Etimologia de Brasil
A etimologia do nome Brasil constitui um tema amplamente debatido pela historiografia, pela filologia histórica e pelos estudos de cartografia medieval, envolvendo dimensões linguísticas, econômicas, culturais e simbólicas. Longe de possuir uma origem unívoca ou mítica, o termo apresenta uma trajetória documentada que antecede a chegada dos europeus à América e se insere nos circuitos comerciais e intelectuais do mundo medieval europeu.
Desde pelo menos o século XII, vocábulos como brasile e suas variantes aparecem em documentos jurídicos, mercantis e literários para designar uma tintura vermelha de alto valor, obtida inicialmente a partir de madeiras asiáticas. Essa acepção, ligada à economia das especiarias e dos corantes, constitui o ponto de partida consensual da maior parte da literatura especializada para a compreensão do nome [1][2][3].
Ao longo dos séculos XIV e XV, o termo passou também a integrar o repertório da cartografia europeia, figurando em mapas italianos e ibéricos associado a ilhas atlânticas de existência lendária. Estudos recentes demonstram, contudo, que essas representações cartográficas não configuram a origem do nome, mas antes refletem a circulação prévia do vocábulo no imaginário e na linguagem técnica da época [2][4].
Com a expansão marítima portuguesa, o nome foi transferido para a madeira tintorial encontrada no litoral sul-americano — o pau-brasil — e, progressivamente, para o próprio território. A institucionalização do termo ocorreu a partir da criação do Estado do Brasil em 1548 [5].
Origem medieval do termo
[editar | editar código]A tintura brasile
[editar | editar código]Desde pelo menos o século XII, o termo brasile — com grafias variantes como brasile, brasilium, bresillum, braxile, brazile, braxillum, brisiacum e brisillum — aparece em documentos jurídicos, comerciais e administrativos da Europa medieval para designar uma tintura vermelha de alto valor econômico [6][3][7].
A documentação mais antiga conhecida registra o vocábulo em tratados comerciais italianos do início do século XII. Bento José Pickel identifica uma ocorrência em Ferrara, em 1128, enquanto Barbara Freitag aponta como fonte inaugural o Liber iurium genovês, compilado em 1140 [a][3][7].
A tintura brasile poderia ser extraída de fontes diversas, incluindo algumas árvoes do gênero Caesalpinia, um tipo de cochonilha (coccus ilicis) comum em países europeus, e uma espécie de líquen (orchella weed) que gera uma tintura púrpura. Ao redor do ano 1300, um mercador genovês descobriu no Levante a técnica de produção do pigmento a partir do líquen, tornando essa produção um mercado particularmente lucrativo. Mais tarde, descobriu-se que esse líquen crescia de maneira ainda mais viva e abundante nas rochas marítimas das Ilhas Canárias e dos Açores [9].
A tintura era considerada um produto de exceção, podendo atingir valor superior ao do ouro em determinadas conjunturas, em razão da elevada demanda por cores intensas e duráveis na indústria têxtil europeia [7]. Sua ampla circulação explica a difusão precoce do termo nas línguas românicas.
Etimologia linguística
[editar | editar código]A análise filológica do termo brasile aponta majoritariamente para sua derivação a partir do latim vulgar brasa, associado à coloração vermelho-intensa do fogo [3][10].
Hipóteses alternativas, como a derivação do veneziano verzino (por sua vez, derivada de um termo germânico), foram propostas ao longo do século XX, mas carecem de sustentação cronológica. Volker Noll demonstra que brasile é documentalmente atestado cerca de um século antes de verzinum/verzino, além de possuir distribuição geográfica mais ampla [11].
A filologia histórica contemporânea compreende, assim, brasile como um termo formado no contexto do latim medieval europeu, posteriormente especializado para designar uma mercadoria de alto valor e, mais tarde, reaplicado como topônimo [1][3].
