Georges Méliès
| Georges Meliès | |
|---|---|
| Nome completo | Marie-Georges-Jean Méliès |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Causa da morte | Câncer |
| Nacionalidade | francês |
| Cônjuge | Eugénie Génin (1885–1913) Jeanne d'Alcy (1925–1938) |
| Filho(a)(s) | Georgette Méliès André Méliès |
| Alma mater | Lycée Louis-le-Grand |
| Ocupação | diretor de cinema ator cenógrafo ilusionista fabricante de brinquedos figurinista |
| Período de atividade | 1888–1923 |
| Principais trabalhos | Le voyage dans la Lune |
| Título | Cavaleiro da Legião de Honra , recebido em 1931 |
| Website | http://www.melies.eu/ |
| Assinatura | |
Georges Méliès (nome de registro: Marie-Georges-Jean Méliès;[a] Paris, 8 de dezembro de 1861 – Paris, 21 de janeiro de 1938) foi um ilusionista, cineasta, ator e fabricante de brinquedos francês, famoso por liderar muitos desenvolvimentos técnicos e narrativos no alvorecer do cinema.[1][2]
Méliès ganhou destaque criando os chamados trick films e tornou-se célebre pelo uso inovador de efeitos especiais, popularizando técnicas como o stop trick, as exposições múltiplas, a fotografia em câmera rápida, as dissoluções de imagem e o filme colorido pintado à mão.[3] É também considerado um dos primeiros cineastas a usar storyboards sistematicamente em seu trabalho.[4] Por sua capacidade de manipular e transformar a realidade através da cinematografia, Méliès é lembrado como o "mágico do cinema" — em francês, le Cinémagicien.[3]
Dois de seus filmes mais famosos, Le voyage dans la Lune (1902) e Voyage à travers l'impossible (1904), narram jornadas estranhas e fantásticas em estilo próximo ao de Júlio Verne e são considerados uns dos filmes mais importantes e influentes do cinema de ficção científica, embora sua abordagem seja mais próxima do fantástico.[1] Méliès também foi um pioneiro do cinema de terror com Le Manoir du Diable (1896), considerado o primeiro filme de horror da história.[3] Ao longo de sua carreira, dirigiu mais de 500 filmes entre 1896 e 1913, cobrindo gêneros tão variados quanto trick films, fantasias, comédias, filmes publicitários, sátiras, dramas históricos, adaptações literárias, melodramas e viagens imaginárias.[1]
Biografia
[editar | editar código]Início
[editar | editar código]Nasceu em 8 de dezembro de 1861 no 47 do boulevard Saint-Martin (hoje nº 29), no 3º arrondissement de Paris (ato de nascimento nº 2517). Seu pai, Jean-Louis-Stanislas Méliès (1815–1898), era um próspero fabricante de calçados de luxo oriundo de Lavelanet; sua mãe, Catherine Johanna Schveringh (1819–1899), era de origem holandesa — seu avô materno foi sapateiro oficial da rainha Hortense de Beauharnais, esposa de Luís Bonaparte, rei da Holanda. O casal se casou na Igreja de Saint-Eustache de Paris em 1843 e fundou uma fábrica de botas de alta qualidade no Boulevard Saint-Martin.[5] Georges era o mais novo dos filhos: após Henri (1844–1929), Eugène Louis (1849–1851, falecido na infância) e Gaston Méliès (1852–1915).[1]
Desde criança mostrou vocação para as artes: era frequentemente punido pelos professores por cobrir seus cadernos e livros de desenhos. Construiu teatros de fantoches em papelão aos dez anos de idade e criou marionetes sofisticadas na adolescência. Estudou inicialmente no Liceu Michelet de Vanves — evacuado durante a Guerra Franco-Prussiana — e depois no prestigioso Lycée Louis-le-Grand, na companhia do futuro escritor Maurice Donnay, onde concluiu o baccalauréat em 1880.[1] Em seus escritos, Méliès fez questão de ressaltar sua educação clássica formal, irritado com quem taxava cineastas de "iletrados incapazes de produzir algo artístico". Reconhecia, porém, que "a paixão artística era forte demais: enquanto meditava sobre uma composição em francês ou um verso em latim, sua pena mecanicamente esboçava retratos ou caricaturas de seus professores e colegas, quando não algum palácio de fantasia ou paisagem original que já tinha o aspecto de um cenário teatral".[5]
Após cumprir o serviço militar obrigatório em 1881, em Blois — a terra natal do ilusionista Jean Eugène Robert-Houdin, onde alguns autores relatam visitas de Méliès à propriedade Le Prieuré do mágico, embora não documentadas —,[6] a família o enviou a Londres em 1883 para aprender inglês, trabalhando como vendedor no setor de corsetes numa loja de confecções. Desconfortável no novo ambiente, frequentou o Egyptian Hall, teatro de variedades dirigido pelo famoso mágico John Nevil Maskelyne, onde foi iniciado na arte ilusionista pelo próprio David Devant, um dos maiores mágicos britânicos da época — Méliès lhe fazia decorações em troca das lições.[5]
De volta a Paris em 1885, desejava estudar pintura na École des Beaux-Arts, mas seu pai se recusou a financiar a carreira artística. Passou a supervisionar as máquinas na fábrica da família, aprimorando habilidades mecânicas que mais tarde seriam essenciais. Naquele mesmo ano, esquivando-se de um casamento arranjado pela família com a cunhada de um irmão, casou-se com Eugénie Génin — pianista talentosa, amiga da família, filha ilegítima de um comerciante holandês de calçados e sua governanta de Grenoble. Génin, então com 17 anos e recém-orfã, trouxe um considerável dote ao casamento, realizado em 25 de junho de 1885 na mairie do 11º arrondissement, com cerimônia religiosa à tarde na Igreja de Choisy-le-Roi.[6] O casal teve dois filhos: Georgette, nascida em 22 de março de 1888, e André, nascido em 1901.
