Hermenêutica

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Hermenêutica é um ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode se referir tanto à arte da interpretação quanto à prática e treino de interpretação. [1]

A hermenêutica tradicional se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito. A hermenêutica moderna ou contemporânea engloba não somente textos escritos, mas também tudo que há no processo interpretativo. Isso inclui formas verbais e não verbais de comunicação, assim como aspectos que afetam a comunicação, como proposições, pressupostos, o significado e a filosofia da linguagem e a semiótica. A hermenêutica filosófica refere-se principalmente à teoria do conhecimento de Hans-Georg Gadamer, desenvolvida em sua obra Verdade e Método (Wahrheit und Methode), e algumas vezes a Paul Ricoeur.[1]

Como metodologia de interpretação, trata dos problemas que surgem quando se está lidando com ações humanas dotadas de significado e com produtos dessas ações, principalmente textos. Como disciplina metodológica, oferece um instrumental para tratar de maneira eficiente problemas de interpretação das ações humanas, textos e outros materiais significativos.[2]

Consistência hermenêutica refere-se a uma explicação coerente, na análise de textos. Uma hermenêutica (no singular) diz respeito a um método ou vertente de interpretação.

Origem do termo[editar | editar código-fonte]

O termo "hermenêutica" provém do verbo grego "hermēneuein" e significa "declarar", "anunciar", "interpretar", "esclarecer" e, por último, "traduzir". Significa que alguma coisa é "tornada compreensível" ou "levada à compreensão".

O termo deriva do nome do deus da mitologia grega Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem os gregos atribuíam a origem da linguagem e da escrita e considerado o patrono da comunicação e do entendimento humano. O certo é que este termo originalmente exprimia a compreensão e a exposição de uma sentença "dos deuses", a qual precisa de uma interpretação para ser apreendida corretamente.

Encontra-se desde os séculos XVII e XVIII o uso do termo no sentido de uma interpretação correta e objetiva da Bíblia. Spinoza é um dos precursores da hermenêutica bíblica.

Outros dizem que o termo "hermenêutica" deriva do grego "ermēneutikē" que significa "ciência", "técnica" que tem por objeto a interpretação de textos poéticos ou religiosos, especialmente da Ilíada e da "Odisseia"; "interpretação" do sentido das palavras dos textos; "teoria", ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico.

Hermes é tido como patrono da hermenêutica por ser considerado patrono da comunicação e do entendimento humano

Conceito[editar | editar código-fonte]

Wilhelm Dilthey

Com Friedrich Schleiermacher (1768-1834), no início do século XIX, a hermenêutica recebe uma reformulação, pela qual ela definitivamente entra para o âmbito da filosofia. [3] Em seus projetos de hermenêutica coloca-se uma exigência significativa: a exigência de se estabelecer uma hermenêutica geral, compreendida como uma teoria geral da compreensão. A hermenêutica geral deveria ser capaz de estabelecer os princípios gerais de toda e qualquer compreensão e interpretação de manifestações lingüísticas. Onde houvesse linguagem, ali aplicar-se-ia sempre a interpretação. E tudo o que é objeto da compreensão é linguagem (Hermeneutik, 56). Esta afirmação, entretanto, mostra todas as suas implicações quando se lhe justapõe esta outra tese de Schleiermacher: “A linguagem é o modo do pensamento se tornar efetivo. Pois, não há pensamento sem discurso. (...) Ninguém pode pensar sem palavras.”(Hermeneutik und Kritik, 77) Ao postular a “unidade de pensamento e linguagem”(ibidem), a tarefa da hermenêutica se torna universal e abarca a totalidade do que importa ao humano. A hermenêutica, então, é uma análise da compreensão “a partir da natureza da linguagem e das condições basilares da relação entre o falante e o ouvinte” (Akademienrede, 156).

Quatro distinções básicas foram estabelecidas por Scheleiermacher[4] . Primeiro, a distinção entre compreensão gramatical, a partir do conhecimento da totalidade da língua do texto ou discurso, e a compreensão técnica ou psicológica, a partir do conhecimento da totalidade da intenção e dos objetivos do autor. Segundo, a distinção entre compreensão divinatória e comparativa:

  • Compreensão comparativa: Se apoia em uma multiplicidade de conhecimentos objetivos, gramaticais e históricos, deduzindo o sentido a partir do enunciado.
  • Compreensão divinatória: Significa uma adivinhação imediata ou apreensão imediata do sentido de um texto.

Essas distinções apontam para aspectos da compreensão superior que se dá pela sua integração. Posteriormente, com os trabalhos de Droysen e Dilthey, o procedimento hermenêutico tornou-se a metodologia da ciências humanas. Os eventos da natureza devem ser explicados, mas a história, os eventos históricos, os valores e a cultura devem ser compreendidos. (Wilhelm Dilthey é primeiro a formular a dualidade de "ciências da natureza e ciências do espírito", que se distinguem por meio de um método analítico esclarecedor e um procedimento de compreensão descritiva.) Compreensão é apreensão de um sentido, e sentido é o que se apresenta à compreensão como conteúdo. Só podemos determinar a compreensão pelo sentido e o sentido apenas pela compreensão.

