Estromatólito

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Estromatólitos do Lago Thetis, na Austrália Ocidental.

Estromatólito vem do grego antigo ((strôma/strṓmatos) 'camada, estrato', e (líthos) rocha)[1] e é designado a rochas biosedimentares laminadas, formadas por atividade microbiana em ambientes aquáticos desde o pré-cambriano.[2] A definição exata de estromatólito ainda é discutida, podendo, por exemplo, excluir estruturas como oncólitos e trombólitos da lista dos estromatólitos.[3]

Os estudos sobre essas estruturas sedimentares vem desde o século XIX mas só no século XX é que foi descrito e ilustrado de forma mais clara, recebendo diversos nomes, desde então os estudos se aprofundaram e permitiram identificações com estromatólitos atuais.[2]

Há mais de 20 anos é conhecida a presença de estromatólitos no chamado sílex de Strelley Pool, uma formação rochosa que fica na Austrália e que data do início do Mesoarqueano, ou seja, há cerca de 3500 milhões de anos.

Por serem fósseis tão antigos, pensa-se que sejam testemunha dos primeiros organismos a realizar a fotossíntese oxigênica, responsáveis pelo gás oxigênio que surgiu no planeta há cerca de 3500 milhões de anos.

No Brasil, os fósseis mais antigos ocorrem no Quadrilátero Ferrífero e têm idade entre 2,1 e 2,4×109 anos, mas o principal registro no país é nos terrenos mesoproterozoicos e neoproterozoicos dos estados DF, GO, MG, PR, BA e SE .[4]

Não somente de sílex podem se formar os estromatólitos: compõem-se também estes de carbonatos (calcita e dolomita). São formados a partir de uma sucessão de estágios, partindo de esteira microbiana, estromatólito estratiforme, para finalmente consolidar uma rocha. Os principais microorganismos formadores das esteiras estromatolíticas são as cianobactérias.

Classificação[editar | editar código-fonte]

Estromatólitos da laguna Bacalar - México

Um dos problemas mais críticos e controversos referentes aos estromatólitos é a classificação e descrição taxonômica.[3] Existem, de maneira geral, dois pensamentos para formular a classificação: paleontólogos que dão ênfase ao ambiente deposicional e classificam apenas as microestruturas, isto é, levam em consideração o gênero e a espécie de microorganismos dos estromatólitos; e outros paleontólogos que sugerem uma classificação quanto a morfologia, já que esses fósseis são colônias de microorganismos e não "fósseis individuais", propondo classificação em categorias que não seguem a nomenclatura biológica.[3] Um exemplo dessa discussão é que não foi possível chegar a um consenso pelo Projeto Internacional de Correlação Geológica 261 intitulado "Stromatolite" que reuniu cerca de 200 especialistas do mundo, inclusive do Brasil, para discutir e resolver a questão.[3]

Formação[editar | editar código-fonte]

Estromatólito moderno em Sharkbay, na Austrália

Não existe um consenso sobre a formação dessas estruturas, duas hipóteses são levantadas:

  1. A primeira ideia é de que sedimentos são capturados por células microbianas que, posteriormente, são colados por um muco e cimentados por precipitação carbonática, tendo uma tendencia de crescimento vertical.[3]
  2. A segunda é baseada na precipitação carbonática com baixo aprisionamento de sedimentos, sendo formados em ambientes não marinhos. [3]

A formação geral desses corpos estromatolíticos se dá em ambientes com deposição carbonática, principalmente em águas rasas de bacias marginais, lacustres salinos ou mananciais termais. Hoffman (1973) descreve 8 condições necessárias para formação deles:[2]

  1. Presença de um substrato onde o estromatólito possa crescer;
  2. Um sistema aberto contendo água;
  3. Componentes que satisfaçam os requerimentos metabólicos da microbiota;
  4. Energia para ativar o metabolismo (ex. luz do sol);
  5. Uma população de algas ou outro microrganismo bentônico que colonize o substrato;
  6. Presença de sedimentos de tamanho ideal que possa ser capturado pela população de microrganismos;
  7. Um ritmo de deposição para formar as laminações;
  8. E uma litificação para preservação do corpo.

Características dos estromatólitos[editar | editar código-fonte]

Estromatólito Cochabamba. Colunas laminas típicas.

