Gonçalo Mendes II de Sousa

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Gonçalo Mendes II de Sousa
Rico-homem/Senhor
Senhor da Casa de Sousa
Reinado 1192-1243
Predecessor Mendo Gonçalves I
Sucessor Mendo Garcia
PortugueseFlag1185.svg
Mordomo-mor do Reino de Portugal
Reinado
  • 1192-1211
  • 1224
Predecessor
Sucessor
Tenente régio
Reinado
Cônjuge Teresa Soares de Ribadouro
Descendência Mendo Gonçalves II
Mor Gonçalves
Maria Gonçalves
Sancha Gonçalves
Herdeiro Mendo Gonçalves II
Dinastia Sousa
Nome completo
Gonçalo Mendes de Sousa
Nascimento 1170
Morte 25 de abril de 1243 (73 anos)
Enterro Mosteiro de Alcobaça, Alcobaça, Leiria, Portugal
Pai Mendo Gonçalves I de Sousa
Mãe Maria Rodrigues Veloso
Religião Catolicismo romano

Gonçalo Mendes II de Sousa (c.1170[1] - 25 de abril de 1243) foi um aristocrata português, tendo presenciado talvez a fase de maior independência da família face ao poder régio, por entre o auge do poderio senhorial que se fez sentir durante a fase final do reinado de Sancho II de Portugal. Foi uma das personagens mais destacadas do século XIII[2].

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Gonçalo Mendes era filho do conde Mendo Gonçalves I de Sousa e da sua consorte Maria Rodrigues Veloso. O conde era por sua vez filho do célebre Gonçalo Mendes I O Bom. Gonçalo Mendes (que recebeu o nome do avô) pertencia assim a uma das mais prestigiadas famílias aristocratas portuguesas dos séculos XII e XIII. Terá nascido por volta da década de 70 do século XII, uma vez que em 1192 era já adulto, assumindo pela primeira vez o cargo de Mordomo-mor[3].

A ascensão na corte[editar | editar código-fonte]

Conta-se um Gonçalo de Sousa por entre os acompanhantes do infante Sancho na sua entrada pela Andaluzia, sendo mais provável que tenha sido este que o seu avô homónimo.

Desde 1186, com a nomeação do pai para o cargo de mordomo, a família de Sousa conhecera uma ascensão social sem precedentes, tornando-a talvez na primeira família aristocrata do reino, sendo também importante na construção da riqueza e património familiar, chegando o seu poder a suplantar as fronteiras dos seus domínios[4].

A morte do pai em 1192 levou Gonçalo, como primogénito, à chefia da casa e do seu património, então muito maior. A nomeação para o cargo de mordomo, o mais alto da cúria régia, nesse mesmo ano (figura nessa condição no foral de Sancho I a Ermelo, no Barroso), confirma a preferência de Sancho I de Portugal (que herdara do pai) por esta família, que se manteve sempre como apoiante da instituição régia, desde as primeiras revoltas de Afonso Henriques em 1128[5]. Gonçalo acumularia o alto cargo com tenências que entretanto também lhe tinham sido atribuídas, nomeadamente Basto e Celorico da Beira.

De uma escritura original da sé bracarense, de 1200, se sabe que, o infante Afonso adoeceu gravemente, e o rei foi prostrar-se em Basto sobre o túmulo de Santa Senhorinha, membro dos Sousas, rogando-lhe entre lágrimas e suspiros a saúde do infante, sob promessa de coutar à igreja da dita santa o território adjacente. Isto se cumpriu, mandando Sancho levantar os padrões por mão de Gonçalo Mendes, que era então princeps da terra[6].

O testamento de Sancho I e o conflito sucessório[editar | editar código-fonte]

Antecedentes: o testamento e a divergência nobiliárquica[editar | editar código-fonte]

Companheiro de armas e mordomo de Sancho I, Gonçalo foi, juntamente com Lourenço Soares de Ribadouro, Gonçalo Soares, Pedro Afonso de Ribadouro, e Martim Fernandes de Riba de Vizela, executor testamentário daquele rei. Teria de fazer valer os direitos do rei no caso de o seu testamento não se cumprisse como o mesmo havia estipulado. O infante não concordou com o testamento deixado pelo pai, no qual teria de ceder terras às suas irmãs, equiparadas a ele em título, e recusou cumpri-lo.

