Fordlândia

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Fordlândia
—  Distrito do Brasil  —
Prédio principal, Fordlândia. Setembro de 2014.
Prédio principal, Fordlândia. Setembro de 2014.
Estado Pará
Município Aveiro
Criado em 30 de setembro de 1927 (88 anos)
Área
 - Total 14.568
População
 - Total 1 176 (IBGE/2 010)[1]

Fordlândia é a denominação dada ao distrito[2] e à área adjacente de 14 568 km², no município de Aveiro, no estado do Pará, às margens do Rio Tapajós. Recebeu este nome porque no passado foi uma company town e projeto agro-industrial.[3] Atualmente pleiteia emancipação política.[4] [5]

O projeto "Fordlândia", que emprestou o nome ao atual distrito de Aveiro, foi vasta área de terras adquiridas pelo empresário norte-americano Henry Ford, através de sua empresa Companhia Ford Industrial do Brasil, por concessão do estado do Pará, por iniciativa do governador Dionísio Bentes e aprovada pela Assembleia Legislativa, em 30 de setembro de 1927. O projeto foi oficialmente encerrado em 24 de dezembro de 1945, em acordo entre a Ford e o governo federal.

História[editar | editar código-fonte]

Ford tinha a intenção de usar Fordlândia para abastecer sua empresa de látex necessário a confecção de pneus para seus automóveis, então dependentes da borracha produzida na Malásia, na época colônia britânica. Os termos da concessão isentavam a Companhia Ford do pagamento de qualquer taxa de exportação de borracha, látex, pele, couro, petróleo, sementes, madeira e outros bem produzido na gleba. As negociações foram conduzidas por Jorge Dumont Villares, representante do governador Dionísio Bentes, em visita Henry Ford nos EUA. No Brasil a Ford foi representada por O. Z. Ide e W. L. Reeves Blakeley.[6]

A terra era infértil e pedregosa e nenhum dos gerentes de Ford tinha experiência em agricultura equatorial, acarretando no plantio incorreto das seringueiras - árvores de onde se extrai o látex - plantadas muito próximas uma das outras, o oposto das naturalmente muito espaçadas na selva, foram presa fácil para pragas agrícolas, principalmente micro-organismos do gênero Microcyclus que dizimaram as plantações.

Os trabalhadores das plantações recebiam uma alimentação típica norte-americana, como hambúrgueres, instalados em habitações também ao estilo norte-americano, obrigados a usar crachás e comandados num estilo a que não estavam habituados, o que causava conflitos e baixa produtividade. Em 1930, os trabalhadores locais se revoltaram contra gerentes truculentos, que tiveram que se esconder na selva até o exército brasileiro intervir e restabelecer a ordem.

O governo brasileiro suspeitava dos investimentos estrangeiros, especialmente na Amazônia, e oferecia pouca ajuda. Ford ainda tentou realocar as plantações em Belterra, mais para o norte, onde as condições para a seringueira eram melhores mas, a partir de 1945, novas tecnologias permitiam fabricar pneus a partir de derivados de petróleo, o que tornou o empreendimento um total desastre, causando prejuízos de mais de vinte milhões de dólares.

Fim do projeto[editar | editar código-fonte]

Com o falecimento de Henry Ford, seu neto Henry Ford II assumiu o comando da empresa nos Estados Unidos e decidiu encerrar o projeto de plantação de seringueiras no Brasil. Através do Decreto 8.440 de 24 de dezembro de 1945, o Governo Federal brasileiro definiu as condições de compra do acervo da Companhia Ford Industrial do Brasil: a Ford foi indenizada em aproximadamente US$ 250.000, e o governo brasileiro assumiu as obrigações trabalhistas dos trabalhadores remanescentes, além de receber seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; departamento de pesquisa e análise de solo; plantação de 1 900.000 seringueiras em Fordlândia e 3 200.000 em Belterra [7] .

1945 - presente[editar | editar código-fonte]

Após a desativação do projeto, os antigos trabalhadores da Ford preferiram ficar estabelecidos na localidade, visto que era dotada de grande infra-estrutura. Este fato atraiu também moradores do entorno, que viram a oportunidade de fixar residência na localidade, após o abandono de muitas edificações em boas condições.

A economia de Fordlândia passou a depender, desde então, da agropecuária, do extrativismo e da pesca. O boom agropecuário ocorreu com maior intensidade com a abertura, na década de 1970, da rodovia Cuiabá-Santarém, que trouxe para a região uma nova fronteira agrícola. A fronteira atraiu para o entorno de Fordlândia, na década de 2000, as grandes áreas cultivadas de soja, transformando profundamente a economia local.[8]

Embora seja caracterizada na imprensa como "cidade fantasma", o distrito possui moradores fixos e permanentes. Em 2010 o IBGE contabilizou cerca de 1200 residentes somente na vila, números que somados ao território total do distrito chega a cerca de 2000 moradores em Fordlândia.

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Forlândia não foi completamente esquecida. Músicos e escritores já destacaram a utopia de Ford em suas obras. A cantora e compositora Kate Campbell, por exemplo, imortalizou Fordlândia e sua decadência em seu álbum de 2008 "Save the Day". Ainda nesse ano, o compositor islandês Jóhann Jóhannsson lançou um álbum intitulado Fordlandia.

Na literatura, o historiador da Universidade de Nova Iorque Greg Grandin lançou o livro "Fordlandia – A ascensão e a queda da cidade perdida na selva de Henry Ford", considerado um dos cem melhores livros publicados em 2009 pela Amazon.[9] Além disso, um documentário sobre a cidade também foi desenvolvido pelos brasileiros Marinho Andrade e Daniel Augusto.[10] O escritor argentino Eduardo Sguiglia lançou o livro "Fordlândia" (Editora Iluminuras, 1997), escolhido como um dos quatro melhores trabalhos de ficção pela The Washington Post (2000).

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Dempsey, Mary A. "Fordlandia," Michigan History 1994 78(4): 24-33.
  • Galey, John. "Industrialist in the Wilderness: Henry Ford's Amazon Venture' Journal of Interamerican Studies and World Affairs 1979 21(2): 261-289. Issn: 0022-1937
  • Grandin. Greg "Fordlandia: The Rise and Fall of Henry Ford's Forgotten Jungle City", 2009, isbn=0805082360

Referências

  1. Sinopse por setores - Censo IBGE 2010. Instituto Brasileiro de Geografia Estatística
  2. Fordlândia: a cidade utópica que Henri Ford construiu na Amazônia - FlatOut Brasil
  3. MOTA, G.; SILVA, C. N.; PALHETA, J. N. (et.al). Caminhos e Lugares da Amazônia: Ciência, Natureza e Território. Belém: GAPTA/UFPA, 2009. p. 125
  4. Luta pela emancipação de Fordlândia - E.J. Notícias
  5. Belterra e Fordlandia: a busca da emancipação. - BDPA Embrapa
  6. Greg Grandin (2009). Fordlandia: The Rise and Fall of Henry Ford's Forgotten Jungle City [S.l.: s.n.] p. 183. ISBN 0805082360. 
  7. Breve Relato da Presença Americana na Amazônia - Conexão Oeste, maio de 2009
  8. “Os Impactos Sociais da Soja no Pará” - Comissão Pastoral da Terra/Diocese de Santarém - 29 de ago. de 2008
  9. Como a Amazônia derrotou o maior industrial da história
  10. O delírio perdido de Ford

Ligações externas[editar | editar código-fonte]