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Globalização

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Participação global da riqueza por grupo de riqueza, Credit Suisse, 2021

Globalização é um conceito das ciências humanas que designa os processos de aprofundamento internacional da integração econômica, social, cultural e política,[1][2] que teriam sido impulsionados pela redução de custos dos meios de transporte e comunicações no final do século XX e início do século XXI[3] sendo considerada a maior mudança da história econômica nos últimos 40 anos.[4] O marco histórico que daria início ao processo de globalização é alvo de disputa acadêmica, ao passo que alguns estudiosos defendem que ele se deu no início da Era Moderna, enquanto outros traçam a sua história muito antes da era das descobertas e viagens ao Novo Mundo pelos europeus. Alguns até mesmo traçam as origens ao terceiro milênio a.C.[5][6]

O termo "globalização", a partir de meados da década de 1990, esteve em crescente uso, até atingir seu pico nos anos 2006/7. Apesar disso, a partir dos anos 2010, o termo foi aos poucos sendo menos utilizado.[7]

Em 2000, o Fundo Monetário Internacional (FMI) identificou quatro aspectos básicos da globalização, a saber: comércio e transações financeiras, movimentos de capital e de investimento, migração e movimento de pessoas e a disseminação de conhecimento[8], por meio dos quais os países mais influentes no contexto do mundo globalizado se integram para dar força ao capital transnacional.[9] Além disso, os desafios ambientais, como a mudança climática, poluição do ar e a pesca predatória nos oceanos, também são apontados como fenômenos vinculados à globalização.[10]

História

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Sistemas globais do século XIII
A Rota da Seda ligava a Europa, a África e a Ásia.

Os seres humanos têm interagido por longas distâncias por milhares de anos. A Rota da Seda, que ligava a Ásia, África e Europa, é um bom exemplo do poder transformador de troca que existia no "Velho Mundo". Filosofia, religião, língua, as artes e outros aspectos da cultura se espalharam e misturaram-se nas nações. Nos séculos XV e XVI, os europeus fizeram descobertas importantes em sua exploração dos oceanos, incluindo o início das viagens transatlânticas, saindo da Europa para o "Novo Mundo" das Américas. O movimento global de pessoas, bens e ideias expandiu significativamente nos séculos seguintes. No início do século XIX, o desenvolvimento de novas formas de transporte, como o navio a vapor e ferrovias, e das telecomunicações permitiu um intercâmbio global mais rápido.[11]

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1941, surgiu, no Brasil, o noticiário intitulado O Repórter Esso, constituído por uma síntese noticiosa de cinco minutos rigidamente cronometrados em que se veiculava, ao longo de várias edições diárias, um conteúdo associado ao pacote cultural-ideológico dos Estado Unidos.[12] A transmissão deste noticiário em 14 países do continente americano, por 59 estações de rádio, exprime a relação deste fenômeno com o contexto mais amplo da globalização, uma vez que os processos de crescente integração e inter-relação dos países do mundo designados por esse conceito, por meio das novas tecnologias de comunicação, como o rádio e a televisão, ofereceram as condições para o surgimento deste canal de notícias no Brasil.

O fim da Segunda Guerra Mundial é tido, segundo algumas vertentes teóricas, como o início da globalização moderna, assim como da mobilização para impedir que um conflito tão letal se repetisse. Nesse contexto, as nações vitoriosas da guerra e as devastadas potências do Eixo chegaram à conclusão de que era de suma importância, para o futuro da humanidade, a criação de mecanismos diplomáticos e comerciais que permitissem aproximar, cada vez mais, as nações uma das outras. Deste consenso, nasceu as Nações Unidas, e começou a surgir o conceito de bloco econômico, pouco após isso, com a fundação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço - CECA.

A necessidade de expandir seus mercados levou as nações a gradualmente se abrirem para o aumento das trocas de mercadorias com outros países, contexto marcado pelo avanço de ideologias econômicas vinculadas à tradição do liberalismo. Atualmente, o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), assim como outros países emergentes, podem ser vistos como beneficiários de determinadas vantagens advindas da globalização, com grandes economias de exportação, grande mercado interno e cada vez maior presença mundial.[13] Antes do BRICS, outros países fizeram uso da globalização e de economias voltadas à exportação para obter rápido crescimento econômico, como os países conhecidos como Tigres Asiáticos na década de 1980 e o Japão na década de 1970.[14]

Os processos nomeados pelo conceito de globalização afetam todos os setores da sociedade, principalmente comunicação, comércio internacional e liberdade de movimentação, com diferente intensidade dependendo do contexto econômico de cada nação e sua integração com o restante do planeta.

Comunicação

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Mapa da rede de cabos submarinos ao redor da Terra que mantém a Internet
Mapa das rotas aéreas comerciais de todo o mundo em outubro de 2024.

A globalização das comunicações tem sua face mais visível na internet, a rede mundial de computadores, possível graças a acordos e protocolos entre diferentes entidades privadas da área de telecomunicações e governos no mundo. Isto permitiu um grande fluxo de troca de ideias e informações sem paralelos na história da humanidade. Se, antes, uma pessoa estava limitada à imprensa local, agora ela mesma pode se tornar parte da imprensa e observar as tendências do mundo inteiro, teoricamente tendo apenas, como fator de limitação, a barreira linguística - se forem abstraídas inúmeras outras condições materiais, culturais, políticas etc. que influenciam sobre o acesso e o uso de tal tecnologia.

