Hidroxicloroquina

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Hidroxicloroquina
Alerta sobre risco à saúde
Hydroxychloroquine.svg
Hydroxychloroquine.png
Nome IUPAC (RS)-2-[{4-[(7-chloroquinolin-4-yl)amino]pentyl}(ethyl)amino]ethanol
Identificadores
Número CAS 118-42-3
PubChem 3652
Código ATC P01BA02
Propriedades
Fórmula química C18H26ClN3O
Massa molar 335.87 g mol-1
Farmacologia
Metabolismo hepático
Meia-vida biológica 32 a 50 dias
Ligação plasmática 45%
Exceto onde denotado, os dados referem-se a
materiais sob condições normais de temperatura e pressão

Referências e avisos gerais sobre esta caixa.
Alerta sobre risco à saúde.

Hidroxicloroquina é um fármaco usado na prevenção e tratamento de malária sensível à cloroquina.[1][2] Entre outras aplicações, pode ser usada no tratamento de artrite reumatoide, lúpus eritematoso, porfiria cutânea tarda, febre Q e doenças fotossensíveis.[3][1] É administrada por via oral.[1] Está também a ser usada como tratamento experimental da COVID-19.[4]

Pode apresentar reações adversas em diversos locais tais como trato gastrointestinal, sistema hematológico, neurológico, neuromuscular, dermatológico e cardiológico, além de toxicidade retiniana.[5] Os efeitos secundários mais comuns são vómitos, cefaleia, alterações na visão e fraqueza muscular.[1] Entre possíveis efeitos secundários mais graves estão reações alérgicas[1] e, com uso prolongado, retinopatia.[1][6] Embora não seja isenta de riscos, continua a ser usada como tratamento de doença reumática durante a gravidez.[7] A hidroxicloroquina é um antimalárico pertencente à classe das 4-aminoquinolinas.[1]

A droga foi sintetizada em 1946, por Surrey e Hammer, e aprovada para uso médico nos Estados Unidos em 1955.[8][1] Faz parte da Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial de Saúde, uma lista dos medicamentos mais eficazes, seguros e fundamentais num sistema de saúde.[9]

Indicações

A hidroxicloroquina é usada no tratamento de malária, lúpus eritematoso sistémico, doenças reumáticas como a artrite reumatoide, porfiria cutânea tarda e febre Q.[1] É amplamente usada no tratamento de artrite pós-doença de Lyme.[10] Também é amplamente usada no tratamento de síndrome de Sjögren primária, embora não tenha demonstrado ser eficaz.[11]

Contraindicações

O rótulo indica que a hidroxicloroquina não deve ser prescrita a pessoas com hipersensibilidade aos compostos das 4-aminoquinolinas.[12] entre diversas contra-indicações.[13][14]

Efeitos adversos

Os efeitos adversos mais comuns são náuseas ligeiras e ocasionalmente cólicas abdominais com diarreia ligeira. Os efeitos adversos mais graves afetam o olho, incluindo retinopatia associada à dose mesmo após a toma ser suspensa.[1]

No tratamento de curta duração da malária aguda, os efeitos adversos incluem cólicas abdominais, diarreia, problemas cardíacos, diminuição do apetite, dores de cabeça, náuseas e vómitos.[1] No tratamento de longa duração do lúpus ou da artrite reumatoide, os efeitos adversos incluem sintomas agudos, acrescidos de alterações na pigmentação dos olhos, acne, anemia, descoloração do cabelo, bolhas na boca e nos olhos, problemas no sangue, convulsões, problemas de visão, diminuição dos reflexos, perturbações emocionais, coloração excessiva da pele, perda de audição, urticária, prurido, problemas no fígado ou insuficiência hepática, perda de cabelo, pele escamada, eritema, vertigem, perda de peso e ocasionalmente incontinência urinária.[1] A hidroxicloroquina pode ainda agravar os casos de psoríase e porfiria.[1]

As crianças podem ser particularmente suseptíveis a desenvolver efeitos adversos da hidroxicloroquina.[1]

Retinopatia

A retinopatia grave e irreversível é um dos efeitos adversos mais graves da administração a longo prazo de hidroxicloroquina.[1][6] As pessoas que tomem 400 mg ou menos por dia geralmente apresentam um risco negligenciável de toxicidade macular. O risco começa a ser superior quando a pessoa toma o medicamento durante cinco ou mais anos e apresenta uma dose acumulada de mais de 1000 gramas. A toxicidade macular está ralacionada com a dose acumulada total, e não com a dose diária, pelo que em casos de risco está recomendado o rastreio ocular, mesmo na ausência de sintomas na visão.[15]

