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Henrique Pousão

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Henrique Pousão
Henrique Pousão (1881), por Rodolfo Amoedo
Nome completoHenrique César de Araújo Pousão
Nascimento
Morte
20 de março de 1884 (25 anos)

Nacionalidadeportuguês
OcupaçãoPintor

Henrique César de Araújo Pousão (Vila Viçosa, 1 de janeiro de 1859Vila Viçosa, 20 de março de 1884), foi um pintor português pertencente à 1.ª geração naturalista.

Foi o mais inovador pintor português da sua geração, reflectindo, na sua obra naturalista, influências de pintores impressionistas, como Camille Pissarro e Manet. Realizou também paisagens que ultrapassam as preocupações estéticas da pintura do seu tempo. Natural de Vila Viçosa, Henrique Pousão faz-se pintor na Academia Portuense de Belas Artes, onde é discípulo de Thadeo Maria de Almeida Furtado e João António Correia. Ele foi um dos críticos a apreciar o quadro de Edgar Degas em 1678 durante a sua exposição "O lago dourado".[carece de fontes?] Teve em vida vários romances com a escritora Margarida Torres de Almeida.[carece de fontes?]

Infância

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Henrique César de Araújo Pousão nasceu em Vila Viçosa[1], na freguesia de São Bartolomeu, a 1 de janeiro de 1859, sendo baptizado com apenas 14 dias.[2] Era filho de Francisco Augusto Nunes Pousão, bacharel em Direito[3], e de D. Maria Teresa Alves de Araújo e neto e bisneto de pintores. O avô materno, Caetano Alves de Araújo, pintou a tela Instituição do Santíssimo Sacramento para a Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, e o bisavô paterno, António Pousão, foi autor, entre outras obras, de quadros para o Convento de São Paulo da Serra de Ossa, no Redondo.

No ano de 1863, a família fixou-se em Elvas, onde Henrique faria a escola primária. Pouco tempo depois da mudança, a 26 de maio, a mãe morreu vítima de tuberculose com apenas 26 anos e o pai veio a casar passados dois meses, a 23 de julho, em Vila Viçosa, com Maria da Conceição Veiga.[4][5] Nos anos seguintes, Pousão executou vários desenhos, entre os quais se conta o promissor "Retrato da Prima" que fez com 10 anos, em 1869[6].

No início da década de setenta do século XIX, partiu com o pai para Barcelos. Nesta terra nortenha, inspirado pelos habitantes locais e por gravuras e fotografias, dedicou-se a fazer desenhos, assinados e datados de 1872.

Formação Artística em Portugal

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A sua paixão pelo desenho levou o pai a instalá-lo no Porto, na casa de um amigo, para aí investir seriamente na Arte. Por conselho do seu mestre, o pintor António José da Costa, matriculou-se em outubro de 1872 na Academia Portuense de Belas Artes, sem, no entanto, abdicar das aulas particulares. Naquela Academia foi aluno de Tadeo de Almeida Furtado e de João António Correia e colega de José Júlio de Sousa Pinto, Custódio Rocha e José de Brito. Colaborou também com a revista ilustrada O Occidente (Lisboa), fornecendo ilustrações/gravuras a partir de fevereiro de 1879.[7] Em 1880 concluía os seus estudos.

Durante as férias visitava o pai, entretanto transferido para Olhão como Juiz de Direito[8]. Aproveitava-as para desenhar paisagens marítimas. No regresso ao Porto, tentou a sorte no concurso a pensionista no estrangeiro, juntamente com António Ramalho. Os dois candidatos foram aprovados com mérito absoluto, sendo Henrique Pousão também aprovado em mérito relativo. Porém, a partida para Paris não foi imediata, uma vez que as provas careciam de aprovação por parte de Lisboa. Nesse compasso de espera, foi um dos primeiros sócios do Centro Artístico Portuense, tendo participado na Primeira Exposição-Bazar de Belas-Artes (1881) no Palácio de Cristal[9]. Também no Centro teve aulas de desenho e de anatomia, sendo um dos elementos de estudo o sistema das proporções de Jean Cousin, O Jovem, que usava junto ao livro de anatomia artística de Julien Fau. O seu nome está ligado à revista do centro portuense A Arte Portuguesa[10] (1882-1884). Teve aulas de 'arqueologia artística' (especialmente panejamentos clássicos) com Soares dos Reis, no estúdio de Soares dos Reis em Vila Nova de Gaia.[9]

Bolsas de Estudo no Estrangeiro

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Bolseiro do Estado, parte para Paris, em novembro de 1881, com José Júlio de Sousa Pinto onde é discípulo de Alexandre Cabanel e Adolphe Yvon. Considerado um dos maiores da Pintura portuguesa da segunda metade do século XIX, Henrique Pousão desenvolveu toda a sua produção artística em fase de formação. A sua pintura é marcada pelos lugares por que passa.

