Factos alternativos

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Kellyanne Conway usou a expressão controversa "factos alternativos" durante uma entrevista a 22 de Janeiro de 2017.

A expressão "factos alternativos" ganhou notoriedade após ser utilizada pela Conselheira do Presidente dos Estados Unidos da América, Kellyanne Conway, durante uma entrevista no programa televisivo Meet the Press da NBC, a 22 de Janeiro de 2017,[1][2][3][4] em que ela defendeu a declaração falsa de Sean Spicer, Porta-voz da Casa Branca, sobre o número de pessoas que assistiram à tomada de posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos. Quando pressionada pelo entrevistador Chuck Todd para que explicasse o motivo pelo qual Spicer teria dito uma "falsidade comprovável", Conway respondeu: "Não seja excessivamente dramático em relação a isso, Chuck. Você diz que é uma falsidade, e ... o nosso porta-voz, Sean Spicer, forneceu factos alternativos a isso."[5][6] Todd respondeu, dizendo: "Repare, factos alternativos não são factos. São mentiras."

O uso da expressão "factos alternativos" para descrever algo amplamente considerado como falso foi ridicularizado nas redes sociais e fortemente criticado nos Estados Unidos pelos jornalistas Dan Rather, Jill Abramson, e a Public Relations Society of America. A frase foi largamente descrita como orwelliana; até quinta-feira, 26 de Janeiro de 2017, as vendas do livro Mil Novecentos e Oitenta e Quatro tinha aumentado 9,500%, tornando-se no best-seller número 1 da Amazon.com.[7]

História[editar | editar código-fonte]

A 21 de Janeiro de 2017, teve lugar a primeira conferência de imprensa do Porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. Spicer acusou a comunicação social de ter subestimado deliberadamente o tamanho da multidão que assistiu à tomada de posse do Presidente Trump, e acrescentou ainda que a cerimónia tinha reunido a "maior audiência de sempre a assistir a uma tomada de posse — ponto final — tanto em pessoa, como por todo o mundo." De acordo com todos os dados disponíveis, as alegações de Spicer eram falsas.[8][9][10] Imagens aéreas mostraram que a multidão na tomada de posse de Trump era significativamente mais pequena do que a multidão presente na tomada de posse de Barack Obama, em 2009. Spicer afirmou que 420.000 pessoas se deslocaram no Metropolitano de Washington no dia da tomada de posse em 2017, e comparou este número com as 317,000 pessoas que o teriam feito em 2013. Não é claro de onde foram retirados estes números: o número real de passageiros entre a meia-noite e as 11 da manhã foram 193,000 em 2017, e 317,000 em 2013.[11][12] Se se considerar o dia todo, o número de passageiros foi 570,557 em 2017, e 782,000 em 2013.[13]

Spicer na conferência de imprensa

Spicer também deu informação incorrecta sobre o uso de revestimento branco no chão durante a cerimónia. Ele afirmou que este foi usado pela primeira vez durante a tomada de posse de Trump, e que este teria sido responsável por um efeito visual que teria feito o público parecer menor. Este revestimento do chão tinha, no entanto, já sido utilizado em 2013, quando Obama foi empossado para o segundo mandato. Spicer não respondeu a quaisquer perguntas na conferência de imprensa. Kellyanne Conway, estratega de campanha e conselheira de Trump, defendeu as declarações de Spicer, dizendo em entrevista com Chuck Todd na NBC, que o porta-voz estaria, simplesmente a dar "factos alternativos", e que o número de espectadores da tomada de posse de Trump não podiam ser provados nem quantificados.[14]

Na semana que se seguiu aos comentários de Conway, ela foi forçada a discutir os "factos alternativos", usando, no entanto, outras expressões, como "informação alternativa" e "informação incompleta".[15] Dois dias depois da entrevista com Todd, ela defendeu as restrições de viagens decretadas por Trump, referindo-se ao inexistente "Massacre de Bowling Green" (mais tarde, Conway disse que se estava a referir à prisão de dois iraquianos em Bowling Green, Kentucky por enviaram ajuda a terroristas no Iraque), e alegou falsamente que o Presidente Obama, em 2011, teria "banido vistos para os refugiados do Iraque durante seis meses". Estas últimas distorções foram descritas como tendo "levado os 'factos alternativos' a outro patamar".

