Festa de Iemanjá

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A Festa de Iemanjá é uma celebração religiosa em homenagem à orixá Iemanjá ocorrida no seu dia, 2 de fevereiro. Em Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia, é uma das mais populares e valorizadas do ano e atrai uma multidão imensa de fiéis e admiradores às praias do Rio Vermelho. Na ilha de Itaparica, por ser um pouco afastada de Salvador, é feita pelos moradores e apreciada pelos visitantes da ilha de salvador.

Festa de Iemanjá em Santa Cruz, Itaparica, ao fundo a cidade de Salvador.

Festa do Rio Vermelho[editar | editar código-fonte]

Festa de Iemanjá na praia do rio vermelho
Ialorixá levando o balaio para Iemanjá
Praia do Rio Vermelho 2 de Fevereiro

Em Salvador, ocorre anualmente, no dia 2 de fevereiro, a maior festa do país em homenagem à Iemanjá. Esta celebração é uma instituição contemporânea que vem provocando imitações no Rio de Janeiro e Recife.[1] O motivo da data explica P. Verger, seria pela influência do sincretismo de Oxum com Nossa Senhora das Candeias que é celebrada nesse dia,[2] este outro orixá relacionado às águas doces é presenteado antes do tradicional presente de Iemanjá no dique do Tororó, a meia noite do início do dia das festividades,[3] onde segundo Edison Carneiro eram feitas inicialmente as oferendas a Iemanjá.[4]

A festa que teria surgido quando a celebração do presente de Iemanjá no candomblé migrou do Dique do Tororó para o mar em 1924,[5][6] viria a substituir a tradicional festa de Sant'Ana, que ainda é celebrada pelos pescadores que segundo S. Blass, "participam da missa no dia 29 de junho, em homenagem a São Pedro, realizada na vizinha Igreja Católica de Sant’ Ana, também localizada na praia do Rio Vermelho."[7]

A Casa do Peso, importante no festejo, é localizada próxima a Igreja desse culto católico predecessor,[6] é nela que são depositados objetos e instrumentos utilizados pelos pescadores na sua rotina de ofício, e as balanças utilizadas para a pesagem da pescaria. Nesse mesmo casebre há um lugar reservado para o culto à Iemanjá, "No primeiro cômodo da casa existem várias imagens de Iemanjá, água, pedras, búzios e flores. No mesmo espaço os fiéis acendem velas. Do lado de fora, logo em frente, vê-se uma sereia.", registra S. Couto. A escultura de Iemanjá que fica em frente a Casa do Peso foi produzida por Manoel Bonfim, escultor, ceramista, em 1970.[6][8][9]

O culto de Sant'Ana que lhe serviu de base, ocorria anualmente numa data móvel geralmente entre os meses de janeiro e fevereiro, teve início em 1823, a festa que possuía grande liberdade na sua organização por parte dos jangadeiros passaria por sérias modificações.[6] S. Couto a respeito da mudança de festejos registra: "O processo de transformação foi lento e promovido por diferentes fatores. A Romaria dos Jangadeiros foi modificada, em parte, pela chegada dos veranistas à localidade durante a segunda metade do século XIX e a festa religiosa foi carnavalizada. Mas seria injusto colocar toda a culpa das mudanças nos recém-chegados. É provável que a essa altura a lenda da aparição de Sant’Ana aos pescadores já tivesse perdido o significado e a motivação inicial para a realização dos festejos, fazendo com que aceitassem a interferência externa. Ainda há que se levar em consideração outros fatos importantes. Uma série de conflitos ideológicos, existentes nas primeiras décadas do século XX entre as novas orientações do clero e os costumes dos pescadores vinculados ao Candomblé, também favoreceu as mudanças."[6] Com a criação da Paróquia de Sant'Ana em 1913 já fica bem evidente a perda de espaço e autonomia na arrumação da igreja e dos festejos, a repressão de costumes ocorre com a supervisão de um padre permanente, o que acarretaria em sérios conflitos, lenta decadência do culto a Sant'Ana já é perceptível.[6]

Em 1930, quando o padre da sua igreja recusa-se a celebrar a missa, durante a discussão a manifestação do sermão do sacerdote quanto ao que ele considerava como práticas ignorantes, referindo-se diretamente aos presentes a uma mulher com rabo de peixe, teria deixado os pescadores ofendidos ao ponto que os antigos moradores da praia do Rio Vermelho em represálias, deixaram de pedir a celebração da missa no dia da entrega dos presentes, e assumiram os aspectos do culto da Rainha do Mar, que somente seria denominado como Festa de Iemanjá em 1960.[3] Vallado evidencia a perda gradual do caráter religioso da festa.[10] Desde então a Igreja de Santana, localizada no mesmo local da festa, sempre mantém as portas fechadas no dia 2 de fevereiro.

