Henrique da Fonseca de Sousa Prego

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Henrique da Fonseca de Sousa Prego (Lisboa, 1768Gaeiras, Óbidos, 25 de Março de 1847) foi um vice- almirante da Armada Portuguesa que depois de uma brilhante carreira naval foi o último capitão-general da Capitania Geral dos Açores nomeado pelo governo do rei D. Miguel I de Portugal, tendo governado a partir de Ponta Delgada por lhe não ter sido possível desembarcar na capital da capitania, a cidade de Angra, onde à data da sua chegada já havia sido aclamado o regime constitucional.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Henrique da Fonseca de Sousa Prego nasceu na cidade de Lisboa, na freguesia de São Tomé, onde foi baptizado a 19 de Abril de 1768, tendo por padrinho o Dr. Silvestre de Sousa Villas Boas. O seu pai pertencia à família Sousa Prego, de Sintra, da pequena aristocracia e há várias gerações ligada à alta administração. Foi reconhecido cavaleiro fidalgo da Casa Real por alvará de 12 de Fevereiro de 1781.[1]

Destinado a seguir a vida militar, na Armada Portuguesa, assentou praça como guarda-marinha por nomeação de 8 de Fevereiro de 1783, iniciando uma brilhante carreira naval, na qual foi sucessivamente promovido a tenente-do-mar, por decreto de 28 de Setembro de 1784; capitão-tenente, em 16 de Dezembro de 1791; capitão-de-fragata, em 20 de Outubro de 1796; capitão-de-mar-e-guerra, em 1801; chefe de Divisão, em 8 de Março de 1808; chefe de esquadra, em 17 de Dezembro de 1815; vice- almirante, graduado, em 15 de Novembro de 1817; e vice-almirante efectivo em 12 de Outubro de 1818.

O primeiro cargo de relevo que desempenhou foi o de Intendente da Marinha da cidade de São Salvador da Baía, no Brasil, para o qual foi nomeado por decreto de 17 de Dezembro de 1802.

Já tinha regressado a Lisboa em 1807, sendo comandante da nau Medusa quando ocorreu a transferência da corte portuguesa para o Brasil. Ao comando da Medusa, coube a Sousa Prego proteger a retaguarda da esquadra que largou do porto de Lisboa a 29 de Novembro de 1807.[2]

Como Chefe de Esquadra, recebeu do Príncipe Regente D. João o encargo de comandar a esquadra que conduziu a Princesa Real D. Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena de Livorno ao Rio de Janeiro, porto aonde chegou a 5 de Dezembro de 1817, já graduado em vice-almirante.

Em 1822 foi nomeado comandante da esquadra destinada a patrulhar as costas da Província da Baía de Todos os Santos, o último cargo que exerceu antes de regressar a Portugal.

Foi nomeado para o cargo Governador e Capitão General da Capitania Geral dos Açores, tendo partido para Angra, a bordo da fragata Princesa Real, a 20 de Junho de 1828, com o objectivo de substituir o muito contestado capitão-general Manuel Vieira de Albuquerque Touvar.

Sem que o pudesse saber, a 22 de Junho, apenas dois dias após a sua partida de Lisboa, dera-se em Angra um levantamento pró-liberal, com o apoio do Batalhão de Caçadores n.º 5, que restabelecera a Carta Constitucional e demitira e expulsara da ilha o capitão-general Touvar, que se refugiara em São Miguel aguardando instruções. Com a ilha Terceira na posse dos liberais, quando Sousa Prego chegou ao porto de Angra, a 15 de Julho, foi firmemente impedido de desembarcar. Decidiu então retirar para o porto de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, para aí deliberar o curso de acção a seguir. As bagagens, que vinham noutra embarcação, foram apreendidas à chegada a Angra e aí acintosamente vendidas em hasta pública.

Depois de uma curta permanência em Ponta Delgada, decidiu regressar a Lisboa para aí receber novas instruções, já que as forças disponíveis em São Miguel não permitiam forçar o desembarque na Terceira. Não chegou a tomar posse, deixando o governo da capitania geral entregue ao seu antecessor, e regressou a Lisboa.

