Guerras Civis da Tetrarquia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Guerras da Tetrarquia

As Guerras Civis da Tetrarquia foram uma série de conflitos ocorridos no Império Romano nas primeiras décadas do século IV entre as várias facções imperiais romanas do período, envolvendo coimperadores (augustos e césares) e usurpadores. A Tetrarquia tinha sido o modelo político implementado por Diocleciano (r. 284–305) em 293 como forma de conter os distúrbios políticos constantes e as invasões estrangeiras que à época debilitavam o Império Romano no contexto da Crise do Terceiro Século. Em seu modelo, Diocleciano e Maximiano (r. 285-308; 310) foram nomeados como imperadores seniores (augustos), com Galério (r. 293–311) e Constâncio Cloro (r. 293–306) como seus coimperadores juniores (césares) respectivos. Com a estabilização do sistema, Diocleciano e Maximiano abdicaram em 305, garantindo a ascensão de Constâncio e Galério como augustos. Eles nomeariam Valério Severo (r. 305–307) e Maximino Daia (r. 305–313) como césares, negligenciando os candidatos preferidos Constantino, filho de Constâncio Cloro, e Magêncio, filho de Maximiano, o que acarretaria desavenças.

Com a morte de Constâncio Cloro em 306, Constantino foi elevado pelo exército à posição de augusto à revelia do sucessor Severo. De modo a evitar conflitos, Galério aceitou nomeá-lo césar, enquanto Severo assumiria a posição de augusto. Apesar disso, Magêncio também declarar-se-ia imperador em Roma. Severo marchou sobre a Itália para deter o usurpador, dando início aos numerosos conflitos do período. Ciente da aproximação do inimigo, Magêncio ofereceu a seu pai Maximiano o co-comando imperial e ambos foram capazes de derrotar e capturar Severo, que foi aprisionado e morto em 307. Galério marchou contra os rebeldes no mesmo ano, mas foi obrigado a retirar-se, consolidando a autoridade de Magêncio. Maximiano tentou dar um fracassado golpe em seu filho em 308, sendo obrigado a fugir para a corte de Constantino na Gália. Ele depositou suas esperanças na Conferência de Carnunto convocada por Galério no mesmo ano. Nela, Licínio (r. 308–324) foi nomeado o novo augusto do Ocidente e Maximiano foi novamente oficialmente destituído. Maximiano partiu para a Gália, onde aproveitou-se da campanha de Constantino em 310 contra os francos para usurpar a púrpura. Seria, entretanto, derrotado militarmente e suicidaria-se no mesmo ano.

Em 311, Galério adoeceu e morreu, desestabilizando ainda mais o debilitado sistema tetrárquico. Entre 311 e 312, Licínio e Maximino Daia dividiram entre si as províncias imperiais orientais, enquanto Magêncio preparou-se no Ocidente para travar guerra contra Constantino. Ciente disso, Constantino aliou-se com Licínio para evitar que eles selassem um acordo e marchou com seu exército rumo a Itália, onde conseguiu derrotar os soldados de Magêncio em várias batalhas ao norte, abrindo caminho direto para Roma. Nas imediações da capital travou-se a importante Batalha da Ponte Mílvia, na qual Magêncio morreu afogado no rio Tibre, permitindo a Constantino estabelecer-se como poder único no Ocidente. No Oriente, em 313, após um acordo entre Licínio e Constantino firmado em Mediolano no mesmo ano, Maximino Daia invadiu as províncias orientais europeias na tentativa de estabelecer-se como governante supremo, mas foi derrotado em duas importantes batalhas e acabou morto. Em 314, devido à nomeação de Bassiano como césar do Ocidente, Constantino e Licínio confrontam-se na Batalha de Cíbalas. Em 316, confrontam-se novamente no Campo Ardiense, o que leva-os a acordar uma trégua temporária que perduraria até 324. Neste ano, as tropas de Constantino e Licínio enfrentaram-se em três importantes batalhas, culminando na vitória definitiva de Constantino. Licínio foi preso e assassinado no ano seguinte, permitindo que o imperador vencedor se estabelecesse como poder único no Império Romano.

