Festa da Federação

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Festa da Federação, em 14 de julho de 1790 no Campo de Marte (Paris).

A Festa da Federação Nacional (em francês: Fête de la Fédération) foi uma celebração comemorativa do primeiro aniversário da tomada da Bastilha,[1] acontecimento considerado como o ponto de início da Revolução Francesa. Celebrou-se, portanto, em 14 de julho de 1790 no Campo de Marte, em Paris.[1]

Tinha, segundo Mirabeau no seu livro Trabalho sobre educação pública, o fim educacional de mudar os costumes e incutir no povo valores civis.[2]

Para Georges Politzer a Federação foi um marco que celebrou a nação francesa como o resultado da mistura de diversos povos ou elementos étnicos que a formavam (bretões, bascos, normandos, provençais e outros), em contraposição ao elemento feudal do "sangue", cujos privilégios mantinham-se pela hereditariedade. A festa, portanto, veio celebrar essa fusão de povos, e sua vitória contra o "princípio racial".[3] Isto contrasta com a visão de Tocqueville, para quem a festa nada mais foi que a celebração de uma pseudo-unanimidade, uma hipocrisia coletiva, em que partidos diversos que se matavam celebravam algo cujo resultado de discórdias seria visto a seguir.[4]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

O evento encontra suas raízes nas ideias de Jean-Jacques Rousseau, na sua obra "Considerações sobre o Governo da Polônia", em que este defende as festas cívicas onde "a boa mãe pátria se compraz em ver brincar seus filhos... (e) todo o povo toma parte igualmente."[5]

Imitando as federações regionais de guardas nacionais que tinham começado a celebrar a sua festa no Midi desde agosto de 1789 e que se estendiam por toda a França, o Marquês de La Fayette, que era o comandante da Guarda Nacional de Paris, decidiu organizar, para comemorar o primeiro aniversario da tomada da Bastilha, uma festa nacional da Federação, a celebrar em Paris.

Em 1790 a Assembleia Nacional Francesa decidiu que esta primeira comemoração fosse a festa da reconciliação e unidade de todos os franceses.

Com o objetivo de afirmar a unidade do país, e o desejo de se evitar uma contra-revolução, os reis contudo abominavam tal festejo; a ele foram representantes dos municípios e da Guarda Nacional.[1]

A Festa[editar | editar código-fonte]

Milhares de franceses comemoram na Festa da Federação.

Desde a madrugada do dia 14 de julho a população passou a chegar no Campo de Marte, onde armara-se gigantesco anfiteatro para acomodar mais de 400 mil pessoas; a um canto, uma tenda cobria a fachada da Escola Militar e diante dela fora armada uma tenda, sob a qual uma plataforma abrigava os reis - Luís XVI e Maria Antonieta.[1]

Do lado oposto à tenda real, quatro antigos vasos serviam à queima de incenso e, ao longo do perímetro estavam fincadas 83 lanças com as bandeiras dos departamentos; diante do cais do Sena fora erguido um arco do triunfo.[1]

O evento, com duração de vários dias, exibiria uma missa diante do Altar da Pátria erguido no centro do anfiteatro e co-celebrada por 300 sacerdotes, o juramento da Constituição, peças de teatro encenadas na Catedral de Nossa Senhora, uma grande procissão e vários bailes em praça pública.[5]

Cerimônia de abertura[editar | editar código-fonte]

Às oito horas, sob chuva, a família real chegou numa carruagem, sendo aclamada pelo povo; tiros foram disparados em saudação, e os músicos entoaram seus instrumentos. Em seguida o então bispo Talleyrand celebrou a missa e o rei prestou juramento à Constituição; Maria Antonieta então, em meio aos aplausos e ovação popular, ergueu o Delfim, ao que a multidão respondeu com "vivas" à rainha e ao seu filho.[1]

Apesar de constrangidos a participarem do evento, os reis tinham enorme desprezo por tal "orgia da federação". Após esta cerimônia retiraram-se discretamente para o Castelo de Saint-Cloud.[1]

