Guilherme de Conches

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Guilherme de Conches
Guilherme de Conches (em baixo à direita) e Godofredo V de Anjou (em baixo à esquerda) num manuscrito[1] do século XIII.
Nascimento 1080
Conches-en-Ouche
Morte 1154 c.
 França
Cidadania França
Alma mater Escola de Chartres
Ocupação filósofo, escritor, teólogo
Empregador Universidade de Paris
Religião Igreja Católica

Guilherme de Conches (Guilelmus de Conchis, em latim; nasceu cerca de 1080/1090 em Conches-en-Ouche, na Normandia; faleceu depois de 1154) foi um filósofo escolástico francês que procurou alargar a perspectiva do humanismo cristão ao estudar obras seculares dos clássicos e fomentando a ciência empírica. Foi um destacado membro da Escola de Chartres tendo sido considerado por João de Salisbury, bispo de Chartres e seu antigo aluno, o gramático mais talentoso a seguir a Bernardo de Chartres.

Vida[editar | editar código-fonte]

Guilherme nasceu em Conches, Normandia. A sua atividade de ensino decorreu entre c. 1120-1154, e por volta de 1145 ele tornou-se o tutor de Henrique Plantageneta. É possível, mas incerto, que ele esteve a leccionar em Chartres antes disso. Avisado por um amigo do perigo implícito no seu realismo platónico tal como o aplicou à teologia, passou a estudar a filosofia islâmica e a ciência física. É incerto quando e onde tenha morrido.

Guilherme dedicou muito do seu estudo à cosmologia e psicologia. Tendo sido estudante de Bernardo de Chartres, é exemplo do humanismo característico, de tendência para o Platonismo, e do gosto pela ciência natural que distinguem os de "Chartres". Ele é um dos primeiros filósofos cristãos medievais a aproveitar os conhecimentos da física e psicologia islâmica, a que ele teve acesso nas traduções de Constantino, o Africano.

Guilherme de Saint-Thierry, que também havia apoiado Bernardo de Claraval a acusar Abelardo, atacou a obra De philosophia mundi de Guilherme por ter uma visão modalista da Santíssima Trindade, o que levou a que Guilherme procedesse à revisão de partes controversas no Dragmaticon.

Obras[editar | editar código-fonte]

Não existe unanimidade acerca da autoria das obras atribuídas a Guilherme de Conches, sendo provável, no entanto, que ele tenha escrito o enciclopédico De philosophia mundi (ou Philosophia) e o diálogo que está relacionado com o anterior Dragmaticon, bem como comentários sobre Timeu de Platão, A Consolação da Filosofia de Boécio, Institutiones grammaticae de Prisciano e sobre Comentário sobre o "Sonho de Cipião" de Macróbio.

Guilherme também foi provavelmente o autor do tratado Magna de naturis philosophia que se perdeu.

A obra sobre ética Moralium dogma philosophorum foi-lhe atribuída nos anos 1920s, mas a autoria desta obra deixou de ser-lhe atribuída presentemente pela maioria dos estudiosos.

De philosophia mundi[editar | editar código-fonte]

De philosophia mundi está dividida em quatro livros, tratando da física, astronomia, geografia, meteorologia e medicina.

Guilherme explica que o mundo é composto de elementos (elementa), que ele define como "as mais simples e mais pequenas partes de qualquer corpo — mais simples na qualidade, mais pequenas na quantidade".[2] Ele identifica os elementos com os quatro elementos clássicos (fogo, ar, água, terra), mas (seguindo Constantino, o Africano) não como eles eram entendidos, uma vez que como tal não são nem simples em qualidade nem mínimos na quantidade: a terra, por exemplo, contém algo quente, algo frio, algo seco e algo húmido, tudo ao mesmo tempo. Os elementos puros não podem ser apercebidos, diz Guilherme, a não ser pela razão, por meio de uma divisão abstrata dos corpos sensíveis.[3] Cada um desses elementos puros tem duas das quatro qualidades básicas: a terra é fria e seca, a água é fria e húmida, o ar é quente e húmido e o fogo é quente e seco. Os elementos perceptíveis, chamados elementata,[4] são feitos de elementos puros: a terra sensível especialmente de pura terra, a água sensível especialmente de água pura, etc..

