Ir para o conteúdo

Fonética

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Fonética
Características
Classificação disciplina
branch of linguistics
especialização académica
subsistema de linguagem Edit this on Wikidata
(linguística
fonética e ciências da fala)
Usado por phonetician
Fonte Pequeno Dicionário Enciclopédico Brockhaus e Efron, Dicionário Enciclopédico Efron e Brockhaus, Dicionário Musical de Riemann, Dicionário de conversação de Meyer, Encyclopædia Britannica, Trabalho de Referência do Estudante
Commons Phonetics
Parte de linguística, acústica, neurociência Edit this on Wikidata
Diferente de fonologia Edit this on Wikidata
Localização
Especificações ténicas
[ Editar Wikidata ] [ Mídias no Commons ]
[ Categoria principal ] [ Editar infocaixa ]

A fonética é o ramo da Linguística que estuda os sons produzidos pela fala humana. Essa área procura estudar todos os sons que os seres humanos são capazes de produzir durante a fala, de fácil maneira que todo som produzido durante a fala é importante para a fonética.[1]

Estudos fonéticos

[editar | editar código]

Perspectivas dos estudos fonéticos

[editar | editar código]

A fonética estuda os sons produzidos na fala, mas o modo como se estuda esse som pode ser diferente.

  • Fonética articulatória: Fonética Articulatória se serve de instrumentos que permitem a observação de aspectos diferenciados da dinâmica dos articuladores da fala. As técnicas mais comuns são: (1) a eletropalatografia, que permite saber os pontos de contato da língua com o palato duro e assim lançar luzes sobre os pontos de articulação dos sons; (2) a eletromiografia, que permite conhecer a atividade mioelétrica especialmente dos músculos da língua e descobrir seu posicionamento ao longo do tempo; (3) a eletroglotografia, que traça indiretamente a atividade vibratória das pregas vocais; (4) a ultrassonografia, que permite a observação 2D da superfície da língua de modo mais direto do que na eletromiografia; (5) a articulografia eletromagnética, que permite observar em 3D, via eletrodos em posições previamente definidas do trato e da cabeça, o movimento de articuladores como língua e lábios; (6) a ressonância magnética, que permite a observação de todos os articuladores da fala num plano definido, frequentemente o sagital, na ressonância bidimensional, embora tenha restrições para movimentos muito rápidos, por conta da taxa de imagens por segundo que é capaz de produzir e (7) a pletismografia respiratória de indutância, que serve para o estudo da coordenação entre a fala e a respiração durante a fala a partir da medida na área da seção transversal tanto da caixa torácica quanto do abdômen por meio de duas cintas, uma na altura das axilas e outra na altura do umbigo. Essa panóplia de instrumentos permite o avanço do conhecimento de como são feitos determinados sons. Por exemplo, permite saber que um "'"' caipira pode ser feito com a retroflexão da lâmina da língua ou pelo recuo de seu corpo; que a posição da língua já na altura do "p" de"prata" vs. "preta" é aquela da vogal tônica. Esse conhecimento pode auxiliar, por exemplo, no ensino de pronúncia em língua estrangeira, orientando como os sons são feitos, o que acaba contribuindo também para a percepção desses sons. Se não se dispõe de instrumentos como esses, que normalmente são caros ou podem ser de difícil acesso para o leigo, a observação das características acústicas dos sons pode ser feita dispondo de uma simples gravação.[.]
  • Fonética acústica: A Fonética Acústica investiga as características materiais do próprio som. Um dos primeiros instrumentos para se examinar a composição sonora foi o espectrógrafo, construído durante a Segunda Grande Guerra. De lá para cá, de analógico passou a ser um simples algoritmo de um programa de software. Grandes avanços foram conseguidos com esse instrumento nas décadas e 1940 a 1960, com os primeiros experimentos de percepção usando fala sintética. Permite conhecer detalhes da produção sonora sem a necessidade de registro direto da articulação, reservando à Fonética Articulatória a tarefa de dirimir alguma dúvida sobre a torma como os articuladores se coordenam para a realização de um som. Ao espectrograma se somam outras técnicas, como o espectro de Fourier, os algoritmos que calculam as frequências dos formantes e descrevem aspectos da atividade laríngea, incluindo o algoritmo que extrai a taxa de vibração das pregas vocais a cada ciclo. No entanto, mesmo com todas essas técnicas não é possível avaliar a forma como percebemos esses sons, que cabe à Fonética Auditiva.[.]
  • Fonética auditiva: A Fonética Auditiva se serve do conhecimento de como identificamos e diferenciamos os sons entre si, através do estudo do processamento do som pelo sentido da audição, para apontar o conjunto de sons passíveis de serem usados na nossa comunicação. Por exemplo, se sabe que não é qualquer diferença em taxa de vibração das pregas vocais que percebemos como distintas. Na década de 1980, t'Hart (1981) faz experimentos que indicam que, na fala, é preciso uma diferença de cerca de 2 a 4 semitons, unidade musical, para percebermos que dois tons que usamos para dar ênfase em dois momentos são de fato diferentes, sendo que um é mais agudo do que o outro. Por conta do funcionamento de nossa audição, as frequências das ressonâncias já mencionadas são melhor discriminadas quando menores do que3000 Hz do que acima desse valor. O que se passa em nosso sistema auditivo é um reflexo de como funciona nosso cérebro durante a percepção dos sons, do ritmo e da entoação da fala.[.]