Dias seguintes[editar | editar código-fonte]

No dia seguinte à festa tencionavam os moderados conduzir o rei até Compiègne, ao que Luís XVI aquiescia mas, como os monarquistas Feuillants tinham o objetivo de diminuir o absolutismo real, Maria Antonieta se opôs e o rei acabou cedendo à pressão da rainha.[6]

Consequências[editar | editar código-fonte]

A Festa provocou um breve apaziguamento entre as diversas correntes políticas que então havia (monarquistas radicais, moderados, republicanos, etc.) e que logo viriam a se agitar nos clubes que se formaram (jacobinos, feuillants, cordeliers) durante a Assembleia Constituinte (1789-1792), e que eclodiram com violência após a fuga frustrada dos reis, em 20 de julho de 1791.[7]

O tipo de festejo estabelecido pela Federação aboliu a forma tradicional das comemorações praticadas até então, no Ancien Régime - que tinham caráter duradouro, municipal, voltada às profissões; com ela passou-se a ter uma só comemoração ao ano, e estabeleceu-se a primazia do oficial sobre o popular, e esta passou a ser o modelo para as demais festas.[8]

Este modelo de festa cívica foi seguido durante todos os eventos comemorativos efetuados durante o período revolucionário, tais como nas comemorações ao Ser Supremo ou no traslado dos restos mortais de Voltaire.[5]

Os eventos tiveram por testemunha José Bonifácio de Andrada e Silva, considerado o Pai da Pátria brasileira, que se encontrava em Paris durante esses eventos, em função de seus estudos como bolsista do governo português; entretanto, este não deixou registrado suas impressões sobre o momento histórico.[9]

Referências

  1. a b c d e f g Evelyne Lever. Maria Antonieta: a última rainha da França. [S.l.]: Objetiva, 2004. p. 170-171. ISBN 8573025778
  2. Franco Cambi. História da pedagogia. [S.l.]: UNESP, 1999. p. 368. ISBN 8571392609
  3. Guy Besse e Maurice Caveing. Politzer - Princípios fundamentais de filosofia. [S.l.]: Hemus, 2002. p. 395. ISBN 8528900622
  4. Raphaël Drai in: Denis Lerrer Rosenfield, Jean-François Mattéi. O Terror. [S.l.]: Jorge Zahar Editor Ltda, 2002. p. 53-54. ISBN 857110672X
  5. a b c Franklin de Matos. O filóso e o comediante: ensaios sobre literatura e filosofia na ilustração. [S.l.]: UFMG, 2001. p. 178.
  6. Munro Price. A Queda da Monarquia Francesa. [S.l.]: Record. p. 310. ISBN 8501067768
  7. Antonio Baptista Gonçalves. Quando os avanços parecem retrocessos. [S.l.]: Manole Ltda., 2008. p. 23. ISBN 859841641X
  8. Roger Chartier. Leituras e Leitores na França do Antigo Regime. [S.l.]: UNESP, 2004. p. 41. ISBN 8571395373
  9. Berenice Cavalcante. José Bonifácio - razão e sensibilidade. [S.l.]: FGV, 2001. p. 47. ISBN 8522503508

→{{Navbox with collapsible groups |name = Revolução Francesa |title = Artigos sobre a Revolução Francesa |state = uncollapsed |navbar = plain |image = |above = Pré-Revolução · Causas · Constituinte · Assembleia Legislativa · Convenção · Diretório (Conselho dos Quinhentos e dos Anciões) · sucedida pelo Consulado

|group1 = Eventos civis e políticos relevantes por ano |list1 = {{Navbox subgroup |group1 = 1788 |list1 = Jornada das Telhas (7 Jun 1788) · Assembleia de Vizille (21 Jul 1788)

