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Grande Expedição do Norte

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Grande Expedição do Norte
Carta de 1743 que reúne levantamentos de Ivan Fedorov, Mikhail Gvozdev e Martin Spanberg no nordeste da Ásia e no norte do Pacífico
Nome nativo Великая Северная экспедиция
Data1733–1743
DuraçãoCerca de dez anos
LocalSibéria, costa ártica da Rússia, mar de Okhotsk, península de Kamchatka, ilhas Curilas, Japão, ilhas Aleutas e Alasca
Também conhecido comoSegunda Expedição de Kamchatka; Expedição Siberiano-Pacífica
TipoPrograma de exploração marítima e terrestre
TemaHidrografia, cartografia, navegação, história natural, astronomia, história e etnografia
OrçamentoCerca de 1,5 milhão de rublos, de acordo com uma estimativa historiográfica
Patrono(s)Pedro, o Grande; Ana da Rússia; Isabel da Rússia
Organizado porSenado Governante, Colégio do Almirantado e Academia de Ciências de São Petersburgo
ParticipantesVitus Bering, Aleksei Chirikov, Martin Spanberg, Stepan Malygin, Dmitri Ovtsyn, Vassili Pronchishchev, Khariton Laptev, Dmitri Laptev, Semion Chelyuskin, Johann Georg Gmelin, Gerhard Friedrich Müller, Georg Wilhelm Steller e Stepan Krasheninnikov
ResultadoLevantamento de grande parte da costa ártica siberiana; reconhecimento russo das costas do Alasca, das Aleutas e das Curilas; viagens às proximidades do Japão; formação de coleções e descrições científicas da Sibéria e de Kamchatka
Comandante-geralVitus Bering
OrganizaçãoSete destacamentos geográficos e um destacamento acadêmico associado
Principais naviosSão Pedro, São Paulo, Tobol, Obi-Pochtalion, Yakutsk e Irkutsk

A Grande Expedição do Norte foi uma das maiores expedições exploratórias da história, mapeando grande parte da costa ártica da Sibéria e trechos da costa noroeste da América do Norte. O empreendimento se desenrolou principalmente entre 1733 e 1743. Também conhecida como Segunda Expedição de Kamchatka (em russo: Вторая Камчатская экспедиция, Vtoráia Kamtchátskaia ekspedítsia), não constituiu uma viagem única, mas um programa coordenado de levantamentos marítimos e terrestres que se estendeu do mar Branco ao estreito de Bering, às ilhas Curilas, ao arquipélago japonês e às costas do atual Alasca. Sete destacamentos navais e hidrográficos receberam setores geográficos próprios, aos quais se associou um grupo subordinado à Academia de Ciências de São Petersburgo, incumbido de estudar a história, os povos, as línguas, a flora, a fauna, o clima e os recursos naturais da Sibéria. O capitão-comandante Vitus Bering detinha a direção geral da maior parte do programa, embora os dois destacamentos ocidentais respondessem diretamente ao Colégio do Almirantado. O plano inicial previa 977 integrantes nos sete destacamentos de exploração, sem contar o grupo acadêmico, e o conjunto da operação envolveu mais de três mil pessoas entre oficiais, marinheiros, soldados, construtores, geodesistas, intérpretes, estudantes, trabalhadores e pessoal de apoio. A esses números somou-se um contingente não quantificado de habitantes da Sibéria obrigado ou contratado para fornecer transportes, alimentos, embarcações, animais de tração e conhecimento das rotas.[1][2][3]

A expedição teve origem nos problemas deixados pela Primeira Expedição de Kamchatka, conduzida por Bering entre 1725 e 1730. Em 1728, o navegador atravessara o estreito que mais tarde receberia o seu nome, porém não avistara a costa americana e regressara sem acompanhar a margem asiática até um ponto cuja posição já fosse conhecida. O resultado permitia sustentar que os continentes estavam separados, mas não eliminava todas as dúvidas do governo e dos cartógrafos. Após regressar a São Petersburgo, Bering propôs uma nova viagem a leste de Kamchatka, uma missão ao Japão e o levantamento da costa entre os rios Ob e Lena. O Senado e o Almirantado ampliaram o projeto, acrescentando setores desde Arkhangelsk e o mar Branco, uma divisão científica e instruções sobre comércio, portos, recursos minerais e relações com os povos encontrados. A imperatriz Ana da Rússia autorizou o empreendimento em 1732, e os grupos começaram a partir no ano seguinte. A realização prolongou-se pelo reinado de Isabel da Rússia, enquanto a análise e a publicação dos materiais continuaram durante décadas.[4][5][6][7]

Os resultados da Grande Expedição do Norte alteraram a representação cartográfica do extremo norte da Eurásia. Os levantamentos ligaram, com diferentes graus de precisão, a foz do Dvina Setentrional ao Ob, ao Ienissei, à península de Taimir, ao Lena, ao Indigirka e ao Kolyma; determinaram a posição aproximada do extremo setentrional da Ásia; documentaram rotas entre Okhotsk, Kamchatka, as Curilas e o Japão; e produziram cartas das costas e ilhas observadas no norte do Pacífico. O empreendimento não completou uma Passagem do Nordeste navegável, e alguns mapas conservaram erros de longitude, ilhas hipotéticas e lacunas provocadas pelo gelo, pela perda de instrumentos e pela curta duração dos verões árticos. Ainda assim, os diários, vocabulários, desenhos, coleções e cópias de documentos reunidos pelo grupo acadêmico constituíram parte da base para obras como a Flora Sibirica, de Gmelin, a Descrição da Terra de Kamchatka, de Krasheninnikov, os estudos históricos e etnográficos de Müller e os escritos zoológicos de Steller. O custo humano incluiu numerosas mortes por doenças, fome, frio, naufrágios e acidentes, embora não exista um total seguro para todos os destacamentos. O custo financeiro foi estimado em cerca de 1,5 milhão de rublos, valor que corresponderia a uma parcela considerável da receita anual do Estado russo nas primeiras décadas do século XVIII.[8][9][10]

Denominação, limites e cronologia

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A designação russa Velikaia Severnaia ekspeditsiia, traduzida como Grande Expedição do Norte, acentua o levantamento da costa ártica, ao passo que Segunda Expedição de Kamchatka relaciona o empreendimento à missão de 1725–1730 e às viagens organizadas a partir de Okhotsk e de Kamchatka. A documentação administrativa empregou nomes distintos para cada destacamento, e a expressão abrangente consolidou-se na historiografia para reunir operações que tinham chefias, bases e calendários próprios. O destacamento acadêmico é normalmente incluído no empreendimento por ter percorrido as mesmas rotas, utilizado a sua rede de transportes e trabalhado a partir de instruções aprovadas no mesmo contexto; administrativamente, porém, respondia à Academia de Ciências e não fazia parte dos sete destacamentos navais contabilizados no plano de 977 pessoas.[11][12]

