Euparkeria

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Como ler uma caixa taxonómicaEuparkeria
Ocorrência: Triássico Médio, 245–230 Ma
Molde de fóssil do Euparkeria, Museu Nacional de História Natural, Paris, França

Molde de fóssil do Euparkeria, Museu Nacional de História Natural, Paris, França
Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Animalia
Subreino: Eumetazoa
Superfilo: Deuterostomia
Filo: Chordata
Subfilo: Vertebrata
Infrafilo: Gnathostomata
Superclasse: Tetrapoda
Classe: Reptilia
Subclasse: Diapsida
(sem classif.) Sauria
Infraclasse: Archosauromorpha
(sem classif.) Archosauriformes
Ordem: Incertae sedis
Família: Euparkeriidae
Género: Euparkeria
Espécie: E. capensis
Nome binomial
Euparkeria capensis
Broom, 1913
Sinónimos
  • Browniella africana
    Broom, 1913

Euparkeria (que significa "bom animal de Parker", nomeado em homenagem a W. K. Parker) é um gênero extinto de archosauriformes do Triássico Médio da África do Sul. Ele era um réptil pequeno que viveu entre 245-230 milhões de anos atrás, e era próximo aos ancestrais de Archosauria, o grupo que inclui dinossauros, pterossauros, aves modernas e crocodilianos. Euparkeria tinha membros posteriores que eram ligeiramente mais longos do que os seus membros dianteiros, o que foi considerado como evidência de que ele pode ter sido capaz de levantar-se sobre as patas traseiras como um bípede facultativo. Embora Euparkeria seja próximo dos ancestrais de arcossauros totalmente bípedes, como os primeiros dinossauros, provavelmente desenvolveu o bipedalismo de forma independente. Euparkeria não era tão bem adaptado para locomoção bípede como dinossauros e seu movimento normal era provavelmente mais análogo a uma caminhada alta de crocodiliano.[1]

O Euparkeria aparece na série da BBC Walking with Monsters (em português, Caminhando com Monstros) logo nos últimos capítulos e é retratado como um insetívoro e considerado como o precursor dos dinossauros.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Este animal era bem pequeno, e não devia exceder um metro de comprimento.[2] Estavam presentes fileiras de elementos ósseos pequenos (osteodermas) que correm ao longo da área central do pescoço, costas e cauda. Esta última era muito longa, enquanto o corpo era relativamente curto e compacto quando comparado com o de outros archosauriformes primitivos. O crânio era grande, bastante alto e dotado de grandes fenestras anterorbitais e temporais. Até mesmo a órbita era grande, e tinha um marcante anel esclerótico. Os dentes maxilares e mandibulares eram curvados e comprimidos lateralmente, a partir da extremidade cortante e serrilhada, bem fixos nos alvéolos. Também estavam presentes dentes no palato, característica de muitos anfíbios e répteis primitivos. As pernas traseiras eram fortes e magras, e eram maiores uma vez e meia que as dianteiras. Havia também uma articulação mesotarsal (ou seja entre uma tarsal proximal e uma distal), como em dinossauros, e o pé com cinco dedos era de forma simétrica, com o terceiro dedo muito alongado.[3] [4] [5]

Caixa craniana[editar | editar código-fonte]

Um estudo realizado por Gower e Weber (1998) pôs em evidência as características da caixa craniana do Euparkeria, muito importante porque este animal pode ter sido próximo da origem dos verdadeiros arcossauros (e, portanto, muito semelhante aos arcossauros mais primitivos). A região ótica é bastante expandida longitudinalmente em relação à dos arcossauros, e é muito estreita de um lado para o outro. As paredes das cápsulas não são muito ossificadas, especialmente as internas. As cápsulas óticas de crocodilos, em vez disso, são altamente ossificadas e parecem ser bem firmes e fixas; este tipo de organização de espaço é necessário para o sentido de audição, que depende de uma topologia muito precisa. A caixa craniana do Euparkeria, também, é dotada de várias protuberâncias e abas que serviam para a inserção dos músculos ou tendões.