Heidegger, em sua análise da compreensão, diz que toda compreensão apresenta uma "estrutura circular". "Toda interpretação, para produzir compreensão, deve já ter compreendido o que vai interpretar". O cerne da teoria de Heidegger está, todavia, na ontologização da compreensão e da interpretação como aspectos do ser do ente que compreende o ser, o "Dasein".[5]

Estruturas básicas da compreensão[editar | editar código-fonte]

  • Estrutura de horizonte: o conteúdo singular é apreendido a partir da totalidade de um contexto de sentido, que é pré-apreendido e co-apreendido.
  • Estrutura circular: A compreensão acontece a partir de um movimento de ir e vir entre pré-compreensão e compreensão da coisa, como um acontecimento que progride em forma de espiral, na medida em que um elemento pressupõe outro e ao mesmo tempo faz com que se possa ir adiante.
  • Estrutura de diálogo: A compreensão sempre é apreensão do estranho e está aberta à modificação das pressuposições iniciais diante da diferença produzida pelo outro (o texto, o interlocutor).
  • Estrutura de mediação: A compreensão visa um dado que se dá por si mesmo, mas a sua apreensão faz-se pela mediação da tradição e da linguagem.

Os costumes, cultura e etnias são alguns dos aspectos fundamentais para se ter uma legítima interpretação do texto.

Explicação e compreensão[editar | editar código-fonte]

Segundo Wilhelm Dilthey, estes dois métodos estariam opostos entre si: explicação (próprio das ciências naturais) e compreensão (próprio das ciências do espírito ou ciências humanas):

"Esclarecemos por meio de processos intelectuais, mas compreendemos pela cooperação de todas as forças sentimentais na apreensão, pelo mergulhar das forças sentimentais no objeto."[6]

Paul Ricoeur visa superar esta dicotomia. Para ele, compreender um texto é encadear um novo discurso no discurso do texto. Isto supõe que o texto seja aberto. Ler é apropriar-se do sentido do texto. De um lado não há reflexão sem meditação sobre os signos; do outro, não há explicação sem a compreensão do mundo e de si mesmo.[7]

Veja também[editar | editar código-fonte]

Precursores notáveis[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b O Círculo Hermenêutico para leituras críticas
  2. Mantzavinos, C., "Hermeneutics". The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2016 Edition), Edward N. Zalta (ed.)
  3. PALMER, Richard. Hermeneutics: Interpretation Theory in Schleiermacher, Dilthey, Heidgger, and Gadamer. Evanston: NUP, 1969.
  4. PALMER, Richard. Hermeneutics: Interpretation Theory in Schleiermacher, Dilthey, Heidgger, and Gadamer. Evanston: NUP, 1969.
  5. HEIDEGGER, Martin. Being and Time. New York: Harper & Row, 1972.
  6. apud PALMER, Richard. Hermeneutics: Interpretation Theory in Schleiermacher, Dilthey, Heidgger, and Gadamer. Evanston: NUP, 1969.
  7. RICOEUR, Paul.Teoria da Interpretação. Lisboa: Ed. 7O, 1987.
  8. Forster 2010, p. 22.
  9. Forster 2010, p. 9.
  10. a b Hans-Georg Gadamer, Truth and Method, Bloomsbury, 2013, p. 185.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Aristotle, On Interpretation, Harold P. Cooke (trans.), in Aristotle, vol. 1 (Loeb Classical Library), pp. 111–179.London: William Heinemann, 1938.
  • Clingerman, F. and B. Treanor, M. Drenthen, D. Ustler (2013) Interpreting Nature: The Emerging Field of Environmental Hermeneutics, New York: Fordham University Press.
  • De La Torre, Miguel A., "Reading the Bible from the Margins," Orbis Books, 2002.
  • Fellmann, Ferdinand, "Symbolischer Pragmatismus. Hermeneutik nach Dilthey", Rowohlts deutsche Enzyklopädie, 1991.
  • Forster, Michael N., After Herder: Philosophy of Language in the German Tradition, Oxford University Press, 2010.
  • Khan, Ali, "The Hermeneutics of Sexual Order". Eprint.
  • Köchler, Hans, "Zum Gegenstandsbereich der Hermeneutik", in Perspektiven der Philosophie, vol. 9 (1983), pp. 331–341.
  • Köchler, Hans, "Philosophical Foundations of Civilizational Dialogue. The Hermeneutics of Cultural Self-comprehension versus the Paradigm of Civilizational Conflict." International Seminar on Civilizational Dialogue (3rd: 15–17 September 1997: Kuala Lumpur), BP171.5 ISCD. Kertas kerja persidangan / conference papers. Kuala Lumpur: University of Malaya Library, 1997.
  • Mantzavinos, C. "Naturalistic Hermeneutics", Cambridge University Press ISBN 978-0-521-84812-1.
  • Masson, Scott. "The Hermeneutic Circle" ISBN 978-0-7546-3503-1.
  • Peirce, C.S., Collected Papers of Charles Sanders Peirce, vols. 1–6, Charles Hartshorne e Paul Weiss (eds.), vols. 7–8, Arthur W. Burks (ed.), Cambridge, MA: Harvard University Press, 1931–1935, 1958. Cited as CP vol.para.
  • Peirce, C.S. (c. 1903), "Logical Tracts, No. 2", in Collected Papers, CP 4.418–509. Eprint.
  • Oevermann, U. et al. (1987): Structures of meaning and objective Hermeneutics. In: Meha, V. et al. (eds.) Modern German sociology. (European Perspectives: a Series in Social Thought and Cultural Ctiticism). New York: Columbia University Press, p. 436–447.
  • Olesen, Henning Salling, ed. (2013): Cultural Analysis & In-Depth Hermeneutics. Historical Social Research, Focus, 38, no. 2, pp. 7–157.
  • Wierciński, Andrzej. Hermeneutics between Philosophy and Theology: The Imperative to Think the Incommensurable, Germany, Münster: LIT Verlag, 2010.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]