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Escrita automática

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
 Nota: Este artigo é sobre conceito literário. Para a definição religiosa, veja Psicografia.
Obra de André Breton produzida inteiramente com a técnica da escrita automática.

Escrita automática, no âmbito artístico-literário, é o processo de produção de material escrito que objetiva evitar os pensamentos conscientes do autor, através do fluxo do inconsciente. Através da escrita automática, o Eu do poeta se manifestaria livremente de qualquer repressão da consciência, e deixaria crescer o poder criador do homem, fora de qualquer influxo castrador. Seu propósito é vencer a censura que se exerce sobre o inconsciente, libertando-o através de atos criativos não programados, aleatórios, improvisados e sem sentido imediato para a consciência, os quais escapam à vontade do autor.[1]

Elementos predecessores da escrita automática foram criados pelos dadaístas, porém, enquanto técnica consolidada, a escrita automática ganha corpo pelo líder do movimento surrealista, André Breton, no ano de 1919 ou por Tristan Tzara. Ou seja, para a literatura, se trata somente de um método literário defendido, principalmente, pela vanguarda surrealista.[2]

O primeiro livro produzido por escrita automática foi "Os campos magnéticos"(1921), de André Breton e Philippe Soupault, e suas raízes se encontram na poesia em prosa de Rimbaud e Lautréamont e na poesia, mais remota, de William Blake.

No Brasil, a escrita automática chegou ainda nos anos 20 daquele século, através de Prudente de Morais Neto e Sérgio Buarque de Holanda.[3]

Arte e literatura

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Se o Dadaísmo pavimentou os caminhos de manifestação do inconsciente na arte e na literatura, o Surrealismo trilhou esse caminho e não só reconheceu como sistematizou a escrita automática enquanto técnica artística. No Manifesto Surrealista, escrito em 1924 por André Breton, encontra-se como se constrói o processo da escrita automática:

Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada. É bastante difícil decidir sobre a frase seguinte: ela participa, sem dúvida, a um só tempo, de nossa atividade consciente e da outra, admitindo-se que o fato de haver escrito a primeira supõe um mínimo de percepção.

Tal automatismo representaria, para Breton, o descarrilhar da escrita, o rompimento de todos os freios e barreiras da consciência e a liberdade da caneta frente o papel[4].

Psicanálise

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O surrealismo pode ser entendido como o ponto de encontro entre arte e psicanálise, utilizando como matéria artísticas elementos e técnicas alternativas e inovadoras para a época, como a escrita automática, os sonhos, a loucura e os fluxos de consciência[5]. Dada as relações de interseção e influências mútuas entre psicanálise e surrealismo, percebe-se na escrita automática a expressão artística do inconsciente estruturado como linguagem de Jacques Lacan[5].

Ver também

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Referências

  1. «O método e a criação literária: uma visão psicanalítica» (PDF). Consultado em 2 de junho de 2010. Arquivado do original (PDF) em 7 de outubro de 2009 
  2. Castro, Paulo. 2005. Faculdade Paulista das Artes. Informa como se escreve um obra de escrita automática.[ligação inativa]
  3. UDESC. Centro de Artes.
  4. Thompson, Rachel Leah (1 de janeiro de 2004). «The Automatic Hand: Spiritualism, Psychoanalysis, and Surrealism». InVisible Culture (em inglês). doi:10.47761/494a02f6.bbff141a. Consultado em 28 de dezembro de 2025 
  5. a b Rezende, Jamily Nacur (junho de 2011). «A inscrição do movimento artístico surrealista interrogando a escrita de Lacan». Reverso (61): 67–74. ISSN 0102-7395. Consultado em 28 de dezembro de 2025 

Ligações externas

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