Nesse sentido, outra característica da globalização das comunicações é a expansão do acesso a meios de comunicação, graças ao barateamento dos aparelhos, principalmente celulares e os de infraestrutura para as operadoras, com aumento da cobertura e incremento geral da qualidade graças à inovação tecnológica. Hoje, uma inovação criada no Japão pode aparecer no mercado português ou brasileiro em poucos dias e virar sucesso de mercado. Um exemplo da universalização do acesso à informação pode ser o próprio Brasil, hoje, com cerca de 502 milhões de dispositivos digitais (smartphones, tablets, notebooks e computadores), 2,4 por habitante. Dentre os quais, 54% são smartphones, ou seja, 272 milhões de aparelhos, uma média de 1,3 por habitante.[15]

Redes de televisão e imprensa multimídia em geral também sofreram um grande impacto da globalização. Um país com imprensa livre hoje em dia pode ter acesso, algumas vezes por televisão por assinatura ou satélite, a emissoras do mundo inteiro, desde a NHK do Japão até a Cartoon Network americana.

Pode-se dizer que este incremento no acesso à comunicação em massa acionado pela globalização tem impactado até mesmo as estruturas de poder estabelecidas, com forte conotação democrática, ajudando pessoas antes restritas a um pequeno grupo de radiodifusão de informação a terem acesso à informação de todo o mundo, mostrando, a elas como o mundo é e se comporta. Por outro lado, este mesmo livre fluxo de informações é tido como uma ameaça para determinados governos ou entidades religiosas com poderes estabelecidos na sociedade, que têm gastado enorme quantidade de recursos para limitar o tipo de informação a que seus cidadãos têm acesso.

A República Popular da China, onde a internet tem registrado um expressivo crescimento, hoje com 92% de sua população tendo acesso à web, ou seja, cerca de 1,3 bilhão de pessoas[16] - graças à evolução, iniciada em 1978, de uma política econômica centralmente planejada para uma nova economia socialista de mercado -,[17] é um exemplo de nação notória por tentar limitar a visualização de certos conteúdos considerados "sensíveis" pelo governo, como a do Protesto na Praça Tiananmen em 1989. Além disso, em torno de 923 sites de notícias ao redor do mundo estão bloqueados no país, incluindo os da CNN e BBC. Sites de governos como Taiwan e sites de defesa da independência do Tibete também são proibidos. O número de pessoas presas na China por "ação subversiva" por ter publicado conteúdos críticos ao governo é estimado em mais de 40 ao ano. A própria Wikipédia já sofreu diversos bloqueios por parte do governo chinês.[18]

No Irã, Arábia Saudita e outros países islâmicos com grande influência da religião nas esferas governamentais, a internet sofre uma enorme pressão do estado, que tenta implementar diversas vezes barreiras e dificuldades para o acesso à rede mundial, como bloqueio de sites de redes de relacionamentos sociais como Orkut e MySpace, bloqueio de sites de noticias como CNN e BBC. Acesso a conteúdo erótico também é proibido.

Qualidade de vida

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Londres, a cidade mais globalizada do planeta em 2012, junto com Nova Iorque, segundo a Rede de Pesquisa de Globalização e Cidades Mundiais[19]

O acesso ampliado a tecnologias, principalmente novos medicamentos, novos equipamentos cirúrgicos e técnicos, o aumento na produção de alimentos e o barateamento no custo têm causado, nas últimas décadas, um aumento generalizado da longevidade dos países emergentes e desenvolvidos. De 1981 a 2001, o número de pessoas vivendo com menos de um dólar estadunidense por dia caiu de 1,5 bilhão de pessoas para 1,1 bilhão, sendo a maior queda da pobreza registrada exatamente nos países mais liberais e abertos à globalização.[20]

Na República Popular da China, após a flexibilização de sua economia comunista centralmente planejada para uma nova economia socialista de mercado,[17] e uma relativa abertura de alguns de seus mercados, a porcentagem de pessoas vivendo com menos de 2 dólares estadunidenses caiu 50,1%, contra um aumento de 2,2% na África sub-saariana. Na América Latina, houve redução de 22% das pessoas vivendo em pobreza extrema de 1981 até 2002.[21]

Embora alguns estudos sugiram que, atualmente, a distribuição de renda ou está estável ou está melhorando, sendo que as nações com maior melhora são as que possuem alta liberdade econômica pelo Índice de Liberdade Econômica,[22] outros estudos mais recentes da Organização das Nações Unidas indicam que "a 'globalização' e 'liberalização', como motores do crescimento econômico e do desenvolvimento dos países, não reduziram as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas".[23]

Para o ganhador do Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel Joseph Stiglitz, a globalização, que poderia ser uma força propulsora de desenvolvimento e da redução das desigualdades internacionais, está sendo corrompida por um comportamento hipócrita que não contribui para a construção de uma ordem econômica mais justa e para um mundo com menos conflitos. Esta é, em síntese, a tese defendida em seu livro A globalização e seus malefícios: a promessa não cumprida de benefícios globais.[24] Críticos argumentam, no entanto, que a globalização fracassou em alguns países exatamente por motivos opostos aos defendidos por Stiglitz: porque foi refreada por uma influência indesejada dos governos nas taxas de juros e na reforma tributária.

Efeitos na indústria e serviços

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Um McDonald's em Osaka, Japão ilustra a McDonaldização da sociedade global

Os efeitos da globalização no mercado de trabalho são evidentes, com a criação da modalidade de outsourcing de empregos para países com mão de obra mais barata para execução de serviços em que não é necessária alta qualificação. Outro efeito da globalização é a produção distribuída entre vários países, seja para criação de um único produto, onde cada empresa cria uma parte, seja para criação do mesmo produto em vários países para redução de custos e para ganhar vantagens competitivas no acesso a mercados regionais.