Os estromatólitos possuem diversas características, observadas em diferentes escalas. As principais são:

  • Feições morfológicas: A forma que ele tem macroscopicamente, ou seja, a forma de sua coluna. Ela pode ser cônica, em xícara, pseudocilindrica ou estratiforme.[3] Ramificação: são dívidas em passivas e ativas. Nas passivas, as ramificações não se alargam no topo ficando paralelo as colunas. Já nas ativas é o contrário, há um alargamento das estruturas. Existe uma relação entre as feições e as ramificações. [3]
  • Laminações: São umas das, se não, a principal característica dos estromatólitos. São variadas e controlados pelo ambiente, pela biota e pelo tipo de sedimento disponível, assumindo na maioria das vezes feições côncavas ou convexas, mas podendo assumir outras em raros casos. [3]
  • Microestruturas simples: são 3 mais conhecidas, as películas, formadas por micrítas contínuas, escuras e finas associadas a lâmina espáticas claras; Tussock, que são laminações irregulares intercaladas, podendo ser concêntricas; vermiformes, camadas espessas micríticas e esparíticas, sinuosas que após a diagênese podem ter aspecto aglutinado.[3]
  • Microestruturas complexas: São 2, tapetes micríticos e tapetes com catágrafos. Tapetes micríticos são lâmina grossas e escuras com superfícies retas, crenuladas ou irregulares; Tapetes com catágrafos são camadas espessas que aparecem intercalas, periodicamente, com os tapetes micríticos, formados de matriz microesparítica.[3]
  • Mineralogia: São majoritariamente formados por carbonatos (calcita e dolomita), mas podem ser formados por fosfatos, rochas silicáticas, gipsita, magnesita e em depósitos ferro magnesianos. [3]
  • Tamanho: Podem ser milimétricos até métricos, vai depender da espécie e do ambiente em que foi formado. Os maiores já encontrados possuem tamanhos maiores de 15m e os menores chegam a ter 50 micras de diâmetro. [3]

Registro fóssil[editar | editar código-fonte]

Registro Fóssil

Registros fosseis estão espalhados pelo mundo todo, esses datam desde o Pré-cambriano, sendo que, hoje em dia, estruturas semelhantes não litificadas são encontradas, sendo fundamentais para o entendimento desses exemplares fossilizados.

Na Austrália é encontrado o Apex Chert, rochas Arqueanas de 3.4 G.a. com indícios de atividade biológica que podem ter formado as primeiras esteiras microbianas ricas em carbonatos, mas até hoje é questionado se realmente marca atividade biológica no planeta[5]. Avançando um pouco mais no tempo, chega-se no Proterozoico, onde registros de estromatólitos por todo o mundo são mais claros e fazem esse Éon ser conhecido como a “era dos estromatólitos”[2]. Afloramentos famosos são encontrados principalmente na America do Norte (Gunflint Cherts, Minessota – Estados Unidos e OntarioCanadá) e no continente Africano. Cianobactérias são as principais formadoras das esteiras microbianas e acredita-se que podem ter iniciado o processo de oxidação do planeta.

No registro fóssil, os estromatólitos aparecem principalmente em camadas Proterozóicas e do Arqueano tardio, mas sua ocorrência se dá em todo tempo geológico, até os dias atuais. Existem teorias sobre o início do declínio dos estromatólitos durante o Fanerozóico, a principal delas fala de quando a vida complexa explode e começa a pastar essas esteiras de algas, dificultado o processo de formação dos estromatólitos.[6]

Aplicação e Importância[editar | editar código-fonte]

Os estromatólitos são as únicas evidências de vida do Arqueano.[3] Alguns deles encontrados em rochas de 3,5 bilhões de anos na Austrália e África do Sul são algumas das mais antigas evidências de vida conhecidas.[4] Estromatólitos encontrados na Groenlândia, num depósito de rochas sedimentares abaixo da camada de gelo, foram datados em 3700 milhões de anos, constituindo a mais antiga evidência atualmente.[7] Esta descoberta apoia a busca por existência de vida pretérita em Marte, pois nesta época Marte contava com água líquida em sua superfície e estava em condições similares às da Terra, sob um sol 30% menos brilhante que hoje.[7] Além disso, suas estruturas fornecem dados astronômicos e geofísicos quanto ao ambiente do passado e formam paisagens que podem ser usadas como atração turística pelo ecoturismo.[3]


Referências

  1. Liddell, Henry George. «Um Léxico grego-inglês no Projeto Perseu.» 
  2. a b c d Hofmann, H.J. (setembro de 1973). «Stromatolites: Characteristics and Utility». Earth-Science Reviews: 339-373 
  3. a b c d e f g h i j k l m n o Carvalho, Ismar de Souza. Paleontologia. Editora Interciência, 2ªEdição, Volume 1, 2004. ISBN 85-7193-107-0
  4. a b Anelli, Luiz E., Rocha-Campos, A. C., Fairchild, Thomas R. & Leme Juliana M.. Paleontologia: Guia de Aulas Práticas - Uma introdução ao estudo dos fósseis. Universidade de São Paulo, Instituto de Geociências, 6ªEdição, 2010
  5. Garwood, Russell (1 de novembro de 2012). «Patterns in Palaeontology: The first 3 billion years of evolution» 
  6. Awramik, S.M. (19 de novembro de 1971). «Precambrian columnar stromatolite diversity: Reflection of metazoan appearance». Science: 825–827 
  7. a b «Descoberto fóssil mais antigo com 36,7 bilhões de anos». O Globo. 1 de setembro de 2016. Consultado em 25 de setembro de 2016 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]