Forte de São Filipe (Porto Martins)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Forte de São Filipe (Francisco Xavier Machado, 1772, ANTT).
Planta do Forte de São Filipe (Almeida Jr.; Damião Pego, 1881-1883).

O Forte de São Filipe, também referido como Forte de São Tiago, localizava-se na freguesia do Porto Martins, concelho da Praia da Vitória, na ilha Terceira, nos Açores.

Em posição dominante sobre este trecho do litoral, constituiu-se em uma fortificação destinada à defesa deste ancoradouro contra os ataques de piratas e corsários, outrora frequentes nesta região do oceano Atlântico. Cooperava com o Forte de São Fernando, o Forte de São Bento e o Forte de Nossa Senhora da Nazaré.

História[editar | editar código-fonte]

Foi uma das fortificações erguidas na Terceira no contexto da crise de sucessão de 1580 pelo então corregedor dos Açores, Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos, conforme o plano de defesa da ilha elaborado por Tommaso Benedetto em 1567, após o ataque do corsário francês Pierre Bertrand de Montluc ao Funchal (outubro de 1566), intentado e repelido em Angra no mesmo ano (1566):

"Não havia naquele tempo [Crise de sucessão de 1580] em toda a costa da ilha Terceira alguma fortaleza, excepto aquela de S. Sebastião, posto que em todas as cortinas do sul se tivessem feito alguns redutos e estâncias, nos lugares mais susceptíveis de desembarque inimigo, conforme a indicação e plano do engenheiro Tomás Benedito, que nesta diligência andou desde o ano de 1567, depois que, no antecedente de 1566, os franceses, comandados pelo terrível pirata Caldeira, barbaramente haviam saqueado a ilha da Madeira, e intentado fazer o mesmo nesta ilha, donde parece que foram repelidos à força das nossas armas." [1]

A seu respeito, DRUMMOND registou: "Na Ponta Negra edificou-se o forte de Nazaré, e logo adiante o de S. Tiago, que cruza, com o forte de São Bento, a enseada do Porto de Martim."[2]

Entretanto, o forte erguido à época, entre os da Nazaré e de São Bento, denominado como Forte de São Tiago, apresentava planta distinta do referido posteriormente, sob a invocação de São Filipe. Não sendo possível afirmar que o de São Filipe foi erguido sobre os restos do de São Tiago, e considerando-se que em fins do século XVI existiu uma fortificação sobre o porto, acredita-se que a localização do primitivo forte de São Tiago possa ter sido a este, sobre o ancoradouro de Porto Martins.

Com a instalação da Capitania Geral dos Açores, o seu estado foi assim reportado em 1767:

"19º Forte de S. Thiago. Foi feito de novo a fundamento, tem seis canhoneiras e duas peças de ferro boas com os seus reparos capazes, precisa de mais trez com os seus reparos, por não poder admittir mais; precisa para se guarnecer cinco artilheiros e vinte auxiliares."[3]

Encontra-se relacionado como "Forte de S. Filipe" no trabalho do capitão de Infantaria com exercício de Engenharia, Francisco Xavier Machado ("Revista dos fortes e redutos da ilha Terceira", 1772, atualmente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo), representado com planta pentagonal em cujos muros pelo lado do mar se rasgam cinco canhoneiras e se indica dependência de serviço no terrapleno, pelo lado de terra.

Encontra-se referido como "18. Forte de S. Tiago feito no tempo da campanha passada" no relatório "Revista aos fortes que defendem a costa da ilha Terceira", do Ajudante de Ordens Manoel Correa Branco (1776), que apenas assinala: "Este Forte careçe sóm.e de portáo, e hé de boa utilid.e p.ª a defeza."[4]

O forte terá sido reconstruído do início do século XIX, possívelmente compreendido na ação de reforço das fortificações costeiras empreendida pelo então Capitão-general dos Açores, Francisco António de Araújo e Azevedo, entre 1818 e 1820, no contexto da crise entre Portugal e Espanha em 1817, suscitada pela ocupação de Montevidéu na América do Sul.[5]

A "Relação" do marechal de campo Barão de Bastos em 1862 localiza-o na freguesia de Porto Martim, refere-o como "Forte de S. Thiago", e informa que se encontra incapaz desde muitos anos.[6]

O tombo de 1881 encontrou-o abandonado e em completa ruína.[7]

Em nossos dias restava apenas um pequeno troço de suas muralhas.