O estudo da meteorologia inclui uma descrição do ar que se torna menos denso e mais frio com o aumento da altitude, e Guilherme tenta explicar a circulação do ar em ligação com a circulação dos oceanos. O estudo da medicina trata principalmente da procriação e do parto. Esta obra influenciou Jean de Meung, o autor da segunda parte de Roman de la Rose.

Edições e traduções[editar | editar código-fonte]

  • De philosophia mundi foi atibuido a Beda na Patrologia Latina, vol. 90, de autoria de Honorius Augustodunensis no vol. 172.
  • Gregor Maurach, ed., Philosophia Mundi; Wilhelm von Conches: Ausgabe des 1. Buchs von Wilhelm von Conches Philosophia. Pretoria: Universidade da África do Sul, 1974.
  • Marco Albertazzi, ed., Philosophia. Lavis: La Finestra, 2010. ISBN 978-88-95925-13-4
  • Paul Edward Dutton, ed., Philosophia (Universidade de Simon Fraser)
  • Édouard Jeauneau, ed., Glosae super Platonem. Paris: Vrin, 1965. ISBN 2-7116-0336-9
  • Édouard Jeauneau, ed., Glosae super Platonem, Corpus Christianorum Continuatio Mediaevalis 203. Turnhout: Brepols, 2006 (nova edição revista)
  • Lodi Nauta, ed., Guillelmi de Conchis Glosae super Boetium, Corpus Christianorum Continuatio Mediaevalis 158. Turnhout: Brepols, 1999. ISBN 2-503-04581-2; ISBN 2-503-04582-0
  • Bradford Wilson, ed. Glosae in Iuvenalem Paris: Vrin, 1980.
  • Helen Rodnite Lemay, ed., Glosae super Macrobium (State University of New York at Stony Brook)
  • Irene Caiazzo, ed., Glosae super Priscianum (CNRS, Paris)
  • Italo Ronca, ed., Guillelmi de Conchis Dragmaticon, Corpus Christianorum Continuatio Mediaevalis, 152. Turnhout: Brepols, 1997. ISBN 2-503-04521-9; ISBN 2-503-04522-7
  • William of Conches, A Dialogue on Natural Philosophy (Dragmaticon Philosophiae), tradução para inglês com introdução de Italo Ronca e Matthew Curr, Notre Dame, Ind.: University of Notre Dame Press, 1997

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Frontispício de um manuscrito de Dragmaticon de Guilherme de Conches, da Biblioteca Bodmeriana situada em Coligny (Ain), Cod. Bodmer 188 (início do século XIII). São mostrados Platão (canto superior direito) em conversa com a personificação da Filosofia personalizado (canto superior esquerdo) e Guilherme de Conches (em baixo à direita) com Godofredo V de Anjou (canto inferior esquerdo).
  2. "Elementum ergo, ut ait Constantinus in Pantegni, est simpla et minima pars alicuius corporis—simpla ad qualitatem, minima ad quantitatem" (De philosophia mundi, Liber primus, capitulum XXII).
  3. "Quae elementa numquam videntur, sed ratione divisionis intelliguntur" (Ibidem).
  4. "Si ergo illis digna velimus imponere nomina, particulas praedictas dicamus «elementa», ista quae videntur «elementata»" (Ibidem).

Leituras adicionais[editar | editar código-fonte]

  • Peter Ellard, The Sacred Cosmos: Theological, Philosophical, and Scientific Conversations in the Twelfth Century School of Chartres, University of Scranton Press, 2007

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Texto digital de De philosophia mundi e Moralium dogma philosophorum no sítio The Latin Library [1]
  • Facsimile de um manuscrito de De philosophia mundi do final do século XII na SCETI da Universidade da Pensilvânia [2]