Escrita automática

Escrita automática, no âmbito artístico-literário, é o processo de produção de material escrito que objetiva evitar os pensamentos conscientes do autor, através do fluxo do inconsciente. Através da escrita automática, o Eu do poeta se manifestaria livremente de qualquer repressão da consciência, e deixaria crescer o poder criador do homem, fora de qualquer influxo castrador. Seu propósito é vencer a censura que se exerce sobre o inconsciente, libertando-o através de atos criativos não programados, aleatórios, improvisados e sem sentido imediato para a consciência, os quais escapam à vontade do autor.[1]
Origens
[editar | editar código]Elementos predecessores da escrita automática foram criados pelos dadaístas, porém, enquanto técnica consolidada, a escrita automática ganha corpo pelo líder do movimento surrealista, André Breton, no ano de 1919 ou por Tristan Tzara. Ou seja, para a literatura, se trata somente de um método literário defendido, principalmente, pela vanguarda surrealista.[2]
O primeiro livro produzido por escrita automática foi "Os campos magnéticos"(1921), de André Breton e Philippe Soupault, e suas raízes se encontram na poesia em prosa de Rimbaud e Lautréamont e na poesia, mais remota, de William Blake.
No Brasil, a escrita automática chegou ainda nos anos 20 daquele século, através de Prudente de Morais Neto e Sérgio Buarque de Holanda.[3]
Arte e literatura
[editar | editar código]Se o Dadaísmo pavimentou os caminhos de manifestação do inconsciente na arte e na literatura, o Surrealismo trilhou esse caminho e não só reconheceu como sistematizou a escrita automática enquanto técnica artística. No Manifesto Surrealista, escrito em 1924 por André Breton, encontra-se como se constrói o processo da escrita automática:
Pense que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a tudo. Escreva depressa, sem assunto preconcebido, bastante depressa para não reprimir, e para fugir à tentação de se reler. A primeira frase vem por si, tanto é verdade que a cada segundo há uma frase estranha ao nosso pensamento consciente pedindo para ser exteriorizada. É bastante difícil decidir sobre a frase seguinte: ela participa, sem dúvida, a um só tempo, de nossa atividade consciente e da outra, admitindo-se que o fato de haver escrito a primeira supõe um mínimo de percepção.
Tal automatismo representaria, para Breton, o descarrilhar da escrita, o rompimento de todos os freios e barreiras da consciência e a liberdade da caneta frente o papel[4].
Psicanálise
[editar | editar código]O surrealismo pode ser entendido como o ponto de encontro entre arte e psicanálise, utilizando como matéria artísticas elementos e técnicas alternativas e inovadoras para a época, como a escrita automática, os sonhos, a loucura e os fluxos de consciência[5]. Dada as relações de interseção e influências mútuas entre psicanálise e surrealismo, percebe-se na escrita automática a expressão artística do inconsciente estruturado como linguagem de Jacques Lacan[5].
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ «O método e a criação literária: uma visão psicanalítica» (PDF). Consultado em 2 de junho de 2010. Arquivado do original (PDF) em 7 de outubro de 2009
- ↑ Castro, Paulo. 2005. Faculdade Paulista das Artes. Informa como se escreve um obra de escrita automática.[ligação inativa]
- ↑ UDESC. Centro de Artes.
- ↑ Thompson, Rachel Leah (1 de janeiro de 2004). «The Automatic Hand: Spiritualism, Psychoanalysis, and Surrealism». InVisible Culture (em inglês). doi:10.47761/494a02f6.bbff141a. Consultado em 28 de dezembro de 2025
- ↑ a b Rezende, Jamily Nacur (junho de 2011). «A inscrição do movimento artístico surrealista interrogando a escrita de Lacan». Reverso (61): 67–74. ISSN 0102-7395. Consultado em 28 de dezembro de 2025
Ligações externas
[editar | editar código]- «Site com material de Espiritismo grátis em PDF, incluído obras de Kardec e Léon Denis» 🔗 (em inglês)
- A escrita automática ou a procura da utopia. (Em galego)[ligação inativa]
- Texto "L'écriture automatique", em francês, do poeta surrealista Benjamin Péret, de 1929, destinado ao jornal brasileiro Diário da Noite, não publicado (in Oeuvres complètes, tomo 4, José Corti, 1987, pp. 245-246.)
- Escrita automática segundo André Breton
- Verbete escrita automática de Dicionário de Termos Literários de Carlos Ceia
- A experiência surrealista da linguagem: Breton e a psicanálise de Lúcia Grossi dos Santos
- A escrita automática e outras escritas palestra de Cláudio Willer


