Furtado Coelho

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Luís Cândido Furtado Coelho
Nome completo Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado Coelho
Nascimento 1831
Lisboa
Nacionalidade Portugal Portuguesa
Morte 1900 (69 anos)
Ocupação Músico, pianista, ator, ensaiador, empresário teatral e escritor dramático
Cônjuge Lucinda Simões

Luís Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado Coelho (Lisboa, 1831 - 1900) foi um ator, dramaturgo, compositor, pianista, poeta e empresário português que fez uma movimentada carreira principalmente no Brasil, obtendo grandes sucessos mas também enfrentando vários fracassos. Foi o pioneiro e o mais destacado defensor da estética realista e um dos maiores atores do teatro brasileiro no final do século XIX, período em que esta arte se tornava o mais popular entretenimento público e o mercado ainda era dominado pelos autores, atores e empresários portugueses.

Segundo Artur Azevedo, era de uma família nobre que o havia destinado à carreira diplomática,[1] e chegou a estudar engenharia,[2] mas em sua juventude se interessou pelas comédias realistas francesas.[3] Chegou ao Rio de Janeiro em 1856, associando-se logo ao Teatro Ginásio Dramático, onde trabalhou como ensaiador.[4] No mesmo ano publicou um importante artigo no Correio Mercantil defendendo o realismo e comentando a peça Le demi-monde, de Alexandre Dumas Filho, encenada em tradução como O mundo equívoco.[5]

Fez sua estreia como ator no ano seguinte, em temporada pelo Rio Grande do Sul. De volta ao Rio em 1858, foi contratado como primeiro ator do Ginásio, na companhia de Joaquim Heliodoro. Desligou-se em 1859 e instalou-se no ano sucessivo com uma companhia própria no Teatro de São Januário, passando a chamá-lo Teatro de Variedades.[3] Seu sucesso foi rápido, obtido através de aplaudidas interpretações em peças de Dumas Filho, Émile Augier, Octave Feuillet, Émile Zola e Théodore Barrière, tornando-se um sério rival para João Caetano, que até então era o grande astro da cena carioca. Seu estilo desencadeou uma polêmica com os defensores da escola romântica.[4][6][7][8] Joaquim Serra, em uma carta que escreveu ao artista, louvou-o assim:

"A arte dramática moderna, passando pelo crisol da escola realista, apurou-se e chegou ao supremo grau de perfeição. O furor da cólera, o êxtase do amor, tudo quanto a alma humana possui de terrível, doloroso e profundo, pode ser fielmente trazido para a cena sem os acrobatismos da escola romântica. Tu és o mais aproveitado dos sectários da nova escola. Triunfas porque és natural e verdadeiro; porque sente-se palpitar a fibra e bater a artéria quando pões em cena alguma paixão; porque estudas as dobras e refolhos do coração humano, sem essas terríveis contorções, que, tirando a elevação dos papéis, pode, quando muito, acreditar o artista como uma obra-prima de mecânica. Triunfas, porque não concedes um gesto à arte vulgar; não dás arras e nem fazes concessões a essas popularidades parvas e balofas, que degradam a arte. Não sacrificas a verdade ao efeito e nem a harmonia e ritmo de palavra, ao trovejar da voz, que desnatura a verdade".[4]

Em 1861 voltou para o Ginásio com uma nova companhia, a Sociedade Dramática Nacional, que encenava principalmente autores nacionais e teve um importante papel no estímulo à dramaturgia brasileira. Durante sua atuação, a Sociedade pagou trinta contos de réis em direitos autorais para os autores que contratou, uma grande fortuna.[9][10] Nesta época envolveu-se com Eugénia Câmara e em 1865 assumiu a direção do Ginásio.[4][6]

Fagundes Varela, Artur Azevedo e Machado de Assis eram grandes apreciadores do seu talento. Fagundes publicou um poema em sua homenagem no Correio Paulistano;[11] Artur disse que "na sua existência está compreendida a odisseia inteira do nosso teatro",[1] e Machado comentou sua aparição como Eugênio, no drama Cancros Sociais, de Maria Ribeiro: "É na alta comédia e no drama de sala que aquele artista tem feito a sua brilhante reputação; se alguma coisa faltasse para firmar-lha, bastaria para isso o seu último papel".[4] Sobre seu desempenho como Paulo de Chennevières em A Honra de uma Família, afirmou:

"O Sr. Furtado Coelho.... pintou o caráter de que estava encarregado com expressão e verdade. Teve cenas de verdadeira expansão, no segundo ato sobretudo. O que se nota neste artista, e mais que em qualquer outro, é a naturalidade, o estudo mais completo da verdade artística. Ora, isto importa uma revolução; e eu estou sempre ao lado das reformas. Acabar de uma vez com essas modulações e posições estudadas que fazem do ator um manequim hirto e empenado é uma missão de verdadeiro sentimento da arte. A época é de reformas, e a arte caminha par a par com as sociedades".[4]

Machado acabou por se tornar amigo e colaborador de Furtado, e para sua companhia traduziu as obras Suplício de uma Mulher, de Émile de Girardin e Dumas Filho (1865); O Anjo da Meia-noite, de Théodore Barrière e Édouard Plouvier (1866); O Barbeiro de Sevilha, de Beaumarchais (1866); A Família Benoiton, de Victorien Sardou (1867); e Como Elas São Todas, de Alfred de Musset (1868).[4]

No início da década de 1870, passado o apogeu dos grandes dramas e das comédias sofisticadas, Furtado se voltou para os gêneros mais ligeiros e populares, as operetas, as farsas e paródias, os melodramas e as revistas musicais, com seus cenários e efeitos cênicos extravagantes, uma vez que o público ora demonstrava grande interesse por eles, lotando as casas. Iniciou apresentando A Pera de Satanás e A Baronesa de Caiapó, e diante da excelente resposta do público, dedicou-se bastante a esse novo teatro. Atrás dessa seara, após Furtado surgiram vários outros empresários importantes, como Jacinto Heller, Dias Braga, Sousa Bastos e Braga Junior.[12][13][14]

Foi casado por alguns anos, desde 1872, com a atriz Lucinda Simões, também portuguesa, sendo pais de Lucília Simões. Com a esposa constituiu uma nova e aplaudidíssima companhia. Entre 1877 e 1879 arrendaram o Teatro Carlos Gomes, e entre 1880 e 1886 tiveram sede no Teatro Lucinda, no Rio de Janeiro. Ocasionalmente se apresentavam em outras companhias e teatros.[15][16][17][18] Entre os outros atores da troupe estavam Joaquim Augusto Ribeiro de Sousa e Gabriela da Cunha, todos portugueses e também importantes para a difusão da escola realista no Brasil.[4] Apolônia Pinto estreou sob sua direção.[18] No Rio conquistaram os favores da família imperial brasileira, tendo sido contratados como residentes da corte na temporada de 1886.[17]

Furtado criou e dirigiu muitas companhias, e com elas fez várias itinerâncias pelo Brasil e Europa, enriquecendo e falindo várias vezes.[1] Embora engajado com o realismo, por circunstâncias de mercado muitas vezes teve de deixar de lado seus ideais e conformar-se com um estilo mais popular.[19] Trabalhou até pouco antes de falecer, mas seu fim de carreira foi inglório, como registrou Alfredo Pujol:

"Lembra-me ter visto um dia, numa longínqua cidade do interior de São Paulo, o ator Furtado Coelho, velho e enfermo, dizendo monólogos a uma platéia de dez tostões a cadeira, num palco improvisado de sarrafos e aniagem. Doeu-me ver assim humilhado o eminente intérprete de Dumas Filho e Augier, o estupendo Olivier de Jalin, do Demi-monde, que os nossos salões de outrora tanto aplaudiram nos seus recitativos".[20]