Covid-19

Em 13 de fevereiro de 2020, uma força-tarefa sul-coreana recomendava a hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento experimental de COVID-19.[16] Estudos posteriores realizados em culturas celulares in vitro demonstraram que a hidroxicloroquina era mais potente que a cloroquina contra o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2.[17][18][19] Em 17 de março de 2020, a Comissão Técnica Científica da Agenzia italiana del farmaco mostrou-se favorável à inclusão da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de COVID-19.[20]

Um ensaio aleatorizado controlado por investigadores chineses demonstrou não haver efeito positivo da hidroxicloroquina em doses diárias de 400 mg.[21] Um estudo posterior, realizado em Marselha, França, concluiu que uma dose diária de 600 mg poderia diminuir a carga viral, inibir a entrada do vírus na célula e bloquear o transporte do vírus entre as organelas da célula.[22][23] No entanto, a metodologia deste estudo foi posteriormente criticada, uma vez que os participantes não foram aleatorizados e foram excluídos dos resultados três dos participantes do grupo de tratamento que foram transferidos para uma unidade de cuidados intensivos e um que morreu.[24]

Apesar de alguns estudos sugerirem que pode haver benefícios no uso contra o vírus, outros indicam benefícios pequenos ou nenhum. As pesquisas ainda estão em um nível muito inicial para permitir qualquer conclusão.[25][26][27] Um artigo de Elisabeth Mahase no prestigiado periódico científico The BMJ afirmou que até março de 2020 não havia nenhum consenso e nenhuma evidência comprovada de que o medicamento tem realmente efeito positivo ou que seu uso é seguro para este caso, podendo mesmo produzir efeitos danosos para o paciente. Ela observou ainda que o medicamento tem sido propagandeado por influentes autoridades, como o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, de maneira irresponsável e sem qualquer base científica. Também tem circulado a notícia de que a agência reguladora nacional dos Estados Unidos, a FDA, aprovou o medicamento, mas isso é uma notícia falsa.[28] O que a FDA de fato fez foi uma recomendação de "uso emergencial" sob condições controladas em somente alguns tipos de pacientes, e quando não houvesse possibilidade de testes clínicos.[25] Uma outra meta-análise publicada em 15 de maio de 2020 pela American Society of Health-System Pharmacists concluiu que os dados sobre sua eficiência e segurança ainda são insuficientes para recomendar seu uso.[26] No Brasil a ANVISA emitiu uma nota oficial dizendo que "apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos [hidroxicloroquina e cloroquina] para o tratamento da Covid-19. Portanto, não há recomendação da ANVISA, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus; e a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde".[27] Em 5 de junho de 2020 Peter Horby, Professor de Doenças Infecciosas Emergentes e Saúde Global no Departamento de Medicina de Nuffield, Universidade de Oxford, e Investigador Chefe do julgamento, disse: "O estudo RECOVERY mostrou que a hidroxicloroquina não é um tratamento eficaz em pacientes hospitalizados com COVID-19."[29]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o «Hydroxychloroquine Sulfate Monograph for Professionals». The American Society of Health-System Pharmacists. 20 de março de 2020. Consultado em 20 de março de 2020. Cópia arquivada em 20 de março de 2020 
  2. Hamilton, Richart (2015). Tarascon Pocket Pharmacopoeia. [S.l.]: Jones & Bartlett Learning. p. 463. ISBN 9781284057560 
  3. ANVISA. Nota Técnica sobre Cloroquina e Hidroxicloroquina. Acesso em 21 de março de 2020
  4. Cortegiani, Andrea; Ingoglia, Giulia; Ippolito, Mariachiara; Giarratano, Antonino; Einav, Sharon (10 de março de 2020). «A systematic review on the efficacy and safety of chloroquine for the treatment of COVID-19». Journal of Critical Care. ISSN 0883-9441. doi:10.1016/j.jcrc.2020.03.005 
  5. LACAVA, Augusto Cézar. Complicações oculares da terapêutica com a cloroquina e derivados. Arq. Bras. Oftalmol., São Paulo , v. 73, n. 4, p. 384-389, Aug. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27492010000400019&lng=en&nrm=iso>. access on 22 Mar. 2020. https://doi.org/10.1590/S0004-27492010000400019.
  6. a b Flach, AJ (2007). «Improving the Risk-benefit Relationship and Informed Consent for Patients Treated with Hydroxychloroquine». Transactions of the American Ophthalmological Society. 105: 191–94; discussion 195–97. PMC 2258132Acessível livremente. PMID 18427609 