Império Romano após a divisão territorial pelos tetrarcas
Diocleciano e Maximiano em iluminura da Crônica de Constantino Manasses

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A Tetrarquia foi uma divisão administrativa do Império Romano instituída pelo imperador romano Diocleciano (r. 284–305) em 293, marcando o fim da Crise do Terceiro Século e a restauração da ordem no Império Romano. A primeira fase, por vezes referida como Diarquia, envolveu a designação do general Maximiano (r. 285-308; 310) como coimperador - primeiramente como césar (imperador júnior) em 285[1][2][3] e então augusto (imperador sênior) em 286.[4][5][6] Diocleciano controlou os assuntos das regiões orientais do império, enquanto Maximiano foi encarregado com as regiões ocidentais.[7]

Em 293, em vista dos vários problemas militares enfrentados à época com a usurpação de Caráusio (r. 286–293) na Britânia e as invasões sassânidas no Oriente, Diocleciano percebeu que dois imperadores eram insuficientes para lidar com a situação.[8] Em 1 de março de 293, em Mediolano, Maximiano nomeou Constâncio Cloro (r. 293–306) como seu césar,[9] enquanto no mesmo dia ou um mês depois, Diocleciano fez o mesmo com Galério (r. 293–311) em Filipópolis (atual Plovdiv, Bulgária) ou Sirmio (atual Sremska Mitrovica, Sérvia), assim estabelecendo a Tetrarquia, ou "governo de quatro".[10][11][12][13][14]

Em 1 de maio de 305, em cerimônias separadas realizadas em Mediolano e Nicomédia (atual İzmit, Turquia), os imperadores seniores conjuntamente abdicaram e retiraram-se da vida pública, permitindo que Constâncio Cloro e Galério fossem elevados à posição de augustos.[15] Eles, por sua vez, nomearam dois novos césares - Valério Severo (r. 305–307) sob Constâncio no Ocidente, e Maximino Daia (r. 305–313) sob Galério no Oriente.[16][17][18] Havia, contudo, um problema: tanto Severo como Maximino foram escolhidos sob influência de Galério, que pretendia aumentar seu poder de mando, à revelia dos dois candidatos óbvios para a sucessão: Constantino, filho de Constâncio, e Magêncio, filho de Maximiano.[19] Isso não pressagiaria nada de bom ao futuro do sistema tetrárquico.[20][21][22]

Movimentos iniciais[editar | editar código-fonte]

Áureo de Diocleciano (r. 284–305) emitido em Cízico ca. 286-287
Argento de Constâncio Cloro (r. 293–306) emitido em Antioquia ca. 294-295

Em 25 de julho de 306, em meio a uma campanha contra os pictos da Britânia, Constâncio faleceu em Eboraco (atual Iorque).[23] Sua morte configurou-se como o primeiro baque na estrutura política da Tetrarquia. Em vez de aceitar a elevação de Severo de césar para augusto, as tropas em Eboraco elevaram o filho de Constâncio, Constantino, à posição imperial.[24] Contactando o imperador sênior Galério, Constantino solicitou reconhecimento como herdeiro de seu pai, e passou a responsabilidade por sua ascensão ilegal às tropas, alegando que elas tinham "forçado-o sobre ele".[25] Galério irritou-se com a situação e quase recusou-se a acatar o pedido, mas foi alertado por seus conselheiros que isso o levaria à guerra.[26][27][28] Ele então garantiu a Constantino o título de césar em vez de augusto, que fora concedido a Severo.[29] E desejando deixar claro que havia legitimado o governo de Constantino, Galério pessoalmente enviou as vestes púrpuras ao imperador.[30][31][32][33] Constantino aceitou a decisão, sabendo que isso removeria as dúvidas de seu poder.[34]

Esse ato motivou Magêncio, filho de Maximiano, a também declarar-se imperador em Roma em 306, porém com o título de príncipe.[35] Galério, temeroso que outros também tentariam tornar-se imperadores, ordenou que Severo entrasse na Itália e lidasse com o usurpador.[36][37][38][39][40] Severo moveu-se de sua capital em Mediolano a Roma como chefe dum exército anteriormente comandado por Maximiano. Temendo a chegada de Severo, Magêncio ofereceu a Maximiano o co-comando do império. Maximiano aceitou, e quando Severo chegou diante os muros de Roma e sitiou-a, seus homens desertaram e passaram para Maximiano, o antigo comandante deles. Severo fugiu para Ravena, uma posição impenetrável: Maximiano ofereceu poupar sua vida e tratá-lo humanamente se se rendesse pacificamente. Apesar das promessas, Severo foi capturado e aprisionado em Três Tavernas antes de ser assassinado em março ou abril de 307.[29][35]

Follis de Valério Severo (r. 305–307) emitido em Augusta dos Tréveros
Argênteo de Galério (r. 293–311) emitido em Salonica ca. 302