O intervalo de 1733 a 1743 corresponde ao deslocamento e ao trabalho dos principais destacamentos. Algumas decisões preparatórias foram tomadas em 1732, e determinadas consequências administrativas estenderam-se além de 1743. Spanberg, por exemplo, teve de responder a dúvidas sobre os seus levantamentos e ainda estava ligado a operações no Pacífico em meados da década de 1740. Os mapas, relatórios e amostras regressaram a São Petersburgo em momentos diferentes; parte dos resultados permaneceu inédita, e obras fundamentais foram publicadas entre as décadas de 1740 e 1770. Assim, a cronologia operacional não coincide com a circulação pública do conhecimento produzido.[13][14]

Nas datas específicas, a documentação russa do período utilizava o calendário juliano, então onze dias atrasado em relação ao calendário gregoriano. Neste artigo, datas apresentadas em formato duplo indicam, pela ordem, o calendário juliano e o gregoriano; datas isoladas relacionadas aos diários russos seguem em geral o calendário juliano.[nota 1]

Antecedentes

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Expansão russa pela Sibéria

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A expedição ocorreu após mais de um século de expansão russa pelo norte da Ásia. Comerciantes, cossacos, caçadores e agentes do Estado haviam avançado pelos sistemas fluviais do Ob, Ienissei e Lena, estabelecendo fortalezas e postos de cobrança do yasak, tributo pago principalmente em peles. No litoral, navegadores pomores percorriam trechos entre o mar Branco, o Pechora, o mar de Kara e as desembocaduras dos grandes rios siberianos. Outras rotas marítimas haviam ligado o Lena ao Iana, ao Indigirka e ao Kolyma durante o século XVII. Essas viagens não produziram uma carta contínua e padronizada do litoral, mas demonstram que os espaços apresentados em mapas europeus como desconhecidos eram atravessados por comunidades indígenas, comerciantes e marinheiros regionais muito antes de 1733.[15][16][17]

Parte desse conhecimento deixou de circular após a restrição de algumas rotas, entre elas a antiga passagem marítima para Mangazeia, e permaneceu dispersa em arquivos provinciais. Os oficiais do século XVIII encontraram pilotos locais em vários setores, mas nem sempre tiveram acesso às experiências dos navegadores anteriores. O problema não era apenas a ausência de informação: faltava transformar observações regionais, relatos orais e cartas isoladas num levantamento costeiro baseado em coordenadas, sondagens e convenções comuns. A Grande Expedição do Norte deve, portanto, ser entendida como uma tentativa estatal de reunir e normalizar conhecimentos que tinham origens diversas, e não como o primeiro contato humano com as costas percorridas.[18][19][20]

Ciência, cartografia e reformas de Pedro I

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As reformas de Pedro, o Grande aproximaram a navegação russa das práticas ensinadas nas escolas marítimas europeias. O governo contratou oficiais e estudiosos estrangeiros, promoveu levantamentos geodésicos e fundou a Academia de Ciências de São Petersburgo em 1724. O interesse do soberano pela geografia estava ligado à administração do império, à navegação comercial e militar e à definição da relação entre a Ásia e a América. Os geodesistas Ivan Evreinov e Fiodor Luzhin haviam recebido, em 1719, a missão de levantar Kamchatka e as Curilas; os seus resultados ampliaram o conhecimento da península e das ilhas ao sul, sem resolver a configuração do nordeste asiático.[21][22][23]

A criação da Academia também tornou possível associar um programa de história natural e estudos humanos a uma expedição naval. A instituição reunia estudiosos formados em universidades de língua alemã, cartógrafos franceses e estudantes russos. Essa composição refletia o caráter internacional da ciência acadêmica do século XVIII, embora todos trabalhassem sob as prioridades e os mecanismos administrativos do Estado russo. As instruções combinavam problemas de pesquisa com perguntas sobre rotas, recursos, tributação e capacidade produtiva das regiões visitadas.[24][25]

Primeira Expedição de Kamchatka

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Pouco antes de morrer, Pedro I entregou a Bering instruções para construir embarcações em Kamchatka, seguir a costa asiática para norte e determinar a sua relação com a América. Bering, oficial dinamarquês incorporado à Marinha russa, deixou São Petersburgo em fevereiro de 1725 com Aleksei Chirikov e Martin Spanberg. A travessia terrestre da Sibéria, a construção do São Gabriel e o transporte de materiais até Kamchatka consumiram mais de três anos. No verão de 1728, a embarcação navegou para norte, passou pelo estreito de Bering e atingiu cerca de 67°18′ N antes de regressar. A costa americana permaneceu escondida pela distância, pelo nevoeiro e pelo curso seguido junto à margem asiática.[26][27][28]

Bering regressou a São Petersburgo em 1730 e apresentou uma carta do nordeste da Ásia, além de propostas para novas viagens. A interpretação da primeira expedição tornou-se objeto de debate: parte da historiografia considera que a navegação demonstrou a separação continental; outra parte acentua que a missão não seguiu a costa até um ponto de posição conhecida e não avistou a América. Essa incerteza contribuiu para a aprovação de um programa mais amplo, mas não foi o único motivo. O governo desejava levantar o litoral, examinar o acesso ao Japão e avaliar possibilidades econômicas no Pacífico.[29][30]

A questão da primeira chegada russa documentada ao Alasca também exige distinguir a Grande Expedição do Norte de uma missão anterior. Em 1732, Ivan Fedorov e o geodesista Mikhail Gvozdev atravessaram o estreito no antigo São Gabriel, observaram a ilha Pequena Diomedes e alcançaram a costa americana nas proximidades do atual cabo Príncipe de Gales. Seguiram parte da península de Seward antes de regressar. As suas observações não foram prontamente consolidadas em mapas públicos, mas antecederam em nove anos as viagens de Bering e Chirikov. Por essa razão, a campanha de 1741 é descrita com maior precisão como o primeiro reconhecimento russo sistemático de trechos do sul e sudeste do Alasca, e não como o descobrimento de uma terra já habitada e anteriormente avistada por navegadores russos.[31][32]

Planeamento e objetivos

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Após analisar o relatório de Bering, o Colégio do Almirantado e o Senado transformaram a proposta inicial num programa dividido por regiões. Decretos emitidos em 1732 e 1733 determinaram a exploração da costa setentrional, a busca de uma rota para a América, a navegação em direção ao Japão e o envio de estudiosos. Bering recebeu responsabilidade sobre os destacamentos centrais e orientais e sobre a viagem americana; o Almirantado conservou controle direto dos grupos que partiriam de Arkhangelsk e do Ob. As instruções especificavam os rios que serviriam como limites dos setores, mas permitiam combinar viagens marítimas com levantamentos terrestres quando o gelo impedisse o avanço dos navios.[33][34][35]

