Evangelho dos Ebionitas

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Inspiração de Mateus.
Por Caravaggio (1602), atualmente na Igreja de São Luis dos franceses, em Roma.

O Evangelho dos Ebionitas é o nome dado por Andrews Norton em 1846 à descrição feita por Epifânio de Salamina de um Evangelho utilizado pelos ebionitas.[1] O nome também foi utilizado por Bernhard Pick em 1908.[2]

Não é claro se este é o mesmo que o Evangelho dos Hebreus e o Evangelho dos Nazarenos. Jerônimo o traduziu para o latim e ainda há um grande debate sobre o chamado Matthaei Authenticum (ou "Autêntico Mateus"). Ele sobrevive somente em fragmentos ou como citações em obras alheias e, por isso, é difícil afirmar se ele era um texto independente ou simplesmente uma variação.[3]

Ebionitas[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Ebionismo

Os Ebionitas[4] foram uma seita cristã que acreditavam que Jesus era o Messias, mas não era divino. Eles insistiam na necessidade de seguir os ritos e leis judaicas,[5] que eles interpretavam agora à luz dos ensinamentos de Jesus[6] utilizando apenas este evangelho judaico-cristão. Os ebionitas rejeitavam as epístolas paulinas, cujo autor eles consideravam um apóstata da Lei.[7]

Evangelho dos Hebreus[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Evangelho dos Hebreus

Jerônimo afirma que tanto os nazarenos quanto os ebionitas se utilizavam do Evangelho dos Hebreus, que era considerado como sendo o "Mateus Autêntico" por muitos deles. O relato de Jerônimo é consistente com os anteriores, feitos por Ireneu de Lyon e Eusébio de Cesareia. Epifânio também se refere a um "Evangelho dos Hebreus" como sendo a fonte utilizada pelos ebionitas, talvez combinando os testemunhos destes mesmos Padres da Igreja.[8]

Trechos do Evangelho citados por Epifânio[editar | editar código-fonte]

O Evangelho dos Ebionitas sobrevive apenas em curtas citações feitas por Epifânio em sua heresiologia "Panarion" (cap. 30), uma polêmica contra os ebionitas.

Os ebionitas tinham de fato outros textos como parte de seu cânon. Eles parecem ter aceitado o Evangelho dos Hebreus em aramaico, mas com letras hebraicas. É provável também que este evangelho fosse diferente do que é o Evangelho de Mateus no cânone do Novo Testamento.

Embora muitos possam acreditar que a versão canônica de Mateus era apenas uma tradução grega do Matthaei Authenticum, foi Jerônimo quem primeiro apontou que isto não seria provável. Uma carta do Papa Dâmaso I em 383, ele apontou que havia muitas discrepâncias entres os dois[9]

Hoje em dia, a maior parte dos estudiosos concordam que o Mateus canônico não foi escrito por Mateus, mas por um autor desconhecido, no final do século I d.C., e se baseando no Evangelho de Marcos e na fontes Q e M (veja Problema sinótico). Também, a maior parte dos estudiosos não se refere mais a este evangelho como Matthaei Authenticum, mas sim como "Evangelho dos Ebionitas. Porém, o termo é um neologismo acadêmico, pois estes nunca compuseram um Evangelho e nunca houve um texto com este nome circulando durante o Cristianismo primitivo.[10]

Trecho referente ao Evangelho dos Ebionitas[editar | editar código-fonte]

“E aconteceu depois de os dias de Herodes, rei da Judeia, no sumo sacerdócio de Caifás, que um certo homem por nome João veio batizar com o batismo de arrependimento, no rio Jordão, e ele se dizia ser da linhagem de Arão, o sacerdote, filho de Zacarias e Isabel, e todos saíram com ele.”.[11]

“E aconteceu que, quando João batizou, os fariseus se aproximaram dele e foram batizados, e toda Jerusalém também. Ele tinha uma roupa de pelos de camelos, e um cinto de couro em torno de seus lombos. E seu alimento foi mel da floresta, que tinha gosto de maná, formado como bolos de azeite.”.[12]

“O povo tendo sido batizado, Jesus veio também, e foi batizado por João. E como ele saiu da água os céus se abriram, e ele viu o espírito o santo descendo sob a forma de uma pomba, e entrando nele. E uma voz foi ouvida do céu: "Tu és o meu filho amado, em ti estou bem satisfeito, e ainda: "neste dia te gerei". E de repente uma grande luz brilhou naquele lugar. E João ao vê-lo, disse: "Quem és tu, senhor?" Então uma voz foi ouvida do céu: "Este é o meu filho amado, em quem me comprazo". Por causa disto João caiu a seus pés e disse: "Peço-te, senhor, batiza-me". Mas ele negou, dizendo: Deixe-me sozinho, pois, assim é certo que tudo seja realizado".[12]

"Havia certo homem chamado Jesus, e ele tinha cerca de trinta anos de idade, ele nos escolheu. E vindo a Cafarnaum, ele entrou na casa de Simão, por sobrenome Pedro, e abriu a boca e disse: “Passando ao lado do mar de Tiberíades eu escolhi John e James, filhos de Zebedeu, e Simão e André e Filipe e Bartolomeu, Tiago, filho de Alfeu e Thomas, Tadeu, Simão, o Zelote, e Judas Iscariotes. Tu também, Mateus, sentado na coletoria, que eu chamei, e tu me seguiu. Segundo a minha intenção sois doze apóstolos para um testemunho a Israel"”.[12]

