Gabriel Naudé

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Gabriel Naudé

Gabriel Naudé, (nascido em 2 de fevereiro de 1600 e falecido em 10 de julho de 1653 em Abbeville), foi um escritor político e bibliotecário francês.

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Nascido em Paris, no ano de 1600, Naudé inicia sua formação cursando medicina, abandonando-a em seguida. Durante a maior parte da vida, dedicou os estudos principalmente à reflexão política, sem todavia se limitar às realizações teóricas: membro da intelectualidade francesa da época e homem de gabinetes, o autor dá início em 1622 a sua carreira de bibliotecário, em função da qual viajaria a Roma e viria a servir aos cardeais Bagni e Barberini, entre 1631 e 1642. De volta a Paris, assumiria a biblioteca do cardeal Mazarino (sucessor de Richelieu), trabalho que exerceria até falecer, em 1653.

Distante de sistemas filosóficos estruturalmente rígidos e inflexíveis, a obra de Naudé deve ser dividida basicamente entre os primeiros escritos e os posteriores trabalhos de maturidade. Limitada principalmente a panfletos políticos e críticas a contextos particulares, a fase inicial da produção textual do autor oferece destaque ao livro Advis pour dresser une bibliothèque, de 1627.

Posteriormente, a partir da confecção de Addition à l'Histoire de Louis XI (1630), tem início a fase mais fecunda dos escritos de Gabriel Naudé, que passa por textos como Bibliographia politica (1633), até culminar em sua obra mais importante: Considérations politiques sur les coups d'Etat (1639).[1]

Golpes de Estado[editar | editar código-fonte]

Importante teórico da tratadística da razão de Estado no séc. XVII, é na principal obra de Naudé, Considérations politiques sur les coups d'Etat, que surge uma das primeiras definições ao conceito de golpe de Estado. Nas palavras de Eugênio Gonçalves:

Para compreender a idéia naudeana de golpe de Estado, primeiramente é necessário afastar da expressão o sentido que lhe é atribuído na contemporaneidade, compreendendo que a definição do autor difere da concepção atual. Atualmente, o termo se refere particularmente à apropriação (muitas vezes ilegítima) do poder institucionalizado através da violência. Para Naudé, porém, a noção apresenta um campo de sentido muito mais amplo.[1]

Momento fundamental na preservação de um Estado, o autor define os golpes de Estado como

(...) ações audazes e extraordinárias que os príncipes se vêem obrigados a executar no acometimento de empreitadas difíceis, beirando o desespero, contra o direito comum, e sem guardar qualquer ordem ou forma de justiça, colocando em risco o interesse de particulares pelo bem geral.[2]

Bibliotecário[editar | editar código-fonte]

Trabalhou para o Cardeal de Bagni e Cardeal Francesco Barberini em Roma, e depois para o Cardeal Richelieu e Cardeal Mazarino, criando uma biblioteca que foi a base para a atual Biblioteca Mazarino. Percorrendo a Europa durante dez anos, ajudou Mazarino comprando mais de 40.000 volumes entre os quais se encontra uma formidável coleção de manuscritos. Naudé é célebre por ter redigido o Advis pour dresser une bibliotèque, que é o primeiro manual de biblioteconomia francês e mundial. Nesta obra ele propôs uma série de inovações nas bibliotecas que teriam uma grande repercussão posterior:

1.- Criação de um bibliotecário profissional. Segundo Naudé, deviam ser pessoas cultas com formação específica na elaboração de instrumentos bibliotecários de controle e ordenação de fundos a serviço da cultura e da ciência.

2.- Assentamento das técnicas de descrição bibliográfica, tanto para catálogos como para repertórios bibliográficos, para fazer frente ao crescimento das coleções; a memória resulta numa estratégia insuficiente de controle.

3.- Ordenação dos fundos por matérias.

4.- Dar preferência ao conteúdo do livro e não a sua aparência exterior (ideia já proposta por Leibniz em sua fase profissional de bibliotecário).

5.- Importância das instalações e da distribuição dos móveis: estantes afastadas das paredes, espaços iluminados por luz natural, os livros não mais estariam acorrentados, etc...

6.- Necessidade de dotar as bibliotecas de um pressuposto permanente para a compra de livros, para ter uma coleção com o maior número de obras e autores.

7.- Abertura das bibliotecas ao público, estabelecendo horários de acesso, que seria a semente para o ressurgimento das bibliotecas públicas no século XIX.

Obras[editar | editar código-fonte]

  • Le Marfore ou discours contre les libelles. Paris, 1620.
  • Instruction à la France sur la Verité de l'Histoire des Frères de la Roze-Croix... Paris: Chez François Julliot, 1623.
  • Apologie pour tous les grands personnages qui ont esté faussement soupçonnez de magie. 1625, La Haye: Chez Adrian Vlac, 1653.
  • Advis pour dresser une bibliothèque. Primeira edição em 1627, re-edição em 1644.
  • De antiquitate et dignitate scholae medicinae parisiensis. Paris, 1628.
  • Addition à l'histoire de Louis XI. Primeira edição em 1630. Edição contemporânea Fayard, 1999. - 196 p.; 23 cm. - (Corpus des œuvres de philosophie en langue française) D'après le texte de la 1ère éd. (1630). ISBN 2-213-60179-8
  • Considérations politiques sur les coups-d'état. Primeira edição em 1639. Edição contemporânea Le Promeneur. - ISBN 2-07-077275-6
  • Pentas quaestionum iatrophilologicarum, Gênova (?), Chouet, 1647. - 12ø.

Até o momento não existe nenhuma tradução das obras de Gabriel Naudé para o português. Há, porém, um estudo brasileiro sobre a teoria do autor sobre os golpes de Estado:

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • a b Gonçalves, Eugênio Mattioli (2015). Prudência e razão de Estado na obra de Gabriel Naudé (PDF) (São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo). p. 33. Consultado em 10 de maio de 2016. 
  • Naudé, Gabriel (1993). Considérations politiques sur les coups d'Etat (Hildesheim: Georg Olms). p. 65.