Os objetivos formavam quatro conjuntos relacionados. O primeiro era hidrográfico: estabelecer a forma do litoral, registrar latitudes, profundidades, correntes, marés, bancos de areia, ilhas e locais de abrigo. O segundo era estratégico e comercial: investigar uma passagem marítima pelo Ártico, reconhecer portos no Pacífico e avaliar rotas para o Japão e a América. O terceiro abrangia a produção de conhecimento sobre a Sibéria, incluindo clima, minerais, plantas, animais, documentos históricos e línguas. O quarto dizia respeito à administração imperial, pois os relatórios deveriam informar a distribuição das populações, os recursos tributáveis, as vias de transporte e as condições dos assentamentos.[36][37]

A dimensão científica não eliminava o caráter militar e imperial da operação. As cartas do Pacífico e do Ártico eram tratadas como informação estratégica, e parte delas circulou apenas em manuscrito. Os estudiosos dispunham de liberdade para ampliar as observações, mas dependiam dos governadores, comandantes e depósitos da expedição. Disputas sobre cavalos, embarcações, alojamento, prioridades de transporte e autoridade disciplinar acompanharam o programa desde a Sibéria ocidental até Okhotsk. A correspondência preservada mostra que os participantes não formavam uma instituição homogênea: oficiais navais, acadêmicos, administradores provinciais e comerciantes respondiam a expectativas diferentes.[38][39]

Organização e logística

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Destacamentos

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O plano dividiu a costa e o Pacífico em sete áreas operacionais. As substituições de comandantes, a perda de navios e a transferência de oficiais alteraram a composição de cada grupo, mas a divisão territorial foi conservada. O grupo acadêmico acompanhava a rede geral sem constituir o oitavo destacamento naval.[40][41]

Destacamento Comandantes principais Área atribuída Resultado geral
Dvina–Ob Stepan Muraviov, Mikhail Pavlov; depois Stepan Malygin e Aleksei Skuratov De Arkhangelsk e do Dvina Setentrional ao estreito de Iugor, à península de Iamal e ao Ob Levantamento da rota ocidental e preparação de uma carta com numerosas sondagens
Ob–Ienissei Dmitri Ovtsyn, com Dmitri Sterlegov e Fiodor Minin Golfo do Ob, península de Guida e golfo do Ienissei Ligação hidrográfica entre os dois grandes rios em 1737
Ienissei–Taimir Fiodor Minin e Dmitri Sterlegov Costa ocidental da península de Taimir Levantamentos marítimos e terrestres até latitudes próximas de 75°30′ N
Lena–Khatanga–Taimir Vassili Pronchishchev, Khariton Laptev e Semion Chelyuskin Da foz do Lena para oeste, através da baía de Khatanga e do litoral oriental de Taimir Cartografia da costa central do Ártico e chegada de Chelyuskin ao extremo norte da Eurásia
Lena–Kolyma–Anadyr Piotr Lassinius e Dmitri Laptev Da foz do Lena para leste, passando pelo Iana, Indigirka e Kolyma Levantamento de trechos da costa e de rotas terrestres até a bacia do Anadyr
Kamchatka–América Vitus Bering e Aleksei Chirikov Norte do Pacífico e costa do atual Alasca Viagens separadas dos navios São Pedro e São Paulo em 1741
Okhotsk–Japão Martin Spanberg, William Walton e Aleksei Shelting Ilhas Curilas, Hokkaido e costa setentrional de Honshu Reconhecimento do arquipélago e contatos marítimos com japoneses
Destacamento acadêmico associado Johann Georg Gmelin, Gerhard Friedrich Müller, Louis de l'Isle de la Croyère; depois Johann Eberhard Fischer, Stepan Krasheninnikov e Georg Wilhelm Steller Interior da Sibéria e Kamchatka Investigações históricas, linguísticas, etnográficas, astronômicas e de história natural

Transportes, estaleiros e abastecimento

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Representação de Okhotsk em 1737. O porto tornou-se o principal ponto de construção e abastecimento das embarcações destinadas ao Pacífico.

A distância entre São Petersburgo e o Pacífico transformou o transporte em uma parte central do empreendimento. Instrumentos, âncoras, cordame, armas, livros e componentes metálicos atravessavam a Rússia europeia e a Sibéria por trenó, carroça, cavalo e embarcações fluviais. Materiais pesados destinados a Okhotsk precisavam superar a cordilheira entre Iakutsk e a costa. No destino, faltavam trabalhadores especializados, madeira preparada, alimentos e instalações portuárias. A expedição ampliou oficinas e depósitos, recrutou carpinteiros e construiu navios a milhares de quilômetros dos centros navais do Báltico.[42][43]

Ordens enviadas às administrações provinciais determinavam o fornecimento de cavalos, cães, renas, barcos, cereais, peixe e mão de obra. Em certas localidades, o pagamento era atrasado ou insuficiente; em outras, as requisições assumiam caráter coercivo. A passagem simultânea de centenas de pessoas pressionou comunidades cujo abastecimento dependia de colheitas limitadas e de ciclos locais de caça e pesca. Os atrasos provocados por cheias, degelos e escassez acumulavam-se ao longo da rota, fazendo com que uma embarcação pronta tivesse de esperar um ano pela chegada de tripulantes ou provisões.[44][45]

No Ártico, cada verão oferecia poucas semanas de navegação. Os navios precisavam avançar após a abertura dos rios e regressar ou encontrar abrigo antes do congelamento. Cascos de pequeno calado eram úteis nas desembocaduras, mas sofriam sob a pressão do gelo e durante tempestades no mar de Kara e no mar de Laptev. Quando o avanço marítimo se tornava impossível, os oficiais instalavam depósitos, construíam alojamentos e prosseguiam com trenós. Sondagens, observações de latitude, rumos de bússola, desenhos costeiros e posições de marcos visíveis eram registrados em diários para posterior reunião numa carta comum.[46][47]

Levantamentos da costa ártica

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Do Dvina Setentrional ao Ob

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O destacamento mais ocidental partiu de Arkhangelsk sob Stepan Muraviov e Mikhail Pavlov. Os seus navios, Ekspeditsion e Ob, eram embarcações de dois mastros adaptadas às águas rasas. As campanhas de 1734 e 1735 foram interrompidas pelo gelo no mar de Kara, por dificuldades de abastecimento e por conflitos internos. Incapazes de alcançar a foz do Ob, os comandantes foram submetidos a investigação e substituídos por Stepan Malygin e Aleksei Skuratov. A mudança de chefia veio acompanhada de novas embarcações e de um plano que combinava navegação, depósitos em terra e apoio de pilotos nenets.[48][49]