Houve quem notasse a semelhança da expressão "factos alternativos" com uma outra utilizada por Trump, no seu livro publicado em 1987, Trump: A Arte do Negócio. No livro, uma "hipérbole verdadeira" foi descrita como "uma forma inocente de exagero—e... uma forma muito eficaz de promoção." O livro afirma que "as pessoas querem acreditar que qualquer coisa é o maior, e o melhor, e o mais espectacular." O escritor-fantasma do livro, Tony Schwartz, disse que foi ele quem cunhou a frase e afirmou que Trump "a adorou".[16]

Reacção[editar | editar código-fonte]

A conferência de imprensa de Spicer e os comentários subsequentes de Conway alvo de fortes reacções nas redes sociais. O jornalista Dan Rather postou uma crítica mordaz à nova administração presidencial dos EUA, no seu perfil de Facebook.[17][18] Rather escreveu:

Estes não são tempos normais. Estes são tempos extraordinários. E tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias.

Quando temos um porta-voz do presidente dos Estados Unidos a enfeitar uma mentira com a expressão orwelliana "factos alternativos"...

Quando temos um porta-voz na sua primeira aparição perante os repórteres da Casa Branca, a ameaçar, intimidar, mentir, e sair da sala sem ter os cojones de responder a uma única questão...[19]

e concluiu,

Os factos e a verdade não são partidários. São a base da nossa democracia. E ou se está com eles, connosco, com a nossa Constituição, com a nossa História, e com o futuro da nossa nação, ou se está contra eles. Todos devem responder a esta pergunta.

OThe New York Times respondeu com uma verificação dos factos relativos às declarações feitas por Spicer durante a conferência de imprensa.[20] Esta peça incluia uma comparação fotográfica das multidões na tomada de posse de Obama em 2009, e da de Trump.

De acordo com o The Guardian, o Breitbart News o uso da expressão "factos alternativos" por Conway, argumentando que é um "termo inofensivo e preciso, utilizado em contexto jurídico, onde cada parte expõe a sua própria versão dos factos para que o tribunal decida", mas eles próprios observaram que "[uma] pesquisa em vários dicionários jurídicos online, no entanto, não produziu quaisquer resultados para o termo."

A jornalista e antiga editora executiva do New York Times, Jill Abramson, caracterizou os comentários de Conway sobre factos alternativos como "novilíngua orwelliana", e disse: "'Factos alternativos' são apenas mentiras".[21]

O website do dicionário Merriam-Webster informou que o número de pesquisas do significado da palavra "facto" subiu a pique após Conway ter usado a expressão "factos alternativos".[22] A Merriam-Webster ainda se envolveu no assunto com uma declaração via Twitter: "Um facto é uma informação apresentada como tendo realidade objectiva." O tweet incluia ainda um link para o seu artigo sobre o uso do termo de Conway.[23][24][25]

Após a entrevista de Conway no Meet the Press e da resposta viral nas redes sociais, nas quais os "factos alternativos" foram comparados com a novílingua, um termo do romance distópico de George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, as vendas do livro aumentaram 9.500%, alcançando o lugar cimeiro da lista de best-sellers da Amazon.com. A comunicação social atribuiu o interesse renovado no livro às observações de Conway.[26][27] Penguin, a editora, reimprimiu 75.000 cópias do livro para dar resposta à procura.[28][29][30][31][32]

A 24 de Janeiro de 2017, a Sociedade de Relações Públicas da América, um grupo de relações públicas, publicou um comunicado que dizia: "Incentivar e perpetuar o uso de factos alternativos por intermédio de porta-vozes de destacada importância prejudica a imagem de todos os profissionais da comunicação."[33] Robert Stoker, da Universidade George Washington, advertiu que o termo "factos alternativos" pode e deve ser distinguido de falsidades.[34]

Correcção por Spicer[editar | editar código-fonte]