O ponto mais evidente é o que o colunista David Brooks definiu como "Era Cognitiva", onde a capacidade de uma pessoa em processar informações ficou mais importante que sua capacidade de trabalhar como operário em uma empresa graças a automação, também conhecida como Era da Informação, uma transição da exausta era industrial para a era pós-industrial.[25]

Nicholas A. Ashford, acadêmico do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, conclui que a globalização aumenta o ritmo das mudanças disruptivas nos meios de produção, tendendo a um aumento de tecnologias limpas e sustentáveis, apesar que isto irá requerer uma mudança de atitude por parte dos governos se este quiser continuar relevante mundialmente, com aumento da qualidade da educação, agir como evangelista do uso de novas tecnologias e investir em pesquisa e desenvolvimento de ciências revolucionárias ou novas como nanotecnologia ou fusão nuclear. O acadêmico nota, porém, que a globalização, por si só, não traz estes benefícios sem um governo pró-ativo nestas questões, exemplificando o cada vez mais globalizado mercado dos Estados Unidos, com aumento das disparidades de salários cada vez maior, e os Países Baixos, integrante da União Europeia, que se foca no comércio dentro da própria UE em vez de mundialmente, e que apresenta as disparidades em redução.[26]

Críticas

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Livro da ONU publicado no ano de 2007 diz que a "Globalização não resultou em queda de desigualdade e pobreza no mundo".[27]

Teorias da Globalização

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Monumento ao Multiculturalismo por Francesco Perilli em Toronto, Ontário, Canadá. Quatro esculturas idênticas estão localizadas em Buffalo City, África do Sul; Changchun, China; Sarajevo, Bósnia e Sydney, Austrália.

A globalização, por ser um fenômeno espontâneo decorrente da evolução do mercado capitalista não direcionado por uma única entidade ou pessoa, possui várias linhas teóricas que tentam explicar sua origem e seu impacto no mundo atual.

A rigor, as sociedades do mundo estão em processo de globalização desde o início da História, acelerado pela época dos Descobrimentos. Mas o processo histórico a que se denomina "globalização" é bem mais recente, datando (dependendo da conceituação e da interpretação) do colapso do bloco socialista e o consequente fim da Guerra Fria (entre 1989 e 1991), do refluxo capitalista com a estagnação econômica da União Soviética (a partir de 1975) ou ainda do próprio fim da Segunda Guerra Mundial.

No geral, a globalização é vista por alguns cientistas políticos como o movimento sob o qual se constrói o processo de ampliação da hegemonia econômica, política e cultural ocidental sobre as demais nações. Ou ainda que a globalização é a reinvenção do processo expansionista americano no período pós-guerra fria (esta reinvenção tardaria quase 10 anos para ganhar forma) com a imposição (forçosa ou não) dos modelos políticos (democracia), ideológico (liberalismo, hedonismo e individualismo) e econômico (abertura de mercados e livre competição)[28].

Vale ressaltar que este projeto não é uma criação exclusiva do estado norte-americano e que tampouco atende exclusivamente aos interesses deste, mas também é um projeto das empresas, em especial das grandes empresas transnacionais, e governos do mundo inteiro. Nesta ponta surge a inter-relação entre a Globalização e o Consenso de Washington.

Antonio Negri

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O pensador italiano Antonio Negri defende, em seu livro "Império", que a nova realidade sócio-política do mundo é definida por uma forma de organização diferente da hierarquia vertical ou das estruturas de poder "arborizadas" (ou seja, partindo de um tronco único para diversas ramificações ou galhos cada vez menores). Para Negri, esta nova dominação (que ele batiza de "Império") é constituída por redes assimétricas, e as relações de poder se dão mais por via cultural e econômica do que pelo uso coercitivo de força. Negri entende que entidades organizadas como redes (tais como corporações, organizações não governamentais e até grupos terroristas) têm mais poder e mobilidade (portanto, mais chances de sobrevivência no novo ambiente) do que instituições paradigmáticas da modernidade (como o Estado, partidos políticos e empresas tradicionais).

Mário Murteira

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O economista português Mário Murteira, autor de uma das abordagens científicas mais antigas e consistentes sobre o fenômeno da Globalização,[29] defende que, no século XXI, se verifica uma 'desocidentalização' da Globalização, visto que se constata que os países do Oriente, como a China, são os principais atores atuais do processo de Globalização e a hegemonia do Ocidente, no sistema econômico mundial, está a aproximar-se do seu ocaso, pelo que outras dinâmicas regionais, sobretudo na Ásia do Pacífico, ganharam mais força a nível global.[30] Para Mário Murteira, a Globalização está relacionada com um novo tipo de capitalismo em que o «mercado de conhecimento»[31] é o elemento mais influente no processo de acumulação de capital e de crescimento econômico no capitalismo atual, ou seja, é o núcleo duro que determina a evolução de todo o sistema econômico mundial do presente século XXI.[32]

Stuart Hall

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Em "A Identidade Cultural na Pós-Modernidade" (2006),[33] Stuart Hall busca avaliar o processo de deslocamento das estruturas tradicionais ocorrido nas sociedades modernas, assim como o descentramento dos quadros de referências que ligavam o indivíduo ao seu mundo social e cultural. Tais mudanças teriam sido ocasionadas, na contemporaneidade, principalmente, pelo processo de globalização. A globalização alteraria as noções de tempo e de espaço, desalojaria o sistema social e as estruturas por muito tempo consideradas como fixas e possibilitaria o surgimento de uma pluralização dos centros de exercício do poder. Quanto ao descentramento dos sistemas de referências, Hall considera seus efeitos nas identidades modernas, enfatizando as identidades nacionais, observando o que gerou, quais as formas e quais as consequências da crise dos paradigmas do final do século XX.

