Gavião-papa-lagartos
Gavião-papa-lagartos
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Chamado gravado em Kitale, Quênia
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| Estado de conservação | |||||||||||||||||||
Pouco preocupante (IUCN 3.1) [1] | |||||||||||||||||||
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| Nome binomial | |||||||||||||||||||
| Kaupifalco monogrammicus (Temminck, 1824) | |||||||||||||||||||
| Subespécies | |||||||||||||||||||
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O gavião-papa-lagartos[2][3] (Kaupifalco monogrammicus), também conhecido como mioto-papa-lagartos,[4] é uma espécie de ave accipitriforme pertencente à família Accipitridae, sendo o único representante do gênero Kaupifalco. Sua distribuição ocorre nas regiões da África subsaariana.
Taxonomia
[editar | editar código]Estudos de filogenia molecular demonstraram que o gavião-papa-lagartos não possui relação próxima com os bútios do gênero Buteo, mas sim com os gaviões do gênero Accipiter.[5] Essa relação também se reflete em características morfológicas, como as asas curtas e pontiagudas da ave.[6] Embora esta espécie seja nativa da África, análises filogenéticas apontam que seus parentes mais próximos são dois gaviões do gênero Microspizias, encontrados na América Central e do Sul.[7]
Características
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É uma pequena e robusta ave de rapina, medindo entre 35 e 37 cm de comprimento e com uma envergadura de aproximadamente 79 cm. Os machos têm um peso médio de 246 g, enquanto as fêmeas pesam cerca de 304 g. Suas partes superiores, assim como a cabeça e o peito, apresentam coloração cinza. Uma linha preta vertical na garganta branca é uma característica que diferencia esta espécie de outras aves de rapina. A barriga é branca com finas barras escuras, e as asas inferiores também são brancas, mas com pontas escuras. A cauda, por sua vez, é preta com uma ponta branca e inclui uma única faixa na mesma cor. Os olhos variam de marrom-avermelhado-escuro a preto, enquanto a cera e as pernas exibem tons que vão do vermelho ao vermelho-alaranjado. Machos e fêmeas possuem aparência semelhante. O padrão de voo desta ave lembra o movimento ondulante de um tordo. Os indivíduos jovens são muito parecidos com os adultos, distinguindo-se apenas por uma leve tonalidade marrom nas asas e cera e pernas em amarelo-alaranjado.[8]
Distribuição e habitat
[editar | editar código]O gavião-papa-lagartos está amplamente distribuído na África subsaariana, abrangendo desde a Eritreia até o nordeste da África do Sul. A espécie permanece comum em regiões como África Ocidental, Zimbabwe, Moçambique e partes do nordeste da Namíbia, Botswana e África do Sul.[9][10] Seu habitat preferido inclui florestas densas e úmidas de savana, principalmente as florestas de miombo, além de bordas de florestas e margens arborizadas de rios.[10] Durante o inverno, também pode ser encontrado em espinheiros áridos das savanas na África Oriental e Central.[8][9]
Ecologia
[editar | editar código]São aves de rapina solitárias e reservadas, exceto no início da época de reprodução, entre setembro e outubro, quando emitem um assobio claro, melodioso e característico, descrito como klu-klu-klu.[8] São residentes locais que defendem seu território com autoridade contra intrusos. Seu voo planado é bastante restrito, acontecendo principalmente durante exibições de cortejo ou ocasionalmente em períodos fora da reprodução, geralmente no final da manhã.[10]
Esses gaviões caçam a partir de poleiros situados entre 6 e 10 metros de altura, mergulhando ou deslizando sobre suas presas na grama. Sua estratégia de caça é caracterizada por uma baixa taxa de ataque, realizando buscas de maneira passiva. Embora esse método seja energeticamente eficiente, é relativamente demorado.[10] Raramente capturam presas em pleno voo. Com asas pontiagudas e mais curtas (proporção entre o comprimento da asa e a altura do corpo de 0,76),[10] são adaptados para voos rápidos em áreas de floresta, sugerindo uma especialização na captura de presas em vegetação densa.[6] Sua dieta é diversificada, incluindo invertebrados, répteis e mamíferos. Em quantidade, gafanhotos e cupins dominam as presas mais comuns, enquanto roedores são os mais representativos em termos de biomassa. Entre os répteis preferidos estão lagartos dos gêneros Mabuya e Agama, além de sapos e cobras.[10]
