Festa do Reinado de Bom Despacho

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

A Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Bom Despacho é muito tradicional na cidade.[1] Ocorre entre os meses de julho e agosto, sendo esta data alterada anualmente em função da necessidade de dar início às comemorações em um sábado e aproximar o dia final, que deve ser uma segunda-feira do mês de agosto. O Reinado caracteriza a cidade e, como patrimônio cultural imaterial, foi registrado em 2014 pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.[2][3]

A Festa do Reinado[editar | editar código-fonte]

As atividades referentes à celebração tem início com o Acolhimento das Bordonetas (bandeiras). Trata-se de estampas com os santos homenageados, são eles: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia. A bordoneta de cada guarda é recebida pelo Moçambique Nossa Senhora do Rosário na Praça Altino Teodoro e na Praça da Matriz, e conduzidas à Igreja Nossa Senhora do Rosário. Forma-se um corredor com as guardas de congado, penacho e vilão, que abrem fileira para a passagem das guardas de Moçambique e da Corte Real. As bordonetas são, então, acolhidas pelo padre e postas ao pé do trono de Nossa Senhora do Rosário. Na sequência há o Levantamento do Mastro de Aviso com estampas dos santos homenageados no adro da igreja.[4] A segunda-feira é dedicada às confissões e à novena de Nossa Senhora do Rosário, que ocorre diariamente na Igreja Matriz. Nestas solenidades há participação de dois ou três ternos. Seguindo o ritual, na quinta-feira contam com a Alvorada Festiva, na Capela Cruz do Monte, simbolizando o início da festa, quando os cortes carregam a imagem de Nossa senhora e São Benedito até a Matriz de Nossa Senhora do Rosário. Continuando a solenidade, são queimados fogos de artifício e em seguida ocorre a Missa de Abertura. Logo após, no adro da igreja, ocorre o Levantamento dos Mastros de São Benedito e Santa Efigênia, que ficam asteados até o final da festa. Na sexta-feira inicia a peregrinação das guardas pelas ruas do município difundindo a crença nos santos homenageados e pedindo esmolas para a igreja. Os fiéis, conhecidos como Reis da Coroa Pequena, oferecem o café da manhã, lanche da tarde, almoço e jantar às guardas, e os Reis da Coroa Pequena oferecem o café da manhã, lanche da tarde, almoço e jantar às guardas, e os Reis da Coroa Grande oferecem para os dançadores. Os festeiros são os devotos que oferecem alimentação aos soldados de Nossa Senhora do Rosário, para pagar alguma promessa ou até mesmo o reconhecimento de graças alcançadas. Sábado, os fiéis seguem os cortes numa procissão que sai da Igreja do Rosário em direção a Matriz.[5] Aí é realizada uma celebração em ação de graças com a participação dos Reis e Rainhas e a Corte de Nossa Senhora. Por fim, domingo ocorre a missa conga, e em um palanque fica o celebrante, seus auxiliares e os reis e rainhas. Nas laterais do palco posicionam cadeiras do lado direito para os festeiros, e do lado esquerdo os representantes da igreja. As guardas são distribuídas no espaço de forma organizada, através da colocação de cartazes com o nome e a fotografia de cada uma delas. São organizadas pela Associação de Reinadeiros. No último dia o ritual, na segunda-feira, ocorre o recolhimento das bordonetas. Ao entrarem na igreja, são recebidas pelo padre e pelo Rei Bordão, que entrega as bordonetas a cada uma delas. No final, os Mastros são descidos pelas guardas de moçambique, marcando o encerramento das atividades da Festa de Reinado de Nossa Senhora do Rosário. O município, incluindo a área rural, vivencia a celebração da Festa de Nossa senhora do Rosário. As ruas ficam coloridas e alegres com o som dos tambores e pandeiros e a alegria dos reinadeiros, artistas da fé.[6] A Tradicional Festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Bom Despacho é uma prática que mantém a identidade dos habitantes do município, e incentiva as relações de sociabilidade entre os praticantes e a interação destes com o público. A Festa tem destaque como articuladora para garantir políticas públicas que ofereçam condições e incentivos para sua continuidade no tempo. A Festa do Reinado tem uma grande importância para os moradores de Bom Despacho, a celebração é um momento de entretenimento para a cidade, e está presente no imaginário social e religioso dos habitantes do município, o que simboliza parte da noção do que é ser bom-despachense, sendo um fator de construção da identidade local.[7]