Benjamin Barber

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Em seu artigo "Jihad vs. McWorld", Benjamin Barber expõe sua visão dualista para a organização geopolítica global num futuro próximo. Os dois caminhos que ele enxerga — não apenas como possíveis, mas também prováveis — são o do McMundo e o da Jihad. Mesmo que se utilizando de um termo específico da religião islâmica (cujo significado, segundo ele, é, genericamente, "luta", geralmente a "luta da alma contra o mal" e, por extensão, "guerra santa"), Barber não vê como exclusivamente muçulmana a tendência antiglobalização e pró-tribalista, ou pró-comunitária. Ele classifica, nesta corrente, inúmeros movimentos de luta contra a ação globalizante, inclusive ocidentais, como os zapatistas e outras guerrilhas latino-americanas.

Está claro que a democracia, como regime de governo particular do modo de produção da sociedade industrial, não se aplica mais à realidade contemporânea. Nem se aplicará tampouco a quaisquer dos futuros econômicos pretendidos pelas duas tendências apontadas por Barber: ou o pré-industrialismo tribalista ou o pós-industrialismo globalizado. Os modos de produção de ambos exigem outros tipos de organização política cujas demandas o sistema democrático não é capaz de atender.

Daniele Conversi

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Para Conversi, os acadêmicos ainda não chegaram a um acordo sobre o real significado do termo globalização, para o qual ainda não há uma definição coerente e universal: alguns autores se concentram nos aspectos econômicos, outros nos efeitos políticos e legislativos, e assim por diante. Para Conversi, a 'globalização cultural' é, possivelmente, sua forma mais visível e efetiva enquanto "ela caminha na sua trajetória letal de destruição global, removendo todas as seguranças e barreiras tradicionais em seu caminho. É também a forma de globalização que pode ser mais facilmente identificada com uma dominação pelos Estados Unidos. Conversi vê uma correlação entre a globalização cultural e seu conceito gêmeo de 'segurança cultural', tal como desenvolvido por Jean Tardiff, e outros[34]

Conversi propõe a análise da 'globalização cultural' em três linhas principais: a primeira se concentra nos efeitos políticos das alterações sócio-culturais, que se identificam com a 'insegurança social'. A segunda, paradoxalmente chamada de 'falha de comunicação',[34] tem como seu argumento principal o fato de que a 'ordem mundial' atual tem uma estrutura vertical, na realidade piramidal, onde os diversos grupos sociais têm cada vez menos oportunidades de se intercomunicar, ou interagir de maneira relevante e consoante suas tradições; de acordo com essa teoria não estaria havendo uma 'globalização' propriamente dita, mas, ao contrário, estariam sendo construídas ligações-ponte, e estaria ocorrendo uma erosão do entendimento, sob a fachada de uma homogenização global causando o colapso da comunicação interétnica e internacional, em consequência direta de uma 'americanização' superficial.[34] A terceira linha de análise se concentra numa forma mais real e concreta de globalização: a importância crescente da diáspora na política internacional e no nascimento do que se chamou de 'nacionalismo de e-mail" - uma expressão criada por Benedict Anderson (1992).[35] "A expansão da Internet propiciou a criação de redes etnopolíticas que só podem ser limitadas pelas fronteiras nacionais às custas de violações de direitos humanos".[34]

O cientista político Samuel P. Huntington, ideólogo do neoconservadorismo norte-americano, enxerga a globalização como um processo de expansão da cultura ocidental e do sistema capitalista sobre os demais modos de vida e de produção do mundo, o que conduziria inevitavelmente a um "choque de civilizações".

Göran Therborn

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Em “O mundo: um guia para principiantes” (2011),[36] o sociólogo sueco Göran Therborn sintetiza uma hipótese histórica desenvolvida previamente para explicar os processos globais. Therborn define o que chama de ondas históricas de globalização como “a extensão, aceleração e/ou intensificação de importantes processos sociais de alcance ou impacto pelo menos transcontinental – mas não necessariamente mundial”.[36]

A reflexão de Therborn a respeito do caráter multidimensional e plural do processo de globalização encontra ecos em seu artigo de 2000 intitulado “Globalizations: Dimensions, Historical Waves, Regional Effects, Normative Governance”,[37] no qual o sociólogo identifica e discute cinco correntes teóricas de interpretação do fenômeno, a que chama de “dimensões da globalização”. São elas: economia competitiva (mercados e mobilidade social), criticismo social (riscos do ponto de vista moral ou religioso), impotência estatal (soberania e capacidade dos estados), cultura (entre uniformização e diversidade) e ecologia planetária (preocupação com o ecossistema comum). O sociólogo critica aquilo que chama de falta de consciência dos discursos acima sobre si ou sobre os demais.

Em contraposição ao que considera uma abordagem unidimensional da discussão sobre globalização, Therborn propõe uma visão plural do fenômeno (“globalizações”), definindo-o como “tendências a alcances, impactos ou conexões em escala global de fenômenos sociais ou a uma consciência global entre atores sociais”.[37] Nesse sentido, o sociólogo argumenta que a globalização não é um fenômeno novo e pode ser concebida a partir de seis ondas históricas:

  • Primeira onda: difusão das religiões mundiais e o estabelecimento de civilizações transcontinentais entre os séculos IV e VII d.C. Marcada pela dominação cristã da Europa, a difusão do Hinduísmo no Sudeste Asiático, a chegada do Budismo na Índia e a expansão do Islã.
  • Segunda onda: expansão ultramarina europeia no fim do século XIV. Caracterizada pelo alcance mundial dos impérios europeus a partir do comércio de mercadorias e do tráfico negreiro.
  • Terceira onda: guerras europeias do fim do século XVIII e início do XIX. Therborn chega a definir a guerra franco-britânica como a “primeira guerra mundial da história da humanidade”, marcada por uma série de embates entre as duas potências imperiais.[36]
  • Quarta onda: globalização pela expansão das redes transoceânicas de migração e comércio, facilitada pelos meios de transporte e comunicação, situada entre a segunda metade do século XIX e o período da Primeira Guerra Mundial. Therborn também a chamaria de fase do “Imperialismo generalizado”, que teria legado a divisão do mundo entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos.[36]
  • Quinta onda: ordem da política globalizada do pós-1945, encarnada pela constituição das Nações Unidas e suas organizações especializadas, mas constrangida pela disputa ideológica da Guerra Fria e contestada pela luta anticolonial no Terceiro Mundo.
  • Sexta onda: período a partir da década de 1990 que deu nome à globalização. Marcada pelo advento do neoliberalismo, no qual a lógica financeiro-cultural teria substituído as preocupações político-militares. É das transformações advindas do fortalecimento dos mercados globais que o sociólogo posiciona o período contemporâneo da globalização, cujas dinâmicas foram reconfiguradas com as transformações nas comunicações (satélite e internet) e no sistema financeiro capitalista.

A teoria do sociólogo sobre a globalização foca em suas dimensões ligadas à constituição da vida social, assim como os efeitos deletérios — notadamente a produção de desigualdade entre indivíduos e nações — decorrentes das diferentes ondas de globalização. Therborn explora, então, as variações dos efeitos do fenômeno no mundo e localiza ganhadores e perdedores do processo de globalização, além de discutir abordagens normativas globais que contemplem o ecossistema terrestre e a igualdade entre os seres humanos, à luz das preocupações advindas das mudança do clima.

Antiglobalização

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Protestos contra a reunião do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional em Washington, D.C. em 2007.

Apesar das contradições, há um certo consenso a respeito das características da globalização que envolve o aumento dos riscos globais de transações financeiras, perda de parte da soberania dos Estados, com a ênfase das organizações supragovernamentais, aumento do volume e velocidade como os recursos vêm sendo transacionados pelo mundo, através do desenvolvimento tecnológico etc.

Além das discussões que envolvem a definição do conceito, há controvérsias em relação aos resultados da globalização.[38] Tanto podemos encontrar pessoas que se posicionam a favor como contra a globalização. Um dos maiores eventos do movimento antiglobalização é o Fórum Social Mundial, que se reuniu pela primeira vez em Porto Alegre, no Brasil, em 2001. O Fórum Social Mundial serve como ponto de encontro para movimentos sociais de todo o mundo propondo a globalização alternativa, não baseada nas dinâmicas reguladas pelo capitalismo.[39]

A globalização é um fenômeno moderno que surgiu com a evolução dos novos meios de comunicação, cada vez mais rápidos e mais eficazes. Há, no entanto, aspectos tanto positivos quanto negativos na globalização. No que concerne aos aspectos negativos, há a referir a facilidade com que tudo circula, não havendo grande controle, como se pode facilmente depreender pelos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos. Outro dos aspectos negativos é a grande instabilidade econômica que se cria no mundo, pois qualquer fenômeno que acontece num determinado país atinge rapidamente outros países, criando-se contágios que, tal como as epidemias, se alastram a todos os pontos do globo como se de um único ponto se tratasse. Os países, cada vez, estão mais dependentes uns dos outros e já não há possibilidade de se isolarem no seu ninho, pois ninguém é imune a estes contágios positivos ou negativos. Como aspectos positivos, temos, sem sombra de dúvida, a facilidade com que as inovações se propagam entre países e continentes e o acesso fácil e rápido à informação e aos bens. Esta globalização serve para os mais fracos se equipararem aos mais fortes, pois tudo se consegue adquirir através desta grande autoestrada informacional do mundo que é a Internet. Com a ressalva de que, para as classes menos favorecidas economicamente, especialmente nos países em desenvolvimento,[40] esse acesso não é "fácil" (porque seu custo é elevado) e não será rápido.

Outras teorias relacionadas ao fenômeno da globalização

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Sociedade Mundial

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No ramo da Sociologia, os fenômenos designados pelo conceito de “globalização” são alvo de abordagens divergentes daquelas presentes em outras áreas do saber (como a geografia, a economia, o conhecimento leigo etc.). Essas diferentes abordagens são construídas sobre referenciais teóricos, metodologias e pressupostos específicos, o que, portanto, se refletem na tradução desses fenômenos em explicações de cunhos muito variados. Podem ser citadas algumas dessas abordagens presentes no cenário sociológico contemporâneo.

Rudolf Stichweh

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Para Rudolf Stichweh, a sociedade moderna, ao invés de ser composta por diversas sociedades distintas e separadas, é, na verdade, um sistema societal que agrega todas as nações e comunicações do mundo. Isso é o que ele chama de “sociedade mundial”, a qual não é resultado do processo de globalização experienciado nos séculos XIX e XX, e ainda hoje, mas sim o conjunto das relações humanas, entre seus diversos agrupamentos espalhados territorialmente, desde o surgimento da espécie humana e, não obstante, acompanhando sua expansão pelo mundo desde então. Nesse sentido, o estado contemporâneo da “sociedade mundial”, segundo seu conceito, seria marcado pelo aprofundamento das relações, interações e interdependência política, cultural e econômica, que se iniciou séculos atrás, e se expandiu com o processo de colonização intensa empreendido pelos países europeus, assim como pode ser estudado como tendo surgido a partir das transformações  nos componentes da comunicação e migração.