Euparkeria representa bem um estágio intermediário de evolução entre os tetrápodes basais e arcossauros. Nos tetrápodes basais, a caixa craniana (além de conter o cérebro) é um tipo de ponto de ancoragem para outras estruturas cranianas. No Euparkeria, no entanto, a caixa craniana não tinha necessidade de estar em contato com os ossos dérmicos do crânio, e nem mesmo de ancorar mecanicamente músculos e tendões, que ao invés disso tinham somente pontos de apoio. Essas características podem ter sido fundamentais para o rápido desenvolvimento de arcossauros em várias direções durante o Triássico Médio.[6]

Classificação[editar | editar código-fonte]

Reconstrução do Euparkeria capensis

Euparkeria foi descrito pela primeira vez por Robert Broom em 1913, com base em restos fósseis encontrados na região de Aliwal North, na África do Sul, em solos do início do Triássico Médio (Anisiano).[3]

O clado Euparkeriidae recebeu o nome por causa do Euparkeria. O nome da família foi primeiramente proposto pelo paleontólogo alemão Friedrich von Huene em 1920; Huene classificou euparkeriids como membros de Pseudosuchia, um nome tradicional para parentes de crocodilianos do Triássico (Pseudosuchia significa "falsos crocodilos"). Recentes análises filogenéticas colocam Euparkeriidae como um grupo basal de Archosauriformes, uma posição fora de Pseudosuchia e próxima aos ancestrais de ambos os arcossauros da linhagem dos crocodilos e arcossauros da linhagem das aves. No entanto, eles provavelmente não são ancestrais diretos dos arcossauros.[nota 1] [7]

Outros possíveis euparkeriids incluem Dorosuchus, Halazhaisuchus, Osmolskina, e Wangisuchus, embora algumas das características comuns nessas formas são únicas para o grupo. Portanto, Euparkeriidae é normalmente considerado monotípico, o que significa que inclui apenas Euparkeria.[2]

Filogenia[editar | editar código-fonte]

O Cladograma abaixo mostra a posição do Euparkeria, baseado em Nesbitt (2011):[7]



Rhynchosauria

Hyperodapedon Hyperodapedon sanjuanensis Tubingen side white background.JPG



Mesosuchus





Prolacerta (Prolacertiformes)


Archosauriformes 

Proterosuchus (Proterosuchidae)




Erythrosuchus (Erythrosuchidae)




Vancleavea




Proterochampsidae




Euparkeria (Euparkeriidae)


Crurotarsi

Phytosauria Redondasaurus bermani at CMNH 04 white background.jpg


Archosauria 
Pseudosuchia

Ornithosuchidae


Suchia

Gracilisuchus



Turfanosuchus




Revueltosaurus



Aetosauria Desmatosuchus mount white background.jpg





Ticinosuchus


Paracrocodylomorpha

Poposauridae


Loricata

Prestosuchus Prestosuchus chiniquensis white background.jpg




Saurosuchus




Batrachotomus Batrachotomus kupferzellensis white background.JPG




Fasolasuchus




Rauisuchidae Postosuchus kirkpatricki skeleton.jpg



Crocodylomorpha Siamese Crocodile white background.jpg











Avemetatarsalia/Ornithodira*

Pterosauromorpha Anhanguera skeleton white background.JPG




Lagerpetidae


Dinosauriformes

Marasuchus Marasuchus white background.JPG




Silesauridae


Dinosauria
Ornithischia

Triceratops Triceratops Skeleton Senckenberg 2 White Background.jpg


Saurischia
Sauropodomorpha

Camarasaurus MUJA-Sauropod white background.JPG


Theropoda
Herrerasauria

Staurikosaurus Staurikosaurus pricei white background.jpg


Tetanurae
Carnosauria

Allosaurus Allosaurus AMNH White Background.jpg


Coelurosauria

Dromaeosauridae Deinonychus FMNH White Background.jpg



Avialae Red jungle fowl white background.pngCockatiel Parakeet (Nymphicus hollandicus)9 white background.jpg



















* Nesbitt não incluiu Scleromochlus na análise, significando que Avemetatarsalia e Ornithodira ocupam o mesmo lugar nesse cladograma


Paleobiologia[editar | editar código-fonte]

Locomoção[editar | editar código-fonte]

Euparkeria, representado aqui como um bípede facultativo. Desenho a lápis baseado em Caroll, 1988.[4]

Os membros posteriores do Euparkeria são um pouco mais longos do que os seus membros anteriores, o que levou muitos pesquisadores a concluir que ele poderia ter ocasionalmente caminhado sobre as patas traseiras como um bípede facultativo. Outras adaptações possíveis para o bipedalismo em Euparkeria incluem fileiras de osteodermas que poderiam ter estabilizado as costas e uma cauda longa que poderia atuar como um contrapeso para o resto do corpo. A paleontóloga Rosalie Ewer sugeriu em 1965 que Euparkeria pode ter passado a maior parte de seu tempo em quatro pernas, mas movia-se sobre as patas traseiras enquanto corria.[8]

