Guerra dos Mercenários

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Guerra mercenária
Guerra mercenaria.png
Data 241238 a.C.
Local Tunísia
Desfecho Vitória de Cartago
Casus belli Revolta dos mercenários de Cartago
Mudanças territoriais Cartago perde Córsega e Sardenha para Roma
Beligerantes
Cartago Mercenários e súditos africanos de Cartago
Comandantes
Hanão II, o Grande,
Amílcar Barca,
Aníbal
Espêndio†,
Mathô†,
Autarito†,
Naravas†,
Zarza
Forças
Desconhecidos. Provavelmente não mais de 30 000 soldados. 92 000 (20 000 mercenários sicilianos + 70 000 africanos + 2000 númidas)[1]
Baixas
Desconhecidas, provavelmente ao redor de 20 000 Cerca de 70 000

A Guerra dos Mercenários (241238 a.C.) foi uma guerra civil de extraordinária crueldade que assolou as terras africanas de Cartago durante três anos e quatro meses.[2]

De um lado encontravam-se a capital e as cidades leais. Do oposto, os mercenários rebeldes que lutaram sob o estandarte cartaginês durante a Primeira Guerra Púnica, aliados com a maior parte das cidades africanas, súbditas de Cartago.

Durante o conflito, uma nova declaração de guerra de Roma provocou a perda da Córsega e da Sardenha, que passaram a Roma. Contudo, não existiu confronto armado entre as forças de ambos os povos.

A vitória final do exército de Cartago, dirigido por Amílcar Barca, não melhorou muito a situação. As perdas humanas e econômicas obrigaram Cartago a mudar o seu objetivo para novos territórios que colonizar, com o que deu início à conquista da península Ibérica.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Primeira Guerra Púnica[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Primeira Guerra Púnica

Durante a Primeira Guerra Púnica, o general Amílcar resultara invito nos combates contra os romanos, submetendo a cidade de Erice e o monte do mesmo nome, além de Erité e Drepana. As suas tropas de mercenários eram a fina flor do exército-de-terra, e Barca treinara-os nas táticas de guerrilha que preocupavam as legiões.

Cortados os seus fornecimentos e desfeita a frota cartaginesa após a derrota naval das ilhas Égadi, e frente da impossibilidade de receber os fornecimentos necessários para continuar a luta, Amílcar decidiu assinar a paz (241 a.C.). No tratado, o cônsul romano, Caio Lutácio Cátulo, reconheceu o direito do cartaginês a retirar-se sem entregar as armas.[3]

Depois da assinatura do tratado que punha fim à guerra, as tropas cartaginesas da Sicília reuniram-se na cidade de Lilibeu, governada por Giscão. Amílcar chegou à cidade desde Erice, no comando do seu exército de mercenários, e cedeu ao governador a tarefa de repatriar as tropas à África. Giscão prudentemente dividiu-as em pequenos destacamentos que viajariam progressivamente. Assim, os mercenários chegariam em grupos reduzidos, receberiam os seus salários e regressariam aos seus lares.

Revolta dos mercenários[editar | editar código-fonte]

Porém, o Conselho dos Cem não apoiou os planos do general, e aguardou a que a tropa ao completo desembarcasse na África, alojando-os em Cartago primeiro e depois na cidade de Sica. Ali acampados, acudiu Hanão para informar que as arcas de Cartago estavam esgotadas após a guerra e o tratado de paz com Roma, e pediu-lhes que renunciassem a uma parte do seu salário.

Os mercenários, longe de consentirem, começaram com protestos para Hanão e para os aristocratas de Cartago e, após vários dias, partiram para a capital. Acamparam, cerca de vinte mil, no outro extremo da península, na cidade de Tunes.[4]

A magnitude dos distúrbios e o perigo que se cernia sobre a cidade fizeram que Cartago finalmente conviesse em pagar as dívidas na íntegra. Frente da impossibilidade de enviar Amílcar Barca longe de Cartago, o Grande Conselho enviou Giscão, que gozava do apreço dos soldados e combatera junto a eles na Sicília, com o dinheiro e os bens exigidos pelos mercenários.