Malygin saiu do Pechora em 1736 e atravessou o estreito entre a ilha Bely e a extremidade norte de Iamal, posteriormente denominado estreito de Malygin. Em 1737, os navios alcançaram o golfo do Ob e encontraram o destacamento de Ovtsyn. Skuratov iniciou então uma demorada viagem de regresso ao mar Branco. O gelo obrigou a uma invernada junto à foz do rio Kara em 1738–1739, durante a qual alojamentos foram transportados com ajuda nenets. Os navios chegaram novamente a Arkhangelsk em agosto de 1739. A carta apresentada ao Almirantado no ano seguinte reuniu sondagens, ilhas, canais e referências costeiras desde o Dvina até o Ob. Embora o governo considerasse a rota pouco promissora para o comércio regular, o levantamento substituiu representações esquemáticas por uma descrição hidrográfica contínua.[50][51]

Do Ob ao Ienissei

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Dmitri Ovtsyn recebeu a missão de atravessar o golfo do Ob e alcançar o Ienissei. O navio Tobol, construído em Tobolsk, desceu os rios Tobol, Irtysh e Ob em 1734. Tempestades, danos no leme e gelo impediram a saída do golfo, e o grupo regressou a Obdorsk. Uma nova tentativa em 1735 também falhou; o escorbuto atingiu a maioria da tripulação e reduziu o número de homens capazes de manejar as velas. Ao mesmo tempo, grupos terrestres procuraram rotas através das penínsulas situadas entre o Ob e o Ienissei, instalaram marcos e recolheram informações de guias nenets e de habitantes ligados à antiga rota de Mangazeia.[40][52]

Em 1737, o Tobol e o novo Obi-Pochtalion conseguiram sair pelo lado oriental do golfo do Ob, contornar a península de Guida e entrar no golfo do Ienissei. A expedição realizou sondagens e reconheceu cabos, enseadas e cursos de água, enquanto o geodesista Mikhail Vykhodtsev completava um levantamento terrestre. Depois de três campanhas fracassadas, a ligação entre os dois rios estava cartografada. Pouco depois, Ovtsyn foi preso por manter contato com o príncipe exilado Ivan Dolgorukov, perdeu a patente e foi enviado como marinheiro para o grupo de Bering. A punição mostra como as rivalidades políticas da corte alcançavam os destacamentos, independentemente do seu desempenho náutico.[36][1]

Costa ocidental de Taimir

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Fiodor Minin recebeu a continuação do setor para leste do Ienissei, acompanhado pelo navegador Dmitri Sterlegov. O Obi-Pochtalion avançou em 1738 até aproximadamente 73°14′ N, onde o gelo e a neve obrigaram ao regresso. Em 1739, a demora na chegada das provisões reduziu ainda mais a temporada. Para compensar os limites da navegação, Sterlegov partiu por terra no inverno de 1740 e levantou a costa com trenós, alcançando um cabo a cerca de 75°29′ N. A cegueira da neve e a falta de mantimentos impediram a continuação, mas o grupo ergueu um marco antes de voltar.[53][54]

Minin tentou novamente em 1740 e atingiu cerca de 75°15′ N pelo mar. Não conseguiu contornar Taimir nem encontrar o grupo que avançava desde o Lena, mas os levantamentos mostraram que a península se projetava muito mais para norte do que indicavam as cartas anteriores. A faixa que permaneceu entre os pontos alcançados por Minin e pelos homens de Khariton Laptev foi reduzida por levantamentos terrestres posteriores. A forma geral de Taimir emergiu, portanto, da combinação de várias campanhas e não de uma circum-navegação.[44][43]

De Lena a Khatanga e Taimir

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Carta baseada nos levantamentos siberianos associados às expedições de Bering.

Vassili Pronchishchev partiu de Iakutsk no navio Yakutsk em 1735, desceu o Lena e seguiu para oeste. Depois de invernar na foz do rio Olenek, explorou a baía de Khatanga e a costa oriental de Taimir em 1736. O navio avançou até cerca de 77° N, mas encontrou gelo compacto e teve de regressar. Pronchishchev morreu durante a retirada, seguido pouco depois por sua esposa Tatiana Pronchishcheva, que acompanhara a viagem. Relatos antigos atribuíram as mortes ao escorbuto; exames posteriores dos restos mortais não permitiram estabelecer essa causa de forma conclusiva.[55][56]

Khariton Laptev assumiu o destacamento e retomou o avanço em 1739. O Yakutsk alcançou a costa oriental de Taimir, mas ficou preso e foi esmagado pelo gelo no ano seguinte. A tripulação salvou instrumentos, diários e provisões antes de regressar ao acampamento. Laptev reorganizou o trabalho em grupos terrestres, utilizando cães e renas para percorrer o litoral durante o inverno e a primavera. As equipes registravam rumos e distâncias, observavam latitudes quando possível e descreviam rios, cabos e ilhas. A substituição do navio por trenós foi decisiva para fechar trechos que permaneciam inacessíveis pelo mar.[41][40]

Semion Chelyuskin saiu de Turukhansk no final de 1741 e percorreu a costa setentrional com dois cossacos e condutores locais. Em 8/19 de maio de 1742, registrou um cabo que denominou Oriental-Norte. Mais tarde reconhecido como o ponto continental mais setentrional da Eurásia, o local recebeu no século XIX o nome de cabo Chelyuskin. Outros grupos comandados por Laptev examinaram a costa oriental e os rios interiores. A reunião dos seus itinerários com os de Minin e Sterlegov permitiu representar Taimir como uma extensa península, ainda que algumas ilhas e detalhes costeiros permanecessem imprecisos.[57][1]

Do Lena ao Kolyma e ao Anadyr

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Piotr Lassinius partiu da foz oriental do Lena em 1735 com o Irkutsk. O gelo obrigou-o a instalar um acampamento junto ao rio Khara-Ulakh, onde o alojamento inadequado e a falta de alimentos frescos favoreceram um surto de escorbuto. Lassinius e mais de dois terços do grupo morreram durante o inverno; uma equipe de socorro encontrou apenas nove sobreviventes em condições de viajar na primavera seguinte. O desastre levou à transferência da missão para Dmitri Laptev, primo de Khariton Laptev.[41][44]