No entanto, adaptações ao bipedalismo em Euparkeria não são tão óbvias como são em alguns outros archosauriformes do Triássico, como dinossauros e poposauróides; os membros anteriores ainda são relativamente longos e a cabeça é tão grande que a cauda pode não ter efetivamente contrabalanceado seu peso. A posição dos pontos de fixação do músculo nos ossos da coxa ou no úmero sugerem que Euparkeria não poderia ter mantido as suas pernas em uma postura totalmente ereta sob o seu corpo, mas teria mantido-as ligeiramente para o lado como nos crocodilianos modernos e na maioria dos outros archosauriformes quadrúpedes do Triássico. Euparkeria tem uma grande projeção apontando para trás no calcâneo (osso do calcanhar), que teria dado um forte estímulo para o calcanhar durante a locomoção. A projeção do calcâneo pode ter habilitado o Euparkeria a se mover com todos os quatro membros em uma "caminhada alta" semi ereta semelhante à maneira em que, algumas vezes, crocodilianos vivos se movem em terra.[2]

Hábitos noturnos[editar | editar código-fonte]

Alguns espécimes de Euparkeria preservam anéis ósseos nas órbitas oculares, chamados anéis escleróticos, que em vida teriam servido de suporte para o olho. O anel esclerótico do Euparkeria é mais semelhante ao das aves e répteis modernos que são noturnos, o que sugere que o Euparkeria pode ter tido um estilo de vida adaptado às condições de baixa luminosidade.[9] Durante o Triássico inferior a Bacia do Karoo estava a aproximadamente 65 graus de latitude sul, o que significa que o Euparkeria teria experimentado longos períodos de escuridão nos meses de inverno.

Possível homeotermia[editar | editar código-fonte]

Um estudo sobre o crescimento ósseo do Euparkeria, utilizando um novo modelo de inferência paleohistológica para o úmero,[10] indicou um ritmo elevado para este animal, compatível com o de animais homeotérmicos, ou seja, capazes de manter a temperatura do corpo relativamente constante. É possível, portanto, que o Euparkeria e outros archosauriformes basais como Prolacerta, Proterosuchus e Erythrosuchus fossem dotados de um sistema de controle da temperatura corporal mais semelhante ao dos dinossauros do que ao das tartarugas e lepidossauros.

Dieta[editar | editar código-fonte]

Segundo Ewer (1965), o crânio, apesar de mostrar adaptação a hábitos predatórios, é relativamente pouco especializado e uma posterior reversão da tendência para uma dieta mais onívora ou mesmo vegetariana não é impossível.[8]

Paleoecologia[editar | editar código-fonte]

De acordo com a escala de tempo geológico, o Euparkeria viveu (a maior parte) durante o Triássico Médio, que é uma época do período Triássico da era Mesozoica do éon Fanerozoico que está compreendida entre 247 milhões e 200 mil e 237 milhões de anos atrás, aproximadamente.[11] Nesse tempo, a flora era composta por briófitas e pteridófitas, similares a musgos e samambaias, e também por gimnospermas, plantas com sementes e sem fruto, e cones como órgãos reprodutores. Ainda não existiam angiospermas, plantas com sementes e com fruto, e flores típicas (com carpelos, que são folhas reprodutoras fechadas na forma de um vaso onde se formam as sementes) como orgãos reprodutores.[12] Algumas divisões de plantas comuns eram: Lycopodiophyta, Cycadophyta, Ginkgophyta, Pteridospermatophyta, Pinophyta.

O Euparkeria conviveu com alguns cinodontes[13] e dicinodontes,[14] que eram sinápsidas, grupo considerado como ancestral dos mamíferos.[15]

Descoberta[editar | editar código-fonte]

Leito ósseo, Museu Iziko (Iziko South African Museum), Cidade do Cabo, África do Sul. Mostra, pelo menos, 3 esqueletos parcialmente articulados deitados lado a lado.

Os fósseis de Euparkeria foram descobertos em 1907 pelo Sr. Gibb, um trabalhador em pedreira que estava recolhendo blocos de arenito para as fundações de um novo edifício em Aliwal North, Eastern Cape, África do Sul. Ele não teve muito interesse nos fósseis e, se não fosse pelos esforços de um inglês excêntrico e professor local aposentado chamado Alfred ("Gogga") Brown, estes espécimes não teriam sido resgatados. Felizmente o Sr. Brown era um ávido colecionador de fósseis que manteve notas meticulosas de todos os seus achados. Seguindo as suas indicações manuscritas os membros da equipe de pesquisadores interessados na descoberta foram capazes de mudar o local da pedreira, mas infelizmente o leito ósseo foi completamente escavado e não há fósseis deixados lá.[16]

Notas

  1. Houve uma alteração recente na posição filogenética dos phytossauros dando um novo alcance para o grupo Crurotarsi. Em 2011, Sterling J. Nesbitt retirou os phytossauros dos arcossauros da linhagem dos crocodilos e definiu como um táxon irmão do Archosauria. Na filogenia atual, Crurotarsi inclui phytossauros, o grupo Avemetatarsalia, que é composto por pterossauros e dinossauros (que também inclui as aves), e o grupo Pseudosuchia que contém apenas arcossauros da linhagem dos crocodilos. Isso é explicado melhor no artigo Crurotarsi ou no Archosauria em inglês.