"Eis aí tua mãe e teus irmãos estão lá fora. Ele disse: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos e disse: Estes são meus irmãos e minha mãe e irmãs, que fazem a vontade de meu Pai.".[13]

"Nenhum discípulo está acima de seu mestre, nem o servo acima de seu senhor".[14]

"Eu vim para abolir os sacrifícios: Se vós não deixardes de sacrificar, a ira (de Deus) não deixará de pesar sobre vós".[15]

"Onde queres que vamos preparar para Ti para comer a Páscoa?" Ao que ele respondeu: Que eu não tenho vontade de comer a carne do cordeiro pascal com vocês".[16]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Norton, Andrews. Additions made in the second edition of the first volume of Norton's Evidences Of The Genuineness Of The Gospels (em inglês). [S.l.: s.n.] 46 páginas 
  2. Pick (1908). Paralipomena: Remains of Gospels and Sayings of Christ (em inglês). [S.l.: s.n.] 
  3. Wikisource-logo.svg "Apocrypha" na edição de 1913 da Enciclopédia Católica (em inglês). Em domínio público.
  4. «Ebionites» (em inglês). Encyclopædia Britannica. Consultado em 6 de fevereiro de 2011 
  5. Este artigo incorpora texto da Enciclopédia Judaica (Jewish Encyclopedia) (em inglês) de 1901–1906 (artigo "Ebionites" por Kaufmann Kohler), uma publicação agora em domínio público.
  6. Francois P. Viljoen (2006). «Jesus' Teaching on the Torah in the Sermon on the Mount» (PDF). Neotestamenica (40.1): 135-155. Consultado em 6 de fevereiro de 2011 
  7. MACCOBY, Hyam (1987). The Mythmaker: Paul and the Invention of Christianity (em inglês). [S.l.]: HarperCollins. pp. 172–183. ISBN 0062505858 
  8. Skarsaune, Oscar (2007). Jewish Believers in Jesus (em inglês). [S.l.]: Hendrickson Publishers. pp. 544–545. ISBN 9781565637634 , Jerônimo - "No Evangelho que os nazarenos e os ebionitas utilizam, que eu traduzi recentemente do hebreu para o grego e que é chamado de 'autêntico texto de Mateus' por muitos, está escrito …" Comm. Matt. 12.13; p.435; Ireneu - "Pois os ebionitas, que utilizam o evangelho de acordo com Mateus apenas, são refutados por este mesmo livro, quando eles fazem falsas suposições sobre o Senhor" Haer. 3.11.7; p.446; Eusébio - "Este homens, além disso, pensaram que fosse necessário rejeitar todas as epístolas do Apóstolo, a quem eles chamam de apóstata da Lei. E então eles se utilizam do chamado Evangelho segundo os Hebreus e fizeram pouco caso do resto." Hist. eccl. 3.27.1; p.45; Epifânio - "Eles também aceitam o Evangelho segundo Mateus. Eles também se utilizam dele como o fazem os seguidores de Cerinto e Merinto. Eles o chamam, porém, 'de acordo com os Hebreus', que é o nome correto, pois Mateus é o único nome de evangelista no Novo Testamento que escreveu em hebraico e com as letras hebraicas." Panarion 30.3.7
  9. "Eu vou agora falar do Novo Testamento, que foi indubitavelmente composto em grego, cuja tradução do Apóstolo Mateus, que estava primeiro na Judeia (província romana) a produzir um Evangelho de Cristo em letras hebraicas. Precisamos confessar que, como temos o Evangelho de Mateus em inglês, ele está marcado por discrepâncias e agora que a corrente foi distribuída em diversos canais, por isso precisamos retornar de volta à fonte." - Carta ao papa Dâmaso
  10. Edwards, James R (2009). The Hebrew Gospel and the Development of the Synoptic Tradition (em inglês). [S.l.]: Wm. B. Eerdmans Publishing. p. 121 
  11. Epifânio, Haeres. XXX 13 e XXX 14
  12. a b c Haeres. XXX 13
  13. Haeres. XXX 14
  14. Tertuliano, Contra todas as Heresias III
  15. Epifânio, Haeres. XXX 16
  16. Epifânio, Haeres. XXX 22

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Este assunto é um dos em que não existe consenso. Segue uma lista do que cada um já escreveu sobre o assunto:

  • Johann Ernst Grabe (1666–1711) - Spicilegium SS. Patrum ut et Haereticorum Seculi Post Christum natum 1700
  • John Kitto - A cyclopædia of Biblical literature.
  • Adolf von Harnack - Texte und untersuchungen zur geschichte der altchristlichen literatur
  • Christian Friedrich Weber - Neue Untersuchung über das Alter und Ansehen des Evangeliums.
  • William Binnington Boyce - The higher criticism and the Bible.
  • Archibald Hamilton Charteris, Johannes Kirchhofer - Canonicity: a collection of early testimonies :to the canonical books of the New Testament.
  • Rudolf Handmann - Das Hebräer-Evangelium.
  • Edward Byron Nicholson - The Gospel According to the Hebrews. 1879
  • Pierson Parker - A Proto-Lucan basis for the Gospel according to the Hebrews".
  • William Reuben Farmer - The Synoptic Problem: a Critical Analysis. New York: Macmillan. 1964
  • Walter Richard Cassels - Supernatural Religion. 1902
  • James R. Edwards - The Hebrew Gospel and the development of the synoptic tradition. 2009