Mas esta concessão chegou tarde demais. Dois mercenários, o líbio Mathô e o campânio Espêndio, alçaram a sua voz, levados por interesses particulares. Impondo a sua vontade, os rebeldes apresaram Giscão, apoderando-se dos tesouros que trazia consigo (240 a.C.).[5]

A Guerra da África[editar | editar código-fonte]

A declaração de guerra[editar | editar código-fonte]

Perdas territoriais cartaginesas.
  Perdas após a Primeira Guerra Púnica
  Perdas após a Guerra dos Mercenários

Após serem nomeados generais, Mathô e Espêndio enviaram missivas às cidades tributárias de Cartago, incitando-as a desfazerem-se do jugo púnico e unir-se a eles no conflito. Sofrendo os gravosos tributos que caíram sobre elas após a desastrosa guerra com a República Romana, acederam facilmente às petições dos mercenários, o que converteu o motim original num levantamento nacional. Apenas duas cidades se mantiveram leais: Bizerta e Útica.[6]

Respaldados por um exército de 70 000 africanos e 20 000 mercenários, os generais rebeldes declararam formalmente a guerra a Cartago. A situação desta era desesperada. Recém saída de outra guerra, encontrava-se escassa de armas, sem frota de guerra, apetrechos navais, reservas de víveres nem esperanças de socorro externo.

Os cartagineses concederam a Hanão, o Grande o comando militar pelas suas anteriores vitórias na África, reuniram um novo exército mercenário e todos os homens em idade adulta foram armados. Treinaram a cavalaria da cidade, e unificaram o restante da sua frota.

Mathô, dividindo o seu exército em dois, sitiava as cidades de Útica e Bizerta, e assegurava o campo de Tunes, com o que ficavam cortadas de raiz as comunicações de Cartago por terra.

A ajuda romana[editar | editar código-fonte]

Os mercenários enviaram também uma embaixada a Roma, buscando o seu apoio na guerra. Mas por essa época os latinos achavam-se envolvidos em outra guerra civil contra os faliscos, uma guerra, no entanto, de menor trastorno e duração que a travada na África.

Frente da impossibilidade de reconciliar ambas as partes, Roma libertou todos os cativos cartagineses que tinha no seu poder, sem resgate algum, e enviou grão a Cartago e permitiu à cidade recrutar mercenários nas terras dos seus aliados. Afirmavam não procurar assim o benefício de Cartago, mas forjarem uma reputação de povo honorável e justo.[7] Além disso, Cartago ainda devia uma forte soma de dinheiro a Roma como indenização de guerra, e por isso aos romanos não lhes interessava que a cidade fosse destruída.

A ajuda romana, portanto, não foi massiva, mas constituiu um apoio para a preparação de Cartago na sua guerra civil.

A campanha de Hanão[editar | editar código-fonte]

Hanão ocupou-se com eficiência da logística. Dirigindo um exército que contava com um centenar de elefantes de guerra, rompeu o cerco de Útica, mas em lugar de acabar com os inimigos em fuga, entrou na cidade. Enquanto celebrava a vitória, os rebeldes, utilizando as táticas aprendidas com Amílcar, reagruparam-se e lançaram ataques de guerrilha, até pôr em fuga o exército de Hanão. Pouco depois o general perdeu uma oportunidade de assestar um golpe ao exército rebelde perto de um lugar chamado Gorza.[8]

Ante os insucessos de Hanão, o Conselho de Cartago nomeou Amílcar comandante-em-chefe do exército (240 a.C.), entregando-lhe ademais setenta elefantes,[9] as tropas mercenárias de novo contrato e os desertores dentre os rebeldes, a cavalaria e a infantaria da metrópole. Em total, as tropas reunidas ascendiam a dez mil homens.

Na sua primeira incursão, contando ademais com a vantagem moral do temor e respeito que inspirava nos seus inimigos, Amílcar rompeu o cerco a Cartago e a Útica, que fora retomado após a fuga de Hanão.

A campanha de Amílcar[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Amílcar Barca
Ígor Moiséiev numa representação de Salambó (Teatro Bolsoi, 1932)

Os caminhos de montanha que saíam de Cartago foram tomados e fortificados pelos rebeldes, no comando de Mathô. A única rota praticável para um grande exército cruzava o rio Bagradas. Espêndio, o outro general mercenário, construíra um acampamento junto à ponte, custodiando a passagem.