O governo conjunto de Magêncio e Maximiano em Roma foi novamente testado quando Galério marchou à Itália no verão de 307 com um exército ainda maior. Enquanto negociando com o invasor, Magêncio repetiu o que havia feito com Severo: sob promessa de altas quantias de dinheiro, e a autoridade de Maximiano, muitos soldados de Galério desertaram. Galério foi forçado a retirar-se, saqueando a Itália em seu caminho.[29] Após a fracassada campanha de Galério, o governo de Magêncio sobre a Itália, África, Córsega e Sardenha foi firmemente estabelecido.[35] Já desde 307, Magêncio tentou estabelecer contatos amigáveis com Constantino, e no verão daquele ano, Maximiano viajou para a Gália, onde Constantino casou sua filha Fausta (r. 307–326)[41] e foi nomeado augusto pelo imperador sênior.[42][43][44][45] Constantino reconheceu a autoridade de Magêncio, mas não envolveu-se nos conflitos na Itália, preferindo dirigir-se da Gália à Britânia.[46][47][48]

Em 308, provavelmente em abril, Maximiano tentou depor seu filho numa reunião de soldados em Roma; para sua surpresa, as tropas presentes permaneceram fieis a seu filho e teve de fugir para a corte de Constantino.[35] Ciente da situação no Ocidente, Galério resolve convocar uma conferência em Carnunto (atual Petronell-Carnuntum, na Áustria), e Maximiano depositou suas esperanças de ascensão nela.[49] A conferência reuniu-se em 11 de novembro daquele ano e teve como principais resoluções a remoção definitiva de Maximiano do quadro tetrárquico, a despromoção de Constantino para césar e a nomeação de Licínio como augusto do Ocidente[29] para que pudesse lidar com Magêncio na Itália.[50] Esse novo sistema, no entanto, não viria a durar muito com Constantino recusando-se a aceitar sua despromoção, Maximino Daia exigindo uma promoção de Galério e Licínio permanecendo neutro quanto à sua missão italiana.[50]

Em 310, Maximiano, que havia sido enviado para o sul de Arelate (atual Arles) com parte do exército constantiniano para defendê-la de ataques de Magêncio no sul da Gália, rebelou-se contra Constantino enquanto o imperador estava em campanha contra os francos no rio Reno. Em Arelate, Maximiano anunciou que Constantino estava morto e tomou a púrpura imperial. Apesar de oferecer subornos para qualquer um que o apoiasse como imperador, grande parte do exército de Constantino permaneceu fiel, e Maximiano foi obrigado a partir. Constantino logo soube da rebelião, abandonou sua campanha contra os francos, e moveu-se rapidamente para o sul, onde confrontou-se com Maximiano em Massília (atual Marselha). A cidade estava melhor preparada para resistir a um cerco do que Arelate, mas isso fez pouca diferença, pois os cidadãos, que mantiveram-se leais, abriram os portões traseiros para Constantino. Maximiano foi capturado, reprovado por seus crimes, e removido de seu título pela terceira e última vez. Constantino garantiu a Maximiano alguma clemência, mas fortemente encorajou seu suicídio. Em julho de 310, Maximiano enforcou-se.[49][51][52][53][54][55][56]

Guerra de Constantino e Magêncio[editar | editar código-fonte]

Áureo de Maximiano (r. 285-308; 310) emitido em Antioquia ca. 294-295

Em meados de 310, Galério estava muito doente para envolver-se nas políticas imperiais.[53][57][58] Neste período sua última ação foi a emissão duma carta aos provinciais postada em Nicomédia em 30 de abril de 311 que proclamou o fim das perseguições aos cristãos e restabeleceu a tolerância religiosa.[59][60][61] Morreu logo depois da proclamação do édito,[57][62][63][64] destruindo a pouca estabilidade ainda existente na Tetrarquia.[65][66][67] Maximino mobilizou-se contra Licínio no Oriente, e tomou a Anatólia. Uma paz precipitada foi assinada num barco em meio ao Bósforo.[68][69] Enquanto Constantino excursionou na Britânia e Gália, Magêncio preparou-se para a guerra: fortificou o norte da Itália e fortaleceu seu apoio na comunidade cristã ao permitir a eleição dum novo bispo de Roma, o papa Melquíades (r. 310–314).[65][70]

