Familicídio em Campinas em 2016

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Familicídio em Campinas
Funcionários da Setec retiram corpos das vítimas na Vila Proost de Souza.[1]
Local Brasil Campinas
Coordenadas 22° 54' 22.6" S 47° 05' 40.2" O
Data 31 de dezembro de 2016 (1 mês)[1]
23:50 (UTC−2)
Tipo de ataque Assassinato em massa
Arma(s) Pistola calibre 9 mm
Mortes 12 vítimas
1 atirador[2]
Feridos 3[2]
Responsável(is) Sidnei Ramis de Araujo[1]
Motivo Batalha na Justiça pela guarda do filho

O familicídio em Campinas, também divulgado na mídia como chacina em Campinas, foi uma chacina que ocorreu no bairro da Vila Proost de Souza,[1] na cidade brasileira de Campinas, São Paulo, em 31 de dezembro de 2016, quando Sidnei Ramis de Araujo, armado de uma pistola 9 mm, pulou o muro de uma casa e assassinou doze membros da mesma família, incluindo sua ex-esposa e seu filho de oito anos. Essa foi a maior chacina familiar já registrada na cidade de Campinas em todos os tempos.[3]

Crime[editar | editar código-fonte]

Na noite de ano-novo do dia 31 de dezembro de 2016, o técnico em laboratório na área de ciência e tecnologia[4] Sidnei Ramis de Araujo, de 46 anos,[1] soube que a ex-mulher ia comemorar a virada de ano na casa de uma das tias, Liliane, e foi até o imóvel. Pouco antes da meia-noite, ele estacionou o carro, pulou o muro e entrou na casa. Armado de uma pistola 9 mm e mais dez bombas de fabricação caseira amarradas ao corpo, que foram apreendidas pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE),[5][6] ele invadiu a casa na rua Pompílio Morandi[7] (Vila Proost de Souza) e assassinou sua ex-esposa Isamara Filier, de 41 anos; seu filho João Victor Filier de Araujo, de 8 anos; e mais dez pessoas da sua família, cometendo suicídio após os assassinatos. O crime foi premeditado. Em uma gravação, ele revelou que pretendia executar as vítimas no Natal, mas não conseguiu: "Eu tentei pegar a vadia no almoço de Natal e dia da minha visita, assim pegaria o máximo de vadias daquela família".[5]

Os dois adolescentes, de 15 e de 17 anos, que estavam na festa de réveillon e trancaram-se nos banheiros da casa ao perceber o ataque, disseram que ouviram quando Araujo afirmou que mataria Isamara: "Vou te matar, você tirou meu filho". A frase foi seguida pelo barulho de disparos. Depois, ouviram João Victor, o filho de 8 anos, questionar o pai: "Por que você matou a mamãe?". Araujo não respondeu e deu um tiro na cabeça do próprio filho. O menino foi o último a morrer. A maioria dos disparos foi dada a uma distância média, de cerca de um metro. A maioria das vítimas recebeu de dois a três tiros. Porém, o único que apresentou sinais claros de execução era o filho do atirador. Segundo a perícia, Araujo encostou o cano da arma na cabeça do menino e atirou.[5] João Victor foi o último a ser atingido antes do pai se suicidar e morreu no local.[2]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Uma testemunha informou à polícia que o atirador travava uma batalha judicial pela guarda do filho; segundo a testemunha, a separação teria sido motivada por uma suspeita de que o atirador "havia abusado sexualmente do próprio filho".[8]

Desde 2010, Isamara Filier havia registrado cinco boletins de ocorrência contra o ex-marido, três deles registrados na Delegacia da Mulher de Campinas, por ameaça de agressão e até de morte,[9] além da denúncia por abuso sexual contra o filho;[10] por conta desse processo, Sidnei ficou quase um ano sem poder ver a criança.[9] Sobre a denúncia de abuso feita em 2012, a Justiça considerou que as acusações "não eram cabalmente comprovadas",[11] mas se encaixavam como "comportamento inadequado", e acatou em parte o pedido, estabelecendo restrições para o convívio entre pai e filho. Na decisão, a Justiça determinou que a criança, que na época tinha 3 anos, deveria ser "protegida, mas não afastada totalmente do convívio paterno".[9]