Cartografia e imaginário medieval
[editar | editar código]A ilha cartográfica de Brasil
[editar | editar código]A partir do século XIV, o nome Brasil passa a figurar em mapas europeus associado a ilhas do Atlântico Norte, sobretudo em cartografia italiana e ibérica [2][4].
Uma das ocorrências mais antigas encontra-se em um mapa genovês de 1330, atribuído a Angelino Dulcert e Francesco Dalorto, que registra a expressão Insula de montonis sive de brazile (ilha de carneiros/ montanhas ou de brasil)[12].
Barbara Freitag demonstra que essas representações não constituem a origem do nome, mas uma reaplicação simbólica de um vocábulo já corrente no léxico técnico e comercial europeu [13]. Ela relembra que o líquen orchella weed, uma das fontes do pigmento vermelho-púrpura, é particularmente abundante nas ilhas atlânticas, o que inclusive levou à nomeação da Ilha Terceira de Açores, por um tempo, como Ilha Brasil [14].
Crítica às hipóteses célticas
[editar | editar código]A partir do século XIX, difundiu-se a hipótese de que o nome do Brasil derivaria de uma ilha mítica irlandesa denominada Hy Brazil [15].
Estudos posteriores demonstram que a chamada “gaelicização” do nome da ilha, já presente em mapas italianos desde o século XIII, ocorreu apenas a partir do século XVIII, quando autores como William Beauford passaram a grafar Í Breasil ou Uí Bhreasail, aproximando artificialmente o topônimo de formas gaélicas[b][2][17].
Do ponto de vista da filologia celta, James Carney observa que a ilha não possui correspondência consistente no folclore gaélico antigo, sendo mencionada apenas em fontes não gaélicas relativamente tardias [18].
Transferência toponímica para a América
[editar | editar código]O pau-brasil
[editar | editar código]Com a expansão marítima europeia, o termo brasil foi transferido para a madeira tintorial encontrada no litoral da América portuguesa. A espécie Caesalpinia echinata produzia pigmento semelhante ao da Caesalpinia sappan asiática [3][19].
A árvore era conhecida entre os povos tupi como ibirapitanga (“pau vermelho”). A consolidação do nome pau-brasil reflete a lógica mercantil da expansão colonial [5].
Denominações coloniais iniciais
[editar | editar código]As primeiras denominações oficiais atribuídas ao território foram Terra de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz. Paralelamente, mapas como o Planisfério de Cantino (1502) e o mapa de Waldseemüller (1507) já registravam o uso corrente do termo Brasil [5][20].
Consolidação do nome do país
[editar | editar código]A criação do Estado do Brasil em 1548 marcou a institucionalização definitiva do nome [5]. O topônimo foi mantido nas denominações políticas subsequentes, da colônia à república, consolidando-se como marcador administrativo e identitário.
Gentílico
[editar | editar código]O gentílico brasileiro surge no início do século XVIII para designar comerciantes do pau-brasil. Apenas com a Constituição de 1824 passou a identificar juridicamente os naturais do país [21][22].
Considerações comparativas
[editar | editar código]O nome Brasil insere-se em um padrão mais amplo da expansão europeia moderna, no qual territórios foram nomeados a partir de produtos comerciais ou recursos naturais, como a Ilha da Madeira, a Costa do Marfim e a Argentina [5].
