George Pell

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
George Pell
Cardeal da Igreja Católica
Presidente-emérito do Departamento de Economia do Vaticano
Hierarquia
Papa Francisco
Atividade eclesiástica
Diocese Diocese de Roma
Nomeação 24 de fevereiro de 2014
Sucessor Juan Antonio Guerrero Alves, S.J.
Mandato 24 de fevereiro de 2014 - 26 de fevereiro de 2019
Ordenação e nomeação
Ordenação presbiteral 18 de dezembro de 1966
Roma
por Dom Grégoire-Pierre XV Cardeal Agagianian
Nomeação episcopal 2 de maio de 1987
Ordenação episcopal 21 de maio de 1987
por Dom Thomas Francis Little
Nomeado arcebispo 16 de julho de 1996
Cardinalato
Criação 21 de outubro de 2003
por Papa João Paulo II
Ordem Cardeal-presbítero
Título Santa Maria Senhora de Mazzarello
Brasão
Coat of arms of George Pell.svg
Lema NOLITE TIMERE (Mt 14,27)
(Não temas)
Dados pessoais
Nascimento Ballarat, Austrália
8 de junho de 1941 (78 anos)
Nacionalidade australiano
Funções exercidas - Bispo-auxiliar de Melbourne (1987-1996)
- Arcebispo de Melbourne (1996-2001)
- Arcebispo de Sydney (2001-2014)
dados em catholic-hierarchy.org
Cardeais
Categoria:Hierarquia católica
Projeto Catolicismo

George Pell (Ballarat, 8 de junho de 1941) é um cardeal australiano da Igreja Católica e arcebispo-emérito de Sydney.

Ordenado sacerdote em 1966 e bispo em 1987, foi nomeado cardeal em 2003. Pell foi o oitavo Arcebispo de Sydney (2001-2014), o sétimo Arcebispo de Melbourne (1996-2001) e bispo auxiliar de Melbourne (1987-1996). É também autor, colunista e orador público.[1]

Desde 1996, Pell tem mantido um elevado perfil público sobre uma vasta gama de questões, mantendo ao mesmo tempo uma adesão à ortodoxia católica.

Pell trabalhou como padre na zona rural de Victoria e em Melbourne e também presidiu à Caritas Australia (parte da Caritas Internationalis) de 1988 a 1997. Foi nomeado delegado à Convenção Constitucional Australiana em 1998, recebeu a Medalha do Centenário do Governo australiano em 2003 e foi nomeado Companheiro da Ordem da Austrália em 2005. Durante o seu mandato como Arcebispo de Melbourne, Pell estabeleceu o protocolo "Melbourne Response" (a Resposta de Melbourne) em 1996 para investigar e tratar de queixas de abuso sexual de crianças na arquidiocese.[2][3] O protocolo foi o primeiro do género no mundo, mas tem sido alvo de muitas críticas[4][2].

Em 2020, o Supremo Tribunal da Austrália anulou [5]a condenação prévia de Pell pelo Tribunal da Comarca de Vitória, em 2018, sob a acusação de crimes sexuais contra menores. [6] Pell continua sob investigação separada da Congregação para a Doutrina da Fé da Santa Sé por estas alegações de abuso.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Pell foi ordenado em 1966 em Roma, regressando, cinco anos depois, à Austrália, onde ascendeu ao topo da hierarquia católica.[carece de fontes?]

Foi sacerdote na cidade de Ballarat (1976-80), a sua terra natal, e arcebispo de Melbourne (1996-2001), ambas no estado de Victoria, no sul da Austrália. Posteriormente, tornou-se arcebispo de Sydney.[carece de fontes?]