Paralelamente, tomou aulas de magia com Émile Voisin e realizou suas primeiras apresentações públicas no Cabinet Fantastique do Musée Grévin e na Galerie Vivienne, ao mesmo tempo em que colaborava com o jornal satírico e antiboulangista La Griffe — editado por seu primo Adolphe Méliès — como jornalista e caricaturista político sob o pseudônimo Géo Smile.[6]
Em 1888, quando seu pai se aposentou, Méliès vendeu sua parte da fábrica familiar por 500 000 francos. Com esse valor, adquiriu o Théâtre Robert-Houdin — o mais famoso teatro de magia de Paris, no 8 do boulevard des Italiens —, pagando 47 000 francos pelo teatro e seu acervo de autômatos construídos pelo próprio Jean Eugène Robert-Houdin, à viúva de Émile Robert-Houdin.[6]
Teatro
[editar | editar código]À frente do Théâtre Robert-Houdin, Méliès herdou também o mecânico-chefe Eugène Calmels e performers como Jeanne d'Alcy — que se tornaria sua amante de longa data e, mais tarde, sua segunda esposa —, além de Marius, seu fiel assistente de cena. Ao longo dos nove anos seguintes, criou pessoalmente mais de trinta novas ilusões de palco, trazendo mais comédia e grandiosidade dramática ao espetáculo, ao modo dos shows que havia visto em Londres. Entre as ilusões mais célebres estava a Homme Décapité Récalcitrant (O Homem Decapitado Recalcitrante), em que a cabeça de um professor é cortada em pleno discurso e continua falando até ser devolvida ao corpo. Os espetáculos, que terminavam com a projeção de fotografias pintadas sobre vidro, conquistaram rapidamente o público graças ao espírito inventivo de Méliès e seu sentido de poesia e estética. Sua coleção de autômatos — de gestos mais verdadeiros que a natureza — contribuía para esse sucesso.[5]
Em 1891, fundou a Académie de Prestidigitation, que evoluiu para o Syndicat des Illusionnistes de France (1893) e depois para a Chambre syndicale de la prestidigitation (1904), da qual foi presidente por cerca de trinta anos. Essa iniciativa contribuiu para dar um estatuto profissional aos mágicos itinerantes, que a polícia assimilava a ciganos.[6]
Carreira cinematográfica
[editar | editar código]Primeiros filmes (1896–1898)
[editar | editar código]Em 27 de dezembro de 1895, Méliès foi convidado para uma demonstração privada do cinematógrafo dos Irmãos Lumière no Salon indien do Grand Café, no boulevard des Capucines. Impressionado, ofereceu imediatamente 10 000 francos pelo equipamento. Os Lumière recusaram, insistindo no caráter científico da invenção — e na mesma noite recusaram também a oferta do Musée Grévin (20 000 francos) e das Folies Bergère (50 000 francos).[1] Um dos Lumière disse a Méliès: "Faça-me um favor: estou evitando que o senhor arruíne a si mesmo, pois este aparelho, simples curiosidade científica, não tem nenhum futuro comercial."[6]
Determinado, Méliès viajou a Londres — possivelmente a conselho de Jeanne d'Alcy, que havia visto o projetor Animatograph de Robert W. Paul durante uma tournée —, adquiriu o aparelho e alguns filmes curtos, e em abril de 1896 o Théâtre Robert-Houdin já exibia filmes como parte de seus espetáculos diários.[5] Méliès estudou o mecanismo e modificou o aparelho para funcionar como câmera. Como a película virgem e os laboratórios de revelação ainda não existiam em Paris, comprou película não perfurada em Londres e, por tentativa e erro, revelou e copiou pessoalmente seus filmes.[1]
Em 4 de setembro de 1896, junto com Lucien Korsten e Lucien Reulos, patenteou o Kinétographe Robert-Houdin — câmera-projetora de ferro fundido que ele apelidava de "moedor de café" e "metralhadora" pelo barulho que produzia. Em 1897, com melhores câmeras disponíveis no mercado parisiense, descartou o próprio aparelho e adquiriu equipamentos das marcas Gaumont, Lumière e Pathé.[3]
Seu primeiro filme foi Une partie de cartes (1896), uma recriação do filme homônimo de Louis Lumière. Começou a filmá-lo em maio de 1896 e a projetá-lo no teatro em agosto daquele ano. Ao final de 1896 fundou com Reulos a Star Film Company, com Korsten como operador principal. Naquele primeiro ano, produziu 78 filmes; em 1897, 52 — cobrindo todos os gêneros que exploraria pelo resto da carreira: documentários ao estilo Lumière, comédias, reconstruções históricas, dramas, truques de magia e féeries.[3]
Também como os irmãos Lumière e a Pathé, a Star Films produziu filmes eróticos como Peeping Tom at the Seaside, A Hypnotist at Work e After the Ball — o único sobrevivente, protagonizado por Jeanne d'Alcy. Entre 1896 e 1900, Méliès também produziu dez filmes publicitários para produtos como uísque, chocolate e cereal infantil. Em setembro de 1897, tentou transformar o Théâtre Robert-Houdin num cinema com menos sessões de magia e mais sessões de cinema diárias, mas em dezembro daquele ano as projeções foram limitadas apenas às noites de domingo.[1]
Naquele período, ao filmar uma cena de rua na Place de l'Opéra, a câmera emperrou por alguns segundos. Ao rever o filme, Méliès percebeu que um ônibus da linha Madeleine-Bastille havia se transformado subitamente num carro fúnebre, e mulheres em homens. Essa descoberta — narrada como acidental em suas memórias, embora alguns historiadores a considerem uma narrativa embelezada,[b] — levou ao desenvolvimento do stop trick: parar a câmera, alterar a cena e retomar a gravação. A primeira aplicação documentada foi em Escamotage d'une dame au Théâtre Robert-Houdin (1896), em que o truque de palco da mulher que desaparece por um alçapão ganhou o reforço do stop trick, com a mulher se transformando em esqueleto antes de reaparecer.[3]