Amílcar conhecia a geografia do terreno melhor do que os estrangeiros, pois nascera em Cartago. Sabia que no verão, quando soprava o vento do deserto, a areia arrastada formava um depósito de lama que criava uma rota vadeável na desembocadura do rio. Sem mencionar os seus planos, abandonou a metrópole ao abrigo da noite e cruzou por essa zona com o seu exército.

Ao amanhecer surpreendeu tanto os cidadãos de Cartago como os rebeldes. Quando Espêndio percebeu o movimento de Amílcar, abandonou o acampamento junto à ponte e atacou com dez mil homens. Um segundo exército mercenário partiu de Útica, em número de quinze mil. Num hábil movimento, Amílcar reorganizou o seu exército, de modo que a cavalaria e elefantes, que formavam a vanguarda, se retirassem pelos extremos da formação, enquanto a falange, que formava em retaguarda, começava a despregar uma linha compacta frente ao inimigo.

Os rebeldes, pensando que o exército cartaginês se batia em retirada, atacaram desordenadamente. O primeiro exército, proveniente de Útica, chocou diretamente contra as filas da falange. A infantaria ligeira bateu-se então, obrigando os rebeldes a baterem em retirada. O segundo contingente, comandado por Espêndio, recebeu os seus em retirada e, enquanto reorganizava as suas linhas, a cavalaria e os elefantes de Aníbal destroçaram os seus flancos.[10]

Posteriormente, o combate seria conhecido como batalha do Bagradas, a primeira vitória importante de Cartago frente aos rebeldes, que abriu as rotas terrestres ao passo de tropas e mercadorias. Seis mil rebeldes faleceram, e outros dois mil caíram prisioneiros. O acampamento junto ao Bagradas foi desmantelado, e Útica, espreitada por Hanão, abandonada.

Enquanto isso, Mathô continuava o seu assédio a Bizerta, aconselhando a Espêndio evitar o plano, devido à superioridade de Amílcar em cavalaria e elefantes. Enviou as melhores tropas ao seu aliado, númidas e africanos que combatiam pela sua terra e pela sua liberdade. Espêndio contava com oito mil mercenários, entre eles dois mil gauleses no comando de Autarito. Com este exército, Espêndio dispôs-se a atacar o acampamento de Amílcar. Corria o ano de 239 a.C.

Porém, os númidas, no comando do nobre Naravas, mudaram então para o bando cartaginês, em número de dois mil, com cujo reforço as tropas rebeldes foram completamente derrotadas. Os elefantes voltaram a representar um fator definitivo na batalha.

Amílcar permitiu unir-se ao seu exército os prisioneiros que o desejassem, e perdoava a vida àqueles que recusassem.[11]

A deserção de Sardenha[editar | editar código-fonte]

Por estas datas, as notícias da guerra chegaram até a Sardenha. Os mercenários que se encontravam como guarnição na ilha rebelaram-se do mesmo modo que os seus camaradas da Sicília, agora na África. Esfaquearam a população púnica e o chefe das tropas auxiliares, Bostar.

Cartago enviou o capitão Hanão no comando de um pequeno exército, mas quando este chegou, as suas tropas passaram ao bando rebelde e crucificaram-no. Com as cidades no seu poder, os mercenários ficaram com o controle da Sardenha, enfrentando-se à população autóctone.

Assassinato dos emissários[editar | editar código-fonte]

Os atos de clemência mostrados por Barca para os seus cativos semeavam o temor nos ânimos dos chefes rebeldes, que viam perigar a lealdade das suas tropas. A partir disto, conceberam um ardil para que os seus soldados se enfurecessem com Cartago.

Mathô e Espêndio uniram as suas vozes à do gaulês Autarito. Convocaram o exército nas proximidades de Útica. Utilizando dois atores que simulavam ser emissários dos rebeldes da Sardenha e Tunes, fizeram-lhes entrar na reunião em diferentes momentos levando mensagens similares: a suspeita de que, entre as suas tropas, havia traidores que pactuaram com os cartagineses para libertar Giscão.[12] Depois, Espêndio exortou os seus para que desconfiassem de Amílcar, pois a sua falsa clemência era um ardil para castigá-los uma vez passassem ao seu bando.

