Himiko (rainha)

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Himiko
Rainha de Yamatai
Rainha Himiko no Museu Municipal de Cultura Yayoi de Osaka
Reinado 189 d.C. – 248 d.C.
Sucessor(a) Iyo
Nascimento cerca de 170 d.C.
Morte 248 d.C. (com cerca de 78 anos)
  Kofun de Hashihaka (箸墓古墳), próximo a Nara (Japão)

Himiko ou Pimiko (卑弥呼, d. ca. 248), também conhecida como Shingi Waō (親魏倭王, "Regente de Wa, Amiga de Wei")[1] foi uma obscura rainha-xamã de Yamatai no antigo Japão. Inicialmente as histórias dinásticas chinesas registram em crônica relações tributárias entre a rainha Himiko e o reino de Cao Wei (220-265) e relata que o povo do Período Yayoi a escolheu como governante após décadas de guerra contra os reis de Wa. Antigas histórias japonesas não mencionam Himiko, mas historiadores a associam com figuras lendárias como a Imperatriz consorte Jingū, que foi regente (ca. 200-269) mais ou menos na mesma era que Himiko. Estudiosos debatem acerca de sua real identidade e a localização de seu domínio Yamatai desde o Período Edo, com opiniões divididas entre o norte de Kyushu ou a tradicional Província de Yamato, atual Kansai. A "Controvérsia de Yamatai", escrita por Keiji Imamura (1996:188), é "o grande debate sobre a história do antigo Japão."

Referências Históricas[editar | editar código-fonte]

Estátua de Himiko

Fontes chinesas[editar | editar código-fonte]

Os primeiros registros históricos de Himiko são encontrados num texto clássico chinês, os Registros dos Três Reinos (Sanguo Zhi 三國志). Em vez de usar "Registros dos Três Reinos", estudiosos japoneses usam o termo "Gishi Wajinden" (魏志倭人伝), ou "Registros de Wei: Relatos sobre os Wajin", que é uma abreviação japonesa dos relatos sobre os Wajin no "Biografias dos Wuhuan, Xianbei e Dongyi" (烏丸鮮卑東夷傳), volume 30 do "Livro de Wei" dos Registros dos Três Reinos. [2] Esta seção é a primeira descrição de Himiko e de Yamatai

O povo de Wa [倭人] habita, no meio do oceano, as ilhas montanhosas a sudeste [da prefeitura] de Tai-fang. Anteriormente, eram mais de cem comunidades. Durante a Dinastia Han, [emissários de Wa] apareceram na corte; atualmente, trinta de suas comunidades mantêm contato [conosco] por meio de emissários e de escribas. (tr. Tsunoda 1951:8)

Esta história descreve como Himiko ascendeu ao trono:

O país antigamente tinha um homem como regente. Por cerca de setenta ou oitenta anos após isto houve agitação e guerras. Então o povo concordou em ter uma mulher como regente. Seu nome era Himiko [卑弥呼]. Ela se ocupava com magia e bruxaria, enfeitiçando o povo. Apesar de estar em idade madura, ela continuou solteira. Ela tinha um irmão mais novo que a auxiliava a governar o país. Após se tornar a regente, poucos a viam. Ela tinha mil mulheres como subordinadas, mas apenas um homem. Ele servia comida e bebida e tinha como papel ser um meio de comunicação. Ela vivia num palácio rodeado por torres e paliçadas, com guardas armados num estado de constante vigilância. (tr. Tsunoda 1951:13)

Os "Registros de Wei" também registraram emissários viajando entre as cortes de Wa e de Wei. Os emissários de Himiko visitaram a corte de Cao Rui, imperador de Wei, pela primeira vez em 238, e ele respondeu:

Aqui nos dirigimos a Himiko, Rainha de Wa, a quem agora oficialmente chamamos amiga de Wei. [...Teus emissários] chegaram até aqui com teu tributo, consistindo de quatro escravos homens e seis escravas mulheres, juntamente com duas peças de tecido com desenhos, cada uma com vinte pés de comprimento. Tu vives muito distante além do oceano; ainda assim mandastes uma embaixada com tributo. Tua lealdade e piedade filial nós apreciamos extremamente. Nós conferimos a ti, então, o título "Rainha de Wa Amigável a Wei", juntamente com a decoração do selo de ouro com o laço roxo. O último, propriamente embalado, deve ser enviado a ti através do governador. Nós esperamos que tu, ó rainha, governes teu povo em paz e que te esforces para ser devotada e obediente. (tr. Tsunoda 1951:14)

