Ganhar para dar

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Ganhar para dar é uma estratégia para fazer o bem. Trata-se de prosseguir, deliberadamente, uma carreira de elevados rendimentos e doar uma parcela significativa desse rendimento, normalmente a causas que se pensa serem altamente eficazes.[1][2] É uma estratégia importante do altruísmo eficaz, isto é, uma estratégia que visa o impacto positivo mais elevado possível no mundo.[1][2]

Os defensores de "ganhar para dar" por vezes vezes sugerem que maximizar a quantidade que se pode doar à caridade é uma consideração importante ao decidir que carreira seguir. Por exemplo, pode levar as pessoas a escolher por motivos altruístas uma carreira como as finanças, onde particularmente poderão ganhar grandes somas de dinheiro para que possam doar mais à caridade, mesmo que essa carreira em particular lhes interesse um pouco menos.[3][4][5]

A organização de altruísmo eficaz de aconselhamento de carreiras, a 80.000 Hours, argumenta que ganhar para dar é apenas uma das muitas maneiras possíveis de se envolver no altruísmo eficaz, e que muitas pessoas podem ser mais indicadas para assumir um emprego principalmente pelo seu impacto directo, seja numa organização com ou sem fins lucrativos.[6]

História[editar | editar código-fonte]

Ganhar para dar tem um precedente histórico no dízimo (um sistema em que as pessoas doam determinada percentagem fixa do seu rendimento à caridade), mas vai além do dízimo no importante aspecto seguinte: enquanto o dízimo significa simplesmente que as pessoas dão uma fracção daquilo que ganham à caridade, os defensores de "ganhar para dar" por vezes sugerem que maximizar a quantidade que se pode doar à caridade é uma consideração importante ao decidir que carreira seguir.

Ganhar para dar foi proposto por muitas pessoas interessadas em ética e altruísmo, e não é claro quem o descreveu primeiro.[4][7] A ideia principal foi descrita no livro de 1996 Living High and Letting Die de Peter Unger, onde ele escreveu que era moralmente louvável, e talvez até moralmente necessário, que as pessoas do mundo académico, que poderiam ganhar salários substancialmente maiores no mundo dos negócios, deixassem a academia, ganhassem os salários maiores e doassem à caridade a maior parte do dinheiro extra.[7] Brian Tomasik escreve que começou a pensar sobre intermutabilidade em Dezembro de 2004 e de forma independente apresentou as ideias de base do ganhar para dar (inspirado na escrita do co-fundador da Vegan Outreach, Jack Norris), mas acredita que muitos outros também apresentaram a ideia; Kaufman acredita que Tomasik foi o primeiro a escrever publicamente sobre a ideia.[4][7][8]

O nome "ganhar para dar" parece ter sido proposto por Tomasik num grupo de discussão via e-mail em resposta a um post no blogue de ​​Jeff Kaufman, pedindo um bom nome para a ideia para substituir "filantropia profissional" — o nome usado pela 80.000 Hours.[7][9]

Considerações[editar | editar código-fonte]

Ganho Potencial e intermutabilidade[editar | editar código-fonte]

Um argumento estilizado a favor de ganhar para dar, considera duas opções:[1][2][4][10]

  • Trabalhar numa organização sem fins lucrativos por 30 000 dólares por ano para ter impacto social positivo directamente, ou
  • Trabalhar em finanças para ganhar 100 000 dólares por ano, ficar com 40 000 dólares para despesas pessoais e doar os restantes 60 000 dólares à caridade mais eficiente que conhecer.[4]

Os defensores de ganhar para dar argumentam que a segunda opção permitiria que a organização sem fins lucrativos contratasse duas pessoas em vez de apenas ter os serviços de uma pessoa, ou fazer outras despesas eficazes.

Um aspecto essencial neste contexto é a diferença de rendimento potencial entre o melhor trabalho sem fins lucrativos disponível e a opção de elevado rendimento disponível. Para algumas pessoas que são naturalmente indicadas para fazer dinheiro em finanças ou outras carreiras lucrativas, a diferença de potencial de rendimento pode ser muito acentuada, e o caso de ganhar para dar é forte.