Autarito falou então e, recapitulando as ofensas realizadas pelos cartagineses, pediu a ruptura de toda possível negociação com Cartago. Depois, pediu a morte de Giscão e dos emissários prisioneiros.

Os cartagineses, em número de setecentos, foram assassinados com extrema crueldade. Amputaram-lhes mãos e pés, quebraram-lhes as rótulas e arrojaram-nos a um fogo ainda vivos.

Quando esta informação chegou a Cartago, os púnicos, horrorizados, enviaram missivas solicitando os cadáveres da sua comitiva. A isto negaram-se os rebeldes, ameaçando ademais com tratar do mesmo modo todo mensageiro que fosse enviado desde a metrópole.

Depois deste ato, os prisioneiros que caíam nas mãos cartaginesas eram esmagados por elefantes ou arrojados às feras em retaliação. A guerra alcançou uma crueldade extrema, pelo qual foi conhecida a partir de então como Guerra Inexpiável.

A campanha conjunta[editar | editar código-fonte]

Amílcar chamou então Hanão para combinar os seus exércitos e finalizar a guerra.

Depois da batalha do Bagradas, a libertação de Útica e a aliança de Naravas, a guerra inclinara-se em favor de Cartago. Contudo, uma série de catástrofes tornaram de novo o signo da guerra em favor dos rebeldes:

  • A perda da Sardenha às mãos dos mercenários.
  • O naufrágio de uma frota mercante que portava fornecimentos para o exército.
  • A deserção de Bizerta e Útica, que assassinaram a guarnição cartaginesa e se passaram ao bando rebelde.

Por se isto não fosse suficiente, ambos os generais discutiam sobre estratégias e táticas a seguir, de modo que nenhuma ação efetiva foi executada contra os rebeldes durante esta campanha. A situação chegou a ser tão crítica que o Grande Conselho pediu aos soldados que escolhessem um dos dois generais, enquanto o outro devia abandonar o campo.

Com a vantagem ao seu favor, os generais mercenários uniram os exércitos de Bizerta e Útica para assediar a mesma Cartago.[13]

O comando único de Amílcar[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Amílcar Barca

As tropas, com o poder conferido pelo Grande Conselho, escolheram então Amílcar como o seu general, e o Senado enviou um capitão chamado Aníbal como o seu segundo.

Ajudas de Roma e Siracusa[editar | editar código-fonte]

Ruínas de Cartago.

Naquele então, os rebeldes controlavam todo o estado excetuando a própria cidade de Cartago. Com todas as suas rotas bloqueadas, os cartagineses buscaram ajuda exterior.

Em princípio, Roma tivera algumas desavenças com Cartago, pois os cartagineses apresavam aqueles mercadores romanos que viajavam com víveres destinados aos seus inimigos, e encerravam-nos sob prisão. Vários diplomáticos romanos foram enviados então a Cartago, que devolveu prontamente os cativos. Agradecidos, os romanos devolveram o restante de cativos da Sicília, além de proibir o comércio com os rebeldes.

Do mesmo modo, o rei Hierão II de Siracusa forneceu víveres a Cartago, temendo que se esta potência caía, ficaria como único poder capaz de opor-se aos romanos na Sicília.

Guerra de fornecimentos[editar | editar código-fonte]

Amílcar, graças à sua superioridade em tropas leves, e o númida Naravas com a sua cavalaria, interceptavam as linhas de fornecimento dos exércitos rebeldes. Frente da escassez de provisões, estes viram-se obrigados a levantar o sítio de Cartago.

Batalha "da Serra"[editar | editar código-fonte]

Mathô permaneceu na cidade de Tunes, enquanto Espêndio, Autarito e o africano Zarza mobilizavam um exército de cinquenta mil homens para enfrentar Amílcar (239 a.C.), praticamente na íntegra africanos. Fustigando-os em campo aberto e erodindo o seu exército com ações pontuais de grande habilidade, Amílcar conduziu-os para o desfiladeiro conhecido como "A Serra". Os rebeldes, que sempre buscavam afastar-se da planície e ocuparem as colinas e montanhas, caíram na sua própria armadilha.

