Eutrópio (cônsul)

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Eutrópio
Busto de Eutrópio do Éfeso, datado de 450, no Museu de História da Arte em Viena.
Morte 399
Constantinopla
Nacionalidade Império Bizantino
Ocupação Cônsul
Religião Cristianismo
Causa da morte execução

Eutrópio (m. 399) foi alto funcionário e cônsul eunuco do Império Bizantino no final do século IV. Ele desenvolveu sua carreira no palácio de Teodósio I (r. 378-395) e, com a morte do imperador, tornou-se um oficial a serviço de seu filho e sucessor Arcádio (r. 395-408). Devido à sua proximidade com o imperador, tornou-se o verdadeiro poder por trás do trono e, para legitimá-lo, se envolveu em inúmeras conspirações. Foi deposto e executado em 399 depois que outros oficiais do período, entre os quais o ostrogodo Gainas, tramaram a sua derrocada para ascenderem ao poder.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Busto de Arcádio, Museu Arqueológico de Istambul.

Eutrópio era um escravo do Império Romano nascido próximo da fronteira oriental. Quando criança foi castrado e, desde então, serviu como eunuco a diversos proprietários. Um deles, um soldado chamado Ptolomeu, presenteou-o à Arinteu, um líder militar sob os imperadores Juliano, o Apóstata (r. 361-363) e Joviano (r. 363-364). Após a morte de Arinteu, passou para a posse de sua filha. Por volta de 379, Eutrópio, que já estava em idade avançada, serviu na corte imperial de Teodósio[1] como cubiculário até 395 quando então foi elevado ao posto de prepósito do cubículo sagrado.[2] Em 394, antes da luta contra o usurpador Eugênio (r. 392-394), foi enviado por Arcádio em uma tarefa especial ao deserto de Tebas onde se consultou com um profeta cristão chamado João para saber o resultado da revolta.[3]

Com a morte de Teodósio em 395, teve um importante papel no casamento entre Arcádio e Élia Eudóxia, filha de Flávio Bauto,[4] em detrimento da pretendente anterior, a filha do prefeito pretoriano do Oriente Rufino, em abril de 395; Rufino, muito influente na corte romana, foi alvo de uma tramoia que levou ao seu assassinato, possivelmente a mando de Flávio Estilicão e com auxílio de Gainas, oficial germânico do oriente.[5] Eutrópio, utilizando-se de sua influência, convenceu o imperador a lhe conceder o direito de controlar o curso público (correiro imperial) e as fábricas de armas, ambas funções exercidas pelos prefeitos pretorianos. Evidências apontam que durante este período a prefeitura pretoriana do Oriente era regida por dois prefeitos de modo a reduzir o poder do ofício. Além disso, a venda de cargos era frequente sob Eutrópio, algo que, porém, não era praticado unicamente por ele.[6]

Considerado odium em 396, primeiro ano de seu poder, elevou-se entre os oficiais do Império Bizantino por influência de dois soldados, Abundâncio e Timásio, este último um antigo comandante geral do Oriente. Timásio, ao chegar em Constantinopla, havia trazido um vendedor de salsichas chamado Bargo que, tempos depois, seria elevado a uma posição militar subordinada. Depois de cometer um delito, Bargo foi exilado da cidade e Eutrópio, aproveitando-se da situação, convenceu-o a acusar Timásio de conspiração e conseguiu que a corte imperial o banisse para o deserto da Líbia. Imaginando que Bargo poderia futuramente tornar-se um entrave às suas pretensões, subornou sua esposa para que ela o acusasse de altos crimes, o que lhe custou a vida.[6] Neste mesmo ano, evidências apontam que Eutrópio, além de exilar Abundâncio, elevou Gainas ao título de Magister militum per Thracias.[7] Além disso as fontes clássicas afirmam que ele apoderou-se das propriedades tanto de Abundâncio quanto de Timásio.[8] [9] [10] [11]

No campo religioso, embora tenha sido contrário ao arianismo e, por conseguinte, tenha mandado queimar todos os livros do anomoeano Eunômio de Cízico após sua morte em 393,[12] Eutrópio, à primeira vista, parece ter feito algumas concessões aos arianos, confirmando aos discípulos de Eunômio o direito à herança.[13] Todavia, logo depois, novas leis que restringiam a atuação destes cristãos, ditos "dissidentes", foram aprovadas.[14]