Em setembro de 1896, iniciou a construção em sua propriedade em Montreuil (1 rue François-Debergue) do primeiro estúdio de cinema da França dedicado exclusivamente à produção de filmes — um edifício de 17 × 66 metros, com paredes e teto inteiramente de vidro a 6 metros do solo para aproveitar a luz solar, com dimensões idênticas às do Théâtre Robert-Houdin. A propriedade incluía também uma dependência de camarins e um galpão para a construção de cenários. Méliès descreveu o estúdio como "a união do ateliê de fotografia (em suas proporções gigantescas) com o palco do teatro". Como as cores fotografavam de forma imprevisível no filme em preto e branco, todos os cenários, figurinos e maquiagens dos atores eram pintados em tons de cinza.[5]
Em 1897, para filmar o popular cantor Paulus — que se recusava a se apresentar ao ar livre —, Méliès utilizou cerca de trinta lâmpadas de arco e mercúrio no estúdio, em uma das primeiras ocasiões em que iluminação artificial foi empregada na cinematografia.[3] Em setembro daquele ano, tentou transformar o Théâtre Robert-Houdin num cinema com projeções diárias e menos sessões de magia, mas em dezembro de 1897 as projeções já estavam limitadas apenas às noites de domingo.[1]
Continuou a experimentar efeitos cinematográficos exclusivos. Em A Dinner Under Difficulties (Le dîner impossible, 1898), obteve uma cena em câmera reversa girando manualmente a película para trás. Em The Cave of the Demons (La caverne maudite, 1898) — primeiro uso documentado da dupla exposição —, criou fantasmas transparentes filmando atores diante de fundo completamente negro, rebobinando a película e expondo-a novamente sobre imagens já gravadas. Em The Four Troublesome Heads (Un homme de têtes, 1898), usando máscara sobre a lente, filmou-se a si mesmo em quatro posições separadas, resultando em quatro versões suas interagindo simultaneamente — o que é considerado o primeiro uso de split screen documentado. Num artigo de 1907, refletiu sobre a dificuldade técnica desses efeitos: "A cada segundo, o ator que interpreta dez cenas diferentes precisa se lembrar, enquanto o filme roda, exatamente o que fez no mesmo momento nas cenas anteriores e o exato lugar em que estava no palco."[1]
Sucesso internacional (1899–1904)
[editar | editar código]Em 1899, Méliès produziu 48 filmes. Um deles foi Cleopatra's Tomb (Cléopâtre), que retratava a múmia da rainha egípcia sendo ressuscitada na era moderna, considerado perdido até ser redescoberto em Paris em 2005. Naquele mesmo ano realizou L'Affaire Dreyfus, uma série de onze filmes curtos sobre o polêmico caso do capitão Alfred Dreyfus, oficial judeu do Exército francês falsamente acusado de traição e condenado à Ilha do Diabo. Méliès era declaradamente dreyfusard e o retratou como vítima de uma injustiça; as exibições provocaram brigas físicas entre grupos opostos e a polícia acabou proibindo a última parte. O historiador Georges Sadoul considerou a série o primeiro filme de engajamento político da história do cinema.[3] Naquele mesmo ano produziu também Cendrillon (Cinderela), baseado em Charles Perrault — seu primeiro grande sucesso comercial e o primeiro filme a apresentar múltiplas cenas encadeadas em tableaux, com mais de 35 pessoas no elenco. A colorista Élisabeth Thuillier, que seria contratada por Méliès para colorir manualmente seus filmes de 1897 a 1912, trabalhou em Cendrillon como um dos primeiros exemplos de dissolve cinematográfico — que Méliès obtinha cobrindo progressivamente a objetiva com seda preta, rebobinando alguns fotogramas e retomando a filmagem com a objetiva sendo gradualmente descoberta.[6]
Em 1900, Méliès realizou trinta e três filmes. Entre eles estava Jeanne d'Arc, com 13 minutos de duração e doze cenários distintos — o primeiro a superar 200 metros de comprimento. Realizou também The One-Man Band (L'Homme-Orchestre), em que explorou a exposição múltipla para se multiplicar no quadro e interpretar simultaneamente sete instrumentos — e assim sete personagens ao mesmo tempo, numa das demonstrações mais impressionantes das possibilidades do trucage cinematográfico. Diante das piratarias sistemáticas nos Estados Unidos, fundou com outros produtores a Chambre Syndicale des Éditeurs Cinématographiques, tornando-se seu primeiro presidente, cargo que exerceu até 1912, com sede no Théâtre Robert-Houdin.[1]
Em 1901, no auge da popularidade, produziu Barbe-Bleue (Barba-Azul, baseado em Charles Perrault), em que interpretou o assassino de esposas e co-estrelou com Jeanne d'Alcy e Bleuette Bernon. O filme é um exemplo precoce de montagem paralela e match cuts de personagens transitando entre ambientes. A empresa de Edison considerou o filme um modelo a ser imitado: o Jack and the Beanstalk dirigido por Edwin S. Porter em 1902 foi visto como uma versão americana menos bem-sucedida de Barba-Azul. Também em 1901, Méliès experimentou variações sobre o tema da transformação humana em The Brahmin and the Butterfly, em que interpretava um brâmane que transforma uma lagarta em mulher alada, mas é ele mesmo transformado em lagarta.[1]