Ao chegar a Lisboa encontrou D. Miguel I de Portugal firmemente no poder, dado que os absolutistas tinham derrotado a revolta liberal do Porto e estavam senhores da situação política e militar em todo o território.

Depois de algumas deliberações, a 5 de Agosto de 1828 o governo decidiu reconfirmar Sousa Prego no cargo de capitão-general dos Açores, dando-lhe o encargo adicional de comandar uma esquadra que, além de o transportar à sede da Capitania Geral, de caminho subjugasse a ilha da Madeira e a ilha Terceira, então os únicos redutos liberais que restavam.

Depois de uma fácil vitória na Madeira, onde permaneceu em operações de rescaldo até finais de Outubro, Sousa Prego partiu para os Açores, tendo aportado a Ponta Delgada no dia 1 de Novembro de 1828. Sem desembarcar, depois de uma troca de correspondência com Manuel Vieira de Albuquerque Touvar que se mantinha como capitão-general interino em Ponta Delgada, aguardando oportunidade para dar posse a Sousa Prego, a 4 de Novembro partiu com a sua esquadra para as águas da Terceira, com o objectivo de tentar um desembarque e subjugar as forças liberais que estavam na posse da ilha.

A estratégia a seguir passava com o estabelecimento de contacto com o capitão João Moniz Corte Real, líder incontestado dos absolutistas terceirenses, e tentar a via negocial, procurando uma rendição pacífica da ilha. Tendo falhado o contacto com a liderança absolutista na ilha e vendo rejeitadas as suas propostas negociais, depois de ter patrulhado as águas da ilha durante mais de um mês, aparentemente indeciso sobre o local do desembarque e sobre a necessidade de um ataque à ilha, já que aparentemente ainda considerava que a melhor solução seria a via negocial, retirou-se novamente para a ilha de São Miguel, chegando ao porto de Ponta Delgada no dia 12 de Dezembro.

Decidiu então desembarcar, tomando de imediato posse da Capitania Geral, dando por findo o mandato de Manuel Vieira de Albuquerque Touvar. Com esta decisão continuava a capitania com o seu governo exilado em Ponta Delgada, embora governando todas as ilhas, com excepção da Terceira, pois a cidade de Angra continuava na posse dos liberais, que entretanto tinham ali criado uma Junta Governativa.

Ao não atacar a ilha Terceira, apesar de dispor de uma substancial força militar para tal fim, teve consequências profundas no desenvolvimento futuro das lutas liberais, já que permitiu que os liberais consolidassem o seu domínio sobre a ilha e a utilizassem como base para concentração de forças e para reclamar legitimidade perante as potências europeias, em especial junto dos governos britânico e francês. Tivesse tomado a ilha e a História teria seguramente seguido um curso bem diferente.

A tendência contemporizadora de Sousa Prego, assentaria na sua convicção de que o diferendo seria resolvido por acordo entre os membros da Família Real, D. Pedro e D. Miguel, que lideravam os campos opostos.[3] Esta visão parece ser corroborada por uma carta datada de 1834, na qual o major general da armada Charles John Napier, então 1.º visconde do Cabo de São Vicente, registou que Sousa Prego, "durante o seu governo, nunca obedeceu às sanguinárias instruções que lhe foram transmitidas pelo governo".

A partir de Ponta Delgada, o novo Governador e Capitão General empenhou-se na boa administração da parte da capitania que estava sob o seu controlo e no estabelecimento de um efectivo bloqueia à ilha Terceira, a única que permanecia nas mão dos liberais.

Apesar do empenho de Sousa Prego, o bloqueio da Terceira não foi bem sucedido, embora fossem muitas as embarcações interceptadas, incluindo navios americanos, o que mais tarde daria lugar ao pagamento de pesadas indemnizações àquele país. Os liberais conseguiram paulatinamente reforçar a sua presença na ilha, fazendo entrar emigrados vindos da Inglaterra e da França e mantendo comunicação com o Brasil.