O governo de Magêncio era, contudo, inseguro. Seu suporte inicial dissolveu-se com a implementação de altos impostos e retração comercial; revoltas eclodiram em Roma e Cartago; e Domício Alexandre (r. 308–311) foi capaz de brevemente usurpar sua autoridade na África.[57][71][72] Por 312, era um homem apenas tolerado,[73] sem nenhum apoio efetivo, mesmo entre os cristão italianos.[74][75] No verão de 311, Magêncio mobilizou-se contra Constantino, enquanto Licínio estava ocupado com outros assuntos no Oriente. Declarou guerra, jurando "vingar" a morte de seu pai.[72][76] Para evitar que Magêncio formasse uma aliança contra ele com Licínio, no inverno de 311-312, Constantino ofereceu ao último sua irmã Constância (r. 313–324) em casamento.[77] Maximino considerou o acordo uma afronta à sua autoridade. Em resposta, enviou emissários para Roma, oferecendo reconhecimento político para Magêncio em troca de apoio militar. Magêncio aceitou.[67][70][65][78] Segundo Eusébio de Cesareia, viagens inter-regionais tornaram-se impossíveis, e havia concentrações militares em todo lugar. "Não havia um lugar onde as pessoas não estavam esperando o início das hostilidades, a cada dia".[79][80]

Follis de Domício Alexandre (r. 308–311) emitido em Cartago
Follis de Magêncio (r. 306–312) emitido em Ticino ca. 307-308

Os conselheiros e generais de Constantino advertiram-no contra um ataque preemptivo contra Magêncio;[65][81] mesmo seus adivinhos foram contrários a isso, alegando que os sacrifícios produziram presságios infavoráveis.[82] Constantino, com espírito que deixou uma profunda impressão em seus seguidores, inspirando alguns a acreditar que tinha alguma forma de orientação sobrenatural,[83] ignorou todos os alertas.[84] No começo da primavera de 312, cruzou os Alpes Cócios com um quarto de seu exército, uma força de aproximados 40 000 soldados.[81][85] A primeira batalha ocorre em Segúsio (atual Susa), que foi tomada à força. Dali Constantino continuou sua marcha.[65][86]

Ao aproximar-se da importante cidade de Augusta dos Taurinos (atual Turim), encontrou uma grande força de cavalaria pesadamente armada[65][87][88] e derrotou-a.[81][89][90][91] Augusta dos Taurinos recusou-se a dar refúgio para as forças em retirada de Magêncio, preferindo abrir suas portas para Constantino.[65][92][93] Outras cidades da planície norte italiana enviaram emissários a Constantino parabenizando-o por sua vitória. Ele moveu-se para Mediolano, onde encontrou as portas abertas e alegria eufórica. Constantino descansou seu exército ali até meados do verão de 312, quando moveu-se para Bríxia (atual Bréscia).[94][95] O exército de Bríxia foi facilmente dispersado,[96] e Constantino rapidamente avançou para Verona, onde uma grande força de Magêncio estava acampada.[81]

Rurício Pompeiano, general das forças veronesas e prefeito pretoriano de Magêncio, opôs-se ao imperador invasor em dois confrontos consecutivos às portas da cidade. Rurício foi morto e seu exército destruído.[97] Verona rendeu-se logo depois, seguida por Aquileia,[67][96][98] Mutina (atual Módena)[92] e Ravena.[81] Agora o caminho direto para Roma estava aberto.[92][96][83] Às margens do rio Tibre, próximo à deliberadamente arruinada ponte Mílvia, Constantino confrontou o último exército de seu adversário, comandando pelo próprio Magêncio. Ao perceber que seu exército estava sendo superado, Magêncio tentou escapar, mas no tumulto provocado pela debandada de seus soldados, foi empurrado no Tibre e afogou-se.[99][100][101][102] Constantino entrou em Roma em 29 de outubro[103] [104][105] e encenou um grande advento na cidade, onde deparou-se com grande júbilo popular.[106][107][108] O corpo de Magêncio foi fisgado do Tibre e decapitado. Sua cabeça foi exibida através das ruas para todos verem.[101][103][104][100][109][110] Após as cerimônias, a cabeça decepada de Magêncio foi enviada para Cartago, o que teria encerrado a resistência na cidade.[111]

Guerra de Licínio e Maximino Daia[editar | editar código-fonte]

Follis de Maximino Daia (r. 305–313) emitido em Heracleia Perinto ca. 313
Soldo de Licínio (r. 308–324) emitido na Nicomédia ca. 317-318

