Forte da Ponta da Bandeira

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Forte da Ponta da Bandeira
Ponta da Bandeira Fort.jpg
Forte da Ponta da Bandeira, em 2006.
Mapa de Portugal - Distritos plain.png
Construção (Século XVII)
Estilo
Conservação Bom
Homologação
(IGESPAR)
IIP
(DL 5/2002 de 19-02-2002)
Aberto ao público Sim
Site IHRU, SIPA2887
Site IGESPAR70930
Forte da Ponta da Bandeira
Localização do Forte
37° 05′ 56,51″ N, 8° 40′ 05,72″ O

O Forte da Ponta da Bandeira, igualmente denominado como Forte do Pau da Bandeira, Forte de Nossa Senhora da Penha de França ou Forte do Registo, é uma antiga estrutura militar na cidade de Lagos, no Distrito de Faro, em Portugal. Foi construído no Século XVII, como um dos principais componentes de um sistema de fortificações marítimas para defender a cidade, então sede do governo militar do Algarve.[1] Foi alvo de obras de restauro no Século XIX, e nas décadas de 1950 e 1960 foi profundamente modificada pelo regime do Estado Novo.[2] No seu interior é de especial interesse uma pequena capela dedicada a Santa Bárbara, totalmente forrada com azulejos seiscentistas.[3] O edifício está classificado como Imóvel de Interesse Público.[4]

Descrição[editar | editar código-fonte]

O Forte situa-se no Cais da Solaria, junto ao oceano e à Ribeira de Bensafrim.[5] Este local era de uma grande importância estratégica, estando junto das muralhas mas com acesso privilegiado à baía.[3] Desta forma, podia proteger tanto o acesso aos cais como os lados sudeste e nascente das muralhas, e permitia o cruzamento de fogo com os baluartes da Porta da Vila e do Castelo dos Governadores.[1]

Na altura da sua construção, era considerado como um dos mais avançados no Algarve, devido às suas características.[3] Foi planeada no âmbito da guerra da artilharia, apresentando uma planta de forma quadrangular regular, com volumes baixos e paredes de grande espessura nos lados virados para o oceano.[3] O acesso ao terraço superior é feito através de uma rampa.[3] O edifício é parcialmente rodeado por um fosso, tendo só uma entrada, numa das paredes cegas, que era acedida através de uma ponte levadiça.[3] Por cima da entrada possui uma pedra de armas, e uma lápide a informar que a construção foi iniciada pelo Conde de Sarzedas e concluída pelo Marquês de Niza.[2] Ostenta várias guaritas de forma cilíndrica, que não faziam parte da estrutura original.[1] No interior existem várias salas para exposições, um restaurante e uma capela de pequenas dimensões, só com uma nave e sem capela-mor, totalmente forrada de azulejos, e dedicada a Santa Bárbara.[3]

O forte é considerado como uma dos principais e melhor conservadas fortificações do Século XVII na região do Algarve, sendo um dos símbolos mais conhecidos das estruturas marítimas de defesa de Lagos.[1] Com efeito, é um poucos exemplares da antiga rede de fortificações construídas no Século XVII para proteger a cidade, encontrando-se ainda em bom estado e quase inalterada, ao contrário das restantes estruturas.[3]

O sistema de defesa costeiro de Lagos incluía igualmente o Forte da Meia Praia e as seguintes baterias:[carece de fontes?]

O monumento está classificado como IIP - Imóvel de Interesse Público pelo Decreto 5/2002, de 19 de Fevereiro.[4]

Capela no interior do Forte da Ponta da Bandeira

História[editar | editar código-fonte]

Construção[editar | editar código-fonte]

Após o início da Guerra da Restauração, no Século XVII, que colocou Portugal contra Espanha, verificou-se uma mudança na estratégia militar nacional, tendo sido dada uma maior atenção às defesas terrestres na fronteira com Espanha, enquanto que ao longo da faixa costeira apenas foram instaladas baterias, com funções mais ligadas à vigilância e defesa restrita.[6] Esta situação resultou do mau estado da frota militar espanhola, e devido à assinatura do acordo de paz com a Holanda.[6] No caso do Algarve, a região atingiu uma grande importância durante o Século XVI, tendo conhecido a construção de várias fortes costeiros durante Domínio Filipino, mas no período da Guerra da Restauração teve um papel muito periférico, tendo as suas estruturas defensivas atingido um grave estado de deterioração.[6]