Em 397, visando a queda de Eutrópio, uma lei foi aprovada na qual qualquer um considerado como conspirador contra membros da assembleia, auxiliares do conselho ou senadores, seria tido como traidor; especula-se que Gainas tenha certa participação. Dada a incapacidade dos generais orientais de deter o avanço do líder vândalo Alarico I nos Bálcãs e dos hunos na Ásia, Eutrópio decidiu selar uma trégua entre Oriente e Ocidente, o que resultou no envio de tropas de Estilicão em 397 para a Grécia. Com os recentes fracassos militares bizantinos nas províncias da Capadócia e Ponto, Eutrópio[7] decidiu comandar no ano seguinte uma força expedicionária contra os hunos, alcançando uma vitória significativa que obrigou-os a recuar de volta para o Cáucaso. Seu sucesso militar assegurou-lhe popularidade e a nomeação para o consulado do ano seguinte, o que gerou enorme estardalhaço na corte ocidental, pois era contra a tradição romana a ascensão de um eunuco.[6]

Por conta de sua nomeação, Eutrópio começou a ser ameaçado tanto pelo partido romano - liderado por Aureliano, filho do ex-prefeito pretoriano da Itália Touro - como por Gainas, que havia sido elevado por Estilicão a mestre dos soldados (magister militum). Na primavera de 399, uma revolta entre os ostrogodos, possivelmente instigada por Gainas, eclodiu na Frígia sob comando de Tribigildo, aumentando ainda mais a insatisfação oriental com a presença bárbara no império. A destruição se espalhou pela Galácia, Pisídia e Bitínia e dois generais, Gainas e Leão, este um amigo de Eutrópio, foram enviados para sufocar a revolta. Tentando evitar um embate direto com as tropas de Leão, Tribigildo rumou para a Panfília, mas foi surpreendido por ataques de habitantes locais e de soldados que habitavam a região. Quando as tropas de Leão o alcançaram e estavam prestes a derrotá-lo, Gainas reforçou o exército rebelde com muitos de seus homens e logrou derrotar e matar Leão.[15]

Gainas, ao retornar para Constantinopla, informou ao imperador que os ataques de Tribigildo cessariam caso Eutrópio fosse deposto. Temendo por sua posição, Eutrópio fugiu em agosto de 399 para junto de João Crisóstomo, o clérigo que ascendeu ao posto de arcebispo de Constantinopla com sua ajuda.[16] [17] [18] Todavia, Arcádio, influenciado pela imperatriz Élia Eudóxia, que era adversária de Crisóstomo, cede às exigências dos bárbaros e depõe o foragido eunuco. Privado de sua patente, Eutrópio foi deportado para o Chipre e teve suas propriedades confiscadas.[15] Posteriormente foi convocado à corte imperial, onde seria executado.[19]

Referências

  1. Claudiano. Contra Eutrópio - Primeiro Poema (em inglês). Página visitada em 24-03-2013.
  2. Martindale 1980, p. 1263
  3. Sozomeno século V, p. VIII.22.7-8
  4. Zósimo século V, p. V.3
  5. Chapter V Part 1 (em inglês). Página visitada em 24-03-2013.
  6. a b c Chapter V Part 2 (em inglês). Página visitada em 24-03-2013.
  7. a b Burns 1994, p. 155
  8. Zósimo século V, p. V.10.5
  9. Jerônimo de Estridão século V, p. LX.16
  10. Eunápio século V, p. LXX
  11. Seeck 1907, p. 727
  12. Fócio século IX, p. XI.5
  13. Teodósio século V, p. XVI.5.27; XVI.5.36
  14. Seeck 1907, p. 1141
  15. a b Chapter V Part 4 (em inglês). Página visitada em 24-03-2013.
  16. Sozomeno século V, p. VIII.2
  17. Sócrates Escolástico século V, p. 6.2
  18. Paládio 419-420, p. V
  19. Burns 1994, p. 171

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Burns, Thomas S.. Barbarians Within the Gates of Rome: A Study of Roman Military Policy and the Barbarians, Ca. 375-425 A.D. (em inglês). [S.l.: s.n.], 1994. ISBN 0253312884
  • Eunápio. Fragment. [S.l.: s.n.], século V.
  • Fócio. ECCLESIASTICAL HISTORY OF PHILOSTORGIUS. [S.l.: s.n.], século IX.
  • Martindale, John Robert; Arnold Hugh Martin Jones; J. Morris. The Prosopography of the Later Roman Empire. II: A.D. 395–527. Cambridge: Cambridge University Press, 1980. ISBN 978-0-521-20159-9
  • Seeck, Otto. Paulys Realencyclopädie der classischen Altertumswissenschaft. [S.l.: s.n.], 1907. (online)
  • Paládio. História Lausíaca. [S.l.: s.n.], 419-420. Capítulo: Dialogus de vita Ioannis Chrysostomi. ,
  • Teodósio. Codex Theodosianus. [S.l.: s.n.], século V.
  • Zósimo. História Nova. [S.l.: s.n.], século V.
  • Sozomeno. Historia Ecclesiastica. [S.l.: s.n.], século V.