Em 1902, Méliès começou a experimentar movimento de câmera simulado para criar a ilusão de mudança de tamanho dos personagens. Montou a câmera sobre uma cadeira deslizante em trilhos puxados por polia, que se aproximava ou se afastava do ator mantendo o foco ajustado. O efeito foi usado pela primeira vez em The Devil and the Statue, em que interpretava Satanás crescendo até a proporção de um gigante, e foi aperfeiçoado na obra mais famosa do mesmo ano, The Man with the Rubber Head (L'Homme à la tête de caoutchouc), em que interpretava um cientista que infla a própria cabeça a dimensões enormes.[1]
Em maio de 1902, completou Le voyage dans la Lune — baseado livremente nos romances Da Terra à Lua (1865) de Júlio Verne, Ao Redor da Lua (1870) e Os Primeiros Homens na Lua (1901) de H. G. Wells —, com custo de 10 000 francos e duração de 14 minutos, com um grande elenco de atores de music-halls e acrobatas das Folies Bergère, que Méliès atraiu oferecendo salários maiores do que no teatro ao vivo. Nele interpretava o Professor Barbenfouillis, presidente do clube de astronomia, que propõe e lidera uma expedição à Lua. A nave é disparada por um canhão e pousa no olho do Homem da Lua; os astronautas exploram a superfície lunar, são capturados pelos selenitas, escapam e retornam à Terra.[1] O filme foi um enorme sucesso na França e no mundo, vendido em versões em preto e branco e coloridas à mão. O historiador Charles Musser sintetizou: "O cineasta principal dos primeiríssimos anos do novo século é, sem contestação, o parisiense Georges Méliès, cujos filmes foram todos pirateados pelas maiores empresas de produção americanas." Produtores como Thomas Edison, Siegmund Lubin e William Selig fizeram cópias ilegais e as distribuíram pela América do Norte sem remuneração a Méliès. A Biograph Company chegou a pagar royalties ao promotor de filmes Charles Urban pelo filme de Méliès — tendo comprado cópias piratadas sem controle de origem. Para proteger seus direitos, Méliès abriu escritórios em Nova York — sob a direção de seu irmão Gaston, que ao chegar descobriu a extensão das violações, incluindo a Biograph Company pagando royalties ao promotor Charles Urban por cópias que eram na verdade piratas. O comunicado oficial da filial de Nova York proclamava: "Estamos prontos e determinados a perseguir energicamente todo falsificador e pirata. Não avisaremos, agiremos sem demora." —, além de Barcelona, Berlim e Londres até 1903.[1]
O sucesso de 1902 continuou com três outras grandes produções: A Coroação de Eduardo VII (The Coronation of Edward VII), encenação encomendada por Charles Urban da Warwick Trading Company, filmada antes do evento real (ao qual Méliès foi impedido de assistir) e pronta para ser lançada no dia marcado para a coroação — adiada seis semanas por problemas de saúde do monarca, o que permitiu a Méliès adicionar imagens reais do cortejo em carruagem; o próprio Eduardo VII disse ter apreciado o filme. Em seguida, as féeries Gulliver's Travels Among the Lilliputians and Giants (baseada em Jonathan Swift) e Robinson Crusoe (baseada em Daniel Defoe).[3]
Em 1903, realizou Le Royaume des fées (The Kingdom of the Fairies), que o crítico Jean Mitry considerou "indubitavelmente o melhor filme de Méliès, e sem dúvida um dos mais belos filmes do cinema primitivo" — estreado nos Estados Unidos em Los Angeles sob o slogan "Melhor que A Viagem à Lua". No mesmo ano, aperfeiçoou efeitos de transformação acelerada em Ten Ladies in One Umbrella e usou sete superimposições em The Melomaniac.[3]
Em 1904, produziu Voyage à travers l'impossible (The Impossible Voyage), com 24 minutos, em que interpretava o engenheiro Mabouloff à frente de uma expedição que percorre o mundo, os oceanos e chega ao Sol. A convite do diretor das Folies Bergère, Victor de Cottens, criou An Adventurous Automobile Trip — sátira ao rei Leopoldo II da Bélgica.[3]
A partir de 1902, Méliès passou a filmar com duas câmeras simultâneas; uma delas foi operada por sua filha Georgette, que atuara nos filmes do pai desde os oito anos de idade, tornando-a uma das primeiras mulheres operadoras de cinema da história.[carece de fontes]
Declínio comercial (1905–1913)
[editar | editar código]Em 1905, Méliès continuou a produzir e a expandir o estúdio. Entre os lançamentos estavam Le Palais des Mille et Une Nuits (The Palace of the Arabian Nights) e Paris-Monte Carlo. No plano profissional, colaborou com Victor de Cottens numa revista teatral para o Théâtre du Châtelet. Naquele ano também se comemorou o centenário de Jean Eugène Robert-Houdin com um espetáculo comemorativo no teatro, incluindo o primeiro novo truque de palco de Méliès em vários anos: Les Phénomènes du spiritisme. No mercado americano, o irmão Gaston foi obrigado a cortar em 20% os preços de todo o catálogo da Star Films para manter as vendas.[3]
A partir de 1906, o gênero féerie começou a perder popularidade junto ao público. Os críticos Jean Mitry, Georges Sadoul e outros elegeram 1907 como o ano em que o trabalho de Méliès começou a declinar, com obras que, na análise da pesquisadora Miriam Rosen, "caíam na repetição de velhas fórmulas de um lado e numa imitação insegura de novas tendências do outro". Naquele ano, Méliès realizou dezenove filmes, incluindo uma paródia de 20 000 Léguas Submarinas de Júlio Verne e uma versão condensada de Hamlet de Shakespeare. Construiu também um segundo estúdio, maior que o primeiro, em Montreuil. Em 1907, Méliès também publicou no Annuaire général et international de la photographie um texto fundador de trinta páginas, ilustrado com fotografias, no qual elevou o cinematógrafo — ainda visto como atração de feira — ao estatuto de arte, expondo sua concepção estética e sua prática das "vistas animadas".[6]