Para entender a gênese da sociedade mundial, ele propõe olhar brevemente para outros tipos de sociedade que existiram e que sedimentaram as bases e pré-condições para o seu surgimento. Segundo Stichweh, há cerca de 70.000-10.000 a.C. existiram as sociedades de caçadores/coletores, sociedades com centenas de membros que se deslocavam de acordo com a disponibilidade de recursos. As sociedades sedentárias surgem com o advento da agricultura, há cerca de 10.000 anos, e, a partir dessa nova organização, observa-se acúmulo de poder militar e maiores extensões de domínios territoriais, dando origem aos  impérios, os quais desapareceram após a Segunda Guerra Mundial e com a ascensão e predomínio do Estado Nacional.

O autor aponta o período inicial da sociedade mundial com o aparecimento das civilizações, macrossociedades cujas fronteiras eram mais socioculturais do que político-militares, e o início das Grandes Navegações, no século XV. Nas palavras de Stichweh, ela emerge da crescente interdependência que se desenvolveu nesse sistema societal singular e sua expansão se dá pela emergência de sistemas de função global, tais como a economia, a política, a religião, as ciências etc., diga-se, os processos impulsionados pela intensa globalização, navegações e ampliação dos meios de comunicação. Nesse sentido, a ascensão da sociedade mundial e a gênese dos sistemas de função global podem ser considerados o mesmo processo social.

Entretanto, antes disso, aponta Stichweh, o cerne da sociedade mundial está acoplado a alguns processos, que são as pré-condições para o surgimento e expansão da sociedade mundial. O primeiro deles é o povoamento de todos os espaços naturais pelos Homo sapiens e sua dominância sobre outras espécies. A segunda pré-condição é a universalidade da linguagem e da comunicação, e o estabelecimento de uma instituição ao redor da morte. Para o autor, este fato cria as primeiras memórias socioculturais do ser humano, assim como surgem diversas perspectivas ao seu redor, como o sepultamento e, em alguns agrupamentos, a vingança, havendo uma expansão no horizonte de conduta dos indivíduos, fator que vai ser importante para o processo que o autor chama de “evolução sociocultural”. Estabelecidas essas pré-condições, o surgimento da sociedade mundial, a partir da preponderância das culturas do Homo sapiens, seria, para o autor, algo deduzível.

Sendo assim, a evolução sociocultural é analiticamente comparável à evolução biológica, apesar de distintas. Em suma, para Stichweh, ambos são processos de transmissão e propagação de informação, de variação e da reprodução seletivas de certos elementos que irão fundamentar as bases de estruturação da sociedade mundial. As memórias culturais, citadas anteriormente, funcionam como mecanismo de armazenamento; a comunicação serve para difusão; e a variação se dá pela negação de certas expectativas estabelecidas. Os mecanismos de seleção na evolução sociocultural, por sua vez, se dão na reprodução seletiva de unidades sociais elementares, como as expectativas, os símbolos e as rotinas, por meio da comunicação.

O processo descrito anteriormente é de suma importância para o entendimento da ideia de sociedade mundial estabelecida por Stichweh, pois contradiz o pensamento de que a sociedade mundial é uma invenção tardia (conforme sugerido pelas teorias da globalização que apontam para integração em escala global de diferentes sociedades apenas após o século XX), dado que esse é um processo mundial e concomitante a própria história da espécie humana no planeta. É por meio desse processo que surgem muitas das formas de diferenciação social, a saber: a oposição centro/periferia, a estratificação e a diferenciação funcional.

O processo mais importante de complexificação da sociedade mundial, descrito pelo autor, é o de diferenciação funcional, motivado pelos sistemas de função. Estes são subsistemas especializados da sociedade responsáveis por funções indispensáveis para o funcionamento do todo social, tais como a economia e a política, e que, devido aos processos de comunicação entre as unidades da rede social, estendem seus horizontes globalmente.

A realização moderna dos sistemas de função se deu por meio das “revoluções inclusivas”, que ocorreram a partir da segunda metade do século XVIII. Por “revolução inclusiva” entende-se a conferência de uma universalidade ou maior capilaridade a algum fenômeno funcional que antes era pequeno e local, como a revolução democrática que se deu no século XVIII. Esta revolução estendeu as ideias de participação e inclusão a “todos” como beneficiários dos resultados dos atos políticos, assim como ampliou a participação no processo decisório e aos direitos. Nos séculos XX-XXI, observa-se uma maior inferência de ciências nos processos e fatos cotidianos, e isso é o que o autor chama de revolução científica, caracterizada pela expansão dos espaços de problemas que a pesquisa científica infere e afeta aspectos da vida prática.

Como dito anteriormente, a diferenciação funcional é o mais importante processo de complexificação social, e isso se justifica pelo seu caráter de “autoestrutura”, ou seja, uma estrutura que se relaciona com a sociedade mundial por meio da intensificação recíproca, fortalecendo-a ainda mais e, por isso, oferecendo vantagens para sua replicação. As autoestrututas são importantes, pois elas estruturam e possibilitam a participação dos indivíduos nos sistemas de função e de interação global, ao passo que estabelecem os parâmetros a serem seguidos, a fim de serem replicadas em diversos locais. Além da diferenciação funcional, os sistemas de função, as redes de pequeno mundo, as organizações, comunidades epistêmicas e os sistemas de interação global são outras autoestruturas da sociedade mundial contemporânea listadas por Stichweh.

Apesar de a expansão da sociedade mundial e o processo de globalização se confundirem, os dois processos se diferenciam e surgem em momentos diferentes. Entretanto, a sociedade mundial, entendida como uma sociedade que engloba todas os agrupamentos humanos e suas interdependências políticas, culturais e econômicas, apresenta alguns mecanismos que favoreceram a globalização, intensificando as relações entre as unidades da sociedade mundial, ao mesmo tempo que aumentando a complexidade desse tipo de organização na contemporaneidade.

