Francisco Gros
Francisco Roberto André Gros ComMM (Rio de Janeiro, 21 de abril de 1942 – São Paulo, 20 de maio de 2010[2]) foi um economista brasileiro de ascendência francesa. Era filho de André Gros, diplomata francês que exerceu função de assessor junto à Corte Internacional de Justiça sediada em Haia, e de Dulce Simões Correia. Completou sua formação acadêmica em economia na Universidade de Princeton em 1964 e realizou estudos complementares na Universidade Columbia, nos Estados Unidos.[3][4]
Ocupou posições de relevo no setor público e privado ao longo de quatro décadas: foi diretor da Comissão de Valores Mobiliários (1977–1981), presidente do Banco Central do Brasil em duas ocasiões (1987 e 1991–1992), presidente do BNDES (2000–2002) e presidente da Petrobras (2002–2003). Defensor da independência do Banco Central e da abertura da economia brasileira, foi um dos principais negociadores da dívida externa brasileira junto ao FMI e ao Clube de Paris.[3]
Formação e início de carreira
[editar | editar código]Educado nos Estados Unidos, Gros concluiu seus estudos em economia pela Universidade de Princeton em 1964 e cursou aperfeiçoamento na Universidade Columbia, onde apresentou pesquisa versando sobre investimentos de origem estrangeira no Brasil. Regressou ao Brasil em 1967, iniciando sua atividade profissional no grupo de finanças Metropolitana, estabelecido em São Paulo.[3]
Em 1972, retornou aos Estados Unidos para laborar no setor internacional da Kidder, Peabody and Co., prestigiada intermediária na Bolsa de Nova York. Em 1975, acolheu o convite de Ronaldo César Coelho visando assumir função diretiva do Grupo Multiplic, estabelecido no Rio de Janeiro.[3]
Comissão de Valores Mobiliários
[editar | editar código]Em 1977, Gros passou a exercer o cargo de superintendente na área administrativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Sua gestão foi caracterizada por críticas diretas ao ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, sobre a autorização para alienação de expressivo volume de papéis da Vale do Rio Doce realizada em 1980, sem notificação aos operadores de bolsa fluminenses. Durante seu período na CVM, intensificou contatos com Mário Henrique Simonsen, ex-titular de importante cargo na administração da Bozano, Simonsen S.A., bem como com Marcílio Marques Moreira, profissional da diplomacia. Em setembro de 1981, pediu sua exoneração.[3]
BNDES e setor privado
[editar | editar código]De setembro de 1981 a junho de 1985, exerceu a função de diretor-executivo do Unibanco, no ramo de estruturação e colocação de capitais. Em julho de 1985, integrou a diretoria responsável pela comercialização de títulos do BNDES, onde gerenciou os procedimentos de desnacionalização das empresas Nova América e Mafersa e presidiu a transação de papéis da Petrobras pertencentes à instituição. No decorrer de sua atuação no BNDES, aproximou-se de Dílson Funaro, que era então presidente da instituição.[3]
Primeira presidência do Banco Central (1987)
[editar | editar código]Em fevereiro de 1987, Gros aceitou a incumbência que lhe dirigiu Funaro, que era então titular do Ministério da Fazenda, para ocupar a chefia do Banco Central, antes sob responsabilidade de Fernão Bracher. Ao tomar posse, explicitou seu propósito de conter a elevação especulativa dos custos de crédito e enfatizou a necessidade de estabelecer diretrizes monetárias transparentes e estáveis.[3]
Participante ativo nas negociações relativas à dívida externa, deslocou-se a Miami para participar de sessão da BID e principiar conversas referentes à moratória brasileira, instituída em 20 de fevereiro. Os fornecedores de crédito advertiram sobre a possibilidade de não revalidarem linhas de crédito de curto período e de intentarem procedimentos legais. Em abril, trasladou-se a Washington acompanhado do ministro da Fazenda para discutir renovação dos regimes de pagamento junto ao comitê provisório do FMI, sugerindo a ruptura da unicidade de representação dos devedores e negociações fragmentadas com grupos de bancos.[3]