Desta forma, os primeiros anos do reinado do sucessor, Afonso II de Portugal, foram marcados por violentos conflitos internos entre o rei e as suas irmãs Mafalda, Teresa e Santa Sancha de Portugal, a quem Sancho legara em testamento, sob o título de rainhas, a posse dos castelos de Montemor-o-Velho, Seia e Alenquer, com as respectivas vilas, termos, alcaidarias e rendimentos. Ora, Afonso, tentando evitar a supremacia da influência dos nobres no seu governo, pretendia centralizar o seu poder, mas para isso incorria contra as irmãs e em último caso contra o testamento paterno, do qual Gonçalo ficara encarregue de defender. Este, como executor testamentário, e talvez por ter sido um grande companheiro do rei, foi o que mais agiu em defesa das últimas vontades de Sancho, empenhando-se em fazê-las cumprir e jurá-las solenemente[6]. Assim é perfeitamente compreensível que Gonçalo tivesse defendido intensamente a posição das infantas, sobretudo nas terras onde dominava como tenente: Montemor-o-Novo, Sesimbra, Lisboa, Sintra, Torres Vedras, Abrantes e Óbidos, além das já referidas, inaugurando um período no qual os Sousas, firmes apoiantes da realeza portuguesa, se lhe opunham pela primeira vez.

Alguns dos cinco grandes nobres citados juntaram-se a ele na defesa da posição das três rainhas de Portugal: Teresa, Sancha e Mafalda. Mas alguns permaneceram do lado do rei: sabe-se que Lourenço Soares de Ribadouro se terá mantido do lado do novo rei, sendo esta posição também compreensível dado o estreito vínculo que unia a Casa de Ribadouro à Casa Real: Afonso I de Portugal fora pupilo de Egas Moniz, o Aio; e mais tarde várias damas daquela família haviam educado infantes (como o caso de Urraca Viegas de Ribadouro, tia de Lourenço, que educara a Rainha Mafalda).

O conflito[editar | editar código-fonte]

A posição de Gonçalo teve consequências imediatasː foi retirado do cargo de mordomo, e a sua hegemonia na corte viu também um fim, sendo afastado. Na mordomia é substituído por Martim Fernandes, um dos executores testamenteiros que, como se pode depreender, terá ficado do lado do rei, como Lourenço Soares. Despeitado, e talvez até então receoso de se opor ao rei, Gonçalo encontrou neste ato a justificação para se assumir abertamente como dedicado defensor dos direitos das infantas irmãs do rei, e como acérrimo inimigo da política centralizadora de Afonso II[7].

No ano seguinte, em 1212, Afonso II intimou as irmãs para que que lhe fizessem restituição das terras herdadas. Em respostas, as três infantas-rainhas, Teresa, Sancha e Mafalda, recolheram-se ao fortíssimo e quase inexpugnável castelo de Montemor-o-Velho, que era da primeira e estava guardado por Gonçalo. As tropas reais, sob comando de Martim Anes de Riba de Vizela, foram obrigadas a atravessar terrenos pantanosos no caminho de Coimbra sobre Montemor, sendo pressionadas a tal por Gonçalo e as hostes das infantas. Foi uma batalha travada junto a esses pântanos, uma vez que durante a batalha, Gonçalo constrangia Martim Anes a manter-se no pântano enquanto lutava, tendo Martim provavelmente falecido exangue devido às sanguessugas que o atacaram[8].

Este conflito seria resolvido com intervenção do Papa Inocêncio III; o rei indemnizaria as infantas com uma soma considerável de dinheiro, e a guarnição dos castelos foi confiada a cavaleiros templários, mas era o rei que exercia as funções soberanas sobre as terras e não as infantas. Porém os Sousas seriam renegados durante todo o reinado, e assim sendo saíram de Portugal, refugiando-se em outras cortes peninsulares.[9] Gonçalo nunca chegaria a gozar de influência na corte de Afonso II.

O florescer da corte sousã[editar | editar código-fonte]

Regresso[editar | editar código-fonte]

A morte prematura de Afonso II em 1223 permitiu o regresso da família de Gonçalo, aproveitando a menoridade de Sancho II de Portugal para readquirirem influência. De facto, no assento da demanda entre as infantas e a coroa, estabelecida em 1223, reinando já Sancho II, e com a qual afirmava a infanta-rainha Mafalda que o castelo de Montemor poderia ser entregue a oito fidalgos, entre eles Gonçalo Mendes. Este no entretanto herdara várias tenências do cunhado[8].

Gonçalo consegue novamente a mordomia em dezembro de 1224, mantendo-se depois na corte sem o cargo até 1226[10], e fica à frente do governo de várias tenências, sobretudo na região da Beira. Em algumas delas terá acedido por morte do cunhado, Lourenço Soares de Ribadouro[7]. Há notícias de atos violentos durante o seu período de governo em Lamego[10].

Novas conquistas[editar | editar código-fonte]

Gonçalo acompanhou o novo monarca em novas batalhas contra os muçulmanos, com as suas hostes privativas e os cavaleiros de sua casa, pois esta era das mais opulentas de Portugal. Presenciou as tomadas de Elvas (24 de setembro de 1230), Arronches, Serpa e Aiamonte.