Reprodução
[editar | editar código]A reprodução dos gaviões-papa-lagartos ocorre entre os meses de setembro e novembro. São aves monogâmicas, formando pares estáveis ou permanentes. Os dois sexos participam na construção do ninho, que é pequeno e compacto, feito com gravetos e localizado na subcopa de árvores nativas ou exóticas, geralmente próximo ao tronco principal. O interior é revestido com grama seca, folhas verdes ou líquen.[6][8]
Como acontece com algumas espécies de aves de rapina, os gaviões-papa-lagartos também reutilizam ninhos pré-existentes.[11] Embora prefiram posicionar seus próprios ninhos no subdossel, podem ocupar ninhos localizados no dossel quando necessário. Além disso, competem por ninhos disponíveis com os gaviões-chicras (Tachyspiza badia),[11] já que ambas as espécies apresentam semelhanças em tamanho, preferências de habitat e distribuição.[8]
A postura de ovos normalmente é composta por 1 a 3 ovos brancos, incubados pela fêmea durante um período de 32 a 34 dias.[8] Enquanto isso, o macho assume a tarefa de alimentar a fêmea, e após a eclosão, os filhotes recebem cuidados de ambos os pais por cerca de 40 dias. A completa independência dos filhotes é alcançada quando atingem aproximadamente 90 dias de vida.[8]
Conservação
[editar | editar código]A distribuição desta espécie é bastante ampla, não atingindo os critérios de vulnerabilidade relacionados à extensão territorial. A população aparenta manter-se estável e também está longe dos limiares que indicam risco. Com números populacionais elevados, a espécie é considerada como "pouco preocupante" em termos de conservação. Porém, na África, especialmente nas regiões Ocidental e Meridional, observam-se reduções significativas entre algumas espécies de aves de rapina.[11][12][13] Esses declínios são amplamente atribuídos ao crescimento acelerado da população humana, que intensifica a sobrexploração da terra e resulta na perda de biodiversidade e diminuição na diversidade de espécies.[11][13][14]
Na África Ocidental, a redução da população de aves de rapina está associada à destruição de florestas e de locais de nidificação, uso crescente de pesticidas, práticas agrícolas intensivas — especialmente na produção de algodão — e perturbação dos ninhos.[12][14] Por outro lado, na África Meridional, fatores como envenenamento, eletrocussões causadas por linhas elétricas, destruição de habitats naturais e afogamento em reservatórios agrícolas estão entre as causas principais dos declínios registrados.[11][13][15]
Apesar de todas essas atividades humanas intensas, nem todas as espécies de aves de rapina foram severamente impactadas. Algumas delas, particularmente oportunistas generalistas e espécies migratórias, registraram aumentos populacionais. Na África Ocidental, houve crescimento nos números e na distribuição do bútio-dos-gafanhotos, do milhafre-preto e do abutre-de-capuz.[14] De forma semelhante, na região do Cabo Ocidental, na África do Sul, observou-se ampliação no alcance e aumento populacional da águia-de-asa-redonda, do peneireiro-das-torres e do milhafre-de-bico-amarelo.[13]
Quanto ao gavião-papa-lagartos, os dados disponíveis ainda são insuficientes para avaliar como ele tem respondido às mudanças no uso da terra promovidas pelos seres humanos. Permanecem incertas as adaptações dessa espécie frente à perda de seu habitat natural e de locais específicos para nidificação. No entanto, suas presas habituais — insetos, lagartos e roedores — continuam abundantes na maioria das áreas modificadas pela ação humana, o que pode estar contribuindo para sua sobrevivência atual.