  7. Flint, Julia; Panchal, Sonia; Hurrell, Alice; van de Venne, Maud; Gayed, Mary; Schreiber, Karen; Arthanari, Subha; Cunningham, Joel; Flanders, Lucy; Moore, Louise; Crossley, Amy (1 de setembro de 2016). «BSR and BHPR guideline on prescribing drugs in pregnancy and breastfeeding – Part I: standard and biologic disease modifying anti-rheumatic drugs and corticosteroids». Rheumatology. 55 (9): 1693–1697. ISSN 1462-0324. doi:10.1093/rheumatology/kev404 
  8. Browning, David J. Hydroxychloroquine and Chloroquine Retinopathy. Springer: New York, 2014
  9. World Health Organization (2019). World Health Organization model list of essential medicines: 21st list. Geneva: World Health Organization. hdl:10665/325771. WHO/MVP/EMP/IAU/2019.06. License: CC BY-NC-SA 3.0 IGO 
  10. Steere, AC; Angelis, SM (outubro de 2006). «Therapy for Lyme Arthritis: Strategies for the Treatment of Antibiotic-refractory Arthritis». Arthritis and Rheumatism. 54 (10): 3079–86. PMID 17009226. doi:10.1002/art.22131 
  11. Wang, Shi-Qin; Zhang, Li-Wei; Wei, Pan; Hua, Hong (12 de maio de 2017). «Is hydroxychloroquine effective in treating primary Sjogren's syndrome: a systematic review and meta-analysis». BMC Musculoskeletal Disorders. 18. ISSN 1471-2474. PMC 5427554Acessível livremente. PMID 28499370. doi:10.1186/s12891-017-1543-z 
  12. ,«Plaquenil- hydroxychloroquine sulfate tablet». DailyMed. 3 de janeiro de 2020. Consultado em 20 de março de 2020 
  13. «Plaquenil (hydroxychloroquine sulfate) dose, indications, adverse effects, interactions». pdr.net. Consultado em 19 de março de 2020 
  14. «Drugs & Medications». webmd.com. Consultado em 19 de março de 2020 
  15. Marmor, MF; Kellner, U; Lai, TYY; Lyons, JS; Mieler, WF (fevereiro de 2011). «Revised Recommendations on Screening for Chloroquine and Hydroxychloroquine Retinopathy». Ophthalmology. 118 (2): 415–22. PMID 21292109. doi:10.1016/j.ophtha.2010.11.017 
  16. «Physicians work out treatment guidelines for coronavirus». Korea Biomedical Review. 13 de fevereiro de 2020. Consultado em 18 de março de 2020 
  17. Yao, Xueting; Ye, Fei; Zhang, Miao; Cui, Cheng; Huang, Baoying; Niu, Peihua; Liu, Xu; Zhao, Li; Dong, Erdan; Song, Chunli; Zhan, Siyan (9 de março de 2020). «In Vitro Antiviral Activity and Projection of Optimized Dosing Design of Hydroxychloroquine for the Treatment of Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2)». Clinical Infectious Diseases. ISSN 1537-6591. PMID 32150618. doi:10.1093/cid/ciaa237 
  18. Sahraei Z, Shabani M, Shokouhi S, Saffaei A. Aminoquinolines Against Coronavirus Disease 2019 (COVID-19): Chloroquine or Hydroxychloroquine. Int J Antimicrob Agents. 2020 Mar 16:105945. doi:10.1016/j.ijantimicag.2020.105945 Predefinição:Pmid
  19. Liu, J., Cao, R., Xu, M. et al. Hydroxychloroquine, a less toxic derivative of chloroquine, is effective in inhibiting SARS-CoV-2 infection in vitro. Cell Discov 6, 16 (2020). https://doi.org/10.1038/s41421-020-0156-0
  20. «Azioni intraprese per favorire la ricerca e l'accesso ai nuovi farmaci per il trattamento del COVID-19». Italian Medicines Agency (AIFA) (em italiano). 17 de março de 2020. Consultado em 18 de março de 2020 
  21. «A pilot study of hydroxychloroquine in treatment of patients with common coronavirus disease-19 (COVID-19)» (PDF) 
  22. Gautret et al. (2020) Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID- 19: results of an open-label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents – In Press 17 March 2020 – DOI : 10.1016/j.ijantimicag.2020.105949
  23. «Hydroxychloroquine and Azithromycin as a treatment of COVID-19: preliminary results of an open-label non-randomized clinical trial» 
  24. «PubPeer comment» 
  25. a b Avdic, Edina. "Hydroxychloroquine". Johns Hopkins ABX Guide
  26. a b American Society of Health-System Pharmacists. Assessment of Evidence for COVID-19-Related Treatments. 15/05/2020
  27. a b "Esclarecimentos sobre hidroxicloroquina e cloroquina". ANVISA, 19/03/2020
  28. Mahase, Elisabeth. "Covid-19: six million doses of hydroxychloroquine donated to US despite lack of evidence". In: The BMJ, 2020; 368
  29. Horby, Peter; Landray, Martin (5 de junho de 2020). «No clinical benefit from use of hydroxychloroquine in hospitalised patients with COVID-19 — RECOVERY Trial». www.recoverytrial.net. Consultado em 6 de junho de 2020