História[editar | editar código-fonte]

Na metade do século XVI, os africanos foram forçados a sair de sua pátria como escravos e levados para Portugal, Ilhas atlânticas e às Américas para o trabalho forçado nas lavouras e serviços domésticos. Na tentativa de se inserir nas novas sociedades combinavam elementos da sua cultura com a da cultura portuguesa, como o cristianismo que fazia parte da própria expansão marítima. Os africanos foram inseridos nas festas promovidas pela coroa. Assim, incorporaram suas músicas e danças que, para os portugueses, eram consideradas exóticas. Porém, eram impedidos de praticarem seus ritos nos momentos livres, pois havia receio por parte da elite de que gerasse desobediência. Foram incorporados aos costumes religiosos portugueses as irmandades leigas dos escravos, como por exemplo o hábito de rezar em conjunto, a condução dos ritos por um sacerdote e a promoção de festas e procissões. A devoção a Nossa senhora do Rosário, pode ter ocorrido neste contexto, houve a difusão do seu culto entre os negros por se identificarem com o rosário que era um considerado um objeto mágico na crença africana. O Santo Rosário da Mãe de Deus, desde o século XIII, na Europa, era usado como arma para converter os hereges ao catolicismo. São Domingos tornou-se um apóstolo do Santo Rosário, em agradecimento à Mãe de Deus, funda uma confraria dedicada à Virgem Maria e seu Santo Rosário: a Ordem dos Missionários Dominicanos ou dos Pregadores. Fundaram inclusive Confrarias do Rosário, de extraordinária expansão e atividade religiosa. Os escravizados mantiveram o costume de formar comunidades e eleger reis e rainhas responsáveis pela direção dos cultos e o pilar da unidade do povo. Tiveram dificuldades para manter seus costumes na íntegra, pois uma forma de dominá-los era subjugar suas práticas e tradições. Aprenderam, então, a recriar suas raízes africanas nas Américas. A partir disto, formaram laços fundamentais de afinidades étnicas, adotando posturas que reproduziam seus costumes africanos. Haviam irmandades leigas que prestavam culto aos santos, as devoções pessoais e a promoção de procissões e festas, que conduziam a vida na colônia no âmbito da religião católica. Alguns chegando a acumular patrimônio através de legados, anuidade, presentes e doações para o santo de devoção. Homens negros eram eleitos como reis das irmandades desde o século XVI, em Portugal, ligados aos oragos (padroeiros) de Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, Santo Elesbão e São Benedito. No Brasil, há referências as confrarias e irmandades de negros e mulatos desde o século XVI que remetem a devoção aos chamados santos negros. Essas confrarias ajudaram, de alguma forma, a resistência dos negros ao sistema escravista. Era uma forma de se inserir na sociedade colonial, e preservar seus ritos e costumes sob a aparência de festas religiosas locais. É nesse contexto que surge a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, confraria de culto católico criada para abrigar a religiosidade do povo negro, que na época da escravidão era impedido de frequentar as mesmas igrejas dos senhores. Mantém em seu calendário uma devoção secular a Nossa Senhora do Rosário.[8]

O Reinado em Bom Despacho[editar | editar código-fonte]