Características[editar | editar código-fonte]

Do tipo abaluartado, em 1772 apresentava planta pentagonal, com sete canhoneiras nos lados voltados ao mar, com a dependência de serviço pelo lado de terra. O Tombo de 1881 encontrou-o com planta retangular, em alvenaria de pedra, com 386 metros quadrados. Em seu terrapleno, à época, eram observados os restos de uma edificação de pequenas dimensões, possívelmente a casa da guarda.

Referências

  1. Anais da Ilha Terceira, tomo I, cap. IV.
  2. Anais da Ilha Terceira, tomo I, cap. IV.
  3. JÚDICE, 1767.
  4. Revista aos Fortes que Defendem a costa da Ilha Terceira - 1776 in IHIT.pt. Consultado em 3 dez 2011.
  5. Considere-se ainda que a própria designação da estrutura pode estar incorreta, uma vez que uma relação inédita de 1862 refere um Forte de São Tiago mas não um de São Filipe (Cf. nota de Manuel Augusto Faria ao tombo do Forte de São Filipe. in Tombos dos Fortes da Ilha Terceira. p. 129.).
  6. BASTOS, 1997:267.
  7. Damião Pego. "Tombos dos Fortes da Ilha Terceira".

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Anónimo. Colecção de todos os fortes da jurisdição da Villa da Praia e da jurisdição da cidade na Ilha Terceira, com a indicação da importância da despesa das obras necessárias em cada um deles (Arquivo Histórico Ultramarino). Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Vol. LI-LII, 1993-1994.
  • Anónimo. Revista aos Fortes que Defendem a Costa da Ilha Terceira – 1776 (Arquivo Histórico Ultramarino). Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Vol. LVI, 1998.
  • BASTOS, Barão de. "Relação dos fortes, Castellos e outros pontos fortificados que se achão ao prezente inteiramente abandonados, e que nenhuma utilidade tem para a defeza do Pais, com declaração d'aquelles que se podem desde ja desprezar." in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. LV, 1997. p. 267-271.
  • DRUMMOND, Francisco Ferreira. Anais da Ilha Terceira (fac-simil. da ed. de 1859). Angra do Heroísmo (Açores): Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1981.
  • JÚDICE, João António. "Revista dos Fortes da Terceira". in Arquivo dos Açores, vol. V (ed. fac-similada de 1883). Ponta Delgada (Açores): Universidade dos Açores, 1981. p. 359-363.
  • MACHADO, Francisco Xavier. Revista dos fortes e redutos da Ilha Terceira - 1772. Angra do Heroísmo (Açores): Secretaria Regional da Educação e Assuntos Sociais; Gabinete da Zona Classificada de Angra do Heroísmo, 1983. il.
  • MARTINS, José Salgado, "Património Edificado da Ilha Terceira: o Passado e o Presente". Separata da revista Atlântida, vol. LII, 2007. p. 42.
  • MOTA, Valdemar. Fortificação da Ilha Terceira. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. LI-LII, 1993-1994.
  • NEVES, Carlos; CARVALHO, Filipe; MATOS, Arthur Teodoro de (coord.). Documentação sobre as Fortificações dos Açores existentes nos Arquivos de Lisboa – Catálogo. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. L, 1992.
  • PEGO, Damião; ALMEIDA JR., António de. "Tombos dos Fortes da Ilha Terceira (Direcção dos Serviços de Engenharia do Exército)". in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. LIV, 1996.
  • VIEIRA, Alberto. "Da poliorcética à fortificação nos Açores: introdução ao estudo do sistema defensivo nos Açores nos séculos XVI-XIX". in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. XLV, tomo II, 1987.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]