Outra consideração é a intermutabilidade no trabalho sem fins lucrativos observado. Quanto melhor é uma pessoa no trabalho sem fins lucrativos, em comparação com a substituição contrafactual se a pessoa trabalhasse em finanças, e quanto maior o impacto directo desse trabalho, mais forte é o caso contra a escolha da opção "ganhar para dar".

A perspectiva da vantagem comparativa[editar | editar código-fonte]

A escolha de se envolver, ou não, em ganhar para dar pode ser vista a partir da perspectiva da vantagem comparativa: deve-se fazer o trabalho em que o diferencial relativo às substituições contrafactuais é o máximo. Assim, mesmo se uma pessoa é melhor tanto no trabalho sem fins lucrativos como no trabalho em empregos com altos salários, relativamente a outras pessoas em trabalhos semelhantes, a vantagem comparativa pode ser usada para determinar se a trabalhar directamente para uma organização sem fins lucrativos (ou numa com fins lucrativos que tem impacto social directo) é melhor, ou pior, do que ganhar para dar.

Sensibilidade a crenças sobre o custo-eficácia de instituições de caridade[editar | editar código-fonte]

Com nas doações, é possível optar por doar à melhor instituição de caridade ou à mais custo-eficaz (por exemplo, no sentido de ter um baixo custo por vida salva se a instituição trabalha para salvar vidas, como a Against Malaria Foundation faz), ao passo que as opções das instituições de caridade em que se poderia ser capaz de trabalhar directamente podem ser mais limitadas, e pode não ser possível trabalhar na instituição de caridade mais custo-eficaz. Assim, quanto mais custo-eficaz se acredita que as melhores instituições de caridade sejam (em relação ao custo-eficácia de instituições de caridade em que se poderia ser capaz de trabalhar) mais forte é o caso de ganhar para dar.

Praticantes[editar | editar código-fonte]

Um número de pessoas que praticam o ganhar para dar foram retratadas na cobertura dos meios de comunicação sobre o assunto:

Discussão[editar | editar código-fonte]

Em Fevereiro de 2013, William MacAskill (anteriormente Will Crouch) escreveu um artigo para o Quartz argumentando sobre ganhar para dar como uma das muitas alternativas para os altruístas eficazes considerarem, com um foco particular sobre as finanças, como uma possível carreira de "ganhar para dar".[19] MacAskill apresentou três argumentos a favor de ganhar para dar: (i) a alta variação entre o custo-eficácia nas instituições de caridade (como discutido acima) faz com que ganhar para dar às melhores instituições de caridade seja uma opção mais atraente do que trabalhar numa organização sem fins lucrativos típica, (ii) os salários em finanças são consideravelmente mais elevados do que os salários em outras áreas, (iii) a maioria dos empregos no sector de organizações sem fins lucrativos têm um alto grau de intermutabilidade (discutido acima).

Em Abril de 2013, Ben Kuhn escreveu um post dando razões para a desqualificação da sua avaliação de "ganhar para dar" como filantropia ideal.[20] Kuhn citou um recente post no blogue da ​​GiveWell sugerindo que a maioria das intervenções promissoras já haviam sido financiadas pelos grandes doadores.[21] Bem como a auto-avaliação da GiveWell [22] e outras evidências, sugerindo que as organizações sem fins lucrativos tinham dificuldade em recrutar pessoal de qualidade.

Um post de ​​Dylan Matthews no blogue do Washington Post sobre ganhar para dar, foi publicado em Maio de 2013.[11] Esse post retratava alguns indivíduos, como o engenheiro da Google, Jeff Kaufman e a sua esposa Julia Wise e o financista Jason Trigg, que tinham escolhido o caminho de "ganhar para dar". Em resposta, Joe Carter argumentou no blogue Acton Institute que as pessoas que escolheram o caminho de "ganhar para dar", tinham duas vocações: estavam a fazer o bem, tanto em termos do valor que geravam através do trabalho que os levou a ganhar dinheiro, como no valor que geravam por doar parte dessa riqueza. Carter ressaltou que não se deve subestimar a primeira forma de criação de valor, a fim de glorificar o último.[14] David Brooks fez críticas semelhantes na sua coluna de opinião no New York Times.[13] Brooks argumentou que, embora os altruístas pudessem começar a "ganhar para dar" para realizar os seus compromissos mais profundos, os seus valores poderiam corromper-se ao longo do tempo, tornando-se progressivamente menos altruístas. Além disso, Brooks opôs-se ao ponto de vista no qual os altruístas devem transformar-se "numa máquina para a redistribuição da riqueza". Independentemente, Ben Kuhn escreveu um post no seu blogue a discutir e a abordar algumas das objecções levantadas nos comentários sobre o post no blogue do Washington Post.[23] Reihan Salam também defendeu o ganhar para dar contra críticas de Dana Goldstein e expôs algumas considerações relevantes que complicaram a análise.[24]