Em 2013 o Papa Francisco nomeou-o presidente do recém-criado Departamento de Economia do Vaticano. Pell é um dos assessores mais próximos do papa Francisco.[7]

Ficou conhecido na internet por ter debatido com Richard Dawkins no programa Q&A sobre ateísmo, religião e ciência em 2012.[8]

George Pell já foi investigado por, supostamente, ter acobertado casos de pedofilia na Austrália. Em 1974, admitiu que teria ouvido de um aluno que um padre da escola local estava tendo um comportamento inadequado, porém o aluno não pediu nenhuma ação de sua parte.[9]

O Cardeal foi acusado, em 29 de junho de 2017, de crimes de abuso sexual de menores na Austrália e foi intimado a comparecer no tribunal de primeira instância de Melbourne, a 18 de Julho.[10][11]

Em dezembro de 2018, o Cardeal foi condenado por abuso sexual de menores pelo tribunal de Justiça em Melbourne, na Austrália.[12] Pell mantém a sua inocência e contestou a condenação no Tribunal de Recurso, que foi ouvido em junho.[13] Em agosto de 2019 e ele foi condenado a prisão e suas contestações judiciais rejeitadas.[14]

Em 6 de abril de 2020, a Suprema Corte da Austrália em decisão unânime (7x0) anulou a condenação de Pell e ordenou sua soltura imediata, alegando haver uma possibilidade significativa de uma pessoa inocente ter sido condenada, "porque a evidência não estabeleceu culpa pelo padrão de prova necessário". O cardeal ficou 405 dias encarcerado.[15][5][16][17]

De acordo com Andrew Bolt, repórter investigativo da rede Sky News Australia, a decisão não se tratou de uma mera "tecnicalidade", mas porque as acusações contra o prelado simplesmente não faziam sentido. Em sua visão, o processo legal estava cheio de falhas e preconceitos, entre os quais o papel dúbio exercido pela polícia da província de Victoria, pelos juízes da Corte de Apelação e pela rede de televisão estatal Australian Broadcasting Corporation (ABC). Na primeira entrevista ao cardeal George Pell após a sua libertação, ele declarou que se pergunta se a suposta vítima teria sido "usada" e que "existe uma tentativa sistemática de remover os fundamentos legais judaico-cristãos". Em liberdade, atesta que viverá de modo discreto e só comentará assuntos internacionais.[18]

Relatório da Royal Commission[editar | editar código-fonte]

Em 7 de Maio de 2020, foi divulgado um relatório, composto de vários volumes, da Royal Commission (por extenso: Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse) australiana,[nota 1] já entregue em 2017, mas não divulgado para não influenciar o julgamento que decorria, e que conclui que o cardeal George Pell tinha conhecimento de abusos sexuais a crianças por clérigos católicos na Austrália já nos anos 1970 e nada fez para afastar os padres acusados. O inquérito ouviu que havia mais de 4.000 supostas vítimas de pedofilia em instituições religiosas e, em algumas dioceses católicas, mais de 15% dos padres eram perpetradores. A In Good Faith Foundation, um grupo de recuperação de vítimas de abusos, disse que o relatório mostrou que houve "inúmeras oportunidades" para Pell ter agido durante todo o seu percurso na Igreja, mas que ele parecia mostrar mais consideração em tentar manter um manto de ignorância do que proteger os mais vulneráveis.[21][22][23]

Os relatórios da Royal Commission envolvem também outros membros da hierarquia da Igreja, especialmente o Bispo Ronald Mulkearns, e a organização Christian Brothers (Congregação dos Irmãos Cristãos). [24][25]

No caso do Padre Gerald Ridsdale, quando Pell era padre em Ballarat, a comissão concluiu que "em 1973 o Padre Pell fechou os olhos ao facto de Ridsdale levar rapazes para acampamentos nocturnos".[26][27][28]