Dmitri Laptev realizou sucessivas tentativas de navegar para leste entre 1736 e 1742. Bancos de areia, canais pouco profundos e gelo impediram a passagem regular, mas o destacamento levantou as regiões do Iana, Indigirka e Kolyma. Em vez de abandonar o setor, Laptev distribuiu homens por rotas marítimas e terrestres e utilizou informações de iucaguires, evenos e cossacos familiarizados com os rios. Na fase final, atravessou por terra a região entre o Kolyma e a bacia do Anadyr, concluindo o relatório em 1743. O grupo não abriu uma rota naval contínua até Kamchatka, mas produziu uma representação muito mais consistente do nordeste siberiano.[46][50]

Condições de trabalho e conhecimentos locais

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A experiência dos destacamentos mostrou que um navio isolado raramente podia percorrer longos setores da costa num único verão. O gelo não formava uma barreira estática: ventos podiam abrir canais e fechá-los em poucas horas, empurrar embarcações contra a praia ou separá-las dos depósitos. Nas desembocaduras, a pouca profundidade e os bancos móveis constituíam obstáculos tão importantes quanto a banquisa. O escorbuto agravava-se durante as invernadas, quando a dieta se reduzia a farinha, peixe salgado e carne conservada. A sobrevivência dependia da construção rápida de abrigos, do conhecimento de fontes locais de alimento e da possibilidade de evacuar doentes por trenó.[8][37]

Guias nenets, khantys, selkupes, evenkis, sakhas, iucaguires e integrantes de outros povos indicaram canais, travessias, locais de caça e caminhos entre rios. O reconhecimento desse papel não elimina os conflitos registrados. Alguns guias recusaram prosseguir em condições que consideravam perigosas, grupos abandonaram expedições que não dispunham de comida e ocorreram confrontos com destacamentos armados. Os documentos foram produzidos por oficiais e administradores russos e raramente preservaram a perspectiva dos auxiliares locais, embora o conteúdo das cartas demonstre a incorporação do seu conhecimento geográfico.[16][15]

Operações no Pacífico

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Formação das bases de Okhotsk e Kamchatka

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Bering deixou São Petersburgo em 1733, mas permaneceu vários anos envolvido com a travessia da Sibéria e a organização das bases. Okhotsk dispunha de acesso ao Pacífico, porém era separado de Iakutsk por uma rota terrestre difícil. A chegada irregular de mantimentos atrasou os navios e intensificou disputas com as autoridades locais. Em Kamchatka, os russos dependiam de rios, caminhos costeiros e assentamentos que haviam sido afetados por conflitos entre cobradores de tributo, cossacos, itelmens e koriaks.[58][5]

Dois grandes barcos de correio, o São Pedro e o São Paulo, foram construídos em Okhotsk entre 1737 e 1740 e transferidos para Kamchatka. No mesmo período, embarcações menores transportaram homens e provisões pelo mar de Okhotsk. A baía de Avacha foi escolhida como base dos navios e recebeu o nome de porto de Pedro e Paulo, origem de Petropavlovsk-Kamchatski. A escolha proporcionava um ancoradouro mais protegido e uma posição voltada para o Pacífico, embora os abastecimentos continuassem dependentes de longas rotas terrestres.[13][14]

Viagens de Spanberg ao Japão

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Frota de Martin Spanberg durante as viagens em direção às Curilas e ao Japão.

Martin Spanberg comandou o destacamento destinado a explorar as Curilas e procurar uma rota para o Japão. A construção e reparação dos navios ocuparam grande parte do período entre 1734 e 1737. Na primeira campanha, em 1738, a frota percorreu a cadeia das Curilas e reuniu informações sobre as ilhas e os seus habitantes. A viagem principal ocorreu em 1739. Os navios de Spanberg e William Walton separaram-se, alcançaram águas japonesas por rotas diferentes e mantiveram contatos com embarcações e comunidades costeiras.[58][32]

Os encontros envolveram trocas de presentes e alimentos, observação de portos e tentativas de comunicação por sinais. O Japão mantinha restrições ao comércio estrangeiro durante o sakoku, de modo que a expedição não abriu uma relação diplomática permanente. Os diários confirmaram, contudo, a continuidade geográfica das Curilas em direção a Hokkaido e forneceram posições para várias ilhas. As diferenças entre as rotas de Spanberg e Walton suscitaram dúvidas em São Petersburgo, onde alguns funcionários suspeitaram que os navegadores tivessem confundido ilhas. Spanberg voltou à região em 1742 para repetir observações, e a investigação administrativa prolongou a atividade do destacamento.[59][60]

Viagens de Bering e Chirikov à América

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Rotas separadas de Bering e Chirikov no norte do Pacífico em 1741.

O São Pedro, comandado por Bering, e o São Paulo, comandado por Chirikov, deixaram a baía de Avacha em 4/15 de junho de 1741. Os navios navegaram inicialmente para sudeste em busca de uma grande terra representada em certos mapas europeus, muitas vezes relacionada à hipotética Terra de João da Gama. A procura consumiu tempo e não produziu qualquer avistamento. Em 20 de junho/1 de julho, durante nevoeiro e ventos fortes, as embarcações perderam contato. Após tentativas frustradas de reunião, cada comandante seguiu para leste por conta própria.[4][9][21]

Chirikov avistou terra no sudeste do Alasca em 15/26 de julho. Sem um porto seguro para o navio, enviou um escaler à costa para procurar água e um ancoradouro. O grupo não regressou. Um segundo barco, enviado para procurá-lo, também desapareceu, deixando o São Paulo sem embarcações adequadas para desembarque. Alguns indígenas aproximaram-se posteriormente em canoas, mas não houve contato prolongado. Com a água diminuindo e parte da tripulação doente, Chirikov regressou pelo Pacífico norte e alcançou Kamchatka em outubro. Louis de l'Isle de la Croyère, que realizara observações astronômicas a bordo, morreu pouco depois da chegada.[61][62]

Bering avistou as montanhas da costa americana em 16/27 de julho. O São Pedro aproximou-se da atual ilha Kayak, onde um grupo desembarcou para recolher água. Steller obteve poucas horas em terra, mas registrou plantas, aves e sinais de ocupação humana. A expedição iniciou o regresso sem realizar um levantamento extenso do interior. A decisão refletia a distância até Kamchatka, a aproximação do fim do verão e a ocorrência de doenças entre os tripulantes. A costa observada e as ilhas visitadas confirmaram a existência de terras a leste, mas não forneceram de imediato a configuração completa do Alasca.[63][64]

Representação da ilha Kayak e do desembarque realizado em 1741.