Hoje em dia as homenagens a essa orixá começam de madrugada,[11] com devotos do candomblé, da umbanda e do catolicismo colocam as ofertas e bilhetes com pedidos em balaios que serão levados para o alto mar. Esses balaios são levados por cerca de 300 embarcações, com o saveiro com a oferenda dos pescadores sempre a frente do cortejo.

As pessoas independente de religião comemoram do mesmo jeito, levando flores, perfume, champanhe, velas, mas tem gente que nunca ouviu falar da lenda da Iemanjá.

A festa tem a finalidade de agradar a rainha do mar, na esperança que ela possa abençoar cada vez mais os pescadores.

Tombamento[editar | editar código-fonte]

A Festa de Iemanjá foi tombada em 2020 como Patrimônio Cultural de Salvador, escrita no “Livro do Registro Especial dos Eventos e Celebrações”. O Registro Especial de Patrimônio Imaterial pela Prefeitura Municipal de Salvador é uma maneira de preservar a tradição, que ocorre desde os anos de 1920. Uma vez tombada, é elaborado um plano de salvaguarda.[12]

A solicitação de tombamento foi feita pela Ordem dos Advogados do Brasil, Secção Bahia, e foi apoiada pelos pescadores. O dossiê técnico foi elaborado pela Fundação Gregório de Mattos (FGM).[13][14]

A Festa de Iemanjá também foi tombada no Distrito Federal, onde é realizada na Praça dos Orixás, próximo à Lagoa Paranoá. O tombamento ocorreu em 2018 e levou mais de um ano para ser concretizado. O dossiê técnico elaborado pela Subsecretaria do Patrimônio Cultural.[15][16]

Festa no Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

A festa de Iemanjá no Rio de Janeiro é comemorada por todos os bairros, em terreiros. No candomblé a homenagem ocorre dia 2 de fevereiro, na umbanda ocorre no dia 15 de agosto e em 31 de dezembro é festejada por todas as pessoas que comemoram a passagem do ano nas praias. Em todas as datas de comemoração, fieis e simpatizantes pulam sete ondas, acendem velas e colocam flores brancas em barquinhos, e os lançam ao mar. No último dia do ano o número de participantes da festa se torna relativamente maior.

Festa em São Paulo[editar | editar código-fonte]

A festa de Iemanjá no estado de São Paulo é feita na Baixada Santista e em quase todas as praias do litoral paulista. No dia 2 de fevereiro pelo povo de candomblé, no dia 8 de dezembro pela umbanda,[17] e 31 de dezembro por pessoas de várias religiões que querem homenagear a Orixá, chamada de Iemanjá.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Cascudo, Luís da Câmara. Made in Africa. Global Editora e Distribuidora Ltda, 4 de set de 2015 - 190 páginas
  2. Verger, Pierre. Orixás: Deuses iorubás na África e no novo mundo. Ed. Corrupio, 1997. ISBN 8586551023, ISBN 9788586551024
  3. a b Projeto história: revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História. Edição 28, EDUC - Editoria da PUC/SP, 2004.
  4. Carneiro, Edison. Religiões Negras: notas de etnografia religiosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.
  5. Couto, Edilece Souza.Devoção a Iemanjá na Bahia de Todos os Santos. UFBA.
  6. a b c d e f Couto, Edilece Souza. Tempo de festas: homenagens a Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição e Sant’Ana em Salvador (1860-1940). SciELO - EDUFBA, 1 de jan de 2010 - 217 páginas.
  7. Blass, Leila Maria da Silva. Revista Nures nº 5 – Janeiro/Abril 2007. Núcleo de Estudos Religião e Sociedade – Pontifícia Universidade Católica – SP.
  8. Cultural, Instituto Itaú. «Manoel Bonfim». Enciclopédia Itaú Cultural. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  9. «Morre artista Manoel Bonfim autor da escultura de Iemanjá». Blog do Rio Vermelho, a voz do bairro. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  10. Vallado, Armando. Iemanjá, a grande mãe africana do Brasil. Ed. Pallas, 2002 - 260 páginas.
  11. Presente principal de Iemanjá 2 de fevereiro de 2012
  12. Line, A. TARDE On. «Festa de Iemanjá é reconhecida como Patrimônio Cultural de Salvador». Portal A TARDE. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  13. «FGM - Prefeitura Municipal do Salvador». www.culturafgm.salvador.ba.gov.br. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  14. «DOSSIÊ DE REGISTRO ESPECIAL DO PATRIMÔNIO IMATERIAL: FESTA DE IEMANJÁ SALVADOR - BAHIA» (PDF). FGM - Fundação Gregório de Mattos. 2019. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  15. «'Odoya! Festa das Águas' celebra Iemanjá na Praça dos Orixás, no DF». G1. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  16. CRIATIVA, SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E. ECONOMIA. «Praça dos Orixás e Festa de Iemanjá serão patrimônio cultural imaterial». SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA E ECONOMIA CRIATIVA. Consultado em 21 de agosto de 2021 
  17. Festejos de Iemanjá Praia Grande

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Festa de Iemanjá