Em abril de 1987, Funaro deixou o ministério, com Luís Carlos Bresser Pereira assumindo seu lugar. Em maio, Gros apresentou seu pedido de demissão. Na transferência de sua função a Fernando Milliet, argumentou a favor do estabelecimento de um Banco Central autônomo, cujo chefe e membros da gestão recebessem indicação do chefe da nação e aprovação do Senado.[3]
Aracruz Celulose
[editar | editar código]Em junho de 1987, passa a presidir a Aracruz Celulose, através de indicação do então presidente do BNDES, Márcio Fortes. Nos dois exercícios em que liderou a companhia, gerenciou a transação de papéis que permaneciam em poder do BNDES e o resultante aumento da participação privada na estrutura acionária. Em junho de 1989, afastou-se da Aracruz.[3]
Segunda presidência do Banco Central (1991–1992)
[editar | editar código]Após presidir o BFC Banco S.A., Gros recebeu indicação de Marcílio Marques Moreira, ministro da Economia da administração Collor, para retomar pela segunda oportunidade a presidência do Banco Central, em maio de 1991. A designação enfrentou contestação de representantes legislativos por ser acionista de entidade do mercado financeiro, porém conquistou parecer favorável da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Em sua alocução de posse, sublinharam a preservação da autonomia da instituição — referenciando-se ao modelo estadunidense — e a restrição de suas competências à supervisão da moeda, do crédito e das transações cambiais.[3]
Negociação da dívida externa
[editar | editar código]Gros capitaneou as negociações que resultaram em pactos junto ao Clube de Paris em 1992 e junto ao FMI no segundo semestre daquele ano. Adotou posição equilibrada nas conversações com os credores e questionou o procedimento fiscalizador ordinariamente empregado pelo FMI em relação a países em dificuldades. No mês seguinte, deslocou-se a Tóquio para restabelecer as relações com o Japão, prejudicadas pela inadimplência em relação aos débitos junto a instituições financeiras nipônicas.[3]
CPI e impeachment de Collor
[editar | editar código]Em julho de 1992, no desenrolar das averiguações da CPI acerca do envolvimento de Paulo César Farias em trama de desonestidade, Gros comunicou estar sob pressão de legisladores que o censuravam de atrasar perícias de contas financeiras, bem como de agentes da presidência que solicitavam a perícia de representantes legislativos. Advertiu a respeito da possibilidade de afastar-se caso se efetivasse a liberação de valores destinados a obstaculizar o procedimento de impeachment.[3]
Em julho de 1992, foi admitido pelo presidente Collor à Ordem do Mérito Militar no grau de Comendador especial.[1]
Em 30 de setembro, um dia após a Câmara aprovar a abertura do procedimento de impeachment, Gros apresentou sua carta de afastamento. Itamar Franco, ao tomar a presidência, ratificou sua permanência no cargo de forma transitória. Em outubro, Gros reiterou seu pedido de demissão por desacordo com o rumo da política monetária da nova administração, notadamente a pressão para elevar as remunerações reais dos depósitos. Em novembro de 1992, desligou-se completamente da presidência do Banco Central, tendo Gustavo Loyola como substituto.[3]
Morgan Stanley
[editar | editar código]Em novembro de 1993, ocupou a função de diretor-executivo do Morgan Stanley em Nova Iorque, responsável pela região da América Latina. Retornou ao Brasil em maio de 1997 quando a instituição financeira desejava envolver-se nas privatizações de empresas controladas pelo Estado.[3]