Após assediar durante dias a boca do desfiladeiro, bloqueando o restante de saídas por meio de fossos e trincheiras, os mercenários ameaçaram os seus chefes, vendo que os reforços de Tunes não chegavam e a fome era cada vez mais urgente.

Os líderes rebeldes pactuaram então com Aníbal, entregando-se os oficiais mais importantes. Entre estes encontravam-se Autarito, Zarza e Espêndio. Acreditando ter sido atraiçoados, os soldados atacaram então, e foram massacrados pelo exército de Amílcar. Diz-se que faleceram mais de quarenta mil (praticamente a totalidade do exército rebelde).

O cerco de Tunes[editar | editar código-fonte]

Vista aérea de Tunes na atualidade.

A derrota das tropas africanas fez com que muitas cidades regressassem ao bando cartaginês. Dono das planícies e com as cidades africanas do seu lado, Amílcar dirigiu-se para a cidade de Tunes, pondo a cidade sob assédio.

O contingente de Aníbal levantou cerco junto a Tunes, que mirava a Cartago, enquanto Amílcar se localizou no lado oposto. Uma vez estabelecido o cerco, os líderes rebeldes foram crucificados junto aos muros da cidade.

Mathô saiu então da cidade atacando o acampamento de Aníbal, que foi capturado vivo pelo líbio. Então, descolgando o corpo de Espêndio, pendurou o cartaginês no seu lugar, degolando os seus oficiais aos pés da cruz.

Amílcar chegou tarde a socorrer Aníbal, e a derrota provocou o retorno de Hanão II, o Grande de Cartago, no comando dos últimos homens em idade adulta capazes de portar armas que ficavam na metrópole. Após várias reuniões, os generais esqueceram as suas diferenças e agiram conjuntamente para acabar com Mathô, que passou à defensiva.

Os generais púnicos tenderam emboscadas ao africano perto das últimas cidades que permaneciam no bando rebelde, como Léptis Magna, a sudeste. Finalmente, acossado em todas as frentes, Mathô resolveu dar batalha campal ao inimigo.

Há pouca informação sobre esta batalha, embora se saiba que a vitória foi para Cartago. Mathô foi capturado vivo, e as restantes cidades que permaneciam do lado dos rebeldes renderam-se a Cartago, Tunes incluída.

Conquista romana da Sardenha e declaração de guerra[editar | editar código-fonte]

Vista de satélite da Córsega e da Sardenha.

A República Romana aproveitou então a conjuntura para enviar um corpo expedicionário e "pacificar" a Sardenha, que se encontrava em conflito entre os mercenários rebeldes e os oriundos da ilha.

Os cartagineses protestaram, preparando uma expedição contra os mercenários rebeldes da ilha. Mas Roma declarou a guerra novamente a Cartago, arguindo que os preparativos eram para fazer a guerra contra eles e não contra os rebeldes.

A precária situação de Cartago tornava insustentável uma nova guerra, de modo que aumentaram o tributo a Roma em mil duzentos talentos e abandonaram definitivamente a ilha.[14]

A ilha de Córsega também caiu pouco depois em mãos romanas.

Fim da guerra[editar | editar código-fonte]

Com o exército rebelde destruído e os seus principais líderes justiçados, as únicas duas cidades que se opunham a Cartago eram Útica e Bizerta, que não podiam esperar clemência alguma por parte dos púnicos.

Amílcar acampou frente a Útica, enquanto Hanão fazia o próprio frente de Bizerta. Finalmente, os cartagineses impuseram umas duras condições de paz para as duas cidades, que se renderam, e com elas o último reduto de oposição à capital.