Galeria de imagens
[editar | editar código]-
Na Uganda
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Na Gâmbia, dezembro de 2021
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No Santuário de Aves Selvagens em St. Louis, Missouri, Estados Unidos
Referências
[editar | editar código]- ↑ BirdLife International (2016). «Kaupifalco monogrammicus». Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas (em inglês). 2016. doi:10.2305/IUCN.UK.2016-3.RLTS.T22695421A93508702.en
. Consultado em 19 de novembro de 2021
- ↑ «Kaupifalco monogrammicus (gavião-papa-lagartos)». Avibase. Consultado em 6 de outubro de 2025
- ↑ Paixão, Paulo (Verão de 2021). «Os Nomes Portugueses das Aves de Todo o Mundo» (PDF) 2.ª ed. A Folha — Boletim da língua portuguesa nas instituições europeias. ISSN 1830-7809. Consultado em 13 de janeiro de 2022
- ↑ «mioto-papa-lagartos». eBird
- ↑ Lerner, Heather (29 de março de 2016). «Molecular Phylogenetics of the Buteonine Birds of Prey». The Auk (em inglês). 125 (2). pp. 304–315. doi:10.1525/auk.2008.06161
- ↑ a b c Carnaby, Trevor (2009). Jacana Media (Pty) Ltd., ed. Beat About the Bush Birds (em inglês). Joanesburgo, África do Sul: [s.n.] p. 548
- ↑ Sangster, George; Kirwan, Guy M.; Fuchs, Jérôme; Dickinson, Edward C.; Elliott, Andy; Gregory, Steven M. S. (8 de fevereiro de 2021). «A new genus for the tiny hawk Accipiter superciliosus and semicollared hawk A. collaris (Aves: Accipitridae), with comments on the generic name for the crested goshawk A. trivirgatus and Sulawesi goshawk A. griseiceps». Vertebrate Zoology (em inglês). 71. pp. 419–424. ISSN 2625-8498. doi:10.3897/vz.71.e67501
- ↑ a b c d e f g Oberprieler, Ulrich (2012). Craft International, ed. The Raptor Guide of Southern Africa (em inglês). Singapura: [s.n.] p. 170. ISBN 978-0-9921701-0-3
- ↑ a b Hockey, Dean (4 de março de 2010). Iziko museum of Cape Town, ed. «Kaupifalco monogrammicus». Biodiversity Explorer (em inglês). Consultado em 2 de abril de 2016
- ↑ a b c d e f Thiollay, J.M. (15 de junho de 1988). «Comparative foraging adaptations of small raptors in a dense African savanna». Ibis (em inglês). 132. pp. 42–47. doi:10.1111/j.1474-919x.1990.tb01015.x
- ↑ a b c d e Malan, Gerard (2009). BRIZA PUBLICATIONS, ed. Raptor survey and monitoring (em inglês). Pretora, África do Sul: [s.n.] p. 58. ISBN 978-1-920146-03-0
- ↑ a b Thiollay, Jean-Marc (3 de julho de 2007). «Raptor declines in West Africa:comparison between protected, buffer and cultivated areas». Oryx (em inglês). 41 (3). pp. 322–329. doi:10.1017/S0030605307000809
- ↑ a b c d Herremans, M (12 de novembro de 2009). «Roadside abundance of raptors in the Western Cape Province, South Africa:a three-decade comparison». Ostrich (em inglês). 72 (1–2). pp. 96–100. doi:10.2989/00306520109485291
- ↑ a b c Buij, Ralph (2 de agosto de 2012). «The role of breeding range, diet, mobility and body size in associations of raptor communities and land-use in a West African savanna». Biological Conservation (em inglês). 166. pp. 231–246. doi:10.1016/j.biocon.2013.06.028
- ↑ Anderson, Mark (11 de outubro de 2010). «Raptor drowning in farm reservoirs in South Africa». Ostrich (em inglês). 70 (2). pp. 139–144. doi:10.1080/00306525.1999.9634530
Ligações externas
[editar | editar código]- Lizard buzzard - Species text in The Atlas of Southern African Birds
- Espécies pouco preocupantes
- Aves descritas em 1824
- Accipitriformes
- Aves de Angola
- Aves do Benim
- Aves de Burquina Fasso
- Aves do Burundi
- Aves da República Centro-Africana
- Aves do Chade
- Aves da República do Congo
- Aves da República Democrática do Congo
- Aves da Costa do Marfim
- Aves da Guiné Equatorial
- Aves da Etiópia
- Aves do Gabão
- Aves da Guiné
- Aves da Guiné-Bissau
- Aves do Quénia
- Aves da Libéria
- Aves do Malawi
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- Aves de Moçambique
- Aves da Namíbia
- Aves do Níger
- Aves da Nigéria
- Aves de Ruanda
- Aves do Senegal
- Aves da Serra Leoa
- Aves da Somália
- Aves da África do Sul
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- Aves da Tanzânia
- Aves de Togo
- Aves de Uganda
- Aves da Zâmbia
- Aves do Zimbábue

