ater ao passado, distanciando-se o máximo possível temporalmente de sua fonte de pesquisa com o objetivo de produzir uma análise verdadeira. Acreditava-se que o historiador, por meio do método, seria capaz de descrever e analisar os documentos com menor interferência, extraindo a verdade dos fatos. O uso de documentos era essencial para a escrita da história, como afirma Langlois e Seignobos em seu manual Introdução aos Estudos Históricos: “nada supre os documentos: onde não há documentos não há história”.[39] Na época, o entendimento que se tinha sobre documento era de dois tipos: de traço material, como monumentos e objetos, ou de ordem psicológica, como documentos escritos e oficiais.[40]

Diversas ciências contribuíram para firmar a autoridade do documento, como a numismática, a paleografia e a epigrafia.[41] A partir da crítica do texto seria possível reconstituir o passado. Os metódicos defendiam não apenas o uso de métodos de análise, mas também o uso da crítica. Como afirma Monod, “a história pode, com um método rigoroso e uma crítica prudente, senão descobrir sempre a verdade completa, ao menos determinar exatamente sobre cada ponto, o certo, o verossímil, o duvidoso e o falso”.[41] O documento era entendido enquanto um vestígio do passado e meio pelo qual os fatos históricos poderiam ser apreendidos.[37] Estes fatos podem ser sentimentos ou até mesmo acontecimentos de longa duração. O trabalho do historiador, a partir do documento, consiste na sua organização, análise, e crítica, sendo esta interna e externa, que já vinha sendo pensada no âmbito dos estudos históricos desde o século XVII.[42] [43]

Uma pedagogia para o ensino da História[editar | editar código-fonte]

Pintura que retrata a guerra Franco-Prussiana de Nicolas Alberto Delsouc

Eram diversas as histórias existentes na França até o final do século XIX, mas no contexto da III República, de forte sentimento patriótico e de formação de unidade nacional,[44] fazia-se necessário construir uma história que abarcasse e tivesse significado para toda a população. Até o momento, a França contava com historiadores memorialistas autodidatas que escreviam de forma autônoma.[35] A elevação na importância da disciplina histórica ocorre em um momento da história em que se passa a olhar para o passado buscando-se auto-afirmar no presente. A chamada geração de 1870 da qual os metódicos fazem parte participou do processo de constituição de uma identidade nacional. Os historiadores vieram a ter uma função patriótica com o crescimento do sentimento nacionalista após a guerra franco-prussiana. A escola metódica foi um movimento historiográfico que tentou promover uma unidade nacional para a França, promovendo uma aproximação metodológica com a ciência histórica alemã. Em contrapartida, ao mesmo tempo, havia um crescente sentimento anti-germânico.[45][46]

Ao longo do século XIX, a educação, em geral, assim como o ensino de História, em particular, passou a ser ressignificado, ligando-se a um projeto nacional. É na República que ocorre uma reforma do ensino em todos os âmbitos, superior, secundário e primário, e passa a existir o interesse de formar cidadãos patriotas. A escola metódica teve um papel importante para a construção da identidade nacional, da ideia de Estado-nação e da constituição histórica de valores e memórias nacionais.[8] Ernest Lavisse elabora, juntamente com um grupo de historiadores,a coleção História da França, publicada nos anos de 1900 em nove tomos. Essa ampla reconstituição da história francesa privilegiou o âmbito político, baseado nas dinastias, nos homens ilustres e nas grandes guerras.[47] Esse pensamento de valorização da educação e da cultura para a formação de uma identidade nacional era amplamente manifestado no século XIX e presente em obras de diversos historiadores, inclusive fora da França.[48] O desenvolvimento dos estudos históricos na França foi impulsionado pelo caráter político de construção de uma unidade nacional.[5] Essa época é marcada por avanços nos investimentos em educação, programas educacionais e produção de manuais educativos. A educação servia para disseminar o sentimento nacional e patriótico.[1] A profusão de bibliotecas e universidades é significante para avanço nos estudos históricos. As principais críticas que os metódicos fazem com relação a falta de uma base de estudo e pesquisa histórica sólida na França é devido à falta de um ensino superior organizado e uma cultura intelectual de método e crítica.[49]

