Gaspar Barreiros

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa

Gaspar Barreiros (Viseu, c. 1515/1516Convento de São Francisco de Órgens, Viseu, 6 de Agosto de 1574) foi um clérigo e erudito português do séc. XVI, que se notabilizou sobretudo pela sua obra genealógica e geográfica. A par de Xisto Tavares e Damião de Góis, Gaspar Barreiros foi o mais antigo genealogista português, depois dos medievais conde D. Pedro de Barcelos e os autores dos Livro Velho e Livro do Deão.[1] É também considerado um dos melhores geógrafos do seu tempo.[2]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Autor do manuscrito genealógico «Verdadeira Nobreza ou Linhagens Antigas de Portugal»,[3] ainda infelizmente por publicar, o Doutor Gaspar Barreiros era meio sobrinho materno do grande historiador João de Barros e no final da sua vida, em inícios de 1574, foi chamado para continuar as «Décadas» de seu tio, mas declinou, por se sentir doente.[4]

Apenas com 9 anos de idade, Gaspar Barreiros foi provido com um canonicato na Sé de Viseu.[4] Veio depois a doutorar-se em Teologia na Universidade de Salamanca, onde também estudou Retórica e Aritmética. Foi então tomado como fidalgo da Casa do cardeal infante D. Henrique, com quem viveu 25 anos. Quando o infante foi feito cardeal, Gaspar Barreiros foi por ele enviado a Roma, onde esteve entre 1543 e 1548, como seu embaixador e agente de negócios de Portugal, tendo privado com os cardeais Pedro Bembo e Jacobo Sadoleto.

Regressado a Portugal, foi em 1549 feito cónego doutoral da Sé de Évora e inquisidor desta cidade. Mas pouco depois renunciou o canonicato em seu irmão Lopo de Barros, abade de Tavares, que depois foi deão da Sé de Leiria. Voltou a Roma, donde enviou a 15 de Junho de 1549 uma carta ao Cabido de Viseu sobre a sua partida para o Santa Sé.[5] Por bula do Papa Júlio III de 7 de Março de 1552 foi confirmado como cónego prebendado da Sé de Viseu.[5]

Por influência do futuro São Francisco de Borja, duque da Gandia, entrou para a Companhia de Jesus, em Roma, em 1561. Mas lembrando-se que fizera voto de ser franciscano, alguns meses mais tarde pediu ao Papa Pio IV autorização para abandonar os Jesuítas e tomar o hábito de São Francisco, o que fez a 30 de Abril de 1562, no convento de Ara Celi, adoptando então o nome de Frei Francisco Barreiros.

Voltou depois a Portugal, sendo professor de Teologia nos conventos da ordem em Santarém, Alenquer, Viseu e Lamego. Nos inícios de 1574, por se sentir doente, recolheu ao convento de São Francisco de Órgens, em Viseu, onde nesse mesmo ano faleceu.

Família[editar | editar código-fonte]

Gaspar Barreiros era irmão do Dr. Lopo de Barros, abade de Tavares, cónego da Sé de Évora e deão da Sé de Leiria, e do Doutor António Barreiros de Seixas.

Eram todos filhos Rui Barreiros de Seixas, cavaleiro fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo, e nesta ordem comendador de Stº André de Pinhel, que por várias vezes presidiu à Câmara de Viseu (1503, 1511 e 1515) e foi juiz dos órfãos (13 de Fevereiro de 1538), recebedor das sisas (2 de Junho de 1518) e contador do almoxarifado desta cidade,[6] e de sua mulher e prima Maria de Barros, meia-irmã do historiador João de Barros, autor das «Décadas». Com efeito, o historiador era filho natural de Lopo de Barros, cavaleiro fidalgo da Casa Real, corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana (15 de Janeiro de 1499), ouvidor do rei na Covilhã (22 de Janeiro de 1496), corregedor e juiz de fora em Évora (12 de Novembro de 1499), capitão de quatro navios na tomada de Arzila, etc,[7] sendo Maria de Barros sua filha legítima, havida do seu casamento em Viseu com Leonor Dias de Figueiredo.