Em Junho de 2013, num post para o LessWrong, Jonah Sinick, ex-analista da GiveWell, delineou uma série de considerações que pesavam contra "ganhar para dar" ser uma boa estratégia para o tipo de pessoas às quais estava a ser promovida.[25] As principais razões de Sinick incluíam (i) a direcção das estimativas anteriores da GiveWell sobre o custo-eficácia de instituições de caridade apontarem para o pessimismo, sendo a estimativa actual que uma vida poderia ser salva por 2 300 dólares pela Against Malaria Foundation, a melhor instituição de caridade da classificação, (ii) a relativa escassez de pessoas com altos rendimentos em finanças ou carreiras lucrativas semelhantes, e a alta probabilidade de que essas pessoas, a menos que especificamente indicadas para essa carreira lucrativa específica, também teriam fortes habilidades transferíveis que poderiam ser usadas ​​para fazer directamente o bem em trabalhos com ou sem fins lucrativos, e (iii) uma crença de que valores muito elevados de esforços humanitários exigem trabalhadores altamente qualificados e altamente motivados, sugerindo um menor grau de intermutabilidade, tornando assim a acção directa no trabalho de alto impacto relativamente mais atraente para os indivíduos qualificados e motivados em comparação com ganhar para dar. A 80.000 Hours publicou um post em resposta.[26]

No final de Junho de 2013, a GiveWell publicou um post no blogue sobre como ganhar para dar.[27]

Alguns altruístas eficazes, tais como MacAskill e Benjamin Todd, têm respondido ao argumento de que as carreiras com altos salários, como nas finanças, envolverem muito comportamento anti-ético, argumentando que a probabilidade do envolvimento em comportamento anti-ético no qual os nossos substitutos contrafactuais não se teriam envolvido é baixo, ao passo que o impacto marginal de doações é alto.[28][10]

Uma série de outros posts sobre intermutabilidade informaram a discussão sobre ganhar para dar.[29][30] Também existem muitos resumos on-line do estado actual da discussão.[31][32]

Cobertura dos meios de comunicação[editar | editar código-fonte]

A estratégia ganhar para dar foi discutida numa série de notícias e meios de comunicação, incluindo a BBC News,[33] o Quartz,[19] o Washington Post,[11] o New York Times,[13] e a Aeon Magazine.[34]