Em relato, a professora do menino João Victor, filho de Araujo, afirmou que o menino não gostava do pai e chegou a dizer que o mataria quando crescesse.[12]

Nota de suicídio[editar | editar código-fonte]

Uma carta escrita por Araujo foi apresentada, sendo que nela o atirador revelou seus planos de matar a família. A carta possuía textos direcionado ao filho e à namorada, e foi enviada para amigos antes do crime.[13] Além da carta, foi deixado no carro do atirador um gravador de voz que continha um áudio com frases de indignação contra a ex-mulher Isamara Filier e um pedido de desculpa por algo que iria acontecer, sem mencionar explicitamente o ocorrido.[1] Trechos do áudio e da carta evidenciam a motivação misógina e machista por trás do feminicídio em massa: "tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!" [...] "Morto também já estou, porque não posso ficar contigo, ver você crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas".[14][15][16][17][18][19]

A pedido do jornal Correio Braziliense, especialistas em análises forenses e em violência contra a mulher analisaram as cartas do atirador e acreditam que Sidnei Araújo cultivava uma ideologia "extremamente machista", nutria um ódio generalizado contra as mulheres, e se sentia uma espécie de vítima das leis e outras ações que buscam garantir os direitos das mulheres. A antropóloga e professora de Direito da Universidade de Brasília Débora Diniz diz que o atirador não faz uma confissão, mas está se comunicando com outros homens que compartilham do que ele acreditava e ressalta que "a carta faz uma convocação para que outros homens ajam como ele".[20]

Vítimas[editar | editar código-fonte]

Além de Sidnei Ramis de Araujo (46 anos), que cometeu suicídio no local, foram mortos pelo atirador:[2]

  • Isamara Filier (41 anos) – ex-esposa do atirador
  • João Victor Filier de Araujo (8 anos) – filho do atirador
  • Rafael Filier (33 anos) – irmão de Isamara
  • Liliane Ferreira Donato (44 anos) – dona da casa onde ocorreu a chacina
  • Alessandra Ferreira de Freitas (40 anos) – irmã de Liliane
  • Antônia Dalva Ferreira de Freitas (62 anos) – mãe de Liliane e de Alessandra
  • Abadia das Graças Ferreira (56 anos) – irmã de Antônia Dalva
  • Paulo de Almeida (61 anos) – marido de Abadia
  • Ana Luzia Ferreira (52 anos) – irmã de Antônia Dalva e Abadia
  • Larissa Ferreira de Almeida (24 anos) – filha de Ana
  • Luzia Maia Ferreira (85 anos) – mãe de Antônia Dalva, Abadia e Ana, e avó de Liliane, Alessandra e Larissa
  • Carolina de Oliveira Batista (26 anos) – o pai dela está entre os três feridos

Três pessoas sobreviveram ao ataque e foram levadas feridas para os hospitais Ouro Verde, Mário Gatti e HC da Unicamp. Dois adolescentes se esconderam em banheiros da casa e não foram feridos. Uma mulher foi poupada pelo atirador por estar segurando o bebê.[3] Ao todo, havia 18 pessoas na confraternização de ano-novo. As vítimas foram veladas todas juntas em uma única sala no Cemitério da Saudade.[21]

Repercussão[editar | editar código-fonte]

O Centro de Referência e Apoio à Mulher (Ceamo) da cidade definiu o crime como um feminicídio e não uma chacina.[22] Segundo a ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres Nilceia Freire, a inconformidade com o fim do casamento e com a restrição imposta ao contato com o filho caracteriza o caso como um crime de vingança, enquanto que "os alvos predominantemente femininos, por sua vez, são um sinal de 'ódio às mulheres'".[23]

A publicação da carta do atirador feita pelo jornal Estadão recebeu críticas da população, que se manifestou nas redes sociais. Nilceia Freire disse que, sem contexto, ela pode ter impacto negativo: "(...) esse tipo de declaração presente na carta, de divulgação, acaba por estimular atitudes, ao contrário do que se quer, que é prevenir". Já Marisa Sanematsu, diretora de conteúdo da Agência Patrícia Galvão, viu o risco de um setor da população acolher o discurso de ódio disseminado no crime.[23]

