Expansão banta

1 = 4 000–3 500 AP: origem não verificada
2 = 3 500 BP: initial expansion
"separação inicial": 2.a = Oriental, 2.b = Ocidental[2]
3 = 2 000–1 500 AP: núcleo Urewe do Bantu Oriental
4–7: avanço para o sul
9 = 2 500 BP: Núcleo do Congo
10 = 2 000–1 000 BP: última fase

A expansão bantu como referida foi um longo e contínuo processo migratório de povos que falavam línguas do grupo banto. Essa expansão começou por volta de 1000 a.C., nas regiões da atual Nigéria e Camarões, e se estendeu até o sul e o leste da África, atingindo vastas áreas ao longo dos séculos. [3] A antropologia refere-se à expansão banta como um movimento de povos que ao longo de três milénios terá espalhado as línguas banto em praticamente toda a África subsaariana.[4][5][6][7][8][9][10]
Características da Expansão
[editar | editar código]A expansão bantu não se deu por meio de um império ou dominação militar centralizada. Mas de um gradativo processo de expansão e assimilação sociocultural[11].
Existem duas teorias básicas sobre a origem dos bantu: a primeira, de Joseph Greenberg (1963), indicava que um grupo de línguas do sueste da Nigéria era o mais próximo das restantes línguas bantu e ele propôs que uma dessas línguas se teria espalhado para sul e leste, ao longo de centenas de anos[1].
Malcolm Guthrie analisou várias línguas bantu e concluiu que as mais estereotípicas eram as da Zâmbia e sul da atual República Democrática do Congo, propondo teoria alternativa de ser esta região a originária dos bantu[12]. Esta teoria é apoiada por fontes norte-africanas e do Médio Oriente que não falam da existência de bantus a norte de Moçambique antes do século IX[11].
Com a definição do termo "banto" em 1862, o Dr. Wilhelm Bleek avançou a hipótese do enorme número de línguas com características comuns terem tido origem numa única língua. Assim sendo, o termo “banto” refere-se a uma família linguística, e não a um povo específico ou grupo étnico unificado. Estudos linguísticos indicam que as línguas bantas têm origem comum no “protobanto”, falado originalmente associada à região da floresta equatorial na confluência dos rios Benué e Congo, em regiões da atual Nigéria e Camarões. A partir daí, os povos bantu iniciaram sua expansão por volta de 1000 a.C., movendo-se para leste (área dos Grandes Lagos) e sul (Zâmbia, Angola, Moçambique, África do Sul), provavelmente impelidos pela desertificação do Saara, e pela consequente pressão dos saarauis emigrando para aquela região, eles foram forçados a espalhar-se pelas florestas tropicais da África central (fase I). Amparados por novas tecnologias de forja do ferro que teria contribuído com o agricultura, atendendo ao crescimento demográfico que teria aumentado a pressão por novas terras. Por sua vez, a abertura cultural facilitou a assimilação das populações locais. A expansão ocorreu por ondas sucessivas, não de forma contínua e uniforme. Houve momentos de recuo e reacomodação, e a expansão não foi isenta de resistências[13].
Cerca de 1000 anos mais tarde, eles iniciaram uma segunda fase mais rápida de expansão para as savanas da África austral e oriental. As línguas bantas se espalharam por quase toda a África Central, Oriental e Meridional, resultando em mais de 400 variantes que compartilham estrutura morfológica, sintática e léxico básico. A difusão linguística muitas vezes ocorreu sem migração massiva, mas por assimilação cultural e linguística, em que populações autóctones adotavam línguas bantas por fatores comerciais, religiosos ou políticos. Assim, os povos bantos levavam consigo técnicas agrícolas (como o cultivo de banana, inhame, milho e sorgo), criação de animais e domínio da metalurgia do ferro aos povos com os quais tiveram contato e assimilação[11].
No primeiro milênio d.C., cultivos tropicais originários do Sudeste Asiático — como bananas e inhames — foram introduzidos na África Oriental via Madagascar por navegadores austronésios, disseminando-se até a Bacia do Zambeze (atual Zâmbia). Isso provocou um novo impulso na expansão bantu (fase III), uma onda migratória centrada nessa região, favorecida pelas férteis margens dos rios, intensificando a presença bantu no sul e leste da África[13].
Por volta do ano 1000 estes povos tinham alcançado o atual Zimbabwe e a África do Sul, onde se estabeleceu o mais notável dos “estados zimbabweanos” (pré-nacionais), junto com Mapungubwe e Mutapa, desenvolvidos na África Austral entre os séculos XI e XV, tendo como capital o Grande Zimbabwe. Contudo, constituíram um governo unificado no sentido clássico, com tais estados ligados pela sua língua comum. Esses dirigentes controlavam as rotas de comércio do planalto até o litoral (Sofala e Kilwa), onde trocavam ouro, cobre, pedras preciosas, marfim e objetos de metal com comerciantes árabes da costa dos suaílis[14].