Durante o retorno, o São Pedro passou por ilhas do golfo do Alasca e pelas ilhas Shumagin, onde ocorreram encontros com unanganos. Os participantes trocaram objetos e alimentos, mas as diferenças de língua e as demonstrações armadas produziram tensão. Steller anotou aspectos das embarcações, do vestuário e da alimentação dos habitantes. Esses contatos, breves e mediados por gestos, foram posteriormente incorporados a narrativas russas sobre a América. A designação dos lugares como “descobertos” refletia a perspectiva dos expedicionários e não a história das populações que já ocupavam e nomeavam as ilhas.[65][66]

Naufrágio e invernada na ilha de Bering

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Reconstrução do barco de correio São Pedro.

O estado da tripulação piorou à medida que o navio avançava para oeste. A dificuldade em determinar a longitude, o tempo nublado e a descoberta sucessiva de ilhas impediram que os oficiais reconhecessem com segurança a posição de Kamchatka. Em novembro, o São Pedro foi lançado contra a costa de uma ilha do arquipélago hoje denominado ilhas Comandante. Os homens transferiram provisões e equipamentos para terra e construíram abrigos semienterrados com velas, madeira e areia. Bering, já debilitado, morreu em 8/19 de dezembro de 1741; a ilha recebeu posteriormente o nome de ilha de Bering.[67][68]

Steller organizou a procura de alimentos e defendeu o consumo de plantas e carne fresca. Focas, aves marinhas, lontras e os grandes sirênios posteriormente conhecidos como vacas-marinhas-de-Steller sustentaram os sobreviventes. Na primavera, a tripulação desmontou partes do navio naufragado e construiu uma embarcação menor. Quarenta e seis homens chegaram a Kamchatka em agosto de 1742; cerca de trinta haviam morrido desde a partida, incluindo Bering. O número de sobreviventes não reduz a diversidade das causas: escorbuto, outras doenças, exposição ao frio, acidentes e debilidade geral atuaram em conjunto.[69][70]

Chirikov realizou uma nova saída em 1742 para procurar Bering e ampliar os levantamentos, mas regressou sem encontrar o São Pedro. Com a morte de Bering, a direção dos trabalhos orientais fragmentou-se entre Chirikov, Spanberg, as autoridades de Okhotsk e os responsáveis pelos relatórios. A expedição não terminou numa cerimônia única: grupos regressaram separadamente, navios foram desmobilizados e os materiais seguiram para São Petersburgo em remessas sucessivas.[62][5]

Destacamento acadêmico

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Programa e integrantes

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O destacamento acadêmico partiu em 1733 com três professores. Johann Georg Gmelin era responsável pela história natural e pela química; Gerhard Friedrich Müller, pela história, geografia e estudo dos povos; Louis de l'Isle de la Croyère, pelas observações astronômicas e geodésicas. A equipe incluía estudantes, desenhadores, intérpretes, coletores, caçadores e auxiliares. Johann Eberhard Fischer substituiu Müller em parte do trabalho histórico, enquanto Stepan Krasheninnikov e Georg Wilhelm Steller assumiram missões extensas em Kamchatka.[71][72]

A equipe seguiu por Kazan, Ecaterimburgo, Tobolsk, Tomsk, Ienisseisk, Irkutsk e Iakutsk, realizando desvios de acordo com as oportunidades de pesquisa. Müller consultava arquivos provinciais e ordenava a produção de cópias; Gmelin recolhia plantas, examinava solos, minerais e fontes, registrava temperaturas e descrevia paisagens. Os desenhadores produziam vistas de cidades, objetos e práticas sociais. Um incêndio em Iakutsk, em 1736, destruiu parte dos materiais e equipamentos, mas os estudiosos reconstruíram cadernos e continuaram as viagens.[25][73]

História, línguas e etnografia

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Müller elaborou instruções compostas por centenas de perguntas sobre nomes coletivos, parentesco, línguas, habitação, alimentação, comércio, religião, autoridade e relações com o Estado. O questionário não foi aplicado de forma idêntica em todas as localidades, mas proporcionou uma estrutura para comparar observações e organizar coleções. A amplitude do programa faz com que Müller ocupe lugar importante na história da etnografia, embora os seus estudos permanecessem ligados às categorias administrativas e aos interesses imperiais do século XVIII.[74][75][76]

Os registros abrangiam nenets, khantys, mansis, selkupes, evenkis, buriates, sakhas, iucaguires, chukchis, koriaks, itelmens e outros povos. Listas de palavras foram obtidas por meio de intérpretes e falantes locais, e objetos passaram a integrar as coleções da Kunstkamera. A qualidade era desigual: alguns vocabulários dependiam de cadeias de tradução, e os nomes empregados pelos funcionários russos nem sempre correspondiam à autoidentificação dos grupos. Apesar dessas limitações, os materiais preservaram informações linguísticas e históricas que não aparecem em outros registros do período.[77][78][79]

Müller também reuniu crônicas, relatórios, correspondência e documentos sobre a conquista e a administração da Sibéria. Muitos originais desapareceram posteriormente, o que elevou a importância das cópias preparadas pelo destacamento. Johann Eberhard Fischer deu continuidade ao trabalho depois da partida de Müller. Os materiais alimentaram a História da Sibéria e estudos posteriores sobre a expansão russa, mas apenas uma parte foi publicada durante a vida dos participantes.[80][81]

Krasheninnikov e a investigação de Kamchatka

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Krasheninnikov, inicialmente estudante, foi enviado para Kamchatka em 1737. Durante quatro anos percorreu a península, visitou fontes termais e vulcões, registrou rios e assentamentos, recolheu plantas e produziu descrições sobre itelmens e koriaks. Como trabalhava antes da chegada dos professores, assumiu responsabilidades que excediam a posição atribuída aos estudantes. Os seus diários e relatórios tornaram-se a base da Descrição da Terra de Kamchatka, publicada em dois volumes em 1755.[82][83]

A obra combinava geografia, história natural, economia e descrições sociais. Krasheninnikov registrou a pesca do salmão, as formas de conservação de alimentos, a construção de habitações, festividades, narrativas e efeitos da cobrança de tributos. O texto foi traduzido para alemão, inglês, francês e neerlandês, tornando-se uma das principais fontes europeias sobre Kamchatka. Como outros relatos do período, precisa ser lido no contexto colonial em que foi produzido, mas conserva observações derivadas de convivência prolongada e de informações fornecidas por habitantes da península.[84][10]

Gmelin, Steller e a história natural

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Gmelin percorreu a Sibéria durante quase dez anos, recolhendo espécimes e registrando a distribuição das plantas. A Flora Sibirica, publicada em quatro volumes entre 1747 e 1769, descreveu mais de mil táxons de plantas vasculares e constituiu uma etapa importante da botânica do norte da Ásia. Os seus diários também abordaram clima, solos, incêndios florestais, congelamento permanente do subsolo e relações entre vegetação e ambiente. Parte das interpretações era limitada pelos instrumentos e classificações disponíveis, mas o conjunto superava inventários anteriores em extensão e organização.[85][86][87]