Em 1908, Thomas Edison criou o Motion Picture Patents Company (MPPC), consórcio para controlar a indústria cinematográfica nos Estados Unidos e na Europa. As empresas associadas incluíam Edison, Biograph, Vitagraph, Essanay, Selig, Lubin, Kalem, Pathé americana e a Star Film Company, com Edison como presidente. A Star Films ficou obrigada a fornecer mil pés de filme por semana ao MPPC; Méliès produziu 58 filmes naquele ano para cumprir a obrigação. Gaston fundou em Chicago a Méliès Manufacturing Company para ajudar o irmão. O ambicioso Humanity Through the Ages (L'Humanité à travers les âges, 1908) — que recontava a história humana de Caim e Abel até a Conferência de Paz de Haia de 1907 — foi um fracasso comercial, embora Méliès se orgulhasse dele pelo resto da vida.[3]
Havia ainda uma dimensão técnico-jurídica que agravou a situação: ao adotar o padrão de perfurações retangulares de Edison — quatro pares por fotograma, patenteado internacionalmente —, Méliès colocou-se ao alcance de ações judiciais nos Estados Unidos. Os Lumière, mais prudentes, haviam adotado um padrão diferente para evitar exatamente essa armadilha. O acordo resultante permitiu que Edison explorasse centenas de cópias de Le voyage dans la Lune sem pagar nada, o que representou uma perda considerável para a Star Film. Sobre a relação com a indústria, Méliès afirmou com amargura: "Deixemos os lucros ao capitalista comprador e vendedor, tudo bem — mas deixemos ao realizador sua glória, isso não é pedir demais".[6]
No início de 1909, Méliès presidiu o "Congrès International des Éditeurs de Films" em Paris (2–4 de fevereiro). Em 1910, interrompeu temporariamente a produção para realizar uma tournée de espetáculos de magia pela Europa e pelo Norte da África com Les Fantômes du Nil. Star Films firmou também um acordo de distribuição com a Gaumont.[6]
Em 1911, em sérias dificuldades financeiras, aceitou um acordo com Charles Pathé que se revelaria fatal: Pathé financiaria seus filmes entre 1911 e 1913, ficaria com a distribuição, poderia editar as obras e tomaria como garantia a casa e o estúdio de Montreuil. Alguns de seus filmes mais elaborados surgiram dessa fase — como Les Hallucinations du baron de Münchhausen e À la conquête du pôle (1912), inspirado nas expedições reais ao Polo Norte e ao Polo Sul, com elementos fantásticos como um veículo voador e um monstro gigante de neve —, mas nenhum foi lucrativo para a Pathé, que exerceu o direito de edição sobre as obras.[3]
O último grande esforço foi Cendrillon ou la pantoufle merveilleuse (1912), 54 minutos filmados com novas lentes de profundidade de campo e em locações externas — ruptura com o estilo teatral de Méliès. A Pathé contratou seu rival histórico Ferdinand Zecca para cortar o filme a 33 minutos; também esse foi deficitário. No final de 1912, Méliès rescindiu o contrato com a Pathé. Paralelamente, Gaston viajou ao Taiti com família e equipe, rodando pelo Pacífico e pela Ásia; as filmagens chegavam danificadas a Nova York, Gaston perdeu 50 000 dólares e vendeu a filial americana da Star Films para a Vitagraph. Os dois irmãos jamais voltaram a se falar; Gaston morreu na Córsega em 1915.[1]
Ruína e retirada
[editar | editar código]Ao romper com a Pathé em 1913, Méliès não tinha como cobrir suas dívidas. A morte de sua esposa Eugénie Génin em maio de 1913 agravou a situação. A Primeira Guerra Mundial adiou temporariamente a execução das garantias hipotecárias, mas Méliès estava de fato falido. Em 1917, o Exército francês requisitou o edifício principal do estúdio de Montreuil como hospital para feridos de guerra; ao longo do conflito, foram confiscadas cerca de 400 cópias dos filmes da Star Films para serem fundidas e transformadas em solas de sapato para soldados — destruindo boa parte do acervo. Segundo relato de sua neta Madeleine Malthête-Méliès, num momento de raiva Méliès também queimou pessoalmente seu estoque restante em Montreuil.[6]
De 1915 a 1923, montou inúmeros espetáculos no segundo estúdio convertido em teatro de variedades — o Théâtre des Variétés Artistiques —, com participação de Georgette e André. Em 1923, incapaz de pagar suas dívidas, foi obrigado a vender a propriedade de Montreuil; o Théâtre Robert-Houdin foi demolido naquele mesmo ano para a extensão do boulevard Haussmann. O estúdio de Montreuil — primeiro de seu gênero na França — sobreviveu em estado degradado até ser inteiramente demolido nas consequências da Segunda Guerra Mundial.[6]
Redescoberta e últimos anos
[editar | editar código]Em 1924, o jornalista Georges-Michel Coissac localizou Méliès e o entrevistou para um livro de história do cinema — tornando-se o primeiro a documentar formalmente sua importância para a indústria. Em 1926, impulsionado pelo livro de Coissac, o Ciné-Journal o reencontrou num quiosque de brinquedos e guloseimas na estação Montparnasse e lhe encomendou memórias.[5] Naquele mesmo ano reencontrou Jeanne d'Alcy — de nome real Charlotte Faës —, com quem gerenciou o quiosque e com quem se casou em 1925.[6]
