Gênero-fluido

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Bandeira do orgulho género-fluido

Entende-se que um indivíduo é fluido de gênero quando não identifica com um único papel de gênero ou identidade de gênero, mas em vez disso flui entre vários, ou cujo gênero é insólito ou muda de tempos em tempos.[1]

História[editar | editar código-fonte]

‎A palavra "genderfluid" está em uso desde pelo menos a década de 1990, porém com um significado um pouco diferente. O advogado transgênero Michael M. Hernandez escreveu em 1996:

‎Gênero-fluido significa que sua identidade de gênero e/ou expressão abrangem tanto ‎‎masculino‎‎ quanto ‎‎feminino‎‎. A fluidez de gênero está se tornando comumente conhecida como transgenerismo: a capacidade de transcender o gênero, seja biológico, emocional, político ou não; verdadeiramente misturando macho e fêmea.[2]

Fluidez de gênero[editar | editar código-fonte]

Geralmente a fluidez, fluidade, fluência ou fluxo se manifesta como uma transição entre homem e mulher ou nenhum dos binários, como agênero,[3] porém pode compreender outros gêneros, como maverique e neutrois, e pode até ser identificado com mais de um gênero simultaneamente, como é o caso de bigênero e pangênero.[4] É possível fluir entre os gêneros, como andrógine, que é muitas vezes definido como um intermediário de masculino e feminino.[5][6]

As pessoas gênero-fluidas podem sentir a mudança de identidade a longo ou em curto prazo, entre anos, meses, dias, etc. Também é um termo usado em sinonímia a genderqueer, ou ainda em alusão ao não-conformismo de gênero, como na androginia, porém nem todas as pessoas não-binárias ou não-conformes de gênero se veem como gênero-fluido.[7] A fluidez de gênero pode denotar uma expressão de gênero que seja fluida, mas não se aplica a todos os casos.[8][9] Também usa-se a palavra genderfluid, do inglês, como empréstimo léxico, assim como genderqueer.[10]

Saúde mental[editar | editar código-fonte]

A fluidez de gênero é tão saudável quanto qualquer outra identidade de gênero.[11] O fato, de a pessoa vivenciar diferentes gêneros, não significa que ela seja múltipla de pessoalidades ou subpersonalidades ou que tenha algum transtorno dissociativo ou de personalidade, a associação de gênero fluido a fragmentação dos traços de personalidade é um estereótipo de gênero, com viés de psicofobia e transfobia, pois está correlacionada com a patologização de identidades trans e estigmatização de transtornos mentais pela marginalização.[12] Um múltiplo pode ter eus com diferentes gêneros uns dos outros, o que não significa eles mudam de gênero individualmente ou que o corpo físico, que os eles pertencem, mude de gênero.[13] Mesmo assim, é possível que a neurodivergência de alguém esteja interligada com as noções interseccionais e perspectivas de gênero que ele tem, visando a autodeterminação identitária, o que não quer dizer que todos os neurodivergentes fluam ou sejam variantes de gênero.[14][15][16]

Disforia de gênero[editar | editar código-fonte]

A identidade fluida de gênero não implica em incongruências ou disforias de gênero fluidas. Pessoas altersexo podem ter uma disforia atípica de gênero, corporal ou social, sem necessariamente fluirem de gênero, enquanto quem flui pode ter pouca a nenhuma disforia, assim como outras pessoas trans.[17] Alguns indivíduos de gênero fluido consideram passar ou passam por transição de gênero, por meios de terapia hormonal ou cirurgia, enquanto outros podem não querer transicionar,[18] o que não significa que fluir para uma identidade ou expressão de gênero, tipicamente associada ao sexo atribuído no nascimento, seja uma destransição para quem passou pela transição previamente.[19]

Arte[editar | editar código-fonte]

Muitos transformistas fluem de gênero, muitas vezes impulsionados pela performatividade ou pelas suas expressões de gênero, como são drag queer e transgridem a binariedade de gênero, com apresentações mescladas de drag queen e king, incorporando androginia e neutralidade de gênero.[20] O personagem, performado pelo artista, pode ter seus próprios gêneros, que pode não ser o mesmo do artista, o que não significa que o artista fluiu de gênero ao interpretar o personagem.[21]

Ficção e mitologia[editar | editar código-fonte]

O transmorfismo (metamorfose) de Loki, mais especificamente na série de televisão da Marvel, foi confirmado como de gênero-fluido por Tom Hiddleston, intérprete da personagem, ao estrear no Disney+ em junho de 2021, mês do orgulho LGBT.[22] Na mitologia, Loki pode se transformar em mulher e em animais para ajudar outros deuses e cumprir certas tarefas.[23][24]

