Esquizoanálise

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A esquizoanálise é um campo de práticas e saberes inaugurado pela obra conjunta do filósofo Gilles Deleuze com o psicanalista Félix Guattari e foi formulada pela primeira vez no livro O Anti-Édipo. Esta obra inaugural consiste em uma crítica contundente à concepção psicanalítica do desejo que, segundo os dois autores, estaria atrelada à falta e à castração. A crítica da esquizoanálise, assim, emerge como um questionamento ativo de duas linhas gerais de reflexão que estariam por se esgotar, a primeira seria a vertente estruturalista que, fixando-se no âmbito do simbólico, estaria promovendo o despotismo do significante, e a segunda seria a forma de pensamento ancorada na representação e na identidade, da qual se deveria libertar estabelecendo a primazia ontológica da diferença.[1]

A esquizoanálise consiste, assim, em um campo pós-estrutural que articula conhecimentos de diversas disciplinas, como a Pragmática Universal, Filosofia da Diferença, Micropolítica, Estratoanálise, Nomadologia, Utopia Ativa e Pop Análise. A crítica esquizoanalítica à representação e à identidade possui íntima relação com a pragmática, no sentido em que a preocupação do pensamento se desloca de uma ontologia dedicada a pensar uma suposta essência das coisas para os questionamentos sobre os seus processos de diferenciação, ou seja, grosso modo, dedica-se a pensar o funcionamento, mais do que a identidade. Estes fluxos de diferenciação, por sua vez, podem ser de diversos tipos: semióticos, linguísticos, corpóreos, assignificantes, etc, de onde advém as frequentes articulações entre os diversos campos do saber.[2] A esquizoanálise, assim, apesar das suas diversas articulações, não deve ser erroneamente conceituada como um campo meramente poético ou mesmo ideológico, dado que o primado da sua teoria é a de, agenciada ao mundo, produzir efeitos.[2]

A crítica esquizoanalítica à psicanálise se pauta profundamente em um debate entre materialismo e idealismo, compreendendo a psicanálise como um campo centrado nos conceitos de falta e de transcendência, opondo a ele os conceitos de excesso e de imanência. Parte importante dessas críticas, assim, referem-se à concepção freudiana de inconsicente, segundo os autores, representacional e teatral, a que se deveria opor uma concepção produtiva, marcada por fluxos e intensidades. Neste sentido, estabelece-se uma crítica ao excesso de importância dado pela psicanálise da época ao Complexo de Édipo, e o lugar das teorias triangulares de subjetivação centradas na família é exposto, sendo proposto em seu lugar um processo histórico-mundial. A tentativa de inauguração de uma psicologia materialista por parte dos autores traz consigo, assim, a ideia de máquina no lugar do teatro e um campo histórico, econômico e desejante que investe o campo social sem, necessariamente, uma mediação familiar ou familista.[3] Atualmente, a esquizoanálise tem-se difundido como campo autônomo à psicanálise, influenciando áreas tão diversas quanto a psicologia, a atropologia, o teatro e a literatura[4][5][3] muito embora existam importantes aproximações entre ela e a psicanálise contemporânea, em parte por conta de novas leituras das obras tardias do psicanalista francês Jaques Lacan.[3]

Assumindo positivamente os questionamentos à psicanálise, a clínica da perspectiva esquizoanalítica é um processo de análise dos modos de subjetivação de sujeitos e grupos em suas relações com as instituições e com o mundo. Uma clínica construtivista que tensiona as explorações sociais e afetivas operando na ordem das micropolíticas, desconstruindo modelos de representação e ativando as potências revolucionárias do desejo.[6] Essa clínica das diferenças contribui para a prática terapêutica com seus dispositivos de problematizações frente a discursos e saberes/fazeres. Para esta abordagem o sujeito deve estar além de seus diagnósticos que, por vezes, podem impedi-lo de usufruir plenamente de suas potências, pois os cristalizam a identidades pouco maleáveis. Ainda possibilita olhares e ações mais da ordem da experimentação do que da interpretação, fundamentada em outros modos de singularização. Desse modo, a esquizoanálise também fornece ferramentas conceituais que podem ser acionadas por todos profissionais da saúde, teóricos em geral e psicólogos de diversas áreas, em uma concepção que visa a ética nas relações e deseja construir novos processos terapêuticos.[7]