Após o final daquele conflito, a costa algarvia era frequentemente atacada por piratas e corsários, pelo que foi ordenada a construção de uma rede de defesas marítimas para proteger a cidade Lagos, que era nessa altura a sede do governo militar do Algarve.[3] O Forte da Ponta da Bandeira começou a ser construído em 1679 ou 1683, por ordem do Conde de Sarzedas, Governador do Reino do Algarve, e Luís Lopo da Silveira, Capitão General da mesma região, tendo sido concluído em 1690, já sob a orientação do Marquês de Nisa D. Francisco Luís Baltasar António da Gama.[2] Segundo os documentos da época, o seu director das obras foi o capitão de engenharia Inácio Pereira, não tendo ficado registado o nome do arquitecto.[3] A capela terá sido construída desde logo com o forte, uma vez que os azulejos no seu interior também datam do Século XVII.[3] Era nessa altura considerado como um dos mais avançados na região do Algarve, sendo o reflexo de várias décadas do desenvolvimento da arquitectura militar portuguesa, que levaram a uma profunda modificação em todos os sistemas defensivos marítimos no país, que se iniciou a partir da segunda metade do Século XVII, e só terminou durante o século seguinte.[1] Com efeito, a fortaleza apresenta uma forma muito simples, sendo apenas um quadrado com um terraço elevado virado para o oceano, com várias canhoneiras, exemplificando a mudança nas políticas militares após a Guerra da Restauração, em que se reduziu o interesse em grandes fortalezas costeiras, preferindo-se em vez disso a instalação de várias pequenas fortificações.[6] A resistência da sua construção e a sua localização estratégica fez com que tivesse permanecido relativamente intacta, enquanto que as restantes fortificações foram muito modificadas ou destruídas ao longo dos anos.[3]

Séculos XVIII e XIX[editar | editar código-fonte]

Segundo um documento de 1758, o Forte da Ponta da Bandeira foi muito danificada pelo Sismo de 1755, nessa altura já teria sido reparado.[7] Com efeito, nos programas de reconstrução das defesas após o sismo deu-se prioridade às estruturas de defesa, de forma a proteger as populações, com relatou o documento de 1758: «acha-se esta cidade no estado mais deplorável, que imaginar se pode não só por ser a que padeceu neste Reino o maior estrago, e por se achar exposta a qualquer invasão de inimigos que com facilidade se pode fazer na meia Praia por ter de longitude uma légua toda descoberta e sem defesa.».[7]

Em 1769, foi emitido um ofício sobre o estado geral em que se encontrava o forte, relatando que tinha sofrido danos devido à força das águas do oceano, e em 1805 um alvará do príncipe regente ordenou que o forte ficasse dependente da Praça Forte de Lagos.[2]

O forte funcionou durante cerca de um século, mas no Século XIX já mostrava sinais de decadência, pelo que em 1826 foi alvo de obras de restauro por parte do Ministério da Guerra, que no entanto apenas incidiram sobre as muralhas.[2] Em 1828, o forte albergou quarenta presos políticos, que foram depois levados para as prisões de Lagos e de Faro.[2] Num artigo do jornal O Panorama de 5 de Novembro de 1842 sobre a cidade de Lagos, é relatado que a fortaleza da Ponta da Bandeira funcionava igualmente como registo, e que tanto esta como a da Meia-Praia eram incapazes de defender eficazmente a baía, por não terem a guarnição e artilharia adequadas.[8] Em 1849, foi elaborada a relação dos trabalhos e o correspondente orçamento, para a instalação de um equipamento de suspensão para a ponte levadiça, documentos executados pelo major do Corpo de engenheiros, José da Silva Carvalho, e pelo capitão comandante interino do Material de Artilharia, Alexandre José de Barros.[2]

Fotografia da Praia do Cais da Solaria, publicada na Revista de Turismo, em 1916. O Forte da Ponta da Bandeira surge sem as guaritas circulares, instaladas apenas em 1956.