Referências

  1. Olsen, Paul Eric. «Tetrapods». rainbow.ldeo.columbia.edu (em inglês). Consultado em 13 de janeiro de 2016. 
  2. a b c Sookias, Roland B.; Butler, Richard J. (24 de janeiro de 2013). "Euparkeriidae" (em inglês). Geological Society, London, Special Publications 2013 379 (1): pp. 35-48. DOI:10.1144/SP379.6. Visitado em 31 de janeiro de 2016.
  3. a b Broom, Robert. (Setembro de 1913). "On the South African Pseudosuchian Euparkeria and allied genera" (em inglês). Proceedings of the Zoological Society of London 83 (3): pp. 619-633. DOI:10.1111/j.1469-7998.1913.tb06148.x.
  4. a b Carroll, Robert L (1988). Vertebrate Paleontology and Evolution (em inglês) (New York, NY: W. H. Freeman). p. 698. ISBN 0716718227. 
  5. «Euparkeriidae» (em inglês). palaeos.com. Consultado em 13 de janeiro de 2016. 
  6. Gower, David J.; Weber, Erich. (Novembro de 1998). "The braincase of Euparkeria, and the evolutionary relationships of birds and crocodilians." (em inglês). Biological Reviews 73 (4): pp. 367-411. DOI:10.1111/j.1469-185X.1998.tb00177.x. Visitado em 22 de fevereiro de 2016.
  7. a b Nesbitt, Sterling J. (29 de abril de 2011). "The early evolution of archosaurs: relationships and the origin of major clades" (em inglês). Bulletin of the American Museum of Natural History 352: pp. 1-292. DOI:10.1206/352.1. Visitado em 19 de fevereiro de 2016.
  8. a b Ewer, Rosalie F. (18 de fevereiro de 1965). "The Anatomy of the Thecodont Reptile Euparkeria capensis Broom" (em inglês). Philosophical Transactions of the Royal Society of London, Series B 248 (751): pp. 379-435. DOI:10.1098/rstb.1965.0003.
  9. Schmitz, Lars; Motani, Ryosuke. (6 de maio de 2011). "Nocturnality in Dinosaurs Inferred from Scleral Ring and Orbit Morphology" (em inglês). Science 332 (6030): pp. 705-708. DOI:10.1126/science.1200043. PMID 21493820.
  10. Legendre, Lucas J.; Segalen, Loic; Cubo, Jorge. (12 de novembro de 2013). "Evidence for high bone growth rate in Euparkeria obtained using a new paleohistological inference model for the humerus" (em inglês). Journal of Vertebrate Paleontology 33 (6): pp. 1343-1350. DOI:10.1080/02724634.2013.780060.
  11. Cohen, K. M.; Finney, S. C.; Gibbard, P. L.; Fan, J.-X. (2013; updated) The ICS International Chronostratigraphic Chart. Episodes 36: 199-204.
  12. Soltis, Pam; Soltis, Doug; Edwards, Christine (2005). «Angiosperms. Flowering Plants. Version 03 June 2005» (em inglês). tolweb.org The Tree of Life Web Project. Consultado em 06 de março de 2016. 
  13. Ruta, Marcello; Botha-Brink, Jennifer; Mitchell, Stephen A.; Benton, Michael J. (28 de agosto de 2013). "The radiation of cynodonts and the ground plan of mammalian morphological diversity" (em inglês). Proceedings of the Royal Society of London B: Biological Sciences 280 (1769): 20131865. DOI:10.1098/rspb.2013.1865. ISSN 1471-2954. PMID 23986112. Visitado em 05 de março de 2016.
  14. «Dicynodontia» (em inglês). palaeos.com. Consultado em 06 de março de 2016. 
  15. Laurin, Michel; Reisz, Robert R. (2011). «Synapsida: Mammals and their extinct relatives. Version 14 August 2011» (em inglês). tolweb.org The Tree of Life Web Project. Consultado em 06 de março de 2016. 
  16. «# Euparkeria africanus» (em inglês). biodiversityexplorer.org Iziko Museums of Cape Town. Consultado em 17 de fevereiro de 2016. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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