Referências

  1. «» Gênero-fluido». Consultado em 2 de fevereiro de 2020 
  2. Hernandez, Michael M. (1996). "Boundaries: Gender and Transgenderism". The Second Coming: A Leatherdyke Reader. [S.l.]: Alyson. OCLC 757653724 
  3. Villardo, Ronald. «O novo sexo: o 'gênero fluido' é homem um dia e mulher no outro...». Ronald Villardo - O Globo. Consultado em 2 de fevereiro de 2020 
  4. «Gênero fluido e sexualidade: entenda as variações possíveis». Revista Lado A. 23 de agosto de 2017. Consultado em 2 de fevereiro de 2020 
  5. «Shabbat 136 ~ The Tumtum, the Androgyne, and the Fluidity of Gender». Talmudology (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2021 
  6. Cytko, Elizabeth V. J. «Of Androgynes and Men: Gender Fluidity in Republican Rome». ERA (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2021 
  7. Retta, Marina Schnoor,Mary (18 de setembro de 2019). «Qual a diferença entre gênero não-binário, genderqueer e gênero não-conformista?». Vice. Consultado em 2 de fevereiro de 2020 
  8. «Gênero fluído: a autopercepção da construção de identidade de gênero fluido nos padrões normativos». www.psicologia.pt. Consultado em 2 de fevereiro de 2020 
  9. Marsh, Sarah; readers, Guardian (23 de março de 2016). «The gender-fluid generation: young people on being male, female or non-binary | Sarah Marsh and Guardian readers». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  10. «Genderfluid». Nonbinary Wiki (em inglês). Consultado em 2 de fevereiro de 2020 
  11. Raphaeli, Kara (2018). «Victorian Gender Fluidity: Performativity and Reception in A Florida Enchantment and Gabriel». Victorian Review (1): 131–146. ISSN 1923-3280. doi:10.1353/vcr.2018.0014. Consultado em 16 de maio de 2021 
  12. Davies, Robert D.; Davies, Madeline E. (fevereiro de 2020). «The (Slow) Depathologizing of Gender Incongruence». The Journal of Nervous and Mental Disease (2): 152–154. ISSN 1539-736X. PMID 31977826. doi:10.1097/NMD.0000000000001119. Consultado em 16 de maio de 2021 
  13. Duišin, Dragana; Batinić, Borjanka; Barišić, Jasmina; Djordjevic, Miroslav L.; Vujović, Svetlana; Bizic, Marta (2014). «Personality Disorders in Persons with Gender Identity Disorder». The Scientific World Journal. ISSN 2356-6140. PMC 4053264Acessível livremente. PMID 24959629. doi:10.1155/2014/809058. Consultado em 16 de maio de 2021 
  14. Lange, Rachel (22 de março de 2021). «Neurogender». QBurgh (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2021 
  15. «Gendervague: At the Intersection of Autistic and Trans Experiences». The Asperger / Autism Network (AANE) (em inglês). 29 de julho de 2016. Consultado em 16 de maio de 2021 
  16. «Gender and sexuality in autism, explained». Spectrum | Autism Research News (em inglês). 18 de setembro de 2020. Consultado em 16 de maio de 2021 
  17. PhD, Sabra L. Katz-Wise (3 de dezembro de 2020). «Gender fluidity: What it means and why support matters». Harvard Health (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2021 
  18. Finch, Sam Dylan (13 de agosto de 2015). «Not All Transgender People Have Dysphoria – And Here Are 6 Reasons Why That Matters». Everyday Feminism (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2021 
  19. «Do You Need Gender Dysphoria to Be Trans?». www.advocate.com (em inglês). 18 de janeiro de 2019. Consultado em 16 de maio de 2021 
  20. Hypeness, Redação (3 de dezembro de 2018). «Esta página criou um guia ilustrado de nomenclaturas LGBTI pra ninguém mais se confundir». Hypeness (em inglês). Consultado em 16 de maio de 2021 
  21. Pernambuco, Diario de; Pernambuco, Diario de (27 de outubro de 2017). «Drag Queer: o corpo como arte e ferramenta de autoconhecimento». Diario de Pernambuco. Consultado em 16 de maio de 2021 
  22. «Loki é confirmado como gênero-fluido no MCU; entenda o que significa». IGN Brasil. 9 de junho de 2021. Consultado em 18 de agosto de 2021 
  23. «Marvel confirma Loki como gênero fluido». Canaltech. 8 de junho de 2021. Consultado em 18 de agosto de 2021 
  24. Gurley, Alex. «Loki Is Confirmed To Be Genderfluid In The Disney+ Series And Here's What The Director Had To Say About It». BuzzFeed (em inglês). Consultado em 18 de agosto de 2021 

Links externos[editar | editar código-fonte]