Noutro caso, o do Padre Peter Searson, sendo na ocasião Pell padre em Melbourne, a comissão concluiu que, dada a informação que este tinha em 1989, "deveria ter aconselhado o Arcebispo a retirar o Padre Searson e ele não o fez". Pell tinha dito à comissão que, em 1989, tinha recebido uma lista de queixas sobre Searson. A lista incluía declarações de que Searson tinha assediado crianças, pais e funcionários da escola, utilizado as casas de banho das crianças sem motivo, e mostrado às crianças um cadáver. A comissão concluiu que "deveria ter sido óbvio" para Pell que Searson devia ser afastado, rejeitando ao mesmo tempo a declaração de Pell de que tinha sido "enganado" em relação ao caso de Searson pelos educadores. Pell só agiu para afastar Searson em 1997.[27][29][30]

Ainda no caso do Padre Wilfred James Baker, era nessa altura Pell padre em Melbourne, a comissão concluiu que Pell tinha poderes para afastar Baker em Agosto de 1996, quando soube que Baker estava prestes a ser acusado, mas Baker continuou como padre numa paróquia junto de uma escola primária até Maio de 1997.Baker foi preso em 1999 por abuso sexual de crianças.[27][31]

As conclusões gerais da Royal Commission sobre os casos em Ballarat e Melbourne são semelhantes. A Comissão pensa que foi exposto "um fracasso catastrófico" da liderança na Diocese de Ballarat, e , "em última análise, na estrutura e cultura da Igreja ao longo de décadas para responder eficazmente ao abuso sexual de crianças pelos seus padres." Esse fracasso levou ao sofrimento e, frequentemente, a danos irreparáveis para as crianças, as suas famílias e a comunidade em geral.Esse dano poderia ter sido evitado se a Igreja tivesse agido no interesse das crianças e não no seu próprio interesse. [32]

É evidente para a Comissão que o evitar de escândalos, a manutenção da reputação da Igreja e a lealdade apenas aos padres determinaram a resposta.Invariavelmente, essa acção consistia em colocar o padre visado por acusações noutra paróquia, a qual desconhecia as alegações.[32]

Muitos registos não foram deliberadamente feitos ou foram destruídos. Nunca foram feitas denúncias á polícia, e as vítimas foram desprezadas.[32] Existia uma cultura predominante de sigilo. A prioridade era dada aos interesses da Igreja e não das vítimas.[33]

Notas

  1. A Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse foi criada em 2013 pelo Governo australiano para investigar e relatar as respostas das instituições a casos e alegações de abuso sexual de crianças na Austrália. A comissão examinou o historial de abusos em instituições educativas, grupos religiosos, organizações desportivas, instituições estatais e organizações juvenis.[19][20]