Mesmo com essa unidade linguística, houve forte regionalização cultural ao final da expansão, por volta do século XI, com o surgimento de diferentes formas de organização social, econômica e religiosa. Pesquisas recentes destacam que no período pré-colonial, a região meridional da África ainda era caracterizada pela prevalência etnolinguística bantu coexistindo com contrastes socioculturais que marcavam os grupos étnicos da região[15].
Referências
- ↑ a b Derek Nurse und Gérard Philippson: The Bantu Languages. Routledge, London 2003.
- ↑ Patin, Etienne; Lopez, Marie; Grollemund, Rebecca; Verdu, Paul; Harmant, Christine; Quach, Hélène; Laval, Guillaume; Perry, George H.; Barreiro, Luis B.; Froment, Alain; Heyer, Evelyne; Massougbodji, Achille; Fortes-Lima, Cesar; Migot-Nabias, Florence; Bellis, Gil; Dugoujon, Jean-Michel; Pereira, Joana B.; Fernandes, Verónica; Pereira, Luisa; Van der Veen, Lolke; Mouguiama-Daouda, Patrick; Bustamante, Carlos D.; Hombert, Jean-Marie; Quintana-Murci, Lluís (5 de maio de 2017). «Dispersals and genetic adaptation of Bantu-speaking populations in Africa and North America». Science. 356 (6337): 543–546. Bibcode:2017Sci...356..543P. PMID 28473590. doi:10.1126/science.aal1988. hdl:10216/109265
- ↑ FASI, Mohammed El (Ed.) (2010). História geral da África: África do século VII ao XI. vol.3. 1ª ed. Brasília: UNESCO
- ↑ http://www.sciencemag.org/cgi/data/1172257/DC1/1
- ↑ http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/50/Niger-Congo_map.png
- ↑ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15340834
- ↑ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19383166
- ↑ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21109585
- ↑ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21453002
- ↑ http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19425093
- ↑ a b c FASI, Mohammed El (Ed.). História geral da África: África do século VII ao XI. vol.3. Brasília: UNESCO, 2010. vol.3. [S.l.: s.n.]
- ↑ GUTHRIE, Malcolm (2017). The classification of the Bantu languages bound with Bantu word division. New York: Routledge. ISBN 978-1-315-10553-6
- ↑ a b FOURSHEY, Catherine Cymone (2019). África Bantu: de 3500 ac até o presente. [S.l.]: Editora Vozes. 280 páginas. ISBN 978‑85‑326‑6315‑3 Verifique
|isbn=(ajuda) - ↑ CARTWRIGHT, Mark; BELL, Janice (14 de março 2019). «Grande Zimbábue». World History Encyclopedia. Consultado em 07 de junho de 2025 Verifique data em:
|acessodata=(ajuda) - ↑ Emilio Jovando, Zeca (2017). «Limites e fronteiras na África Austral: Moçambique e processo de delimitação e desafios da reafirmação fronteiriça na região.». UFGD. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD (6.12): 217-235. Consultado em 6 de junho de 2025