O primeiro deles é a comunicação, responsável pela seletividade da transferência de informação, processo elementar que se intensificou com o advento das mídias de massa. O segundo é a migração, entendido como o deslocamento voluntário ou involuntário de estruturas pelo deslocamento de indivíduos, que tornou-se mais eficiente com os modernos meios de transporte. O último processo é a comparação global de alternativas com base em possibilidades observacionais globais. A observação, entendida como um mecanismo que permite aplicar distinções e buscar entender outras realidades ou expressões, interliga esses mecanismos.

Nesse sentido, para Stichweh, o que estabiliza esses três mecanismos é o conhecimento como resultado cumulativo da operação da comunicação, migração e observação, que se tornam globais, e estão em constante transformação e acumulação. Por meio dessa acessibilidade a diferentes “conhecimentos”, a evolução sociocultural é um processo de conhecimento constante.

Em síntese, a teoria de Rudolf Stichweh permite compreender a sociedade mundial não como um fenômeno recente decorrente apenas da globalização contemporânea, mas como um processo histórico de longa duração que acompanha a própria trajetória do Homo sapiens. A partir das pré-condições socioculturais - como a universalidade da linguagem, a experiência comum da morte e a expansão territorial da espécie - desenvolvem-se formas crescentes de interdependência e mecanismos de evolução sociocultural que estruturam a sociedade mundial. Esse processo se complexifica ao longo do tempo com o surgimento de autoestruturas e, sobretudo, com a diferenciação funcional que se relaciona e impulsiona os sistemas globais como a economia, a ciência e a política. Na contemporaneidade, os mecanismos de comunicação, migração e observação, em escala local e global, intensificam ainda mais a conectividade entre unidades sociais, consolidando um sistema societal único e altamente interdependente. Assim, para Stichweh, compreender a sociedade mundial é compreender a própria dinâmica de expansão, diferenciação e acúmulo de conhecimento que caracteriza a história humana e molda as estruturas sociais do presente.

John. W. Meyer

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O sociólogo John W. Meyer oferece outra perspectiva acerca da globalização, a partir de sua teoria da “sociedade mundial”. Segundo ele, o contexto marcado pelo fim da Segunda Guerra Mundial foi determinante para a alteração das relações entre diferentes partes do globo, assim como afirmam os proponentes das teorias da globalização. Contudo, essa mudança se daria menos em decorrência dos avanços tecnológicos e dos movimentos de agentes auto-interessados do Mercado internacional, do que pela constituição de um contexto institucional que forma os sujeitos contemporâneos, em diversos países, para se integrarem na chamada “sociedade mundial”.

Nesse sentido, o autor sustenta seus fundamentos teóricos em uma corrente particular dos “novos institucionalismos” (“new institutionalisms”), a qual defende que os contextos institucionais com que os membros da sociedade se encontram (podendo ser indivíduos, organizações ou Estados nacionais) ao mesmo tempo os constrangem, empoderam e formam enquanto agentes. As instituições sociais e culturais alcançariam essa realização, por meio do conferimento das qualidades de legitimidade e competência (correspondentes à noção de “agentic”) aos agentes, para intervir responsavelmente na sociedade, a partir das condições e limitações oferecidas pela estrutura social e de significados, na qual esses membros se inserem. A partir deste ponto de vista, o ator se apresenta como dotado de uma identidade e realizando ações que são, ambas, produto de “inscrição” social (“scripted identity” e “scripted action”, nas palavras de Meyer). Esta posição teórica se fundamenta em pressupostos presentes na Fenomenologia, e, mais precisamente, na Sociologia Fenomenológica, que teve um importante papel para consolidar esta corrente dos “novos institucionalismos”.

Nesse sentido, o contexto marcado pelo pós-Guerra de 1945 é caracterizado por Meyer pelo aumento das interdependências políticas, econômicas, culturais e militares das nações do mundo, em decorrência da globalização, ao mesmo tempo em que a autoridade dos Estado-nações enquanto organizações capazes de manter a ordem mundial declinou. Consequentemente, a autoridade depositada em outros modos de organização sociais, como a família e as profissões, apoiadas pelo modelo do Estado-nação, também perdeu espaço e, em última instância, a identidade dos atores baseada na cidadania nacional se fragilizou. Frente ao fracasso das organizações supranacionais e intergovernamentais para solucionar os problemas da competição e da interdependência crescentes, Meyer aponta para três principais dimensões culturais e organizacionais que se expandiram significativamente no mundo pós-Segunda Guerra, contribuindo para formar e conferir estabilidade às redes de atores da sociedade moderna contemporânea, isto é, a “sociedade mundial”. São elas:

  1. “Otherhood” (Alteridade): muitas das estruturas sociais e dos modelos de agência que se expandiram na sociedade pós-Segunda Guerra legitimam sua atuação por meio de princípios baseados em normas, valores e direitos de caráter universal (em que os Direitos Humanos são um exemplo paradigmático), aparentemente abandonando modelos de ação baseados no auto-interesse. Assim, esses atores se comportam na sociedade moderna contemporânea como “Others” (Outros), ou seja, agindo de maneira aparentemente desinteressada, com base em princípios universais de boa conduta. Estes sujeitos se apresentam como professores, conselheiros ou consultores para formar bons atores, nas mais diversas áreas sociais.
  2. “Rationalization” (Racionalização): na sociedade moderna contemporânea, todos os aspectos da vida natural e social foram submetidos à autoridade científica, sendo tomados como suscetíveis a explicações racionais de caráter universal. Sendo assim, a ciência oferece apoio para a agência humana em todo o mundo e em todas as áreas da vida, ao constituir uma cosmologia universalizante, por meio da qual todos os fenômenos poderiam ser explicados de maneira integrada e padronizada. De maneira análoga, a ciência legitima mecanismos de controle e cooperação aplicáveis em todos os contextos locais, tendo como base seus princípios racionais universais.
  3. “Ontology” (Ontologia): nesse contexto, os direitos associados a todos os tipos de indivíduos (mulheres, pessoas com deficiência, minorias étnicas etc.) para escolher sobre todos os tipos de direitos (educação, saúde, liberdade religiosa etc.) foram expandidos e celebrados na sociedade moderna contemporânea. Desse modo, uma determinada Ontologia do papel do indivíduo passa a sustentar a sua posição enquanto um agente ativo e empoderado, para a transformação da sociedade e a busca por seus direitos.