|group2 = 1789 |list2 = Revolta de Réveillon (28 Abr 1789) Convocação dos Estados Gerais (5 Mai 1789) · Assembleia Nacional (17 Jun a 9 Jul 1790) · Juramento do Jogo da Péla (20 Jun 1789) · Queda da Bastilha (14 Jul 1789) · Grande Medo, Noite de 4 de Agosto (20 Jul a 5 Ago 1789) · Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (27 Ago 1789) · Marcha sobre Versalhes (5 Out 1789)

|group3 = 1790 |list3 = Abolição do antigo Parlamento (3 Fev 1790) · abolição da nobreza (19 Jun 1790) · Constituição Civil do Clero (12 Jul 1790) · Festa da Federação (14 Jul 1790)

|group4 = 1791 |list4 = Fuga de Varennes (20 e 21 Jun 1791) · Massacre do Campo de Marte (17 Jul 1791) · Declaração de Pillnitz (27 Ago 1791) · Constituição de 1791 (3 Set 1791) · Assembleia Legislativa (1 Out 1791 a Set 1792) · Self-denying ordinance (30 Sep 1791)

|group5 = 1792 |list5 = Manifesto de Brunswick (25 Jul 1792) · Comuna de Paris (Jun 1792) · Jornada de 10 de Agosto (10 Ago 1792) · Massacres de Setembro (Set 1792)</:1793 na Fecução de Luís XVI]] (21 Jan 1793) · Tribunal Revolucionário  · Comissão dos Doze <smalrança|1793]] |list6 = [[Exl>(9 Mar small> · Convenção Nacional (20 Set 1792 a 26 Out 1795)  · Proclamação da Primeira República (22 Set 1792)

|group6 = [[:Categoria1793 a 31 Mai 1795) · Terror (27 Jun 1793 a 27 Jul 1794) · (Comitê de Salvação Pública · Comité de Segurança Geral) · Queda da Gironda (13 Jul 1793) · Assassinato de Marat (13 Jul 1793) · Levée en masse (23 Ago 1793) · Lei dos Suspeitos (17 Set 1793) · Maria Antonieta é guilhotinada (16 Out 1793) · Leis anti-clericais (durante todo o ano)

|group7 = 1794 |list7 = Danton & Desmoulins guilhotinados (5 Abr 1794) · Lei de 22 Prairial (10 Jun 1794) · Reação Termidoriana (27 Jul 1794) · Terror Branco (queda em 1794) · Fechamento do Clube dos Jacobinos (11 Nov 1794)

|group8 = 1795 |list8 = Constituição do Ano III (22 Ago 1795) · Conspiração dos Iguais (Nov 1795) · Diretório (1795-1799)

|group9 = 1796 |list9 = Golpe de 18 Fructidor (4 Set 1797) · Congresso de Rastatt(Dez 1797)

|group10 = 1799 |list10 = Golpe de 18 Brumário (9 Nov 1799) · Constituição do Ano VIII (24 Dez 1799) · Consulado (até 1804, fim da República) }}

|group2 = Guerras revolucionárias francesas

|list2 =

|group3 = Líderes militares

|list3 =

|group4 = Outras importantes figuras e facções

|list4 =

|group5 = Pensadores influentes |list5 = Les Lumières · Beaumarchais · Edmund Burke · Anacharsis Cloots · Charles-Augustin de Coulomb · Pierre Claude François Daunou · Diderot · Benjamin Franklin · Thomas Jefferson · Antoine Lavoisier · Montesquieu · Thomas Paine · Rousseau · Voltaire

|group6 = Família Bonaparte |list6 = Joséphine de Beauharnais · Joseph Bonaparte · Lucien Bonaparte · Napoleão Bonaparte

|group7 = Impacto cultural e histórico |list7 = La Marseillaise · Inconfidência Mineira · Fabre d'Églantine · Bandeira tricolor · Liberté, égalité, fraternité · Dia da Bastilha · Panteão · Calendário Republicano · Culto ao Ser Supremo · Culto à Razão · Sans-culottes · Sistema métrico
Quatrevingt-treize · A Tale of Two Cities · Pimpinela Escarlate · Scaramouche · La Révolution française · Orphans of the Storm · Danton |below = }}