Críticas à escola metódica[editar | editar código-fonte]

Historicizante e positivista[editar | editar código-fonte]

Um dos primeiros a criticar a escola metódica foi François Simiand. Em sua obra Método Histórico e Ciência Social, de 1903, articula críticas, especialmente, a Langlois e Seignobos. As críticas levantadas por Simiand versam sobre diversas questões, entre elas, a ideia de imparcialidade do historiador e a admiração por “ídolos”.[50] Os “ídolos” apontados por Simiand referem-se ao apreço político, cronológico e individual dos historiadores metódicos.[51] A crítica ao ídolo político se faz pela dificuldade na definição de regularidades e leis; o ídolo individual refere-se à valorização de histórias de indivíduos em vez de instituições e fenômenos sociais; o ídolo cronológico concerne a demasia aos estudos das origens.[52] Simiand apropriou-se da doutrina dos ídolos de Francis Bacon e adaptou livremente em sua crítica à escola metódica.[53]

A linha seguida por Simiand provém da escola sociológica fundada por Émile Durkheim, que considera importante o fenômeno social, as permanências encontradas, em detrimento aos fatos e acontecimentos.[54] Émile Durkheim fundou, em 1898, a Année Sociologique, uma revista que publicizava pesquisas a respeito da sociologia francesa, e também, críticas à escola metódica que denominava de forma pejorativa de historicizante.[55]  Durkheim, assim como Simiand, lançara diversas críticas aos metódicos, por vezes chamando-os de positivistas, termo utilizado de forma errônea e carregado de concepções e práticas que não se fundem ao pensamento propriamente dos metódicos.[56] Até mesmo erros de tradução foram responsáveis pela difusão de uma ideia positivista sendo atrelada à escola metódica. Por muitas vezes, não foi entendido o distanciamento que existe para os metódicos entre o documento e fato.[57] Os metódicos compreendem a construção histórica a partir do documento, mas este não é visto como uma verdade ingênua. Pelo contrário, o documento passa por diversas análises para que ao final se chegue ao fato histórico.[57]

Historicizante e narrativista[editar | editar código-fonte]

A chamada escola dos Annales se definia como uma nova história, em contestação ao tradicionalismo historiográfico dos metódicos que tinha como base a Alemanha. Criticavam a escola metódica, o historicismo alemão e a chamada história política.[58][59] A crítica e a rejeição feita pelos Annales à prática historiográfica dos metódicos foi bastante recorrente e, por muitas vezes, estes historiadores não reconhecem suas aproximações com a escola metódica.[60] Apesar da construção mitológica de um pensamento historiográfico revolucionário, especialmente com a segunda e terceira geração dos Annales, a chamada Nova História teve grande influência do pensamento historiográfico alemão devido ao grande contato que os fundadores dos Annales tiveram com obras e pesquisas alemães que circulavam pela França.[61] Tanto Marc Bloch quanto Lucien Febvre são herdeiros da chamada geração de 1870 composta por nomes como Gabriel Monod, Ernest Lavisse, Victor Langlois e Charles Seignobos, que foram formados sob o signo da cultura germânica. [62] As principais críticas feitas pelos Annales aos metódicos referem-se a denominada história dos eventos, bibliográfica, historicizante e a valorização de um método para a obtenção dos fatos.[63]