No meio tempo, no Oriente, pelo tempo da morte de Galério em 311, as províncias orientais foram divididas entre Maximino Daia e Licínio. Daia estava infeliz que Licínio tinha sido elevado à posição de imperador sênior por Galério, e tomou a primeira oportunidade disponível para declarar-se como imperador. Licínio manteve as províncias europeias orientais, enquanto Daia tomou posse das províncias asiáticas. No outono de 312, enquanto Constantino estava lutando com Magêncio, Daia estava ocupando realizando campanha contra o Reino da Armênia. Retornaria à Síria em fevereiro de 313, quando descobriu uma aliança forjada entre Constantino e Licínio num encontro realizado em Mediolano após a morte de Magêncio; nele Constância casou-se com Licínio[77] e ambos promulgaram o Édito de Mediolano, que garantia liberdade religiosa aos cristãos.[41][50] Decidido a tomar a iniciativa, Daia deixou a Síria com 70 000 homens e alcançou a Bitínia, porém seu exército foi gravemente enfraquecido pelo mau tempo.[112]

Em abril de 313, cruzou o Bósforo em direção a Bizâncio (atual Istambul, Turquia), que era mantida pelas tropas de Licínio. Implacável, tomou a cidade após um cerco de 11 dias. Moveu-se para Heracleia Perinto (atual Marmara Ereğlisi, Turquia), que capturou após um cerco de 8 dias,[113] antes de mover suas forças para a primeira estação de postagem, a 18 milhas da cidade. Com um exército menor, possivelmente cerca de 30 000,[114] Licínio chegou em Adrianópolis (atual Edirne, na Turquia) enquanto Daia ainda estava sitiando Heracleia e dirigiu-se para um acampamento próximo a segunda estação, mais 18 milhas à frente.[115] Após um período de negociações infrutíferas, eles encontraram-se em 30 de abril próximo de Tzíralo.[112] Na batalha resultante as forças de Daia foram destruídas. Livrando-se da púrpura imperial e vestindo-se como um escravo, Daia fugiu para a Nicomédia. Tentou parar o avanço de Licínio nas Portas da Cilícia ao estabelecer fortificações ali, contudo, o exército de seu rival foi capaz de atravessar, forçando-o a retirar-se para Tarso, onde Licínio continuou a pressioná-lo por terra e mar. A guerra terminou com a morte de Daia em julho ou agosto de 313 e o assassinato da mulher e filhos do falecido.[112]

Guerras de Constantino e Licínio[editar | editar código-fonte]

Follis de Alexandria com efígie de Valério Valente (r. 316–317). Ca. 316/317

Após a morte de Magêncio, Constantino gradualmente consolidou sua superioridade militar sobre seus rivais na arruinada Tetrarquia. Pelo tempo da guerra entre Licínio e Maximino, Constantino e Licínio ainda mantiveram-se aliados, porém com a vitória do último a relação deles deteriorou. Em 314, provavelmente devido ao atrito provocado pela nomeação do senador Bassiano, esposo de Anastácia, a meio-irmã de Constantino, como césar, ambos confrontaram-se na batalha de Cíbalas, na qual Constantino saiu vitorioso. Eles confrontaram-se novamente na batalha do Campo Ardiense em 316/317, que foi inconclusiva, e decidiram-se pela paz. Uma trégua foi acordada em 1 de março de 317 em Sérdica (atual Sófia, na Bulgária), onde Licínio aceitou seu rival como seu superior no governo, Constantino recebeu todas as províncias europeias orientais, exceto a Trácia, e Valério Valente (r. 316–317), que à época governava o Oriente como coimperador, foi deposto e executado.[50] Além disso, Constantino e Licínio foram nomeados cônsules e três césares foram elevados: Crispo (r. 317–326) e Constantino II (r. 317–340), filhos de Constantino, e Licínio II (r. 317–324), filho de Licínio.[41][116]

Soldo de Crispo (r. 317–326) emitido em Sirmio para celebrar a vitória de Constantino sobre os godos em 323
Follis de Cízico com efígie de Martiniano (r. 323)

A Concordata dos Augustos (em latim: concordia Augustorum), contudo, duraria apenas alguns anos. Em pouco tempo a tensão voltaria a crescer entre os soberanos. No ano 320, Licínio revogou a liberdade religiosa prometida com o Édito de Milão de 313 e começou a oprimir os cristãos,[117] promulgando uma série de leis que inibiam práticas cristãs e proibiam que oficiais militares exercessem função sem antes realizarem sacrifícios aos deuses; para Michael DiMaio Jr. estas medidas serviram como forma de provocar Constantino a atacar. Em 321, a situação se agravou quando Constantino perseguiu alguns sármatas que haviam invadido seus domínios através do rio Danúbio, e mais adiante, em 323, alguns godos que estavam saqueando a Trácia, o que fora entendido por Licínio como uma quebra da paz acordada.[50]