Rui Barreiros de Seixas era filho de Rui Barreiros, senhor da honra e quintã de Barreiros, em Viseu, e de sua segunda mulher Filipa de Seixas.

Obra[editar | editar código-fonte]

Foi autor de vasta bibliografia, principalmente de ordem geográfica, histórica e genealógica:

  • «Chorographia de alguns lugares que stam em hum caminho que fez Gaspar Barreiros ó anno de MDXXXXVJ começado na cidade de Badajoz em Castella te á de Milam em Italia ; co alguas outras obras cujo catalogo vai scripto com os nomes dos dictos lugares na folha seguinte. - Em Coimbra : por Ioã Aluarez, & por mandado do doctor Lopo de Barros do Desembargo dªel rei nosso senhor & conego da Se dªEuora, 1561». BNP.
  • «Commentarius de Ophyra Regione apud diuinam scripturam comemorata, vnde Salomoni Iudaeorum regi inclyto, ingens, auri, argenti, gemmarum, eboris, aliarumq, rerum copia apportabatur / Gaspare Varrerio Lusitano autore. - Conimbricae : per Ioannem Aluaru, 1561». BNP.
  • «Censuras de Gaspar Barreiros sobre quatro liuros intitulados em M. Portio Catam De Originibus, em Beroso Chaldaeo, em Manethon Aegyptio & em Q. Fabio Pictor Romano. - Em Coimbra : per Ioam Aluares : impresso à su custa, 1561». BNP.
  • «Censura in quendam auctorem, qui sub falsa inscriptione Berosi Chaldaei circunfertur», Roma, s.d.
  • «Carta escrita de Roma a 12 de Novembro de 1547 a El Rey D. João III» (publicada na «História eclesiástica de Braga», Parte I, capítulo 81).
  • «Verdadeira Nobreza ou Linhagens Antigas de Portugal», manuscrito que está na BNP, códice 985.
  • «Geografia da antiga Lusitânia», manuscrito.
  • «Anotações a Ptolomeu», manuscrito.
  • «Descrição do Egipto», manuscrito.
  • «Observações corográficas de muitos lugares de Espanha», manuscrito.
  • «Égloga pastoril em louvor da infanta D. Maria», manuscrito.
  • «Vita D. Francisci», manuscrito.
  • «Carta consolatória escrita em Roma a 4 de Dezembro de 1563 à infanta D. Maria sobre a morte da infante D. Duarte seu irmão», manuscrito.
  • «Carta a Damião de Góis sobre a origem dos Manoeis deste Reino», manuscrito datado do mosteiro de S. Francisco de Santarém a 26 de Julho de 1567 (transcrita em «Damião de Góis, novos estudos», de Joaquim de Vasconcelos, pág. 120).


Fontes[editar | editar código-fonte]

  • SERRÃO, Joel – «Dicionário de História de Portugal», Porto 2002. 6 volumes.
  • SOVERAL, Manuel Abranches de - «Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII», Porto 2004, ISBN 972-97430-6-1. 2 volumes.
  • CEPB, volume IV, pag. 270.

Referências

  1. AMARAL, Augusto Ferreira do – «Fontes da Genealogia em Portugal», Porto 2000, Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica e História da Família da Universidade Moderna do Porto.
  2. PINA, Luiz de, in «História de Portugal», de Damião Peres, volume VI, Ciência, capítulo IV.
  3. BNP, códice 985.
  4. a b GEPB, Volume IV, pág. 270.
  5. a b SOVERAL, Manuel Abranches de - «Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII», Porto 2004, ISBN 972-97430-6-1, Volume I, pág. 294.
  6. SOVERAL, Manuel Abranches de - «Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII», Porto 2004, ISBN 972-97430-6-1, Volume I, pág.s 281 e 294.
  7. SOVERAL, Manuel Abranches de - «Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII», Porto 2004, ISBN 972-97430-6-1, Volume I, pág. 285.