Veja também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c «Earning to give». 80,000 Hours. Consultado em 4 de julho de 2013 
  2. a b c Hurford, Peter (26 de junho de 2013). «What is earning to give?». Centre for Effective Altruism. Consultado em 4 de julho de 2013 
  3. a b Kristof, Nicholas (4 de Abril de 2015). «The Trader Who Donates Half His Pay». New York Times. Consultado em 10 de Abril de 2015 
  4. a b c d e Tomasik, Brian (3 de Março de 2014). «Why Activists Should Consider Making Lots of Money». Consultado em 18 de Março de 2014 
  5. Crouch, Will (22 de novembro de 2011). «Banking as an ethical career». Consultado em 4 de julho de 2013 
  6. MacAskill, William ( Julho 6, 2015). 80.000 Hours thinks that only a small proportion of people should earn to give long term. 80.000 Hours. Consult. Janeiro 30, 2016.
  7. a b c d Kaufman, Jeff (18 de Setembro de 2012). «History of "Earning to Give"». Consultado em 18 de Março de 2014 
  8. Tomasik, Brian (20 de setembro de 2007). «Making Money and Making Change Not Mutually Exclusive» (PDF). The Phoenix (Swarthmore College student newspaper). Consultado em 18 de março de 2014 
  9. Kaufman, Jeff (15 de Agosto de 2012). «Professional Philanthropy». Consultado em 18 de Março de 2014 
  10. a b MacAskill, William (Abril de 2014). «Replaceability, career choice, and making a difference». Ethical Theory and Moral Practice. 17 (2): 269-283. doi:10.1007/s10677-013-9433-4 
  11. a b c d e Matthews, Dylan (31 de maio de 2013). «Join Wall Street. Save the world.». Washington Post. Consultado em 4 de julho de 2013 
  12. Smith, Wesley (5 de Abril de 2015). «Nicholas Kristof Shouldn't Follow Peter Singer». National Review. Consultado em 11 de Abril de 2015 
  13. a b c Brooks, David (3 de junho de 2013). «The Way to Produce a Person». The New York Times. Consultado em 16 de outubro de 2013 
  14. a b Carter, Joe (6 de junho de 2013). «The Vocation of Earning-to-Give Donor». Consultado em 4 de julho de 2013 
  15. «The young professionals who believe their best chance at trying to save the world is by joining Wall Street and making millions». Daily Mail. 2 de Junho de 2013. Consultado em 11 de Abril de 2015 
  16. «Julia Wise and Jeff Kaufman». Bolder Giving. Junho de 2013. Consultado em 11 de Abril de 2015 
  17. Kaufman, Jeff. «Earning to Give» 
  18. Wise, Julia (2 de Junho de 2013). «What's it like to give half?». Consultado em 11 de Abril de 2015 
  19. a b MacAskill, William (27 de fevereiro de 2013). «To save the world, don't get a job at a charity; go work on Wall Street». Quartz. Consultado em 4 de julho de 2013 
  20. Kuhn, Ben (5 de abril de 2013). «Downgrading confidence in earning to give». Consultado em 4 de julho de 2013 
  21. Karnofsky, Holden (21 de março de 2013). «Trying (and failing) to find more funding gaps for delivering proven cost-effective interventions». GiveWell. Consultado em 4 de julho de 2013 
  22. «Self-evaluation: GiveWell as a project». GiveWell. 16 de fevereiro de 2012. Consultado em 4 de julho de 2013 
  23. Kuhn, Ben (1 de junho de 2013). «Common objections to earning to give». Consultado em 4 de julho de 2013 
  24. Salam, Reihan (31 de maio de 2013). «The Rise of the Singerians». National Review. Consultado em 26 de novembro de 2013 
  25. Sinick, Jonah (2 de junho de 2013). «Earning to Give vs. Altruistic Career Choice Revisited». LessWrong. Consultado em 4 de julho de 2013 
  26. Todd, Benjamin (10 de junho de 2013). «Why Earning to Give is often not the best option». 80,000 Hours. Consultado em 4 de julho de 2013 
  27. Karnofsky, Holden (26 de junho de 2013). «Our take on "earning to give"». Consultado em 4 de julho de 2013 
  28. Todd, Benjamin. Which ethical careers make a difference? (Master's thesis) 
  29. Christiano, Paul (22 de Janeiro de 2013). «Replaceability». Consultado em 18 de Março de 2014 
  30. Kuhn, Ben (15 de Janeiro de 2014). «Replaceability arguments are overblown». Consultado em 18 de Março de 2014 
  31. Hurford, Peter (26 de Junho de 2013). «What Is earning to give?». Effective Altruism blog. Consultado em 21 de Março de 2014 
  32. Stafforini, Pablo. «Earning to give: an annotated bibliography». Consultado em 21 de Março de 2014 
  33. Coughlan, Sean (21 de novembro de 2011). «Banking 'can be an ethical career choice'». BBC News. Consultado em 4 de julho de 2013 
  34. Southan, Rhys (20 de Março de 2014). «Is it OK to make art? If you express your creativity while other people go hungry, you're probably not making the world a better place». Aeon Magazine. Consultado em 21 de Março de 2014 

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