Em 324, Constantino reuniu uma frota e um exército em Salonica, na Calcídica, e avançou em direção a Adrianópolis. Licínio confrontou suas forças às margens do rio Hebro em 3 de julho de 324, onde foi obrigado a bater em retirada. Reuniu todos os homens que pôde e rumou em direção à sua frota que estava estacionada no Helesponto. No Helesponto, enquanto Licínio foi sitiado por Constantino em Bizâncio, seu almirante Abanto foi surpreendido pelo mau tempo e pela frota de Crispo e foi derrotado em julho. Em vista da enorme pressão, Licínio abandonou a cidade e fugiu para a Calcedônia, na Bitínia, deixando Martiniano (r. 324), seu antigo mestre dos ofícios e atual coimperador, para impedir o progresso de seu rival. Licínio reagrupou suas forças em Crisópolis (atual Üsküdar, na Turquia), onde foi novamente derrotado em 18 de setembro.[118] Licínio fugiu para a Nicomédia, onde foi sitiado. No dia seguinte rendeu-se.[50]

Rescaldo[editar | editar código-fonte]

Follis de Licínio II (r. 317–324) emitido em Cízico ca. 321-324
Soldo de Constantino, o Grande (r. 306–337) emitido em Antioquia ca. 324-325

Com sua vitória decisiva contra seus rivais, Constantino estabeleceu-se como o poder inconteste do Império Romano e pôde governar sozinho. No rescaldo do confronto na Nicomédia, Licínio foi preso e enviado para Salonica, enquanto Martiniano para a Capadócia, ambos sob promessa de terem suas vidas poupadas para que vivessem como cidadãos privados, provavelmente por intermédio de Constância, a esposa do primeiro. Apesar disso, Martiniano seria executado pelo fim de 324, enquanto Licínio pela primavera de 325, sob alegação de que estaria agrupando tropas para rebelar-se contra Constantino.[50] O filho de Licínio também seria executado sob ordens imperiais.[119]

Como a derrota de Licínio representou a derrota dum centro rival de paganismo e atividade política grega no Oriente, em oposição à Roma cristã e latina, Constantino propôs que uma nova capital oriental deveria representar a integração do Oriente no Império Romano como um todo, como um centro de erudição, prosperidade e preservação cultural para o Império Romano do Oriente.[120] Em 324, Bizâncio foi escolhida como a nova sede oriental, uma decisão tomada principalmente devido à localização estratégica da cidade e pelo fato dela já ter sido reconstruída aos moldes romanos nos reinados de Sétimo Severo (r. 193–211) e Caracala (r. 198–217).[121]

Constantino fez muitas mudanças nas instituições civis, militares, administrativas e religiosas. Baseando-se nas reformas administrativas introduzidas por Diocleciano, estabilizou a moeda (o soldo de ouro que introduziu tornou-se uma moeda altamente valorizada e estável), estabeleceu o princípio dinástico[122] e fez alterações na estrutura do exército[77] como a extinção da guarda pretoriana e a cavalaria pessoal do imperador.[123] Embora não tenha sido tornado a religião oficial do Estado, o cristianismo gozava da preferência imperial, uma vez que Constantino concedeu-lhe generosos privilégios.[124] E estabeleceu o princípio de que os imperadores não deveriam resolver questões de doutrina, mas deveriam convocar concílios eclesiásticos gerais para esse efeito.[125][126][127]