A deputada federal Jandira Feghali também se manifestou sobre a chacina, dizendo em sua página no Facebook: "Alguns dizem que o feminismo não leva a nada, há quem diga que não existe machismo no Brasil, mas esse machismo matou Isamara Filier, uma criança, outras oito mulheres e três homens". Jandira também defendeu a Lei Maria da Penha, chamada por Araujo de "lei vadia da penha", dizendo: "Fui relatora da Lei Maria da Penha e andei por cada lugar desse país, onde eu ia havia relatos de agressão de diversas formas e tamanho, não é admissível que o discurso do machismo encontre eco em pleno século XXI".[24]

A ex-presidenta Dilma Rousseff, referida na carta de Araujo como "vadia no poder", declarou em sua página oficial no Facebook que "é intolerável que o machismo encontre eco no pensamento conservador e justifique o feminicídio". Para ela, "o momento é de fortalecer a política de direitos humanos para defender as mulheres da cultura do ódio e da violência pelo único motivo de serem mulheres. Devemos defender com firmeza a Lei Maria da Penha e fazer valer a Lei do Feminicídio para que a impunidade não seja mais escusa para novas mortes". A lei do feminicídio foi sancionada por Dilma, sob críticas, em março de 2015.[25]

O caso foi amplamente divulgado nos meios de comunicação nacionais e internacionais,[26][27] sendo que o prefeito reeleito Jonas Donizette decretou luto oficial de três dias em Campinas, divulgando em nota oficial seu sentimento de consternação e de solidariedade a todos os familiares e amigos das vítimas.[28] O presidente do Brasil Michel Temer lamentou em sua conta oficial no Twitter o ocorrido: "Lamentamos profundamente as mortes ocorridas em Campinas. Manifestamos nosso pesar junto às famílias. Que 2017 seja um ano de mais paz!".[29][30]

A revista Isto É fez uma reportagem sobre como crimes motivados por intolerância afetam a imagem de cordialidade do brasileiro e citou outros crimes de ódio acontecidos anteriormente e no mesmo dia; a reportagem também citou comentários feitos por pessoas em portais de notícias que demonstram apoio ou tentam justificar o crime.[31]