Furtado também atuou como compositor, introduzindo nos saraus familiares e nas reuniões literárias a moda dos "recitativos", poemas declamados com acompanhamento musical composto para a ocasião. Compôs a música para o drama Dalila, de Octave Feuillet, fazendo sucesso nacional. Também foi autor da música da Grande Marcha Acadêmica, com letra de Eugénia Câmara, em homenagem aos estudantes de Direito paulistas. Inventou o copofone e foi pianista. Deixou ainda valsas e polcas publicadas pela Casa de Música Narciso & Arthur Napoleão, além de escrever poemas e recitativos, alguns libretos para óperas cômicas, como Cora (música de Chiquinha Gonzaga), e dramas, como O Remorso Vivo (em parceria com Joaquim Serra, musicado por Arthur Napoleão), Os Ciganos, O Agiota e Misérias Sociais.[12][21][22][23][24]

Referências

  1. a b c Azevedo, Artur. "Furtado Coelho". In: O Álbum, ano 1, nº 3, janeiro de 1893.
  2. Furtado Coelho. Núcleo de Pesquisas em Comunicação e Censura - USP
  3. a b Souza, Silvia Cristina Martins de. "O Teatro de São Januário e o Corpo Caixeiral: teatro, cidadania e construção de identidade no Rio de Janeiro oitocentista". In: Anais do XXIV Simpósio Nacional de História, Associação Nacional de História – ANPUH, 2007
  4. a b c d e f g h Faria, João Roberto."Machado de Assis e os estilos de interpretação teatral de seu tempo". In: Revista USP, n.77, São Paulo, mar./maio 2008
  5. Faria, João Roberto. "Machado de Assis - Tradutor de Teatro". In: Machado de Assis em linha, ano 3, número 6, dezembro 2010
  6. a b Souza, Silvia Cristina Martins de. "Cá Estou outra vez em Cena". In: História Social, Campinas, nº 12 151-181, 2006
  7. Magaldi, Sábato & Vargas, Maria Thereza. Cem Anos de Teatro em São Paulo. Senac, 2000, pp. 15-16
  8. Braz, Carlos Henrique. "Traídos pelo remorso". Veja Rio, 05 de Outubro de 2011
  9. Veneziano, Neyde. Espelho invertido. Disponível no blog da pesquisadora
  10. Magaldi, Sábato. "A verdade nua". Jornal de Resenhas da Folha de S.Paulo, 8 de março de 2003
  11. Fagundes Varela. Biblioteca Digital do Diário de Notícias
  12. a b Merisio, Paulo Ricardo. Influências da Indústria Cultural no Universo Circense Teatral na Década de 1970. Anais do V Congresso de Ciências Humanas, Letras e Artes. Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal de Ouro Preto, 2001.
  13. Faria, João Roberto. "Um Sólido Panorama do Teatro". In: Revista USP, n. 44, dezembro/fevereiro 1999-2000, pp. 345-346
  14. Prado, Décio de Almeida. História Concisa do Teatro Brasileiro: 1570-1908. EdUSP, 1999, pp. 105; 155
  15. Histórico. Teatro Carlos Gomes
  16. Faria, João Robert. A Recepção de Zola e do Naturalismo nos Palcos Brasileiros. Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, s/d., p. 2
  17. a b Silva, Ezequiel Gomes da. "De Palanque": as crônicas de Artur Azevedo no Diário de notícias (1885-1886). Cultura Acadêmica, 2011, pp. 57-58; 62; 83; 90; 175-176; 397
  18. a b Nascimento, José Leonardo do. "O Primo Basílio na cena teatral brasileira". In: Pro-Posições, v. 17, n. 3 (51) - set./dez. 2006
  19. Borges, Stephanie da Silva. Machado e Chico: dois dramaturgos no espelho da história. TCC de Letras. UFRGS, 2012, p. 17
  20. Pujol, Alfredo. Discurso de Recepção ao Acadêmico Cláudio de Sousa. Academia Brasileira de Letras
  21. Enciclopédia da Música Brasileira. Art Editora e PubliFolha, 2a. Edição, 1998
  22. Diniz, Edinha. Chiquinha Gonzaga, uma história de vida. Zahar, 2009, anexo
  23. Índices de Teatro dos Periódicos de Rafael Bordalo Pinheiro. CET - Universidade de Lisboa
  24. Freire, Vanda Lima Bellard. "Mágica: um gênero musical esquecido". In: Opus, nº 6, out. 1999