A produção dos sons da fala

[editar | editar código]

Para a produção dos sons da fala utiliza-se a parte do corpo humano chamada de aparelho fonador, que é composto pelo: sistema articulatório (faringe, língua, nariz, palato, dentes, lábios); o sistema fonatório (laringe), e; o sistema respiratório (pulmões, músculos pulmonares, brônquios, traqueia), onde em conjunto esses aparelhos trabalham para que os sons da fala sejam produzidos.

Algo bastante interessante é que nenhum desses órgãos que compreendem o aparelho fonador tem como função primária a produção dos sons, mas fisiologicamente falando são eles, em conjunto, responsáveis pela realização dos sons da fala humana. Um exemplo disso é que o sistema respiratório tem como função primária a respiração. O sistema fonatório, que é onde a laringe fica, tem como função primária evitar que alimentos entrem para os pulmões. E o sistema articulatório está ligado a questões como morder, mastigar, engolir, cheirar e etc.

Na pesquisa de Blasi et al (2016), a fonte de voz caracteriza todos os sons ressoantes (laterais, vibrantes, tepes, nasais, aproximantes e vogais) e os sons obstruintes vozeados, que englobam os oclusivos, fricativos e africados vozeados.[.]

Os ruídos transientes, de curta duração, estão presentes nas consonantais oclusivos, os contínuos nos fricativos e ambos nos africados. Do ponto vista expressivo, estabelece-se, dessa maneira, a expressividade sonora, o confronto entre sonoridades melodiosas e ruidosas e entre ruídos explosivos e contínuos, que vão ser explorados na prosa, na poesia e no discurso oral para a criação de efeitos de sentido. Um exemplo disso é abordado no Caderno de Linguística. [.]

Ressalta-se que cada segmento fônico ao ser comparado com outro pode ter algumas propriedades compartilhadas e outras não.Se compararmos, por exemplo, as ressoantes nasais e laterais com as obstruintes fricativas e as oclusivas, verificamos que continuidade é compartilhada entre as fricativas, as laterais e as nasais, mas não a propriedade do ruído, que é compartilhada entre fricativas e oclusivas. A observação sobre a combinatória de características fonéticas é referida por Tsur e Gafni (2019) como double-edged pelo fato de que os sons da fala têm múltiplas características, cada uma exibindo um potencial expressivo, isto é, expressão múltiplos polos do sentido.[.]