O jornalista Léon Druhot, ao identificá-lo na loja, escreveu sobre ele. Os surrealistas descobriram então sua obra, fascinados pela dimensão onírica e transgressora de seus filmes. O produtor Bernard Natan enviava cheques a Méliès para ajudá-lo financeiramente naquele período; o cineasta Claude Autant-Lara, em suas memórias, descreveu a vida de Méliès como simples vendedor de doces. No final da década, vários jornalistas pesquisavam sua vida e trabalho. Em 16 de dezembro de 1929 realizou-se na Salle Pleyel de Paris o Gala Méliès: os organizadores pediram a Méliès que filmasse um curta especial para a ocasião, em que ele aparecia perdido pelas ruas de Paris à procura da sala de espetáculos, mergulhando de cabeça num pôster gigante com seu rosto e reaparecendo fisicamente no palco quando a tela subia. Méliès afirmou ter vivido ali "um dos momentos mais brilhantes de sua vida".[5]
Em 1931, foi agraciado com a Cavalaria da Legião de Honra; na cerimônia, Louis Lumière o proclamou "criador do espetáculo cinematográfico".[5] Em 1932, a Société de Cinéma garantiu a Méliès, sua esposa e sua neta Madeleine um lugar no Château Guérin de Orly — a Maison du Retraite du Cinéma (hoje sede da École Georges-Méliès).[1] Méliès, aliviado, escreveu a um jornalista americano: "Minha maior satisfação é ter certeza de nunca ficar sem pão e sem teto!" Em Orly, colaborou com diretores mais jovens em roteiros inacabados — uma nova versão do Barão Munchausen com Hans Richter e Le Fantôme du métro com Henri Langlois, Georges Franju, Marcel Carné e Jacques Prévert.[1]

Langlois e Franju alugaram em 1936 um edifício abandonado na propriedade do lar de Orly para guardar uma coleção de películas, confiando a custódia a Méliès — que se tornou, na prática, o primeiro conservador do acervo que daria origem à Cinemateca Francesa.[1]
Em 1933, Jean Aurenche e Jacques Brunius o convidaram a criar um filme publicitário de 28 segundos para a Régie des Tabacs da França — sua última obra completa como diretor, que reapareceu no filme Violons d'Ingres de Brunius (1939). No outono de 1937, já muito doente, iniciou o roteiro de Le Métro fantôme com Jacques Prévert, projeto que ficou inacabado.
Sua filha Georgette havia falecido em 29 de agosto de 1930, aos 42 anos, após contrair doença durante uma tournée na Argélia. Méliès acolheu a neta Madeleine — então com sete anos — antes de ela ser criada pela avó paterna. Méliès morreu no Hospital Léopold Bellan em Paris, vítima de câncer, em 21 de janeiro de 1938, aos 76 anos. Seu corpo está sepultado no Cemitério de Père-Lachaise (divisão 64), onde uma estátua-busto a seu rosto foi erigida. Em data posterior, uma campanha de financiamento coletivo foi lançada pela tataraneta Pauline Méliès para preservar o túmulo.
De cerca de 520 filmes originais, apenas em torno de 200 sobrevivem. Os fatores de perda incluem a própria destruição dos negativos por Méliès, a requisição militar de 1917, a deterioração do nitrato e a pirataria — que paradoxalmente também preservou parte do acervo nos Estados Unidos, onde Gaston Méliès depositou na Biblioteca do Congresso cópias em papel de todos os novos filmes da Star Films para fins de registro de direitos autorais.[1]
Técnicas cinematográficas
[editar | editar código]Stop trick e substituição
[editar | editar código]O stop trick — ou arrêt de caméra — consistia em parar a câmera, alterar a cena e retomar a filmagem, criando ilusões de aparecimento, desaparecimento ou metamorfose instantâneos. Técnica-base dos trick films, foi amplamente imitada por cineastas europeus e americanos. A primeira aplicação documentada foi em Escamotage d'une dame (1896).[3]
Dupla exposição e superimposição
[editar | editar código]Após uma primeira tomada, Méliès rebobinava a película e a expunha novamente sobre as imagens já gravadas. Privilegiou essa técnica para sonhos, pesadelos e cenas fantásticas: em Barba-Azul (1901), a sétima esposa vê, em superimposição, os cadávares das seis anteriores pendurados em ganchos de açougue, depois o próprio Barba-Azul ameaçando-a com uma espada e, por fim, uma dança de chaves gigantes. Em La Sirène (1904), a sereia parece flutuar sem apoio mecânico — Méliès rasteja sob ela para demonstrar. O efeito também permitia dar consistência diáfana a personagens fantasmagóricos, tornando visíveis os cenários atrás deles.[6]
Split screen
[editar | editar código]Em Un homme de têtes (1898), usou máscaras sobre a lente para filmar-se em quatro posições separadas na mesma película, resultando em quatro versões suas interagindo ao mesmo tempo — o primeiro uso documentado de split screen no cinema, aperfeiçoado com sete superimposições em The Melomaniac (1903).[1]
Dissolve
[editar | editar código]Obtido cobrindo progressivamente a objetiva com seda ou feltro preto, rebobinando alguns fotogramas e retomando a filmagem com a objetiva sendo gradualmente descoberta. Primeiro uso documentado em Cendrillon (1899). Méliès preferia o dissolve ao corte direto, considerando-o um "amortecedor" elegante entre tableaux.[6]
Mudança de tamanho e perspectiva forçada
[editar | editar código]Em 1902, desenvolveu um sistema de câmera sobre cadeira deslizante em trilhos puxados por polia, que se aproximava ou afastava do ator mantendo o foco ajustado — simulando crescimento ou encolhimento dos personagens. Embora a câmera permanecesse fisicamente fixa, a perspectiva forçada permitia ilusões de escala impossíveis no palco. Também simulou variações de perspectiva pintando diferentes profundidades nos fundos dos cenários.[1]