A 23 de Janeiro, Spicer corrigiu as suas declarações a respeito do número de passageiros do Metropolitano de Washington, afirmando que ele apenas tinha tido acesso às estatísticas que "lhe tinham sido dadas". No entanto, manteve a sua alegação altamente contestada de que a tomada de posse de Trump teria sido a mais vista de todas, dizendo que também estaria a incluir todos os espectadores: online, na televisão, e em pessoa.[35][36]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Bradner, Eric (22 de janeiro de 2017). «Conway: Trump White House offered 'alternative facts' on crowd size». CNN 
  2. Graham, David (22 de janeiro de 2017). «'Alternative Facts': The Needless Lies of the Trump Administration». The Atlantic. Consultado em 22 de janeiro de 2017 
  3. Swaine, Jon (22 de janeiro de 2017). «Trump presidency begins with defense of false 'alternative facts'». The Guardian. Consultado em 22 de janeiro de 2017 
  4. Jaffe, Alexandra (22 de janeiro de 2017). «Kellyanne Conway: WH Spokesman Gave 'Alternative Facts' on Inauguration Crowd». NBC News. Consultado em 22 de janeiro de 2017 
  5. Blake, Aaron (22 de janeiro de 2017). «Kellyanne Conway says Donald Trump's team has 'alternative facts.' Which pretty much says it all.». Washington Post. Consultado em 22 de janeiro de 2017 
  6. «Conway: Trump spokesman gave 'alternative facts'»  (New York Post, January 22, 2017)
  7. Kakutani, Michiko (26 de janeiro de 2017). «Why '1984' Is a 2017 Must-Read». New York Times. Consultado em 26 de janeiro de 2017 
  8. «White House press secretary attacks media for accurately reporting inauguration crowds». CNN. 21 de janeiro de 2017. Consultado em 21 de janeiro de 2017 
  9. «Trump's Inauguration vs. Obama's: Comparing the Crowds». New York Times 
  10. «Die Parallelwelt des Trump-Teams: «Alternative Fakten sind Lügen»». Neue Zürcher Zeitung (em alemão). 23 de janeiro de 2017. Consultado em 25 de janeiro de 2017 
  11. «Alt-fact: Trump's White House threatens war on media over 'unfair attacks'». Haaretz, Reuters. 22 de janeiro de 2017. Consultado em 23 de janeiro de 2017 
  12. «Fact-checking the White House 'alternative facts'». The Seattle Times. 22 de janeiro de 2017. Consultado em 23 de janeiro de 2017 
  13. «Donald Trump had biggest inaugural crowd ever? Metrics don't show it». Politifact. 21 de janeiro de 2017. Consultado em 2 de fevereiro de 2017 
  14. «Trump aides defend inflated inauguration figures as 'alternative facts'». Los Angeles Times 
  15. «A Conversation With Kellyanne Conway: "I'm the Face of Trump's Movement"» 
  16. «Column: 'Alternative facts' play to Americans' fantasies» 
  17. «Dan Rather takes to Facebook to blast President Trump's 'alternative facts'». Tampa Bay Times 
  18. «Dan Rather on Trump: 'These are not normal times'». The Hill 
  19. «Dan Rather Facebook post». Facebook 
  20. «White House Pushes Alternative Facts. Here Are the Real Ones». The New York Times 
  21. «Sorry, Kellyanne Conway. 'Alternative facts' are just lies». The Guardian 
  22. Merriam-Webster Trend Watch (January 22, 2017): "Conway: 'Alternative Facts' Lookups for 'fact' spiked after Kellyanne Conway described false statements as 'alternative facts'" Retrieved January 23, 2017.
  23. Merriam-Webster, tweet, 9:32 AM, January 22, 2017
  24. Kircher, Madison Malone (23 de janeiro de 2017), The Dictionary Attempts to Remind Kellyanne Conway What the Definition of ‘Fact’ Is, New York magazine, consultado em 31 de janeiro de 2017 
  25. Raphelson, Samantha (26 de janeiro de 2017), The Merriam-Webster Dictionary Has Been Trolling Trump On Twitter For Months, NPR, consultado em 31 de janeiro de 2017 
  26. «Sales of '1984' surge after Conway talks 'alternative facts'». The Hill 
  27. «George Orwell's '1984' surges in sales after 'alternative facts' comment». The Kansas City Star 
  28. «The Publisher of '1984' Just Ordered a Massive Reprint for the Age of 'Alternative Facts'» 
  29. «Publisher printing more copies of George Orwell's '1984' after spike in demand» 
  30. «Sales of Orwell's '1984' spike after Kellyanne Conway's 'alternative facts'» 
  31. «Sales of George Orwell's 1984 surge after Kellyanne Conway's 'alternative facts'» 
  32. «1984 hits No. 1 on Amazon after Kellyanne Conway's 'alternative facts' quote» 
  33. «Public relations association rebukes Trump's White House on 'alternative facts'» 
  34. «Yes, there are 'alternative facts.'» 
  35. «Sean Spicer, Trump's Press Secretary, Reboots His Relationship With the Press». The New York Times 
  36. «Spicer Changes Up Format at WH Briefings, Moves to Hit Reset with Press»