Os sons da fala

[editar | editar código]

A unidade básica de estudo para a Fonética é o fone, ou seja, os sons vocálicos e consonantais encontrados na fala. A fala humana é capaz de produzir inúmeros fones. A forma mais comum de representar os fones pelos linguistas é através do Alfabeto Fonético Internacional (AFI), desenhado pela Associação Internacional de Fonética (I.P.A.). Considerando todas as línguas naturais, Silva (2015) aponta que esses fones são classificados como consoantes e vogais e em todas as línguas podemos encontrar esses dois tipos de sons.[2]

Gramática
Classificação
Comunicação
Fonética
Fonologia
Morfologia
Sintaxe
Semântica
Etimologia
Estilística
Literatura
Tipos
Descritiva
Gerativa
Formal
Funcional
Normativa
Transformacional
Universal
Implícita
Contrastiva
Reflexiva
Histórica
Artigos Relacionados
Gramática
Linguística
Lexicologia
Retórica
Língua

No I.P.A podemos encontrar todos os sons que já foram encontrados nas línguas estudadas até agora. Há uma separação entre a tabela dos sons consonantais e também dos sons vocálicos.

O foco da análise da expressividade da fala recai sobre o detalhe fonético e sua valoração sonora simbólica, indexical ou sinestésica. Consideramos aqui o simbólico para se referir às associações motivadas de natureza icônica ou imitativa, por exemplo, na atribuição do sentido de vastidão a uma emissão de som longa; o indexical para se referir às associações entre as características sonoras e pessoais, sejam elas de natureza psicológica, social, orgânica ou estilística, por exemplo, os julgamentos de tipo de personalidade, nível social, condições de saúde, ou característica de estilo de fala; e as sinestésicas que remetem a associações multimodais e multisensoriais, visto que abrangem as variadas linguagens de expressão e os cinco órgãos dos sentidos humanos, como quando associamos na poesia o som do [u] a algo lúgubre ou à cor azul ou o som do [i] a objetos pontudos.[.]

Transcrição fonética

[editar | editar código]
O alfabeto internacional de fonética - tabela fonética consonantal.

Silva (2015) também aponta que para a transcrição dos sons da fala colocamos o símbolo que representa os sons entre [ ], como por exemplo [p], que encontramos ortograficamente representado pelo grafema P.[2] Um exemplo de uma transcrição fonética, em português, utilizando o [p] é em [‘pata] - pata quando representado ortograficamente. Um outro exemplo é em [‘kapa], que ortograficamente é capa. Desse modo, esses símbolos entre colchetes são as representações dos sons da fala, interesse de estudo da fonética.

Os sons da fala, além de serem classificados como consoantes e vogais possuem também outras classificações. No caso das consoantes, por exemplo, procura-se saber se o modo de articulação (o modo como o ar foi obstruído no trato vocal durante a produção do som), o lugar de articulação (onde se olha para os articuladores envolvidos para saber onde o som foi produzido no trato vocal) e o grau de vozeamento (para saber se o som é vozeado ou desvozeado, ou seja, se houve vibração ou não das pregas vocais na produção do som).

Assim, quando se classifica um som consonantal deve-se mencionar o modo de articulação, o lugar de articulação e o grau de vozeamento, por essa ordem. Por exemplo:

  • [p] - Oclusiva bilabial desvozeada;
  • [k] - Oclusiva velar desvozeada;
  • [h] - Fricativa glotal desvozeada;
  • [z] - Fricativa alveolar vozeada;
  • [v] - Fricativa labiodental vozeada;
  • [d] - Oclusiva alveolar vozeada.

Alguns fones são auditivamente próximos entre si a ponto de se tornarem indistinguíveis. Por exemplo, o som de "rr" em alguns dialectos do português do Brasil é realizado foneticamente pela consoante fricativa velar surda (x no AFI). Entretanto, essa pode ser substituída pela consoante fricativa glotal surda (h no AFI) que a palavra que nela estiver continuará a ser reconhecida. A esse fenômeno, dá-se em fonologia o nome de alofonia. Assim, [x] e [h] são alofones do "erre" forte no português do Brasil, ou seja, são realizações diferentes do mesmo fonema.

Um grupo composto de um fone e dos seus alofones para os falantes de um idioma é denominado fonema. Deve-se ressaltar que a alofonia entre dois fones é relativa. Por exemplo, no alemão compõem fonemas separados.