O seu irmão, Rodrigo Mendes de Sousa, que falecera por volta de 1230, havia deixado ao Mosteiro de Alcobaça a sua herdade da Ferraria, tirou-a Gonçalo àquela casa. Vindo a arrepender-se procurou compensar a usurpação doando-lhe a sua quinta de Barcarena, provavelmente por escrúpulos de consciência e temor de condenação. Encontrava-se nesta altura a caminho de Elvas e não pretendia desiludir o rei, pelo que se tentou redimir do seu "pecado"[8].

Em Elvas, a comitiva do rei teria chegado tarde, uma vez que as tropas do infante D. Pedro já haviam tomado a cidade com o auxílio de freires portugueses e das tropas de Afonso IX de Leão. Porém tanto Elvas como Juromenha são entregues a Sancho II[10]. No ataque a esta última, morreram Silvestre Pais, mordomo da sua casa, e Ermígio Peres, cavaleiro da mesma, com outros dela, em presença do rei.

Trovadores, representados no Cancioneiro da Ajuda.

O patrocínio da cultura[editar | editar código-fonte]

A família de Sousa seria a maior patrocinadora da trovadorismo, e o próprio Gonçalo estava ligado a variados trovadoresː o seu irmão, Garcia Mendes II, os sobrinhos Gonçalo Garcia e Fernão Garcia, e um seu genro, Afonso Lopes de Baião. O trovador D. Abril confirma uma doação de Gonçalo Mendes II, que ainda arma cavaleiro Gonçalo Gomes de Briteiros, irmão do trovador Rui Gomes de Briteiros[11].

O ambiente geralmente régio em que se centrava esta atividade deparava-se em Portugal com um ambiente mais senhorial, que era o que de facto recebia e fazia florescer o trovadorismo, na língua vernácula (galego-português), em oposição à preferência da cúria régia pelo latim tradicional que continuava a manifestar-se em documentos desta proveniência[11].

Problemas matrimoniais[editar | editar código-fonte]

Gonçalo casara com Teresa Soares, filha de Soeiro Viegas de Ribadouro (por sua vez filho de Egas Moniz (IV) de Ribadouro o Aio e Ouroana) e Sancha Bermudes de Trava (por sua vez filha de Bermudo Peres de Trava e de Urraca Henriques, infanta de Portugal, irmã de Afonso Henriques). Era portanto irmã do Lourenço Soares a quem se opusera indiretamente no conflito sucessório, uma vez que este apoiara o rei.

Desconhecendo-se as causas, mas havendo uma probabilidade de se dever às posições opostas do irmão e do marido, Teresa começou a enfrentar problemas no seu matrimónio, a tal ponto que, ainda durante o reinado de Sancho I ou Afonso II, Gonçalo terá duvidado da sua fidelidade: magoada pela desconfiança do marido, Teresa sujeitou-se voluntariamente a uma prova caldária, na presença da pessoa do rei, da qual felizmente saiu ilesa. Porém tal prova não a perdoou ao marido: apesar de este desejar a reconciliação, esta virou-lhe as costas, e nunca mais lhe quis falar e muito menos ver. Permaneceram separados durante o resto da sua vida, tendo Teresa entrado no Mosteiro de Arouca[8].

Morte e posteridade[editar | editar código-fonte]

Túmulo de Gonçalo Mendes em Alcobaça

Já de idade avançada (contaria sensivelmente com 55 ou 60 anos), Gonçalo começa a preparar a sua redenção por todas as injustiças e maus atos que fizera no passado. Pouco depois da batalha faz doações ao Mosteiro de Pombeiro, ligado à sua linhagem.

Gonçalo viria a falecer a 25 de abril de 1243, tendo sido sepultado na abadia de Alcobaça.[7]. Tendo o seu único herdeiro, Mendo Gonçalves, provavelmente falecido antes dele (talvez por volta de 1231[8]), os seus bens foram divididos entre as suas filhas e os seus sobrinhos. Também não deixaria a sua esposa de lado no testamento[12], mesmo vivendo separado dela.

O ambiente na corte pioraria após a sua morte; Sancho II revelar-se-ia apoiante da política do pai, mas não a consegue pôr em prática, pois os nobres que o influenciaram no início do reinado começaram a provocar várias atrocidades contra as populações, gerando-se uma sensação generalizada de insegurança, agravada pelo facto de o rei deixar de cumprir as obrigações que protegem o povo. Desta forma há imensas notícias de povoações que entregam a sua segurança ao nobre ao invés do rei[10]. Mais do que nunca, o rei rebaixava-se ao primeiro entre pares. O constante descontentamento das várias classes levou a que o Papa Inocêncio IV o declarasse incapaz e o depusesse formalmente, gerando-se uma guerra que opôs o rei ao conde Afonso de Bolonha, seu irmão, apoiado pelo Papa. A vitória de Afonso e a sua ascensão ao trono viria a mudar o ambiente de tensão que Gonçalo Mendes teria talvez vivido no final da sua vida.