Ver também
[editar | editar código]Notas
[editar | editar código]- ↑ O texto no Liber iurium lista alguns produtos correntes e seu valor por peso: Per numquemque sacum bambacii de sicilia denarios brunetos quatuor per cantarium. bambacii alexandrie et antiochie similiter denarios quatuor per centenarium. piperis brasili. indici. encensi. cimani. zimzabri lache similiter denarios quatuor per cantarium. // Para cada saco de algodão da Sicília, quatro denários brunetos por cântaro. Do algodão de Alexandria e de Antioquia, igualmente quatro denários por centenário. De pimenta, de brasil, de índico, de incenso, de cimano, de gengibre e de laca, igualmente quatro denários por cântaro. (Tradução livre) [8]
- ↑ Algumas falsas etimologias mencionadas por Rachel Freitag, correntes em textos brasileiros, incluem: (i) Ilha Real: O (ilha) + breas (rei, real) + il (deus); (ii) Grande Ilha Imaginária: Bras (ficção) + aoi (ilha) + ile (grande); (iii) Grande Ilha: Breas (grande) + i (ilha); (iv) Ilha da Vida Eterna: I / Hy (ilha) + brath (para sempre) + Saophal (vida); (v) Ilha da Fortuna: I / Hy (ilha) + bress (prosperidade); (vi) Ilha Abençoada: Breas-ail, Blessed island. A autora menciona ainda o nome do antigo clã irlandês Uí Bhreasail, do Condado de Armagh, que também foi dado como explicação posterior para o nome da ilha.[16]
Referências
- ↑ a b Noll 1996.
- ↑ a b c d Freitag 2013.
- ↑ a b c d e f Pickel 1958.
- ↑ a b Menezes 2011.
- ↑ a b c d e Barroso 1941.
- ↑ Noll 1996, p. 188–190.
- ↑ a b c Freitag 2013, p. 13.
- ↑ Noll 1996, p. 190.
- ↑ Freitag 2013, p. 15-16.
- ↑ Noll 1996, p. 189.
- ↑ Noll 1996, p. 192.
- ↑ Menezes 2011, p. 13.
- ↑ Freitag 2013, p. 265.
- ↑ Freitag 2013, p. 16.
- ↑ Costa 2002.
- ↑ Freitag 2013, p. 218.
- ↑ Menezes 2011, p. 215–218.
- ↑ Carney 2000.
- ↑ Glasman 2011.
- ↑ Pereira 1892.
- ↑ Houaiss 2009.
- ↑ Brasil 1824.
Bibliografia
[editar | editar código]Fontes primárias
[editar | editar código]- Albuquerque, Affonso de (1516). Cartas de Affonso de Albuquerque, seguidas de documentos que as elucidam. Lisboa: Academia Real das Sciencias
- Pereira, Duarte Pacheco (1892). Esmeraldo de situ orbis. Lisboa: Imprensa Nacional
Fontes secundárias
[editar | editar código]- Barroso, Gustavo (1941). O Brasil na Lenda e na Cartografia Antiga. Col: Brasiliana: Biblioteca Pedagógica Brasileira. 99. São Paulo: Companhia Editora Nacional
- Carney, James (2000). J. M. Wooding, ed. Review of Navigatio Sancti Brendani Abbatis. The Otherworld Voyage in Early Irish Literature. Blackrock, Dublin: Four Courts Press. pp. 42–51
- Costa, João Antenógenes Prudencio da (2002). Purpúreo: as histórias do nome do Brasil. São Paulo: Costa. ISBN 85-902796-1-8
- Freitag, Barbara (2013). Hy Brasil: The Metamorphosis of an Island. From Cartographic Error to Celtic Elysium. Amsterdam: Rodopi. ISBN 978-90-420-3641-3
- Glasman, Jane Bichmacher de (2011). «Presença Judaica na Toponímia Brasileira: Brasil, Origem e Mistérios» (PDF). Rio de Janeiro: CiFEFiL. Cadernos do Congresso Nacional de Linguística e Filologia. 15 (5): 3–8
- Hills, Lawrence D. (1970). Lands of the Morning. London: Regency
- Menezes, Paulo Márcio Leal de (2011). «O Brasil na Cartografia Pré-Lusitana» (PDF). Anais do I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica: 1–18
- Noll, Volker (1996). «Brasil: Herkunft und Entstehung eines Toponyms». Vox Romanica. 55: 188–202
- Pickel, Bento José (1958). «O pau-brasil». Revista de História (33): 3–8. ISSN 2316-9141. doi:10.11606/issn.2316-9141.rh.1958.106620