Mesmo que Bloch e Febvre criticassem à escola metódica, o tom da crítica era diferente entre eles. Febvre lançou suas críticas de forma mais enfática em comparação com Bloch. Criticavam os metódicos por evidenciar os fatos no processo historiográfico, bem como os grandes acontecimentos e os grandes personagens históricos.[64] Febvre os chamava de historiadores dos documentos, e apesar das críticas feitas aos metódicos, Febvre reconhece a importância dos métodos historiográficos produzidos por eles para o progresso da ciência.[58] Foi com a segunda geração dos Annales que se intensificou as críticas aos metódicos, especialmente a partir das colocações de Simiand na obra Método Histórico e Ciência Social, de 1903, que veio a ser novamente publicada pelos Annales em 1960.[65] Fernand Braudel critica a chamada história tradicional, a história-narrativa, que segundo ele tem como pretensão contar as coisas como exatamente foram, entretanto, seria uma falaciosa ilusão.[66] A história produzida pelos metódicos foi chamada de história narrativa pelos Annales por buscar apreender os fatos a partir dos documentos e de forma linear construir uma narrativa histórica.[67] Em contraposição a esse forma de se fazer história, os Annales apresentavam-se como fazendo uma história-problema, em que a investigação histórica parte de um problema a ser abordado. A diferença fundamental posta entre as duas escolas seria que a escola metódica partiria das fontes e de sua ordem cronológica, que determinavam a história, e a escola dos Annales pensava em uma problemática para depois pensar nas fontes para solucioná-la.[68][69] Os metódicos foram muito criticados por esse modelo de história narrativa, especialmente quando voltada para história de personagens políticos, heróis e grandes homens.[37]

A disputa pela hegemonia na Sorbonne[editar | editar código-fonte]

Universidade de Paris-Sorbonne.

Na França, a Universidade de Paris-Sorbonne, foi o grande polo intelectual francês, destacando-se por suas pesquisas. Os metódicos eram professores em Sorbonne, assim como os fundadores dos Annales. A escola metódica exerceu grande dominação na área de ensino e investigação histórica nas universidades até os anos de 1940.[70] Existia um conflito interno no campo da história dentro de Sorbonne. E, devido ao grande poder intelectual que exercia a escola metódica nas universidades, os fundadores dos Annales foram expor suas ideias e críticas aos metódicos fora do âmbito universitário na Revista annales d'histoire économique et sociale. Um fator importante para o sucesso dos Annales está ancorado no prestigio que contavam Bloch e Febvre dentro das instituições universitárias, especialmente, com o apadrinhamento de Henri Pirenne. Outras tentativas em relação à organização da produção historiográfica às voltas das ciências sociais já tinham sido feitas anteriormente, mas não tiveram o mesmo alcance de notoriedade que os Annales.[71] O prestígio de Bloch e Febvre no meio acadêmico é denotado por Jacques Revel e André Burguière que afirmam que eles eram historiadores reconhecidos, publicavam em importantes revistas, inclusive na Revue Historique.[72]

As mudanças que vieram a ocorrer no mundo também contribuíram para a valorização dos Annales enquanto inovação historiográfica. O surgimento do totalitarismo na Alemanha acabou por interromper as atividades historiográficas e a decadência cultural, demográfica e política da Europa no início do século XX contribui para o interesse em abandonar o passado e empregar mudanças na concepção histórica.[73] Um dos críticos da escola dos Annales, Fraçois Dosse afirma que a escola está marcada pelo ecumenismo epistemológico e por uma estratégia de alianças que favoreceu o seu sucesso. Com a junção de procedimentos e linguagens das ciências sociais, e, a partir de uma posição hegemônica na produção histórica francesa, os Annales se destacaram no campo historiográfico.[74] Alguns historiadores afirmam que os Annales não foram uma renovação intelectual, pois não teriam um programa bem definido teoricamente, mas se fundavam em uma bricolagem conceitual. Na notoriedade dos Annales teria sido mais importante a posição de poder dentro da Sorbonne, que a robusteza da proposta intelectual inicial.[75]

Referências

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Artigos Científicos[editar | editar código-fonte]



Teses e Dissertações[editar | editar código-fonte]

Livros e capítulos de livros[editar | editar código-fonte]

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