Conceituação[editar | editar código-fonte]

A cada momento, o ser humano é controlado por forças que se disputam suas intensidades na imanência biopolítica, as quais promovem encontros que ora cristalizam o sujeito nos seus valores e enunciados.

Desenvolvida por Gilles Deleuze e Felix Guattari, a Esquizoanálise é uma concepção da realidade em todas suas superfícies, processos e entes, e também nas suas individuações inventivas como acontecimentos-devires. Para esta concepção, a produção, o registro e o desejo revolucionários são imanentes e produtores de toda a realidade. Consiste em uma leitura da realidade, tanto natural, quanto social, subjetiva e industrial-tecnológica.

Esquizodrama[editar | editar código-fonte]

Baseado na Esquizoanálise de G. Deleuze e F. Guattari, assim como em filosóficas e artísticas de diversos autores, especialmente de Antonin Artaud, o Esquizodrama foi criado por Gregorio F. Baremblitt e colaboradores já faz quarenta anos, de acordo com um paradigma político-estético. Trata-se de um procedimento que pode ser utilizado em organizações, estabelecimentos e grupos, com finalidades terapêuticas, pedagógicas e organizativas, consubstanciadas em um propósito inventivo.

Patologização psicanalítica[editar | editar código-fonte]

A esquizoanálise é antes um conjunto de filosofias que uma prática clínica, sua intenção é romper com as barreiras da estrutura linguística dos saberes instituídos em troca de saberes ramificados ao qual Deleuze e Guattari chamam de rizoma, termo extraído da botânica.[8] Daí que a esquizoanálise tem lugar somente em modelos de estudos que pretendam romper com o diagnóstico médico que através da patologização formam o modos operandi do fazer da medicina e psicologia clínica, "enquadrando" o sujeito em categorias básicas que o impedem de trocar informações com outros territórios e o cristalizam em uma subjetividade natural que não o pertence.[9]

Referências

  1. Néri, Regina (junho de 2003). «Anti-Édipo / psicanálise: um debate atual». Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica (1): 21–43. ISSN 1516-1498. doi:10.1590/S1516-14982003000100002. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  2. a b Hur, Domenico (2020). «A Clínica do Corpo sem Órgãos: Esquizoanálise e Esquizodrama». Universidade Federal de Goiás. Revista de Artes Visuais: 01-10. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  3. a b c Pestana, Heitor (16 de agosto de 2018). «O Anti-Édipo devorado: tensões entre a crítica esquizoanalítica e a psicanálise lacaniana». Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  4. CASTRO, Eduardo (2018). Metafísicas Canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Ubu Editora, n-1 edições. 288 páginas 
  5. Rolnik, Suely. «Esquizoanálise e Antropofagia» (PDF). PUC-SP. Núcleo de Subjetividade: 1-10. Consultado em 21 de fevereiro de 2021 
  6. ROLNIK, Suely (2019). Esferas da Insurreição: notas para uma vida não cafetinada. São Paulo: n-1. pp. 28–97 
  7. BRUM, L. A Esquizoanálise e sua clínica das diferenças. Olhares PSI - Boletim Online. Fisma: Santa Maria, 2014
  8. DELEUZE, G. e GUATTARI, F. O anti édipo, capitalizmo e esquizofrenia 1. Assírio & Alvim: Lisboa. 2004
  9. GUATTARI, F. Caosmose, um novo paradigma estético. Editora 34: Rio de Janeiro. 2006


Ícone de esboço Este artigo sobre filosofia/um(a) filósofo(a) é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.