Séculos XX e XXI[editar | editar código-fonte]

No Século XX, o forte foi alvo de várias campanhas de obras, que levaram a grandes alterações na sua estrutura.[3] Uma das maiores intervenções foi iniciada em 1956, quando foi instalado um Centro Náutico da Mocidade Portuguesa, tendo sido reforçada a estrutura e profundamente modificado o interior, de forma a permitir a instalação de salas de ensino, arrecadações e outras funções.[3] O programa incluiu, entre outras obras, trabalhos de conservação na capela, eliminação de duas aberturas e obras de reparação da muralha, remoção de várias paredes no interior, construção de instalações sanitárias, fornecimento de electricidade, instalação de um monta-cargas para barcos no terraço, reconstrução dos pavimentos nos espaços interiores e exteriores e a construção de quatro guaritas em cantaria, uma em cada cunhal.[2] Foram criadas novas salas no interior, incluindo lavabos, arrecadações para material náutico, e uma sala de instrução e outra de estar.[2] As obras continuaram no ano seguinte, tendo sido feitos vários acabamentos e pavimentos, e continuada a instalação das redes de esgotos e fornecimento de água e electricidade.[2] As obras da rede eléctrica prolongaram-se até 1958.[2] Em 1960, foi instalado um pavimento de lajedo de pedra no pátio, aplicada cantaria nos muros, construído o fosso e a ponte levadiça, e montado um farolim na doca anexa ao forte.[2] Em 1970 foram executadas várias obras de manutenção, incluindo reconstrução de rebocos, substituição dos equipamentos sanitários e pintura de portas e da ponte levadiça, e no ano seguinte continuaram os trabalhos de reparação, tanto no interior como nas muralhas.[2]

Nos finais da Década de 1970, o forte foi vendido pelo Ministério do Exército à Câmara Municipal de Lagos, que sediou no seu interior o Centro de Estudos Marítimos e Arqueológicos de Lagos.[2] Posteriormente, várias salas foram aproveitadas para exposições temporárias,[3] e para um pólo museológico relativo aos Descobrimentos Portugueses,[1] e em 1994 foi instalado um restaurante.[2] Em 1996[2] e de 2002 a 2003[5] foram feitas novas obras de remodelação, tendo a intervenção de 1996 incluído a substituição de uma gárgula em pedra.[2] Na cobertura do forte foi organizada uma exposição de escultura, com as obras do artista lacobrigense José Maria Pereira.[1] Em 19 de Fevereiro de 2002, o Forte da Ponta da Bandeira foi classificado como Imóvel de Interesse Público.[4] Em 30 de Maio de 2019, o Dia do Consulado Alemão em Lagos foi celebrado no Forte da Ponte da Bandeira.[9]

Pátio no interior do forte, em 2006.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f g «Núcleo Museológico - Forte Ponta da Bandeira». Câmara Municipal de Lagos. Consultado em 21 de Outubro de 2019 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p q «Forte da Ponta da Bandeira / Fortaleza da Ponta da Bandeira / Forte de Nossa Senhora da Penha de França / Forte do Pau da Bandeira / Forte do Registo». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 21 de Outubro de 2019 
  3. a b c d e f g h i j k l m n o «Forte da Ponta da Bandeira, também denominado «Forte de Nossa Senhora da Penha de França», «Forte do Pau da Bandeira» ou «Forte do Registo»». Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 21 de Outubro de 2019 
  4. a b c PORTUGAL. Decreto n.º 5/2002, de 19 de Fevereiro. Ministério da Cultura, Publicado no Diário do Governo n.º 42, Série I-B, de 19 de Fevereiro de 2002].
  5. a b FERNANDES e Janeiro, 2005:38
  6. a b c d CONDE, Antónia Fialho; HENRIQUES, Maria Virgínia; GUIOMAR, Nuno Gracinhas (2011). A costa algarvia três séculos depois - O olhar entre a Geografia e a História (PDF). IV Simpósio LusoBrasileiro de Cartografia Histórica. [S.l.]: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. 4-5. ISBN 978-972-8932-88-6. Consultado em 25 de Outubro de 2019 
  7. a b Os Impactes do Tsunami segundo os documentos históricos (PDF). Direcção Nacional de Planeamento de Emergência / Núcleo de Riscos e Alerta. Estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis do Algarve. [S.l.]: Autoridade Nacional de Protecção Civil. 2010. p. 62. ISBN 978-989-8343-06-2. Consultado em 25 de Outubro de 2019 
  8. «Portugal XIV: Lagos» (PDF). O Panorama. 2.º Série - Volume 1 (45). 5 de Novembro de 1842. p. 353-354. Consultado em 21 de Outubro de 2019 
  9. PIRES, Bruno Filipe (7 de Junho de 2019). «Lagos celebrou Dia do Consulado Alemão». Barlavento. Consultado em 22 de Outubro de 2019 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FERNANDES, José Manuel e JANEIRO, Ana (2005). Arquitectura no Algarve (PDF). Dos Primórdios à Actualidade, Uma Leitura de Síntese. Faro: Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve. 155 páginas. ISBN 972-643-138-7. Consultado em 25 de Outubro de 2019 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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