Segundo o capitão Luís Alberto, em 1808 seria a data da fundação da irmandade do Nossa Senhora do Rosário. Há controvérsias em relação a datas apresentadas entre os historiadores. Segundo Francisca Ferreira da Fonseca, “A cidade parava para ver os Cortes passarem. O Rei e Rainha do Congado, com vestes imperiais eram cercados de pompa e respeito, assistiam a missa sentados no trono, na capela, rodeados de princesas, não se levantando nem na hora da Consagração. O padre benzia a coroa e incensava os reis, que acompanhavam a provisão debaixo do pálio, seguidos pelos soldados, vestidos com fardas semelhantes às da polícia, mas enfeitadas com fitas e, principalmente, espelhos, muitos espelhos, inclusive no quépi, que era feito de papelão, recoberto de pano. Amarrados nos tornozelos e nos braços latinhas e guizos. A tradição dos espelhos nos adereços dos reinados, vinda da África, tinha como objetivo afastar maus espíritos, pelo efeito reflexivo.” Com o Estado Novo (1930), no governo de Getúlio Vargas, o Congado foi terminantemente proibido pela Igreja e os cultos religiosos afro-católicos que já eram repreendidos, passaram a ser perseguidos sistematicamente. Como forma de resistência, as guardas de congo criaram domínios próprios na periferia dentro dos espaços sociais. A partir da década de 1940, alguns membros da elite que eram devotos da Nossa Senhora do Rosário e apreciavam os cortes, reivindicam a liberação da festa do congado. Mas havia algumas exigências limitando suas manifestações: não poderiam beber, fazer “feitiçarias” ou superstições. Em 1950, novamente, o pároco de Bom Despacho proibiu a entrada dos Reinadeiros na procissão, alegando se tratarem de feiticeiros. Após anos de proibição, apenas em 1960 os cortes de congo voltaram a dançar, sob a liderança de Dunga, capitão de corte. Foi criada a Associação Médico Social de Assistência aos congadeiros de Bom Despacho, instalada na Rua da Olaria, terreno doado por Maria José Araujo (Dona Zezé). Começaram a servir almoço e jantar aos cortes no período da festa.[9] Em 1990, o Papa João XXIII recomenda o respeito aos cultos ecumênicos, o vigário José Estevam de Paula, introduz a Missa Conga na festa, promovendo assim uma reconciliação da Igreja com a religiosidade popular, tornando-se em um dos pontos altos da festa do Reinado. A partir deste fato percebe-se uma predominância de pessoas brancas entre os participantes dos ternos. Há um rompimento com a tradição local e os santos negros são inseridos na manifestação bom-despachense e não apenas à virgem do Rosário. Passaram a ser utilizados mastros de madeira ou de ferro. É permitida a entrada dos tambores na igreja e a participação de mulheres nos ternos,inclusive em posições de comando. Como exemplo, temos Dona Sebastiana que foi aceita como dirigente de uma guarda de Moçambique ao pé do mastro de São Sebastião. Em 1998 é criado um terno de Vilão composto por mulheres e a participação de crianças acima de 8 anos nos festejos. Estas mudanças mostram que a igreja era a coordenadora da festa e tinha grande poder de interferir nas decisões dos ritos.[10]

Reinado ou Congado segundo Bom-Despachenses[editar | editar código-fonte]