Após três anos e quatro meses, a cruel guerra civil terminava.[2]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

241 a.C.
  • Derrota naval de Cartago nas ilhas Égadi
  • Fim da Primeira Guerra Púnica, Tratado entre Cartago e República Romana. Cartago entrega Sicília a Roma.
  • Amílcar Barca renúncia ao controle da Sicília.
  • Um exército de 20 000 mercenários é transportado por Giscão da Sicília para a África.
  • Os mercenários são reunidos em Cartago, e deslocados para a cidade de Sica Veneria.
  • Hanão II, o Grande viaja a Sica. Intenta, sem sucesso, convencer os mercenários para que aceitassem um pagamento menor, dada a precariedade das arcas públicas.
  • Quebram-se as negociações. Os mercenários levantam-se em armas, ocupam Tunes, e ameaçam diretamente Cartago.
  • Dada a sua posição, os mercenários acrescentam as suas petições e solicitam também um pagamento para os recrutas líbios do exército. O Grande Conselho de Cartago aceita todas as demandas.
  • Giscão negocia com êxito com os mercenários de Tunes.[15]
240 a.C.
  • Temendo represálias pessoais por parte de cartagineses e romanos, Mathô e Espêndio incitam as tropas, e são nomeados generais.[16]
  • Os mercenários apresam Giscão, começando a guerra.[17]
  • Os mercenários convencem as cidades africanas para se unirem à revolta contra Cartago. Forças líbias assediam as cidades de Útica e Hipácrita, que recusam unir-se aos rebeldes.
  • Hanão II, o Grande recebe o comando das tropas púnicas.[18]
  • Os mercenários derrotam os exércitos cartagineses no comando de Hanão durante a Batalha de Útica.[19]
  • Os mercenários capturam a Sardenha.[20]
  • Cartago concede a Amílcar Barca o comando combinado junto a Hanão.[21]
  • Amílcar levanta o cerco de Útica.
  • Os exércitos de Amílcar derrotam os mercenários na batalha do Bagradas.[22]
  • O líder númida Naravas pasa-se ao bando de Amílcar.[23]
  • Com os defeitores númidas (ao redor de dois mil homens), Amílcar derrota de novo os mercenários.[24]
  • Amílcar perdoa os prisioneiros, aceitando no seu exército aqueles que queiram lutar por Cartago, e exilando o restante deles.[25]
239 a.C.
  • Preocupado por que a clemência de Amílcar animasse outros a desertar, Autarito pede a execução de "ao redor de setecentos" prisioneiros cartagineses, incluindo Giscão. Após tais atrocidades, os mercenários não se atreveram mudar de bando.[26]
  • Amílcar nomeado comandante único dos exércitos de Cartago.[27]
  • Útica passa ao bando rebelde.[28]
  • Cartago sitiada por forças mercenárias.
  • Cartago pede ajuda a Hierão II de Siracusa.[29]
  • Cartago pede ajuda Roma.[30]
238 a.C.
  • Amílcar curta as linhas de fornecimento dos mercenários sitiando Cartago, forçando-os a levantar o cerco.
  • Amílcar realiza uma série de rápidos ataques às tropas mercenárias, mantendo-as em constante movimento.
  • Amílcar conduz os mercenários para um desfiladeiro sem saída na Batalha "da Serra". Os mercenários são sitiados, e forçados a recorrer ao canibalismo para sobreviver.
  • Os líderes mercenários, exceto Mathô, rendem-se e são apresados por Amílcar. O exército mercenário tenta lutar, acreditando ser atraiçoado, e é totalmente destruído. No combate falecem por volta de 40 000 rebeldes.
  • Os exércitos de Amílcar e os do capitão Aníbal, sitiam e recuperam várias cidades africanas.
  • Os dois generais sitiam o exército de Mathô em Tunes, e crucificam os restantes líderes mercenários frente aos muros da cidade.
  • Mathôs aproveita uma debilidade nas defesas de Aníbal, lançando um ataque que destroça o seu acampamento. Aníbal e outros oficiais são capturados, e crucificados na mesma cruz que ocupavam antes os mercenários.
  • Os reforços cartagineses no comando de Hanão unem-se aos de Amílcar.
  • Mathô é derrotado em batalha campal, e o seu exército dispersado.
  • Toda a África, excetuando as cidades de Útica e Hipácrita, regressa ao bando cartaginês.
  • O exército de Amílcar toma Útica, e o de Hanão Hipácrita.
  • Roma declara a guerra a Cartago, tomando de desculpa as preparações militares púnicas contra Sardenha.
  • Cartago reage à declaração renunciando à Sardenha e adicionando 1200 talentos ao tributo que devia pagar após a Primeira Guerra Púnica.