Referências

  1. Barnes 1981, p. 6.
  2. Barnes 1982, p. 4.
  3. Potter 2004, p. 280–81.
  4. Barnes 1981, p. 6-7.
  5. Potter 2004, p. 282.
  6. Southern 2001, p. 141-142.
  7. Treadgold 1997, p. 15.
  8. Williams 1997, p. 62–64.
  9. Barnes 1982, p. 4, 36–37.
  10. Barnes 1981, p. 8-9.
  11. Barnes 1982, p. 4, 38.
  12. Potter 2004, p. 288.
  13. Williams 1997, p. 64-65.
  14. Southern 2001, p. 146.
  15. Potter 2004, p. 342.
  16. Barnes 1981, p. 25–27.
  17. Williams 1997, p. 191.
  18. Southern 2001, p. 152.
  19. Potter 2004, p. 340.
  20. Lenski 2006, p. 60-61.
  21. Southern 2001, p. 152–53.
  22. Odahl 2004, p. 72-74.
  23. DiMaio 1996c.
  24. Eutrópio século IV, 10.1–2.
  25. Treadgold 1997, p. 28.
  26. Barnes 1981, p. 28-29.
  27. Lenski 2006, p. 62.
  28. Rees 2002, p. 160.
  29. a b c d DiMaio 1996b.
  30. Odahl 2004, p. 79-80.
  31. Elliott 1996, p. 41.
  32. Jones 1978, p. 59.
  33. MacMullen 1969, p. 39.
  34. Barnes 1981, p. 29.
  35. a b c d DiMaio 1997a.
  36. Barnes 1981, p. 30–31.
  37. Elliott 1996, p. 41–42.
  38. Lenski 2006, p. 62–63.
  39. Odahl 2004, p. 86–87.
  40. Potter 2004, p. 348–49.
  41. a b c Pohlsander 2009.
  42. Barnes 1981, p. 31.
  43. Lenski 2006, p. 64.
  44. Odahl 2004, p. 87-88.
  45. Pohlsander 2004, p. 15-16.
  46. Barnes 1981, p. 30.
  47. Lenski 2006, p. 62-63.
  48. Odahl 2004, p. 86-87.
  49. a b DiMaio 1997b.
  50. a b c d e f g DiMaio 1997c.
  51. Barnes 1981, p. 34–35.
  52. Pohlsander 2004, p. 17.
  53. a b Elliott 1996, p. 43.
  54. Lenski 2006, p. 65–66.
  55. Odahl 2004, p. 93.
  56. Potter 2004, p. 352.
  57. a b c Lenski 2006, p. 68.
  58. Odahl 2004, p. 95–96, 316.
  59. Eusébio de Cesareia século IVa, 8.17.
  60. Barnes 1981, p. 304.
  61. Jones 1978, p. 66.
  62. Barnes 1981, p. 39.
  63. Elliott 1996, p. 43–44.
  64. Odahl 2004, p. 95–96.
  65. a b c d e f g Barnes 1981, p. 41.
  66. Elliott 1996, p. 45.
  67. a b c Lenski 2006, p. 69.
  68. Elliott 1996, p. 44.
  69. Barnes 1981, p. 39–40.
  70. a b Odahl 2004, p. 96.
  71. Barnes 1981, p. 37.
  72. a b Curran 2000, p. 66.
  73. Barnes 1981, p. 37–39.
  74. MacMullen 1969, p. 62.
  75. Barnes 1981, p. 38–39.
  76. Barnes 1981, p. 40.
  77. a b c Pohlsander 1997.
  78. Elliott 1996, p. 44–45.
  79. Eusébio de Cesareia século IVa, 8.15.1–2.
  80. MacMullen 1969, p. 65.
  81. a b c d e MacMullen 1969, p. 71.
  82. Anônimos século III-IV, (9)2.5.
  83. a b Curran 2000, p. 67.
  84. MacMullen 1969, p. 70–71.
  85. Anônimos século III-IV, (9)5.1–3.
  86. Odahl 2004, p. 101.
  87. Jones 1978, p. 70.
  88. Odahl 2004, p. 101–2.
  89. Anônimos século III-IV, (9)5–6.
  90. Jones 1978, p. 70–71.
  91. Odahl 2004, p. 102, 317–18.
  92. a b c Jones 1978, p. 71.
  93. Odahl 2004, p. 102.
  94. Barnes 1981, p. 41–42.
  95. Odahl 2004, p. 103.
  96. a b c Barnes 1981, p. 42.
  97. Odahl 2004, p. 103–4.
  98. Odahl 2004, p. 104.
  99. Barnes 1981, p. 43.
  100. a b MacMullen 1969, p. 78.
  101. a b Lenski 2006, p. 70.
  102. Curran 2000, p. 68.
  103. a b Odahl 2004, p. 108.
  104. a b Barnes 1981, p. 44.
  105. MacMullen 1969, p. 81.
  106. Curran 2000, p. 71–74.
  107. Odahl 2004, p. 105–6, 319–20.
  108. Cameron 1999, p. 93.
  109. Jones 1978, p. 72.
  110. Curran 2000, p. 72.
  111. Barnes 1981, p. 44–45.
  112. a b c DiMaio 1996d.
  113. Lactâncio 1871, p. 204.
  114. Kohn 2006, p. 398.
  115. Lactâncio 1871, p. 205.
  116. Pohlsander 2004, p. 38–39.
  117. Pohlsander 2004, p. 41–42.
  118. Pohlsander 2004, p. 42–43.
  119. Scarre 2012, p. 215.
  120. Dagron 1974, p. 24.
  121. Dagron 1974, p. 15; 19.
  122. Lenski 2016, p. 63.
  123. Jones 1964, p. 100.
  124. Audoin-Rouzeau 2009, p. 34.
  125. Bury 1923, p. 63.
  126. Drake 2006, p. 5.
  127. Grant 1975, p. 4, 12.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