Referências

  1. «Meet George Pell, Australia's Newest Cardinal». ABC. 4 de Abril de 2018 
  2. a b «Facing the Truth : Learning from the Past - How teh Catholic Church in Victoria has responded to Child Abuse» (PDF). Catholic Church in Victoria. 21 de Setembro de 2012 
  3. «Betrayal of Trust : Inquiry into the handling of Child Abuse by Religious and Other Non-government Organisations (Vol. 2 of 2)» (PDF). Family and Community Development Commitee. Novembro de 2013 
  4. «George Pell, Catholic cardinal, charged with historical sexual assault offences - ABC News» (em inglês). 28 de junho de 2017 
  5. a b Le Grand, Chip. «Pell to walk free after High Court overturns conviction». The Sydney Morning Herald (em inglês). Consultado em 8 de Abril de 2020 
  6. Rose, Tim (e outros) (14 de Março de 2019). «George Pell's first night as an inmate after child sex abuse sentence». 9News 
  7. «Quem é George Pell, o terceiro homem na hierarquia do Vaticano». 29 de junho de 2017 
  8. Religion and Atheism (em inglês), Australian Broadcasting Corporation, 9 de abril de 2012, consultado em 25 de abril de 2019 
  9. Presse, Da France (5 de março de 2016). «Cardeal australiano nega renúncia após acusação de acobertar pedofilia». Mundo 
  10. «Cardeal do Vaticano acusado de abuso sexual de menores» 
  11. «Cardeal George Pell: quem é o número 3 do Vaticano indiciado na Austrália por abusos sexuais». 29 de junho de 2017 – via www.bbc.com 
  12. «Quem é o cardeal George Pell, assessor do Papa e tesoureiro do Vaticano condenado por abuso sexual de menores». G1 
  13. «George Pell's first night as an inmate after child sex abuse sentence». www.9news.com.au. Consultado em 25 de abril de 2019 
  14. McGowan, Michael; Martin, Lisa (21 de agosto de 2019). «Cardinal Pell likely to be stripped of Order of Australia – as it happened». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Cardinal George Pell’s appeal against his convictions for child sexual abuse has been dismissed by the Victorian court of appeal. He will remain in jail until at least October 2022, when he will be 81 years old. 
  15. Davey, Melissa. «George Pell: Australian cardinal released from jail after high court quashes child sexual abuse conviction». The Guardian (em inglês). Consultado em 8 de Abril de 2020 
  16. «Justiça da Austrália anula pena imposta ao cardeal Pell, acusado de abuso sexual de menores». Globo.com. Consultado em 8 de Abril de 2020 
  17. «Ex-braço direito do papa tem condenação por abuso sexual anulada». Folha de S. Paulo. Consultado em 8 de Abril de 2020 
  18. «Cardeal George Pell: do calvário de falsas acusações de pedofilia à libertação da prisão». Gaudium Press. 20 de abril de 2020. Consultado em 21 de abril de 2020 
  19. Gillard, Julia (12 de Novembro de 2012). «Establishment of Royal Commission into Child Sexual Abuse». Prime Minister of Australia (Arq. em WayBack Machine) 
  20. «Catholic Church 'abused 4,400 children'». BBC News. 6 de Fevereiro de 2017 
  21. «Cardeal Pell sabia de abusos sexuais por padres e nada fez, revela relatório - DN» 
  22. Marr, David (7 de maio de 2020). «The hidden findings on George Pell are now clear: he could have protected children from abuse. He didn't | David Marr». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077 
  23. Fernandes, Ricardo Cabral (7 de Maio de 2020). «Cardeal Pell sabia dos abusos sexuais dos padres e nada fez para os travar, diz relatório». Público 
  24. «Report of Case Study No. 28 - Catholic Church authorities in Ballarat» (PDF). Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse. Novembro de 2017 
  25. «Report of Case Study No. 35 - Catholic Archdiocese of Melbourne» (PDF). Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse. Novembro de 2017 
  26. «Cardinal Pell 'knew of' clergy abuse, says inquiry». BBC News (em inglês). 7 de maio de 2020 
  27. a b c «'He should have done more': key findings from the newly released George Pell reports» (em inglês). 7 de maio de 2020 
  28. Sainsbury, Michael (13 de Setembro de 2019). «New admission by diocese could cost Australian Church millions in claims». Crux 
  29. «Pell knew of abuse by paedophile priest: inquiry» (em inglês). 7 de maio de 2020 
  30. «Royal Commission redactions: Horrors that George Pell let slide» (em inglês). 7 de maio de 2020 
  31. «Australian inquiry finds Cardinal Pell knew of child sex abuse». Reuters (em inglês). 7 de maio de 2020 
  32. a b c Royal 2017a, p. 403-404.
  33. Royal 2017b, p. 224-226.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Morris-Marr, Lucie (2019) - Fallen : The Inside Story of the Secret Trial and Conviction of Cardinal George Pell - Allen & Unwin
  • Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse - (2017a) - Report of Case Study No. 28 - Catholic Church authorities in Ballarat
  • Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse - (2017b) - Report of Case Study No. 35 - Catholic Archdiocese of Melbourne
  • Royal Commission into Institutional Responses to Child Sexual Abuse - (2015) - Report of Case Study No. 16 - The Melbourne Response