Consequências[editar | editar código-fonte]

O juramento de Aníbal.

As perdas da Sicília, a Córsega e, sobretudo, Sardenha, privam Cartago das suas principais fontes de matérias primas. Cartago vê cortado o acesso ao seu tradicional mercado de mercenários, a base do seu exército. Sicília está em mãos estrangeiras; a comunicação com Grécia e Macedônia (cujo general Xantipo salvara Cartago durante a Primeira Guerra Púnica) bloqueada. Córsega e Sardenha não somente deixam assim de subministrar levas a Cartago, senão a sua perda bloqueia à cidade africana o acesso aos mercenários da Gália Cisalpina, da Narbonense e da península Itálica.

A sua base demográfica vê-se afetada, ao participar na guerra praticamente todas as cidades africanas.

Amílcar, a figura que sai mais fortalecida da guerra, procura um novo território, virgem, próximo bastante a Cartago para aprovisionar a metrópole com matérias de primeira necessidade, e afastado bastante de Roma para não interferir diretamente na sua área de interesse: a península Ibérica, Spania em língua fenícia.

A maior parte dos autores romanos da época coincidem em atribuir a Amílcar a causa principal da Segunda Guerra Púnica:[31]

A conquista deste território recaiu praticamente na íntegra nas mãos dos Barca, Amílcar, o seu cunhado Asdrúbal o Belo, e posteriormente os seus filhos Aníbal e Asdrúbal Barca. Isto conferiu aos bárcidas um poder e riqueza inigualáveis em Cartago, governando a Spania como um estado próprio, autônomo da metrópole, pressionando indiretamente ao Conselho dos Cem.

Assegurado o domínio da Spania, Cartago tinha à sua disposição, quer como aliados, quer como mercenários, os povos celtiberos da península: turdetanos, carpetanos, oretanos, ilergetes, sosetanos e outros muitos dispostos a alçar as suas armas na defesa dos seus interesses. Tal reserva em recursos humanos permitiu Aníbal planear definitivamente uma futura guerra com Roma, que fizesse esquecer os agravos do tratado de 241 a.C., causador indireto da revolta dos mercenários - ao esgotar as arcas cartaginesas -, da humilhação do povo púnico e da posterior perda da Córsega e da Sardenha.[32]

Historiografia[editar | editar código-fonte]

Não chegou até a atualidade nenhum texto púnico que tratasse sobre o conflito, de modo que as principais fontes conhecidas são os autores clássicos greco-latinos.

Os autores mais importantes que escreveram sobre este conflito são:

Também a menciona brevemente Floro na sua Epítome de História Romana, inspirada, praticamente na íntegra, nas Décadas de Lívio.

O único deles que trata em profundeza sobre o conflito é Políbio, amigo de Públio Cornélio Cipião Emiliano, a quem acompanhou durante a Terceira Guerra Púnica. Na sua obra, o grego proporciona descrições, nomes, lugares, datas e cifras. E ainda assim, a intenção de Políbio é escrever uma visão geral do conflito, com o objetivo de contextualizar o leitor no autêntico tema da sua obra: a história da República Romana.

Posteriormente, o jurista bizantino João Zonaras menciona brevemente o conflito no seu recompilatório "Epitomé historion" (Ἐπιτομὴ ἱστοριῶν).

Ao não se tratar de uma guerra na que Roma participara diretamente, os historiadores gregos e romanos mencionados adotam uma postura mais neutral do que à hora de falar das Guerras Púnicas.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

