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Filumena Marturano

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Mira Danilova como Filomena Marturano numa peça de 1955 do Teatro da Cidade de Ljubljana

Filumena Marturano é uma peça teatral em três atos, escrita em 1946 pelo teatrólogo e filósofo italiano Eduardo De Filippo e incluída por ele na coletânea "Cantata dei giorni dispari", considerada uma das obras mais conhecidas e apreciadas de Eduardo, tanto pelo público quanto pela crítica internacionais.[1]

Originalmente escrita por De Filippo especificamente para sua irmã, Titina De Filippo, que teve ótima atuação interpretando a personagem feminina de Filumena — que também levou para a tela grande em filme homônimo, dirigido pelo próprio Eduardo —, foi posteriormente interpretada por Regina Bianchi, Pupella Maggio, Valeria Moriconi, Isa Danieli, Lina Sastri, Mariangela Melato, Mariangela D'Abbraccio e Vanessa Scalera.[2]

A obra é uma das comédias italianas mais traduzidas e uma das mais encenadas no exterior.[3]

A peça acompanha Filumena Marturano, ex-prostituta que é amante do rico Domenico Soriano e administra sua confeitaria. Ao saber da intenção de Domenico em se casar com a jovem Diana agora que sua esposa morreu, Filumena finge também estar à beira da morte, e casa-se com Domenico in extremis.[a] Mais tarde, ela revela o motivo da sua mentira: garantir que seus três filhos bastardos, aos quais deu à luz anos antes, enquanto Domenico estava em suas frequentes viagens, e cuja existência ela sempre escondeu, recebam um sobrenome. Quando Domenico, furioso, decide desfazer o casamento, Filumena renuncia ao matrimônio voluntariamente e vai morar com um de seus filhos, que ela vinha sustentando, assim como os outros dois, com o dinheiro que Domenico lhe dava. No entanto, antes de partir, informa ao amante que um dos três meninos é seu filho, embora se recuse a dizer qual deles. Como não consegue, mesmo com todas as suas investigações, descobrir quem é seu filho verdadeiro, Domenico acaba cedendo e optando por celebrar o casamento e por reconhecer os três meninos como seus filhos legítimos.[3][5]

Filumena, personagem orgulhosa e irónica, astuta e corajosa, que encarna a mulher nos seus diferentes papéis de prostituta, amante, esposa e mãe, domina a peça. Ao contrário das heroínas do teatro de Raffaele Viviani, Filumena é determinada na busca do estabelecimento de uma verdadeira família, e ama Domenico. Em certos aspectos pode ser considerada uma personagem trágica, mas, ao contrário de outras personagens femininas da dramaturgia do sul da Itália, nunca se utiliza de um tom melodramático. Aliás, a frase-chave do texto, "E figlie so' ffiglie" (em português: Crianças são crianças), citada por Filumena e repetida por Domenico como verso final da peça, deve ser "pronunciada" no tom certo.[3]

Produções

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A peça foi escrita inicialmente em tributo à irmã de Eduardo, Titina De Filippo, famosa atriz teatral napolitana. Ela representou o papel título na primeira produção, em 1946, em Nápoles. Essa peça seguiu o sucesso da peça anterior de Eduardo, Napoli milionaria, escrita por ele e que teve sua “premiére” no ano anterior com grande aclamação popular. Na primeira noite de apresentação de “Filumena”, porém, grande foi o desapontamento da plateia e morna foi sua recepção junto ao público teatral de Nápoles. Então, Titina decidiu se deixar levar por seus próprios instintos e representar como ela sentia ser o requerido pelo papel. Ela mostrou estar certa, a peça teve sucesso enorme dali em diante e Titina passou a ser mais conhecida na Itália como Filumena do que por seu próprio nome.