Meyer afirma que, a partir dessas três dimensões que marcam o contexto institucional em expansão na sociedade moderna contemporânea, um determinado modelo de agência seria difundido ao redor do mundo. Este modelo é caracterizado por uma posição simbolicamente sustentada sobre uma autoridade empoderada para intervir ativamente na sociedade, com base em sua compreensão cientifizada ou racionalizada do mundo. Sendo assim, indivíduos, organizações sociais e Estados do mundo todo estariam adotando esse modelo enquanto um princípio de agência, tornando-se dotados de “Actorhood” (Agência). Aqui, os “Others” (Outros) – professores, conselheiros e consultores – assumiriam um papel central, como proponentes de princípios científicos, universais e altamente distanciados de contextos locais para formar a agência dos novos atores da sociedade moderna. Meyer afirma que esse cenário ampliaria a busca pela formação em instituições de ensino, as quais, segundo ele, ao longo da história da sociedade moderna, tiveram um papel primordial para a constituição dos sujeitos dotados das qualidades necessárias para a agência (tornando-se “agentic”, nas palavras do autor). O papel das universidades para a formação do ator dotado de agência (“agentic”) na sociedade moderna contemporânea é mais detidamente explorado em outras publicações do mesmo autor (D.J. Frank & J.W. Meyer, 2007).

Nesse contexto, a qualidade de “Actorhood” representaria a identidade ideal a ser almejada pelos indivíduos, organizações e Estados do mundo todo, garantindo a preferência por normas e valores universais, os quais, por sua vez, sustentam uma rede ordenada de agências em escala global. Em outras palavras, constitui-se, assim, uma sociedade mundial, sustentada sobre o modelo expansivo de agência caracterizado pela qualidade de “Actorhood”. Ao contrário do que outras teorias sobre o fenômeno da globalização podem afirmar, a adesão a princípios universais não se apresenta, para Meyer, como produto da ação competitiva e auto-interessada de Estados ou agentes do Mercado internacional, por meio de seus mecanismos de coerção, mas sim como uma adesão predominantemente espontânea a determinados scripts de identidade e agência individuais, difundidos sobretudo em um plano cultural, por meio de atores como instituições de ensino, professores, cientistas, intelectuais etc. (ou seja, os “Others”). Aqui, mais uma vez, o papel da expansão das universidades no mundo, com programas formativos pautados em princípios relativamente homogêneos, é central.

Por fim, Meyer salienta que a expansão desse modelo de agência promovida pelos “Others”, em um plano cultural, mesmo que se pautando em princípios universalizantes, não pode garantir (e de fato não garante, na maioria dos casos) a concretização de tais princípios nas ações reais tomadas pelos atores ao redor do mundo, nem mesmo a solução dos problemas concretos com que estes atores são defrontados. De fato, a expansão do modelo de “Actorhood” ocorre por meio de processos variados e em ritmos desiguais para cada contexto local, criando o fenômeno denominado como “decoupling” (desacoplamento), isto é, a separação entre as identidades dos atores baseadas em princípios, normas, valores e ideias universais (sustentadas pelo modelo de “Actorhood”) e as práticas concretas que esses atores podem realizar e de fato realizam em situações locais. Sendo assim, a própria expansão deste modelo de agência faz com que todos os indivíduos, organizações e Estados ao redor do mundo possam ser tomados como atores que fracassam em atingir tal modelo. Este cenário reforça a atuação dos “Others” para suplantar essas falhas, por meio de suas  instruções e seus conselhos, consequentemente intensificando a mobilização de todos os atores envolvidos na tentativa de aprimorarem a aplicação dos grandes direitos e responsabilidades imaginados que eles possuem. Em última instância, o desacoplamento entre identidades e práticas promovido pelo modelo expansivo de “Actorhood” produz a mobilização dos atores ao redor do mundo para tomarem parte de princípios universais e diretrizes de agência que sustentam a integridade da sociedade mundial.

Em suma, Meyer apresenta um contraponto às teorias da globalização que abordam este fenômeno como a causa da integração das diferentes sociedades do mundo na contemporaneidade. Para o sociólogo, é mais significativa a importância dos ambientes institucionais em que os indivíduos (e organizações de indivíduos) se inserem, não apenas como estruturas que ao mesmo tempo constrangem e instrumentalizam a ação desses atores, mas sobretudo enquanto modelos organizacionais e estruturas de significado que constituem sua ação, em favor da consolidação de uma sociedade mundial. Consequentemente,, a integração das diferentes partes do mundo na sociedade moderna contemporânea não é fruto simplesmente de práticas competitivas para maximização de interesses individuais, por meio de tecnologias crescentemente avançadas de comunicação e transporte, mas, antes, consequência da expansão de modelos culturais universalizantes que são capazes de integrar e orientar a agência dos atores em todo o mundo.

Leituras sugeridas

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Ver também

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Referências

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Bibliografia

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Ligações externas

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