Em resultado da ineficácia do bloqueio, a defesa da ilha consolidou-se, particularmente após a chegada, a 22 de Junho de 1829, de António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha, o conde de Vila Flor, acompanhado por um grupo numeroso de emigrados. Vila Flor veio também investido no cargo de Governador e Capitão General, desta feita pelo Governo liberal no exílio, por carta régia de 5 de Abril de 1829, assinada pela rainha D. Maria II, com assistência do marquês de Palmela, então ministro de Portugal em Londres, quando a rainha ali se encontrava exilada.

Assim, a partir de Junho de 1829 a Capitania Geral dos Açores passou a ter dois titulares rivais, um por cada partido em confronto, com Sousa Prego em Ponta Delgada e Vila Flor na sede da Capitania, na então cidade de Angra.

Face ao deteriorar da situação militar nos Açores, D. Miguel I decidiu em Julho de 1829, ordenar o ataque à ilha Terceira. Para tal enviou para os Açores a maior parte da sua Armada, desta feita sob o comando de José Joaquim da Rosa Coelho. As ordens dadas a Rosa Coelho incluíam uma passagem por Ponta delgada, porto onde deviam embarcar o capitão-general Sousa Prego, o qual devia participar na condução da operação.

Sousa Prego embarcou e participou na condução da operação, que se saldou na derrota do partido miguelista na Batalha da Praia a 11 de Agosto de 1829. Fracassado o desembarque e concedida uma vitória que levantou o moral dos liberais e lhes deu a credibilidade internacional que careciam, a esquadra retirou para Ponta Delgada, optando por repartir forças pelas ilhas vizinhas. O grosso da esquadra regressou derrotado a Lisboa, o que levou Sousa Prego e Rosa Coelho a serem acusados de falta de zelo e firmeza na preparação dos meios de desembarque e na condução das operações.

Entretanto vila Flor resolveu atacar as restantes ilhas, com vitórias consecutivas na conquista das ilhas do Pico, S. Jorge e Faial em Julho de 1830. Reduzido à ilha de São Miguel, Sousa Prego e as suas forças ainda tentaram a resistência na batalha da Ladeira da Velha, quando as forças liberais finalmente desembarcaram naquela ilha. Também aí o desbarato das forças de Sousa Prego foi total, e praticamente sem resistência a ilha foi conquistada em Agosto desse mesmo ano.

Para evitar a captura, o capitão-general acabou por se refugiar em casa do cônsul inglês e daí ser evacuado para Lisboa. A 19 de Setembro de 1831 obteve autorização régia para justificar as derrotas sofridas e a sua conduta perante um Conselho de Guerra. O Conselho foi formado com grande dificuldade, nunca tendo deliberado sobre o caso. Entretanto o almirante viu o seu soldo reduzido para metade e foi publicamente culpado pela derrota sofrida e palas gravosas consequências que daí resultaram para a causa miguelista.

Consumada a vitória liberal, Sousa Prego foi demitido por decreto de 5 de Setembro de 1833, sendo contudo, nos termos da carta de lei de 24 de Agosto de 1840, posteriormente reintegrado como vice-almirante separado do quadro efectivo da Armada.

Henrique da Fonseca Sousa Prego retirou-se em 1842 para a Casa das Gaeiras, na freguesia homónima do concelho de Óbidos, onde viveu até falecer. Está sepultado na Capela de São Marcos da Casa das Gaeiras, freguesia de Gaeiras, num túmulo onde está inscrito: Aqui jaz o vice-almirante H.F.S.P. que serviu por mais de 60 anos o Rei e a Pátria com fidelidade.

Um seu bisneto, Ezequiel Epifânio da Fonseca de Sousa Prego, foi feito visconde de Sousa Prego por decreto de 10 de Maio de 1894 do rei D. Carlos I de Portugal.

Referências

  1. José Filipe Menéndez, A Verdadeira Varonia do Vice-Almirante Henrique da Fonseca de Sousa Prego, Subsídios para a genealogia dos Sousa Prego, edição de autor, Queluz, 1999.
  2. Archivo Pittoresco, tomo III (1860), p.195.
  3. Francisco de Ataíde Machado de Faria e Maia, Capitães-Generais (1766-1831). 2.ª edição, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1988.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]