Graças a negociações feitas por Carlo Trabucco, o editor do jornal Il Popolo da Democracia Cristã (Itália), foi acertada uma audiência privada do elenco como o Papa Pio XII no Vaticano. Nessa ocasião, o Papa de forma inesperada pediu para ouvir alguns dos monólogos e Titina recitou a prece de Filumena para a Madona das Rosas.[2] Mesmo com a forte ligação entre Titina De Filippo e o papel de Filumena bem gravada na mente do público italiano, outra atriz, Regina Bianchi, pode também ser cultuada por suas atuações nos anos subsequentes.

Em 1977, uma versão para o Inglês foi provida pelos produtores por Keith Waterhouse e Willis Hall nos Lyric Theatre de Londres sob a direção de Franco Zeffirelli estrelando Colin Blakely e Joan Plowright. Essa peça foi premiada com o laurel anual do “The London Theatres Comedy” em 1978. Essa produção foi para Nova Iorque em 10 de fevereiro de 1980 no St. James Theatre da Broadway, havendo 32 apresentações. Antes, ela já havia sido apresentada em Baltimore, tendo sido dirigida por Laurence Olivier (marido de Joan Plowright).

A peça foi representada no Piccadilly Theatre de Londres entre 30 de setembro de 1998 até 27 de fevereiro de 1999. O director foi Peter Hall e representada pela Dama Judi Dench e por Michael Pennington .

Adaptações cinematográficas

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Em 1951, De Filippo criou uma versão da peça para o cinema, em que sua irmã, Titina estrelou interpretando o papel título,[3] e ele próprio interpretou Domenico.[carece de fontes?] Também criou a versão para a televisão, em 1962, transmitida pela RAI durante a sexta temporada de "Il Teatro di Eduardo", com Regina Bianchi no papel principal.[6] Em 1964, Vittorio De Sica transformou a peça em outra versão cinematográfica, "Matrimonio all'italiana" (em português: Casamento ao estilo italiano), com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, que se tornou um sucesso comercial, embora o próprio De Filippo não tenha gostado do filme.[3]

No ano 2000, centenário do nascimento de Eduardo, ocorreu uma nova encenação da peça. Dirigida por Cristina Pezzoli e realizada pela Compagnia degli Ipocriti, com Isa Danieli e Antonio Casagrande nos papéis de Filumena e Domenico, a produção foi muito bem recebida, sendo o cenário, desenhado por Bruno Buonincontri, e a música, de Pasquale Scialö, considerados excepcionalmente bons.[3]

Bibliografia

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  • De Filippo, Eduardo (1947). Filumena Marturano. Commedia in tre atti (em italiano) primeira ed. Turim: [s.n.] OCLC 14236630 

Notas

  1. Locução proveniente do latim, in extremis significa "nos últimos instantes de vida", ou "no momento derradeiro".[4]

Referências

  1. Filosa, Carlo (1978). Eduardo de Filippo: poeta comico del tragico quotidiano : saggio su napoletanità e decadentismo nel teatro di Eduardo de Filippo (em italiano). [S.l.]: La nuova cultura. p. 529. Consultado em 4 de outubro de 2025 
  2. a b Teatro, Volume 1. [S.l.]: Arnoldo Mondadori. 2000. p. CXLII. Graças ao interesse do diretor do jornal democrata-cristão Il Popolo, o primeiro elenco da comédia foi recebido pelo Papa Pio XII, em uma audiência privada, durante a qual o pontífice inesperadamente pediu para ouvir um dos monólogos da comédia: Titina De Filippo recitou a oração que o protagonista dirige à Madonna delle Rose. 
  3. a b c d e f Marrone, Gaetana; Somigli, Luca; Puppa, Paolo, eds. (2007). Encyclopedia of Italian Literary Studies: A-J (em inglês). [S.l.]: Taylor & Francis. p. 589. Consultado em 4 de outubro de 2025 
  4. «in extremis». Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Consultado em 4 de outubro de 2025 
  5. Simon, John (25 de fevereiro de 1980). Maternal Tiger, Libidinous Mice | New York Magazine (em inglês). [S.l.]: New York Media, LLC. p. 64. Consultado em 4 de outubro de 2025 
  6. «Il Teatro di Eduardo». RaiPlay (em italiano). Consultado em 4 de outubro de 2025 

Ligações externas

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