Colorização manual
[editar | editar código]De 1897 a 1912, Méliès contratou o ateliê de Élisabeth Thuillier e sua filha Marie-Berthe Thuillier para colorizar suas cópias fotograma a fotograma. Para satisfazer a demanda crescente, o processo foi industrializado com moldes (pochoirs). Thuillier descreveu o trabalho: "Colorei todos os filmes do senhor Méliès. Tinha 220 operárias no meu ateliê. Passava as noites selecionando e preparando as amostras de cor. Durante o dia, as operárias aplicavam a cor segundo minhas instruções. Cada operária especializada não fazia mais que uma cor; eram frequentemente mais de vinte." A substância era tinta de anilina dissolvida em água e álcool — transparente e luminosa, criando profundidade e espetáculo. Méliès planejava os efeitos de cor antes das filmagens e pintava os cenários em tons de cinza justamente para que a cor final tivesse o valor correto. As versões coloridas eram vendidas consideravelmente mais caras; cada cópia era única.[3][6]
Storyboard e controle total da produção
[editar | editar código]Méliès foi um realizador total: escrevia os roteiros, projetava os cenários pintados, confeccionava os figurinos, atuava nos filmes, os revelava pessoalmente. Introduziu o uso sistemático de storyboards — esboços sequenciais das cenas antes das filmagens. Nos elencos misturava amadores recrutados nas ruas, artistas de music-hall, bailarinas do Châtelet e das Folies Bergère e membros de seu entourage. Em pelo menos 300 de seus 520 filmes, Méliès interpretou algum papel.[5]
Estilo cinematográfico
[editar | editar código]A câmera estacionária e a visão teatral
[editar | editar código]Em toda sua carreira, Méliès jamais moveu a câmera. Ela permanecia fixada numa posição equivalente à de um espectador sentado na plateia de um teatro, enquadrando sempre em plano aberto (long shot): nunca utilizou close-ups nem variações de ângulo de câmera. Para Méliès, o quadro cinematográfico era o equivalente do arco do proscênio de um palco teatral — seus filmes eram literalmente sucessões de quadros vivos ou, como ele os chamava, vues composées (cenas artificialmente arranjadas). Descreveu o estúdio como "a união do ateliê de fotografia em suas proporções gigantescas com o palco do teatro". A profundidade e a perspectiva eram criadas pela pintura dos fundos e pela movimentação dos atores, não pelo movimento da câmera. Como observou a Britannica, "jamais ocorreu a Méliès mover a câmera para close-ups ou planos distantes".[1]
O pesquisador André Gaudreault desenvolveu a categoria acadêmica de "théâtralité" exatamente a partir do modelo Méliès, em contraponto ao cinema de "narratividade" desenvolvido por D. W. Griffith a partir de 1908. A Britannica History of Film sintetizou: suas "produções permaneceram essencialmente peças de teatro filmadas, concebidas como sucessões de quadros vivos em que o enquadramento era tratado como o arco do proscênio".[1]
A féerie e o espetáculo
[editar | editar código]O estilo predominante de Méliès se insere na tradição popular francesa da féerie — gênero teatral caracterizado por enredos fantásticos, espetáculo visual suntuoso, cenários mecânicos elaborados e transformações deslumbrantes. Seus filmes compartilham com a féerie a subversão de fronteiras entre o real e o imaginário, o animado e o inanimado, a vida e a morte — a dimensão que levou os surrealistas a saudá-lo como grande poeta. Em Barba-Azul, o quarto trancado funciona como metáfora do próprio cinema de Méliès: "uma manifestação de desejos privados num meio público", onde "a teatralidade plana do mundo social cede lugar a efeitos, visões, sonhos, pesadelos, desejos, medos, perversões — a liberação do inconsciente e da vida interior".[6]
Cinema de atrações
[editar | editar código]O teórico do cinema Tom Gunning cunhou o conceito de "cinema de atrações" (cinema of attractions) para descrever a abordagem de Méliès — um cinema de espetáculo, demonstração e endereçamento direto ao espectador, que se contrapõe ao cinema de narrativa integrada desenvolvido por Griffith. Nessa leitura, Méliès não era um narrador que "falhou" em desenvolver a linguagem cinematográfica: era um artista de outra tradição, com sua própria lógica espetacular válida. Como sintetizou Claude Beylie: "Com Lumière, os trens entram nas estações; com Méliès, eles saem dos trilhos e voam para as nuvens." E Guillermo del Toro: "No momento em que os irmãos Lumière gravavam um trem chegando à estação, havia um homem chamado Georges Méliès gravando o que não existia, o que não era possível. No tempo da crônica, a fábula nasceu."[1]
Legado
[editar | editar código]Reabilitação crítica
[editar | editar código]Durante as décadas de 1940 a 1960, historiadores de cinema franceses pioneiros produziram trabalhos sobre Méliès que eram por vezes constrangidos por dois pressupostos: o de que seus filmes eram "primitivos" em relação ao cinema de Griffith, e o de que lhes faltava sofisticação narrativa. Havia também, como observou o crítico da Senses of Cinema, a imagem de Méliès como o primeiro "fracasso romântico" do cinema — o gênio frustrado pela ascensão do comercialismo industrial, o pai como o Rei Lear expulso pelos descendentes, incapaz de se adaptar, cuja trajetória trágica anuncia a de Buster Keaton, Erich von Stroheim e Orson Welles.