  1. Os númidas, sob comando de um nobre chamado Naravas, passariam posteriormente ao bando cartaginês
  2. a b Políbio, História Universal sob a República Romana L. I Cap. XXIV
  3. Segundo Nepote, "Dois Grandes Comandantes Estrangeiros", Amílcar II, Amílcar preferia perecer lá a voltar a Cartago em tal desonra, entregando os seus inimigos as armas que o seu país lhe dera para o defender dos seus inimigos
  4. Cornélio Nepote, "Dos Grandes Comandantes Estrangeiros", Amílcar II
  5. Políbio, História Universal sob a República Romana i. 66 - 70.
  6. Políbio, História Universal sob a República Romana T.I L.I, 20
  7. Zonaras, 17.g-17.h (LacusCurtius)
  8. Políbio, História Universal sob a República Romana Lib. I Cap. XX
  9. Políbio, História Universal sob a República Romana Lib. I Cap. XXI
  10. L. Loreto - La grande insurrezione libica contro Cartagine - Roma:École française de Rome, 1995
  11. Políbio, História Universal sob a República Romana i. 77 - 79.
  12. Políbio, História Universal sob a República Romana L. I Cap. XXII
  13. Políbio, História Universal sob a República Romana L. I Cap. XXJIII
  14. Dião Cássio; Guerra dos Mercenários no Projeto Gutenberg Traduzida para o inglês por Herbert Baldwin Foster
  15. Políbio 1:68.13-69.3.
  16. Políbio 1:69.1-69.14
  17. Políbio 1:70.1-71.7, 1:88.7, e 3:9.6-9.10; Diodoro, 25.2'1-2, 6'1; Lívio, Ab Urbe condita libri 21.2; Apiano, História das Guerras Sicilianas, 2.9
  18. Políbio, 1:73
  19. Políbio, 1:74
  20. Políbio, 1:79.1-79.7; Pausânias, 17.9; Walbank, 567
  21. Nepote 21:2.1-2.3; Políbio 1:75.1-75.2
  22. Políbio, 1:75.3-76.11; Walbank, 567
  23. Políbio, 1:78.1-78.9
  24. Políbio, 1:78.10-78.11
  25. Políbio, 1:78.13.
  26. Políbio, 1:79.8-81.11.
  27. Políbio, 1:82.1-82.7; Diodoro, 25.3'1.
  28. Políbio, 1:82.8-82.13; Diodoro, 25.3'2.
  29. Políbio, 1:83.1-83.4.
  30. Políbio, 1:83.5-83.11, e Nepote, 22:2.3; Lívio, Ab Urbe condita libri, 21.41; Apiano, "As Guerras Extranjeras"; As Guerras Sicilianas 2.10, As Guerras Púnicas 5'a; Walbank, 671; Zonaras, 17.g-17.h.
  31. Políbio História Universal sob a República Romana T.I L.III Cap.III. Lívio L. XXI, Cap. I. Cornélio Nepote XXII, IV
  32. Segundo Floro, "o que provocou esta nobre gente foi a sua perda do mar, das suas ilhas, e a sua obrigação a pagar um tributo que estavam acostumados a exigir" L.I Cap. XXI

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • SMITH, William (editor); Dictionary of Greek and Roman antiquities , [1], Boston. Reimpr. em Londres por: C. Little, and J. Brown, 1870 (em inglês)
  • MIRA GUARDIOLA, Miguel Ángel (2000). Cartago contra Roma : las Guerras Púnicas. [S.l.]: Madrid : Aldebarán. ISBN 84-88676-89-1 
  • Diodoro Sículo Biblioteca, Livro XXV.
  • Apiano, Guerras Extranjeras "As Guerras Púnicas" 5 (em inglês)
  • L. LORETO, "La grande insurrezione libica contro Cartagine", Roma: École française de Rome, 1995 (em francês)
  • HARDEN, Donald (1962). The Phoenicians. Thames & Hudson. [S.l.: s.n.] ISBN 0-14-021375-9 
  • WARMINGTON, B. H. (1969). Cartago. Robert Hale & Company. [S.l.: s.n.] ISBN 0-7091-0953-9 
  • F. W. WALBANK, A. E. ASTIN, M. W. FREDERIKSEN, R. M. OGILVIE, junto a A. DRUMMOND (editores) (1984-1989). Cambridge Ancient History : Volume 7, Part 2, 2nd Edition. Cambridge University Press. [S.l.: s.n.] ISBN 978-0-521-23446-7 
  • SANTOS YANGUAS, N. V. (1990). «La guerra inexpiable : la rebelión de los mercenarios en Cartago». Historia 16 (170). 0210-6353, pp. 67-77 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]