A ONU Mulheres do Brasil emitiu uma nota pública onde diz ser "inadmissível que as mulheres continuem a ser barbaramente assassinadas e os crimes de ódios às mulheres sejam disseminados, vilipendiando a memória das vítimas com pretensos elementos de justificativa e de banalização dos assassinatos" e fez um apelo público para que as autoridades responsáveis incorporem a perspectiva de gênero nos processos de investigação policial e criminal, conforme as Diretrizes Nacionais sobre Feminicídio para Investigar, Processar e Julgar com perspectiva de gênero as mortes violentas de mulheres, e apliquem a Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015).[32]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f Redação G1 Campinas e Região (1 de Janeiro de 2017). «Doze pessoas são mortas durante festa de réveillon em Campinas». G1 Campinas e Região. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  2. a b c d Redação G1 Campinas e Região (1 de Janeiro de 2017). «Veja quem são as vítimas da chacina em festa de réveillon em Campinas». G1 Campinas e Região. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  3. a b Alenita Ramirez (1 de Janeiro de 2017). «Chacina deixa 12 mortos no Ano-Novo em Campinas». Correio Popular. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  4. Redação G1 Campinas e Região (1 de Janeiro de 2017). «Autor de chacina era técnico em centro de pesquisas federal». G1 Campinas e Região. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  5. a b c Da redação (2 de janeiro de 2017). «Autor de chacina executou filho com tiro na cabeça». Revista Veja. Consultado em 3 de janeiro de 2017 
  6. Alenita Ramirez (1 de Janeiro de 2017). «Autor de chacina tinha dez bombas e deixou áudio gravado». Correio Popular. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  7. Redação G1 Campinas e Região (1 de Janeiro de 2017). «'Ficamos na dúvida se eram tiros ou fogos', diz testemunha de chacina». G1 Campinas e Região. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  8. Dhiego Maia (1 de Janeiro de 2017). «Homem armado invade casa, mata ex-mulher, filho e mais dez em Campinas». Folha de São Paulo. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  9. a b c Guilherme Busch, Ex-mulher fez 5 BOs contra o atirador, 02/01/2017
  10. Alexandre Hisayasu, Mulher acusou 6 vezes autor de chacina, O Estado de S.Paulo, 3 de Janeiro de 2017
  11. UOL, em São Paulo (1 de Janeiro de 2017). «Em 2012, ex acusou atirador de Campinas de abuso sexual contra o filho». UOL Notícias. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  12. Marcelo Freire (1 de Janeiro de 2017). «Menino chacinado em Campinas disse à professora que mataria o pai quando crescesse». UOL, em Campinas (SP). Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  13. Estadão Conteúdo (1 de Janeiro de 2017). «Autor de chacina em Campinas escreveu carta sobre seu plano». ISTOÉ. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  14. «Autor da chacina em Campinas escreveu carta sobre os seus planos; veja trechos». O Estado de S. Paulo. 1 de janeiro de 2017. Consultado em 2 de janeiro de 2017 
  15. «Autor da chacina em Campinas expõe ódio a mulheres a quem chama de "vadias"». El País. 2 de janeiro de 2017. Consultado em 2 de janeiro de 2017 
  16. Carol Patrocínio (2 de janeiro de 2017). «Jornalista analisa carta deixada pelo atirador». Correio Popular. Consultado em 3 de janeiro de 2017 
  17. Mirthyani Bezerra (3 de janeiro de 2017). «A chacina em Campinas foi feminicídio? Para especialistas, sim». UOL. Consultado em 3 de janeiro de 2017 
  18. Débora Melo (3 de janeiro de 2017). «Chacina de Campinas: um feminicídio». CartaCapital. Consultado em 3 de janeiro de 2017 
  19. Fernanda da Costa (3 de janeiro de 2017). «Discurso do autor da chacina em Campinas incentiva o feminicídio, alertam especialistas». Zero Hora. Consultado em 3 de janeiro de 2017 
  20. Ana Carolina Fonseca, Chacina de Campinas foi impregnada de cultura machista, para especialistas, Correio Braziliense, 02/01/2017
  21. Marcelo Freire (1 de Janeiro de 2017). «Vítimas de chacina serão veladas juntas em Campinas (SP)». UOL, em Campinas (SP). Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  22. Patrícia Teixeira, Ex de atirador da chacina detalhou ameaças à Polícia Civil, G1 Campinas e Região, 03/01/2017
  23. a b Juliana Domingos de Lima, A chacina de Campinas e os motivadores de um feminicídio, NEXO Jornal, 2/2/2017
  24. Redação Revista Fórum (2 de Janeiro de 2017). «Jandira Feghali: "O machismo matou Isamara Filier, uma criança e mais 10 pessoas"». Revista Fórum. Consultado em 5 de Janeiro de 2017 
  25. Todo Dia (3 de janeiro de 2017). «Dilma considera intolerável machismo justificar chacina em Campinas». TodoDia. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  26. Alberto Armendáriz (1 de Janeiro de 2017). «Masacre en Brasil: un hombre mató a su ex mujer, su hijo y otras diez personas y se suicidó en pleno Año Nuevo». La Nacion. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  27. Steve Robson (2 de Janeiro de 2017). «Dad shoots dead ELEVEN including son, 8, and ex-wife in New Year's Eve massacre before killing himself». Mirror. Consultado em 3 de Janeiro de 2017 
  28. AAN (2 de Janeiro de 2017). «Chacina em Campinas: Prefeitura decreta luto de 3 dias». Correio Popular. Consultado em 3 de Janeiro de 2017 
  29. Michel Temer (1 de Janeiro de 2017). «Condolências do presidente à família das vítimas da Chacina em Campinas». Twitter oficial do Michel Temer. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  30. Redação Estadão Conteúdo (1 de Janeiro de 2017). «Presidente lamenta mortes de chacina em Campinas». Correio Popular. Consultado em 1 de Janeiro de 2017 
  31. Camila Brandalise e Débora Crivellaro, 'Era do ódio, Isto É, 6 de janeiro de 2017
  32. Nadine Gasman, Nota Pública da ONU Mulheres sobre os assassinatos em Campinas, ONU Mulheres, 10 de janeiro de 2017