  • Lactâncio (1871). «Sobre as mortes dos Perseguidores». In: Donaldson, James e Roberts, Alexander (ed.); Fletcher, William (trad.). The Works of Lactantius Vol. 1. Edimburgo: T. & T. Clark 

Fontes secundárias[editar | editar código-fonte]

  • Audoin-Rouzeau, Stéphane (2009). As grandes batalhas da história. São Paulo: Larousse. ISBN 978-85-7635-469-7 
  • Barnes, Timothy D. (1981). Constantine and Eusebius. Cambridge, MA: Harvard University Press. ISBN 978-0-674-16531-1 
  • Barnes, Timothy D. (1982). The New Empire of Diocletian and Constantine. Cambridge, MA: Harvard University Press. ISBN 0-7837-2221-4 
  • Bury, John Bagnall (1923). History of the Later Roman Empire (em inglês). Londres: Macmillan & Co. ISBN 0-7905-4544-6 
  • Cameron, Averil; Hall, Stuart G. (1999). Life of Constantine. Oxford: Clarendon Press. ISBN 0-19-814917-4 
  • Curran, John (2000). Pagan City and Christian Capital. Oxford: Clarendon Press. ISBN 0-19-815278-7 
  • Dagron, Gilbert (1974). Naissance d'une Capitale: Constantinople et ses instititutions de 330 a 451. Paris: Presses universitaires de France 
  • Drake, H. A. (2006). «Constantine and Consensus». The Cambridge companion to the Age of Constantine. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-52157-2 
  • Elliott, T. G. (1996). The Christianity of Constantine the Great. Scranton, PA: University of Scranton Press. ISBN 0-940866-59-5 
  • Grant, Robert M. (1975). «Religion and Politics at the Council at Nicaea». The Journal of Religion (em inglês). 55 (1): 1–12 
  • Jones, A. H. M. (1978). Constantine and the Conversion of Europe. Buffalo: University of Toronto Press 
  • Jones, Arnold Hugh Martin (1964). The Later Roman Empire, 284-602. Baltimore, Marilândia: Johns Hopkins University Press 
  • Kohn, George Childs (2006). Dictionary Of Wars, Revised Edition. Nova Iorque: Checkmark Books 
  • Lenski, Noel Emmanuel (2006). The Cambridge companion to the Age of Constantine. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-52157-2 
  • Lenski, Noel (2016). Constantine and the Cities: Imperial Authority and Civic Politics. Filadélfia: University of Pensylvania Press 
  • MacMullen, Ramsay (1969). Constantine. Nova Iorque: Dial Press. ISBN 0-7099-4685-6 
  • Odahl, Charles Matson (2004). Constantine and the Christian Empire. Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-38655-1 
  • Pohlsander, Hans (2004). The Emperor Constantine. Londres & Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-31937-4 
  • Potter, David Stone (2004). The Roman Empire at Bay AD 180–395. Londres/Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-10057-7 
  • Rees, Roger (2002). Layers of Loyalty in Latin Panegyric: AD 289–307. Nova Iorque: Oxford University Press. ISBN 0-19-924918-0 
  • Scarre, Chris (2012). Chronicle of the Roman Emperors: The Reign-by-Reign Record of the Rulers of Imperial Rome. Londres: Thames and Hudson Ltd. ISBN 0500289891 
  • Southern, Pat (2001). The Roman Empire from Severus to Constantine. Londres e Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-23943-5 
  • Treadgold, Warren T. (1997). A History of the Byzantine State and Society. Stanford, Califórnia: Stanford University Press. ISBN 0-8047-2630-2 
  • Williams, Stephen (1997). Diocletian and the Roman Recovery. Londres e Nova Iorque: Routledge. ISBN 0-415-91827-8