Em dezembro de 1995, o Banco Central procedeu à dissolução extrajudicial do BFC, instituição de que Gros era proprietário e dirigente. Tempos depois, em outubro de 1996, a Justiça fluminense ordenou o bloqueio patrimonial dos proprietários e gestores do banco para ressarcimento dos credores prejudicados.[3]
Presidência do BNDES (2000–2002)
[editar | editar código]Em fevereiro de 2000, Gros passou a comandar o BNDES, substituindo Andrea Calabi. Atuou como integrante da Câmara de Gestão da Crise de Energia e como diretor responsável pelo Comitê de Recomposição do Setor Elétrico. Adepto da liberalização econômica e das privatizações de estatais, sustentava que os programas de responsabilidade social da instituição necessitariam gerar retorno financeiro satisfatório, visto que contava com dotações orçamentárias derivadas de contribuições como PIS/PASEP e recursos do programa de amparo ocupacional (FAT). Permaneceu nesse cargo até 31 de dezembro de 2001, quando Eleazar de Carvalho Filho assumiu a sucessão.[3]
Presidência da Petrobras (2002–2003)
[editar | editar código]Em 2 de janeiro de 2002, sucedeu Henri Philippe Reichstul na presidência da Petrobras. Nos trabalhos de administração da estatal, foi entre os responsáveis pela adoção dos fundamentos de governança corporativa, vendo a questão como vital ante as debacles contábeis de potências corporativas norte-americanas. Afastou-se do cargo em 31 de dezembro de 2002, com José Eduardo Dutra como sucessor, já na período do governo Lula.[3]
Últimos anos
[editar | editar código]Após deixar a Petrobras, Gros exerceu funções executivas e participou de conselhos de administração em diversas corporações, entre elas Fosfertil, Ultrafertil, Lojas Renner, Globex Utilidades e Energias do Brasil. Participava também de conselhos consultivos de Air Liquide do Brasil, Scania Latin America, Câmara Americana de Comércio e The Nature Conservancy. Atuou como presidente da OGX, empresa de atuação no setor petrolífero pertencente ao grupo EBX criado pelo empresário Eike Batista.[3]
Morte
[editar | editar código]Faleceu em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, em 20 de maio de 2010, devido a complicações de câncer. Manteve casamento com Sandra Mattman, sua companheira, com a qual procriou três filhos: Francisco, Carlos e Alexandra.[3]
Referências
- ↑ a b Brasil, Decreto de 21 de julho de 1992.
- ↑ «Morre o economista Francisco Gros, ex-presidente do Banco Central e da Petrobras». O Globo. 20 de maio de 2010. Consultado em 18 de setembro de 2023
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t Lopes & Moraes 2001.
- ↑ «"Tínhamos um país para construir». Acervo Museu da Pessoa. Consultado em 5 de abril de 2022. Arquivado do original em 10 de novembro de 2021
Bibliografia
[editar | editar código]- Lopes, Gustavo; Moraes, Glória (2001). GROS, Francisco. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. [S.l.]: FGV/CPDOC
| Precedido por Fernão Carlos Botelho Bracher |
Presidente do Banco Central do Brasil de fevereiro até abril de 1987 |
Sucedido por Lício de Faria |
| Precedido por Ibrahim Eris |
Presidente do Banco Central do Brasil 1991 — 1992 |
Sucedido por Gustavo Loyola |
| Precedido por Andrea Sandro Calabi |
Presidente do BNDES 2000 — 2002 |
Sucedido por Eleazar de Carvalho Filho |
| Precedido por Henri Philippe Reichstul |
Presidente da Petrobras 2002 — 2003 |
Sucedido por José Eduardo Dutra |
- Nascidos em 1942
- Mortos em 2010
- Brasileiros de ascendência francesa
- Brasileiros de ascendência portuguesa
- Comendadores da Ordem do Mérito Militar
- Membros do Conselho Monetário Nacional
- Naturais da cidade do Rio de Janeiro
- Presidentes do BNDES
- Presidentes do Banco Central do Brasil
- Presidentes da Petrobras
- Alunos da Universidade de Princeton
- Alunos da Universidade Columbia
- Mortes por câncer no estado de São Paulo