O estudo dos fonemas é desenvolvido pela Fonologia. A fonologia e a fonética são frequentemente confundidas porque os conceitos de fone e fonema também geram confusão, porém elas se distinguem porque ambas olham de maneira diferente para os sons da fala.

Pensando agora nas vogais e em sua classificação, devemos perceber que os critérios são outros. Silva (2015) mostra que para a classificação das vogais considera-se primeiramente a altura da língua no trato oral, onde se pode classificar as vogais em alta, média alta, média-baixa e baixa. Para perceber isso na prática, fale pausadamente as vogais i, ê, é, a, ó, ô e u, ao fazer isso tem como ver que a língua vai de uma posição mais alta como em i e u para uma posição mais baixa em a.[2] Depois, considera-se a posição da língua na cavidade bucal, de maneira que se ela tiver localizada à frente é chamada de anterior e se tiver mais para a parte final é chamada de posterior, e caso esteja no meio é chama de central. E por último, considera-se o arredondamento ou não dos lábios. Para entender essa questão do arredondamento dos lábios faça o som do i e perceba que os lábios ficam estendidos e depois pronuncie u e perceba que os lábios ficam arredondados, dessa maneira as vogais que deixam os lábios estendidos são chamadas de não arredondadas, enquanto as que produzem esse arredondamento são chamadas de arredondadas.

Tabela dos sons vocálicos.

Assim sendo, para classificar as vogais foneticamente, faz-se o seguinte:

  • [i] - vogal alta, anterior, não arredondada;
  • [e] - vogal média-alta, anterior, não arredondada;
  • [u] - vogal alta, posterior, arredondada;
  • [a] - vogal baixa, central, não arredondada.

Percebemos assim que esse olhar mais atencioso para a produção dos sons, para entender como são feitos, como podem ser classificados, quais os sons presentes em uma língua e também como eles são percebidos pelos falantes, entre outras questões, vão ser importantes para a fonética. Todos esses sons consonantais e vocálicos da fala humana são o campo de interesse do estudo e o objetivo da pesquisa fonética.

Subcampos Aplicados

Fonética forense

[editar | editar código]

Criada por volta de 1990, a fonética forense é um subcampo aplicado da fonética que utiliza métodos e técnicas auditivas, acústicas e articulatórias para a identificação de falantes e a análise de gravações de voz em contextos legais e criminais. Suas atividades incluem a identificação de falantes, a comparação de amostras de fala, a avaliação da autenticidade de gravações e a determinação de possíveis manipulações em arquivos de áudio. [3] Assim, era preciso que essas análises auditivas fossem aprimoradas por técnicas que lhe conferissem exatidão. Essas melhorias foram possibilitadas pelo avanço da tecnologia e dos estudos fonéticos, que trouxe para a área forense ferramentas que permitiam a análise acústica dos sons da fala, como o espectrógrafo. Elegeu-se, então, a Fonética como a área de estudos linguísticos cujos conhecimentos teóricos e métodos de análise supriam as lacunas existentes na área de reconhecimento de locutor forense. É nesse contexto que surge a Fonética Forense. [.]

Trata-se de uma área que exige procedimentos científicos rigorosos, uma vez que suas conclusões podem ter impacto direto em processos judiciais.[3]

Ver também

[editar | editar código]

Referências

  1. Borba, Francisco da Silva (2005). Introdução aos estudos lingüísticos 14 ed. Campinas, SP: Pontes. ISBN 8571130574. OCLC 255158586 
  2. a b c Silva, Thais Cristófaro. (2007). Fonética e fonologia do português : roteiro de estudos e guia de exercícios 9 ed. São Paulo: Ed. Contexto. ISBN 9788572443579. OCLC 263652812 
  3. a b Barbosa, Plínio Almeida; Madureira, Sandra; Passetti, Renata Regina; Brescancini, Cláudia Regina (2021). «Phonetics, what kind of stuff is it?». Cadernos de Linguística. 2 (1): e325. doi:10.25189/2675-4916.2021.V2.N1.ID325 

Ligações externas

[editar | editar código]