Steller atravessou a Sibéria mais tarde e chegou a Kamchatka em 1740. Trabalhou com Krasheninnikov, percorreu a península e embarcou no São Pedro. Na América, dispôs de poucas horas para recolher e observar; na viagem de retorno e na ilha de Bering, registrou aves, mamíferos e plantas com maior continuidade. Entre os animais ligados ao seu nome encontram-se a vaca-marinha, o leão-marinho-de-steller, a águia-marinha-de-steller e o éider-de-steller. A vaca-marinha foi explorada intensamente por caçadores nas décadas seguintes e considerada extinta em 1768.[88][89]

Steller preparou ainda uma descrição de Kamchatka baseada em observações próprias, informações de Krasheninnikov e depoimentos locais. Criticou abusos cometidos por agentes russos contra itelmens e outros habitantes, além de entrar em conflito com oficiais sobre o tempo reservado à pesquisa e as medidas de sobrevivência. Os seus escritos só foram publicados parcialmente após a sua morte, ocorrida em 1746 durante o regresso a São Petersburgo.[90][91][92]

Povos indígenas e efeitos locais

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Os destacamentos atravessaram territórios ocupados por numerosos povos, entre eles nenets, khantys, selkupes, evenkis, sakhas, dolganos, nganasanos, iucaguires, chukchis, koriaks, itelmens, ainos e unanganos. As relações assumiram formas distintas: contratação de pilotos, troca de presentes, compra de alimentos, requisição de animais, cobrança de tributos, interrogatórios administrativos e confrontos. Não é possível reduzir essas interações a uma cooperação voluntária nem a um conflito permanente. A posição dos grupos locais variava conforme a região, os acordos existentes com autoridades russas, a disponibilidade de alimentos e o comportamento de cada destacamento.[16][93]

O sistema de abastecimento transferiu parte do custo da expedição para comunidades siberianas. Cavalos e renas eram utilizados até a exaustão, trabalhadores permaneciam afastados de atividades sazonais e aldeias tinham de fornecer cereais, peixe ou alojamento. Os funcionários registravam essas contribuições como obrigações administrativas, ocultando por vezes a coerção envolvida. Ao mesmo tempo, o êxito dos levantamentos dependia de conhecimentos indígenas sobre gelo, migração de animais, canais fluviais, caminhos terrestres e técnicas de sobrevivência.[15][94]

Os registros científicos preservaram vocabulários, narrativas e descrições de práticas materiais, mas foram organizados por observadores externos e destinados a instituições imperiais. Termos como “selvagem”, presentes em certas publicações antigas, refletiam hierarquias europeias e não constituem categorias neutras. Pesquisas posteriores têm examinado tanto o valor documental desses materiais como as relações de poder que determinaram o que era recolhido, traduzido e enviado à Kunstkamera.[77][79]

Resultados

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Cartografia e hidrografia

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A principal realização geográfica foi a construção de uma sequência de levantamentos costeiros desde o mar Branco até o nordeste asiático. Cartas locais registravam profundidades, canais, ilhas e pontos de invernada; depois eram copiadas, comparadas e reunidas em mapas gerais. O processo revelou a extensão da península de Taimir, posicionou o cabo Chelyuskin, definiu melhor os golfos do Ob e do Ienissei e representou os sistemas costeiros do Lena, Iana, Indigirka e Kolyma. A precisão variava: latitudes observadas em céu aberto eram mais confiáveis do que longitudes estimadas por rumo e distância.[95][96]

No Pacífico, as cartas das Curilas, das ilhas Comandante, das Aleutas e das costas observadas no Alasca corrigiram a escala do oceano e reduziram o espaço atribuído a terras imaginárias. Não eliminaram imediatamente todas as hipóteses: mapas continuaram a combinar observações novas com ilhas de existência incerta. A reunião e a publicação foram condicionadas pelo sigilo estatal e por disputas entre cartógrafos. Os resultados de Bering, Chirikov, Spanberg, Fedorov e Gvozdev passaram a circular internacionalmente por meio de compilações, cópias e traduções.[97][98]

O levantamento não demonstrou que uma passagem marítima regular fosse impossível, mas mostrou as limitações dos navios e dos métodos disponíveis. Nenhum destacamento percorreu toda a costa de Arkhangelsk ao estreito de Bering por mar. A primeira travessia completa da Passagem do Nordeste só seria realizada por Adolf Erik Nordenskiöld, no Vega, em 1878–1879. Os dados da Grande Expedição do Norte, contudo, permaneceram como referência para missões hidrográficas russas dos séculos XIX e XX.[99][100]

Produção científica e documental

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Os materiais acadêmicos ultrapassaram o levantamento geográfico. Coleções botânicas e zoológicas permitiram comparar ambientes do Ural ao Pacífico; séries meteorológicas documentaram variações regionais; descrições de fontes, minerais e solos foram incorporadas a obras de história natural. Os registros de cidades e estradas também formam testemunhos sobre a transformação da Sibéria durante a primeira metade do século XVIII.[10][86]

A cópia de documentos realizada por Müller criou um arquivo paralelo sobre a história siberiana. O programa etnográfico forneceu textos, desenhos e objetos à Academia, embora parte das coleções tenha sido perdida por incêndios, transporte inadequado ou reorganizações museológicas. A permanência dos materiais restantes na Kunstkamera e em arquivos russos e alemães permite reconstruir não apenas os resultados finais, mas também os métodos de coleta, as correções e os conflitos entre participantes.[78][11]

Consequências econômicas e políticas

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As peles de lontra-marinha trazidas pelos sobreviventes da ilha de Bering demonstraram o valor comercial da fauna do Pacífico norte. A partir de 1743, grupos de promyshlenniki, comerciantes e caçadores russos começaram a organizar viagens às ilhas Comandante e Aleutas. Esse movimento não fazia parte do plano científico original, mas utilizou informações, embarcações e rotas associadas à expedição. Nas décadas seguintes, a caça intensiva provocou redução de populações animais e submeteu comunidades unanganas a violência, tributos e trabalho forçado.[89][101][102]

O reconhecimento do Alasca contribuiu para a expansão russa na América, mas não produziu ocupação imediata da costa visitada em 1741. Postos permanentes surgiram gradualmente, e a Companhia Russo-Americana só foi criada em 1799. As viagens ao Japão tampouco resultaram em relações diplomáticas regulares. O legado político foi cumulativo: cartas e relatos ajudaram a fundamentar pretensões russas, orientar navegadores e inserir o Pacífico norte nos cálculos imperiais de Rússia, Espanha, Grã-Bretanha e, posteriormente, Estados Unidos.[103][104]