Festa de Reinado é a Festa da mãe dos homens, porque está homenageando a grande mãe rainha. Nossa Senhora não é considerada uma divindade, mas sim a mãe de Jesus, portanto a mãe de Deus (Padre Paulo Dias Barbosa). Congado, [por sua vez], é coisa do povo do cativeiro, mesmo já tendo branqueado bastante é coisa que passou de pai pro filho e os pais eram pretos retintos, pretos africanos retintos que viraram cativos no nosso país (Capitão Dunga, 1997). É... A Festa é de Nossa Senhora, mas não é por causa dela que se fala Reinado não! Quando dançador fala em Reinado, é por conta de Chico Rei, que começou com esta Festa, mas em todos os casos não uso esse termo não. Lá em casa sempre falou Festa do Congado... Congada... Congado, talvez porque a família sempre teve congadeiro e não moçambiqueiro, mas entendo que moçambiqueiro é congadeiro, pode pergunta pra eles! (Capitão Zé Chiquinho, 1997) Aqui em Bom Despacho, brincador não usa falar Reinado não, sá, aqui nós usa é Congado mesmo! Sou moçambiqueiro e uso falar Congado. (Capitão Zé Monteiro, 1998) Padre Paulo pode ter razão em falar que o Reinado é de Nossa Senhora do Rosário, mas em Bom Despacho, dançador fala mais em Congado... Agora nessas beiradas por onde a gente vai participar da Festa, tem muito lugar que usa Reinado e nem por isso a igreja participa igual aqui. Tenho a impressão que vai mesmo é do rei do lugar... Quer dizer, se ele é forte na política da Festa. (Capitão-mor Zé Vieira, 1999) Ainda nessa ocasião que a Festa era proibida, mas já depois de muito tempo, tio Artur, da comunidade dos Arturos, Zé Aristides e alguns capitães da antiga resolveram entrar em conversa com os maiores, com as autoridades. Eles procuraram os delegados no intento de conseguir tirar licença: aí pelo menos a gente podia fazer a Festa no reino... No reino da gente, uai! Cada rei e rainha conga, com seus dançadores e demais visitantes faziam a Festa em casa, no bairro onde a gente morava... Só não podia, de jeito nenhum, era passar na porta da Igreja... Hoje em dia a gente é que manda. A Igreja faz de durona. Firma que manda, mas se a gente não quiser, não tem Festa do Rosário. Pode até ter procissão, mas nem branco gosta daquela coisa triste... Sem tambor, sem nada... Então tem que haver combinação. Senão a coisa não funciona. Em Belo Horizonte, bairro que tem Congada boa tem reino: se ocê for em Contagem, está entrando no reino de João Lopes. Aqui em Neves, o reinado é meu. Sou pobre, moro nessa casinha com puxado pra cá, puxado pra lá, mas tô no meu reino. Às vezes o couro come por aí afora, mas bandido também tem respeito... Porque sabe que nessa casinha mora o quarto de Chico Rei. (Sinval José da Costa, IV descendente de Chico Rei) Não gosto muito de falar desse jeito, mas o povo fala que o rei e a rainha conga é que mandam na Festa. Se o padre falar uma coisa e o rei e a rainha não gostarem, ele vai ter problema com a vontade dele... Mas nós não trabalhamos desse jeito duro não. (Mariquinha, Rainha Conga, 1998) Segundo o folclorista Saul Martins (1988), existem sete estilos de guarda: Congo, Moçambique, Catopé, Marujo, Caboclinho ( ou Penacho), Cavaleiro de São Jorge e Vilão. De acordo com a localidade, em vez de guarda podem ser chamadas de corte, terno ou batalhão. Em Bom Despacho, segundo observei, o termo: “guarda” é empregado somente para se referir aos Moçambiques. Alguns grupos de Congo têm seus nomes registrados como: “Guarda de Congo”, mas não empregam esse termo para se auto referir.[11]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. https://www.g37.com.br/c/cultura/bom-despacho-comemora-festa-de-reinado-de-nossa-senhora-do-rosario
  2. Livro de Processos de Registro de Bens culturais Imateriais. Quadro VI- Ano 2014, exercício 2016. Elaboração: Carolina Costa Moreira dos Santos. Isadora Resende Rodrigues Cavaliere Dias. (Arquitetas e Urbanistas)
  3. http://www.ipatrimonio.org/bom-despacho-festa-de-reinado-de-nossa-senhora-do-rosario/
  4. RESENDE, Fernando Humberto de. Bom Despacho 300 anos: Homens que a construíram : tomo II. Ed. Scortecci, 2018.
  5. http://g1.globo.com/mg/centro-oeste/mgtv-1edicao/videos/t/edicoes/v/festa-do-reinado-e-celebrada-em-bom-despacho/6683701/
  6. SOBRINHO, Benjamim da Silva. A História Do Rosário e Da Festa do Reinado. Bom Despacho, 2009.
  7. https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/noticia/2018/11/11/festa-do-reinado-de-bom-despacho-mantem-tradicao-religiosa-do-tempo-dos-escravos.ghtml
  8. SANTOS, Carolina Costa Moreira. (Elaboração) Livro de Processos de Registro de Bens culturais Imateriais. Quadro VI- Ano 2014, exercício 2016.
  9. SANTOS, Carolina Costa Moreira. (Elaboração) Livro de Processos de Registro de Bens culturais Imateriais. Quadro VI- Ano 2014, exercício 2016.
  10. RESENDE, Fernando Humberto de. Bom Despacho 300 anos: Homens que a construíram : tomo II. Ed. Scortecci, 2018.
  11. RESENDE, Fernando Humberto de. Bom Despacho 300 anos: Homens que a construíram : tomo II. Ed. Scortecci, 2018.