A partir dos anos 1980 e 1990, uma nova geração de pesquisadores — incluindo Tom Gunning, André Gaudreault, Elizabeth Ezra e Frank Kessler — reposicionou radicalmente sua obra como "cinema de atrações" com plena validade artística própria. Kessler considera Méliès possivelmente o cineasta mais escrito da história do cinema primitivo.[3]
Influência
[editar | editar código]Terry Gilliam o chamou de "o primeiro grande mágico do cinema", acrescentando: "Seu sentido alegre de diversão e sua capacidade de espantar foram uma grande influência nas minhas primeiras animações e depois nos meus filmes de ficção... Méliès ainda exerce sobre mim um forte domínio criativo." Os pintores do movimento surrealista citaram Méliès como influência. O cineasta canadense Guy Maddin é apontado como herdeiro direto de seu estilo. Cineastas como Martin Scorsese, George Lucas e Christopher Nolan também o citaram como inspiração.[1]
Na cultura
[editar | editar código]O asteroide **(244932) Méliès** foi nomeado em sua homenagem.
Em 1952, Georges Franju dirigiu Le Grand Méliès, biodrama em que André Méliès interpretou o próprio pai. Em 1967, no filme La Chinoise de Jean-Luc Godard, um personagem argumenta que Méliès — e não os Lumière — foi o verdadeiro criador do cinema de atualidades francês. No último episódio da minissérie From the Earth to the Moon (HBO), Méliès foi interpretado por Tchéky Karyo numa recriação documental de sua filmagem.
O videoclipe de "Heaven for Everyone" (1995) do Queen incorporou cenas de Le voyage dans la Lune. O videoclipe de "Tonight, Tonight" (1996) do The Smashing Pumpkins, dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, foi inteiramente inspirado na estética de Méliès — com atores em trajes da virada do século, cenários pintados, emoting exagerado ao modo do cinema mudo e um navio de resgate batizado S.S. Méliès —, vencendo seis prêmios no MTV Video Music Awards de 1996, incluindo Vídeo do Ano. Em 2003, o guitarrista de jazz Bill Frisell foi comissionado pelo New York Guitar Festival para compor trilhas para cinco filmes de Méliès — as estreias foram apresentadas em janeiro de 2004 no festival e transmitidas pela WNYC. Em 2007, a banda francesa Dionysos lançou o álbum e livro La Mécanique du Cœur, em que Méliès é personagem central — adaptado para animação em outubro de 2013. O videoclipe de "Mess Around" (2015) do Cage the Elephant foi produzido inteiramente com imagens de filmes de Méliès. O grupo sul-coreano Seventeen mencionou o filme em trecho da canção "Back it up" (2019).[1]
O romance ilustrado The Invention of Hugo Cabret (2007), de Brian Selznick, coloca a (re)descoberta da obra de Méliès no centro da trama. Adaptado por Martin Scorsese como A Invenção de Hugo Cabret (2011), com Ben Kingsley no papel de Méliès, o filme recebeu cinco Oscars. O álbum Le Voyage Dans La Lune (2012) do grupo francês Air, com vocais de Victoria Legrand e Au Revoir Simone, foi baseado na trilha que compuseram para a restauração colorida do filme. O mockumentary Fury of the Demon (2016) narra a história de Méliès por meio de um fictício filme perdido seu capaz de enlouquecer quem o assiste.
No segundo episódio de Futurama, o personagem Craterface — mascote do Luna Park — apresenta o rosto da Lua de Méliès. A atração Space Mountain: De la Terre à la Lune da Disney projetava uma Lua sorridente em homenagem direta à cena icônica de Le voyage dans la Lune. Em 3 de maio de 2018, o Google Doodle interativo em realidade virtual homenageou Méliès, incorporando temas de seus filmes; foi indicado a um Emmy.[1]
Méliès foi introduzido no Science Fiction and Fantasy Hall of Fame em 2015 e no Visual Effects Society Hall of Fame em 2017. O troféu do VES reproduz a célebre cena da nave pousando no olho da Lua — imagem que também inspirou o logotipo permanente da organização.[1]
Desde 1946, o Méliès d'or premia anualmente o melhor filme fantástico de produção francesa.

Ver também
[editar | editar código]Notas
- ↑ Na França do século XIX, era tradição católica batizar meninos com "Marie" como primeiro nome em devoção à Virgem Maria — uso devocional típico da época, presente em nomes como Marie-Henri Beyle (Stendhal) e Marie-Joseph de Lafayette.
- ↑ A wiki francesa e a alemã observam que o stop trick exigia um corte manual de película, tornando improvável que o efeito tivesse sido descoberto por acaso apenas na projeção. O historiador Georges Sadoul e outros consideram a história possivelmente embelezada por um mestre do espetáculo. Cabe ressaltar que o mesmo efeito já havia sido usado pela equipe de Thomas Edison em 1895 na encenação de uma decapitação em The Execution of Mary Stuart.
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 «Georges Méliès» (em inglês). Encyclopedia Britannica. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ «Méliès, Georges, 1861–1938» (em inglês). Library of Congress Linked Data Service. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 «The Illusory Tableaux of Georges Méliès» (em inglês). Harvard Film Archive. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Gress, Jon (2015). Visual Effects and Compositing. San Francisco: New Riders. p. 23. ISBN 9780133807240.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 «Georges Méliès – Biography» (em inglês). Site oficial de Pauline D-L Méliès. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 «Biographie de Georges Méliès» (em francês). meliesfilms.com. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- ↑ Fotografia de Léopold-Émile Reutlinger (1863-1937).
Ligações externas
[editar | editar código]- Georges Méliès no IMDb
- «Biografia» (em francês)
- «Estúdios de Montreuil» (em francês)
- «Site Oficial de Pauline D-L Méliès» (em francês e inglês)
- «The Illusory Tableaux of Georges Méliès» — Harvard Film Archive (em inglês)
- «Méliès — Senses of Cinema» (em inglês)