Busto de Henrique Pousão em Vila Viçosa.

Em França, revela já a originalidade que, mais tarde, marca a sua obra: um entendimento da luz e da cor, traduzido nas representações das margens do Sena, dos bosques sombrios dos arredores de Paris e em aspectos da aldeia de Saint-Sauves d'Auvergne.

Devido a uma bronquite aguda, em novembro de 1882 troca a França por Itália: em Roma é sócio do Círculo de Artistas (A Associazione Artistica Internazionale di Roma, também conhecida por Circolo Artistico Internazionale)[11] e frequenta sessões nocturnas de Modelo Vivo. Tem um estúdio na Via dei Portoghesi.[12] Na capital italiana, embora adira ao gosto académico, afasta-se do registo mimético e narrativo do naturalismo: num numeroso conjunto de pequenas tábuas, pinta ruas, caminhos, pátios, casas, trechos de paisagens, expressa as formas em grandes massas de cor, em jogos de claro-escuro e de luz-sombra. Em algumas obras, as composições assumem formas sintetizadas — próximas de uma expressão abstracta —, caso de excepção na pintura portuguesa da época. Depois, em Nápoles, Capri e Anacapri, executa algumas das suas melhores pinturas.

Último ano de vida

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O agravamento do estado de saúde trouxe-o de volta a Portugal em 1884. Na viagem de regresso passou por Sorrento, Castellamare, Nápoles, Roma, Génova, Marselha e Barcelona, Valência, Sevilha, Huelva, Ayamonte, Guadiana, Vila Real e Olhão, onde nesta última paragem era esperado pelo pai.

Finda uma curta estadia no Algarve, voltou a Vila Viçosa, acabando por falecer a 20 de março de 1884, com apenas 25 anos, na mesma freguesia onde nasceu. Uma hemoptise derivada de tuberculose, conduziu-o precocemente à morte. Encontra-se sepultado no cemitério local.[13]

Faleceu solteiro e sem filhos, sendo tio do poeta João Lúcio Pousão Pereira.

Em 1888, por disposição testamentária do pai, o espólio de Henrique Pousão foi cedido à Academia Portuense de Belas Artes. Hoje em dia, uma substancial parte da sua obra encontra-se exposta no Museu Nacional de Soares dos Reis.[14][15]

Henrique Pousão é o pintor da primeira geração naturalista mais bem representado na colecção do Museu: quer pelo vasto conjunto de peças, quer pela sua qualidade pictórica. Através da sua obra, é possível traçar o antes e o depois do naturalismo.

Esperando o sucesso (1882), óleo de Henrique Pousão.

Análise de estilo e importância artística

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Henrique Pousão foi um dos pintores mais notáveis da geração naturalista portuguesa da segunda metade do século XIX, mas a sua formação e linguagem estética resultam de um equilíbrio singular entre o rigor académico e uma sensibilidade moderna próxima do impressionismo.[14]

Apesar de muitas leituras contemporâneas enfatizarem o caráter "precursor" ou "moderno" da sua pintura, Pousão recebeu uma sólida formação académica na Academia Portuense de Belas-Artes, onde estudou desenho e pintura sob a orientação de António José da Costa e João Marques de Oliveira. O seu treino incluiu o estudo do modelo vivo, da composição e da anatomia artística — elementos centrais do ensino de tradição académica europeia — que marcaram a estrutura e o rigor do seu desenho.[7]

Entre 1879 e 1880, participou nas atividades do Centro Artístico Portuense, instituição criada para conciliar o ensino livre com a disciplina académica, tendo tido aulas com António Soares dos Reis. Esta experiência reforçou a sua atenção à observação direta e à prática do desenho do natural, num ambiente que integrava artistas de diferentes formações e tendências.