Casamento e descendência[editar | editar código-fonte]

Gonçalo Mendes II desposou Teresa Soares de Ribadouro (m. depois de 1243), de quem se separou entre 1211 e 1223. O casal teve a seguinte descendênciaː

Referências

  1. Gonçalo Mendes de Sousa
  2. Sottomayor-Pizarro 1997, p. 210.
  3. Sottomayor-Pizarro 1997, p. 211.
  4. Ventura 1992, p. 316.
  5. Mattoso 1985.
  6. a b GEPB 1935-57 vol.17, p. 889.
  7. a b c Sottomayor-Pizarro 1997.
  8. a b c d e GEPB 1935-57 vol.17, p. 889.
  9. Há várias referências, neste período, a membros da família em outras cortesː Garcia Mendes II, o irmão de Gonçalo, ter-se-ia refugiado em Leão ou na Galiza; há notícias também do sobrinho, Gonçalo Garcia, na corte aragonesa.
  10. a b c d Ventura 1992, p. 432.
  11. a b Oliveira 2001.
  12. Krus 1989.
  13. Sottomayor-Pizarro 1997, p. 212.
  14. Ventura 1992.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira - 50 vols. , Vários, Editorial Enciclopédia, Lisboa. vol. 16-pg. 887.
  • D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Atlântida-Livraria Editora, Lda, 2ª Edição, Coimbra, 1946, Tomo XII-P-pg. 147
  • Mattoso, José (1985). Identificação de um País. I. Lisboa: Editorial Estampa 
  • Oliveira, António Resende de (2001). O trovador galego-português e o seu mundo. I. Lisboa: Editorial Notícias. ISBN 972-46-1286-4 
  • Sottomayor-Pizarro, José Augusto (1997). Linhagens Medievais Portuguesas: Genealogias e Estratégias (1279-1325). I. Porto: Universidade do Porto 
  • Manuel José da Costa Felgueiras Gayo, Nobiliário das Famílias de Portugal, Carvalhos de Basto, 2ª Edição, Braga, 1989. vol. X-pg. 322 (Sousas).
  • Ventura, Leontina (1992). A nobreza de corte de Afonso III. II. Coimbra: Universidade de Coimbra 
Gonçalo Mendes II de Sousa
Casa de Sousa
Herança familiar
Precedido por
Mendo Gonçalves I
Armas sousa arronches.png
Senhor da Casa de Sousa
1192-1243

Sucedido por
Mendo Garcia
Ofícios políticos
Precedido por
Mendo Gonçalves I de Sousa
(1ª vez)

Henrique Mendes de Sousa
(2ª vez)
PortugueseFlag1185.svg
Mordomo-mor do Reino de Portugal
1192-1211 (1ª vez)
1224 (2ª vez)

Sucedido por
Martim Fernandes de Riba de Vizela
(1ª vez)

João Fernandes de Lima
(2ª vez)
Precedido por
Basto (1ª vez): Vago; titular anteriorː
Mendo Gonçalves I de Sousa

Celorico da Beira:Nenhum

Basto (2ª vez): Gil Vasques de Soverosa

Trancoso: Ermígio Mendes

Lamego (1ª vez): Soeiro Viegas de Ribadouro

Pinhel:Vago; titular anteriorː
Lourenço Soares de Ribadouro

Lamego (2ª vez): Vago; titular anteriorː
Abril Peres de Lumiares

Viseu: Vago; titular anteriorː
Abril Peres de Lumiares
PortugueseFlag1185.svg
Tenente régio
Basto:1195-1207 (1ª vez)
Celorico da Beira:1196
Basto:1207-1211 (2ª vez)
Trancoso:1219-1225
Lamego:1221-1222 (1ª vez, nomeação jure uxoris)
Pinhel (nomeação jure uxoris):1223
Lamego:1234-1236(2ª vez)
Viseu:1235

Sucedido por
Basto (1ª vez):Gil Vasques de Soverosa

Celorico da Beira:Vago; próximo titularː
Lourenço Viegas

Basto (2ª vez): Vago; próximo titularː
Fernão Garcia de Sousa

Trancoso: Abril Peres de Lumiares

Lamego (1ª vez): Abril Peres de Lumiares

Pinhel:Vago; próximo titularː
Infante Rodrigo Sanches de Portugal

Lamego (2ª vez): Soeiro Gomes de Tougues

Viseu: Vago; próximo titularː
Abril Peres de Lumiares