Custos, perdas e limitações

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Não sobreviveu uma contabilidade única que permita determinar o custo total com exatidão. A estimativa de aproximadamente 1,5 milhão de rublos inclui despesas de transporte, construção naval, soldos, provisões e manutenção das equipes durante uma década. Uma comparação frequente aproxima o valor de um sexto da receita estatal russa de 1724, mas o resultado depende dos itens incluídos e não contabiliza adequadamente serviços, animais e alimentos requisitados localmente.[2][3]

As perdas humanas também resistem a uma soma simples. Os diários registram mortes em invernadas, naufrágios e deslocamentos, mas não cobrem todo o pessoal de apoio. No acampamento de Lassinius, restaram apenas nove sobreviventes capazes de viajar; no São Pedro, aproximadamente trinta homens morreram; Pronchishchev, Tatiana Pronchishcheva, Bering e de la Croyère figuram entre as vítimas conhecidas. Trabalhadores e condutores locais aparecem com menor regularidade nas listas. Por isso, totais apresentados sem indicação do grupo contabilizado tendem a produzir uma falsa precisão.[1][67]

Entre as limitações científicas estavam a dificuldade de determinar longitude, a perda de coleções, o tempo reduzido em certos locais e a dependência de traduções sucessivas. O controle administrativo retardou a circulação de mapas, enquanto disputas pessoais influenciaram relatórios sobre Bering, Steller, Spanberg e outros participantes. A extensão do empreendimento também favoreceu uma memória concentrada na viagem americana, deixando os cinco destacamentos árticos e o trabalho de centenas de auxiliares em posição secundária na historiografia internacional.[4][1]

Publicação e circulação dos resultados

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O Atlas Russo de 1745 incorporou parte do progresso cartográfico realizado nas décadas anteriores, mas não publicou integralmente as cartas da expedição. Aleksei Chirikov e outros oficiais entregaram mapas ao Almirantado, e uma carta geral do litoral ártico foi compilada em 1746. Gerhard Friedrich Müller publicou em 1754 uma descrição das viagens russas e uma carta do Pacífico norte, reeditadas e traduzidas. A versão inglesa de 1761, Voyages from Asia to America, tornou os resultados mais acessíveis na Europa ocidental.[105][106]

A publicação científica ocorreu de forma parcelada. Gmelin iniciou a Flora Sibirica em 1747 e publicou os seus diários de viagem em 1751–1752. Krasheninnikov concluiu a descrição de Kamchatka em 1755. Os manuscritos de Steller passaram por edições póstumas, e as obras históricas e etnográficas de Müller permaneceram parcialmente inéditas. A distância entre o trabalho de campo e a edição resultou de censura, custos de impressão, disputas acadêmicas e da necessidade de organizar grandes conjuntos de notas.[85][82]

No início do século XX, Frank Alfred Golder localizou e publicou relatórios e diários em inglês. Pesquisas soviéticas concentraram-se na história da Rota Marítima do Norte e recuperaram documentos sobre Malygin, Ovtsyn, os Laptev e Chelyuskin. Desde a década de 1990, edições russo-alemãs da série Quellen zur Geschichte Sibiriens und Alaskas aus russischen Archiven tornaram disponíveis cartas, instruções e diários em versões críticas. Esses trabalhos permitiram tratar a expedição como uma rede institucional e documental, e não apenas como a última viagem de Bering.[9][73][107]

Historiografia e memória

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As primeiras narrativas públicas enfatizaram a liderança de Bering, a chegada à América e o naufrágio do São Pedro. O diário de Steller e o relato de Waxell deram forma a uma história de conflito, doença e sobrevivência. Na Rússia, estudos hidrográficos do século XIX e obras soviéticas ampliaram o espaço atribuído aos destacamentos árticos. A abertura e comparação de arquivos do Almirantado, da Academia e de administrações siberianas revelaram divergências entre relatórios oficiais, diários pessoais e mapas preparados após o regresso.[68][41]

A expressão “maior expedição científica do século XVIII” aparece com frequência, mas funciona como avaliação comparativa, não como categoria mensurável. A escala territorial, a duração, o custo e a variedade de disciplinas justificam situar o empreendimento entre os maiores programas de exploração do período. A comparação precisa considerar que ele combinou missões navais, administração provincial, produção acadêmica e trabalho requisitado de populações locais, componentes que não aparecem da mesma forma em outras expedições.[8][108]

A historiografia contemporânea também problematiza o vocabulário de descobrimento. O Alasca, as Aleutas, as Curilas e a Sibéria não eram espaços vazios, e muitos dos trajetos dependiam de conhecimentos anteriores. Essa abordagem não elimina a importância dos levantamentos; desloca a análise para a maneira pela qual o Estado russo reuniu saberes locais, observações navais e métodos acadêmicos, transformando-os em mapas, coleções e pretensões territoriais.[65][75]

A expedição deixou numerosos topônimos e referências institucionais. O mar de Laptev homenageia Dmitri e Khariton Laptev; o cabo Chelyuskin recorda o navegador que alcançou o extremo norte continental; o mar, o estreito e a ilha de Bering receberam o nome do comandante. Petropavlovsk-Kamchatski preserva os nomes dos navios São Pedro e São Paulo. Vários desses nomes foram atribuídos ou consolidados depois das viagens e refletem a tradição cartográfica russa, não as designações indígenas anteriores.[97]

No campo científico, os participantes estabeleceram coleções e séries de observações utilizadas por botânicos, zoólogos, historiadores, geógrafos e etnógrafos. A experiência administrativa influenciou expedições russas posteriores, entre elas as de Joseph Billings e Gavriil Sarychev. No campo econômico, as notícias sobre lontras-marinhas contribuíram para a corrida às peles e para a expansão colonial russa nas Aleutas e no Alasca, com consequências profundas para os povos e ecossistemas do Pacífico norte.[102][89]

A importância duradoura da Grande Expedição do Norte reside na combinação de escalas. Os destacamentos transformaram observações separadas numa representação do litoral ártico, ligaram os centros administrativos russos ao Pacífico, criaram descrições científicas do interior da Sibéria e produziram documentos sobre sociedades que raramente apareciam na literatura europeia. Ao mesmo tempo, as perdas, a coerção logística e o uso econômico dos resultados mostram que a produção desse conhecimento esteve integrada ao processo de expansão imperial russa.[6][94]

Ver também

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  1. A diferença entre os calendários juliano e gregoriano era de onze dias durante o período da expedição. As traduções modernas nem sempre adotam o mesmo sistema, razão pela qual uma viagem pode aparecer com datas diferentes em obras distintas.

Referências

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Bibliografia selecionada

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Ligações externas

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