Durante o seu período de bolsa em Paris, Pousão estudou na prestigiada École des Beaux-Arts com dois dos maiores professores de arte da tradição académica francesa (Cabanel e Yvon), e copiou obras de Diego Velázquez e Rembrandt no Louvre, antes de desenvolver uma linguagem mais impressionista em Itália, especialmente em Capri e Roma.[9]

A sua pintura, embora frequentemente associada ao impressionismo, conserva uma forte estrutura clássica: o desenho preciso, a construção volumétrica e o domínio do claro-escuro revelam o saber da formação académica e da observação disciplinada. A inovação de Pousão reside na capacidade de conjugar esse rigor técnico com uma perceção atmosférica subtil, traduzida na pincelada solta e na vibração cromática das suas paisagens e retratos.[16]

Assim, à parte uma possível associação ao modernismo, Pousão beneficiou de uma formação académica exigente, o que lhe permitiu reinterpretar com liberdade os modelos clássicos, de acordo com a sua sensibilidade, demonstrando grande atenção aos detalhes.

Persianas, de 1883

Ver também

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  • Lista de pintores de Portugal
  • Arte Portuguesa do Século XIX - (Instituto Português do Património Cultural - Palácio da Ajuda) (Antiga galeria de pintura do rei D. Luís) (1988)

Referências

  1. «Casa onde nasceu Henrique Pousão - Arquivo Municipal de Olhão». arquivo.cm-olhao.pt. Consultado em 9 de outubro de 2025 
  2. «PT-ADEVR-PRQ-VVC05-001-0011_m0001.tif - Livro de registos de baptismo - Arquivo Distrital de Évora - DigitArq». digitarq.adevr.arquivos.pt. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  3. «Francisco Augusto Nunes Pousão». archeevo. 
  4. «PT-ADPTG-PRQ-PELV03-015-0005_m0001.tif - Registos de óbitos - Duplicado - Arquivo Distrital de Portalegre - DigitArq». digitarq.adptg.arquivos.pt. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  5. «PT-ADEVR-PRQ-VVC05-002-0009_m0001.tif - Livro de registos de casamento - Arquivo Distrital de Évora - DigitArq». digitarq.adevr.arquivos.pt. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  6. «Henrique Pousão». A MAGAZINE 
  7. a b Moncóvio, Susana Maria Simões (2014). O Centro Artístico Portuense (1880–1893): Socialização do Ensino, da História e da Arte Moderna no Portugal de Oitocentos (Tese). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 144 páginas 
  8. «APÊNDICE DOCUMENTAL» (PDF) 
  9. a b c Moncóvio, Susana (1 de janeiro de 2015). «O CENTRO ARTÍSTICO PORTUENSE (1880-1893). Socialização do Ensino, da História e da Arte Moderna no Portugal de oitocentos». Doutoramento em História da Arte. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. doi:10.13140/RG.2.2.28157.36329. Consultado em 10 de outubro de 2025 
  10. Rita Correia (9 de janeiro de 2007). «Ficha histórica:A arte portugueza : revista mensal de bellas-artes (1882-1884)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 6 de dezembro de 2016 
  11. «19&20 - A Associazione Artistica Internazionale di Roma - sodalício de artistas estrangeiros residentes na Itália em fins do século XIX, por Camila Dazzi». www.dezenovevinte.net. Consultado em 20 de outubro de 2025 
  12. Elias, Margarida (4 de março de 2012). «A Arte em Portugal: Henrique Pousão (1859-1884)». A Arte em Portugal. Consultado em 20 de outubro de 2025 
  13. «PT-ADEVR-PRQ-VVC05-003-0033_m0001.tif - Livro de registos de óbito - Arquivo Distrital de Évora - DigitArq». digitarq.adevr.arquivos.pt. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  14. a b «Henrique Pousão». MUSEU NACIONAL DE ARTE CONTEMPORÂNEA DO CHIADO. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  15. «U. Porto - Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto: Henrique Pousão». sigarra.up.pt. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  16. Rosas, Lúcia Maria Cardoso (1995). Monumentos Pátrios: A Arquitetura Religiosa Medieval — Património e Restauro (1835–1929) (Tese). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. pp. 127–128 

Ligações externas

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