Finalmente, os "Registros de Wei" (tr. Tsunoda 1951:15) registram que, em 247, quando um novo governador chegou à Comenda de Daifang na Coreia, a rainha Himiko oficialmente reclamou de hostilidades com Himikuku (卑弥弓呼, ou Pimikuku), o rei de Kunu (狗奴, literalmente "cão escravo"), outro estado de Wa. O governador enviou "Chang Chêng, Secretário Ativo da Guarda da Fronteira" com uma "proclamação aconselhando a reconciliação", e subsequentemente:

Quando Himiko faleceu, um grande monte foi erguido, com mais de cem passos de diâmetro. Mais de cem servos, homens e mulheres, a seguiram até o túmulo. Então um rei foi colocado no trono, mas o povo não o obedecia. Seguiram-se assassinatos e homicídios: mais de mil foram então mortos. Uma parente de Himiko, chamada de Iyo [壹與], uma menina de treze anos, foi [então] feita rainha e a ordem foi restaurada. Chêng fez uma proclamação de que Iyo era a governante. (tr. Tsunoda 1951:16)

Comentaristas interpretam "Iyo" (壹與, com 壹 "um", uma antiga variação de 一) como um erro de cópia de Toyo (臺與, com 臺 "plataforma; terraço,") assim como ocorreu no Wei Zhi a escrita de Yamatai 邪馬臺 como Yamaichi 邪馬壹. Duas outras histórias dinásticas chinesas fazem menção a Himiko. Enquanto ambas claramente incorporaram os relatos do Wei Zhi, foram feitas algumas mudanças, como a especificação de "cerca de setenta ou oitenta anos" de guerras na terra de Wa tendo ocorrido entre 146 e 189, durante o reinado dos imperadores da Dinastia Han Huan e Ling. O Livro do Han Tardio (Hou Han Shu 後漢書) de 432 diz que "o Rei de Grande Wa reside no país de Yamadai" em vez da rainha

Os Wa habitam ilhas montanhosas a sudoeste de Han [Coreia], no meio do oceano, formando mais de cem comunidades. Desde o tempo da derrubada de Chaoxian [norte da Coreia] pelo Imperador Wu, cerca de trinta dessas comunidades mantiveram contato com a corte de Han [Dinastia] por meio de emissários ou de escribas. Cada comunidade tem seu rei, cuja posição é hereditária. O Rei de Grande Wa [Yamato] vive no país de Yamadai. (tr. Tsunoda 1951:1)

...

Durante os reinados de Huan-di (147-168) e Ling-di (168-1890), o país de Wa esteve num estado de grande confusão, guerra e conflito furioso em todos os lados. Por certo número de anos não houve um regente. Então uma mulher chamada de Himiko apareceu. Permanecendo solteira, ela se ocupava com magia e bruxaria e enfeitiçava o povo. Assim, então, a puseram sobre o trono. Ela tinha mil servas mulheres, mas poucas pessoas a viam. Havia apenas um homem que era responsável por suas vestimentas e refeições e agia como um meio de comunicação. Ela vivia num palácio cercado de torres e paliçadas com a proteção de guardas armados. As leis e costumes eram estritos e severos. (tr. Tsunoda 1951:2-3)

O Livro de Sui (Sui Shu 隋書), de 636, relata outro número dos servos homens de Himiko:

Durante os reinados dos Imperadores Huan e Ling, aquele país estava em grande desordem e não houve regente por um certo tempo. [Então] uma mulher chamada de Himiko atraiu a população por meio de suas práticas em magia. O país se tornou unificado e a fez rainha. Um irmão mais novo auxiliava Himiko na administração do país. A rainha [Himiko] tinha mil servas mulheres. Sua pessoa raramente era vista. Ela tinha apenas dois [servos] homens. Eles a serviam comida e bebida e agiam como intermediários. A rainha vivia num palácio, que era cercado de muros e paliçadas protegidos por guardas armados; sua disciplina era extremamente estrita. (tr. Tsunoda 1951:28-29)

Fontes japonesas[editar | editar código-fonte]

Nenhuma das histórias mais antigas do Japão, o Kojiki[3] e o Nihon Shoki,[4] menciona a rainha Himiko. As circunstâncias sob as quais esses livros foram escritos são assunto de debate e, mesmo que Himiko fosse do conhecimento dos autores, eles podem não tê-la mencionado de propósito.[5] Porém, eles incluem três xamãs da família imperial similares a ela: Yamato-toto-hi-momo-so-hime-no-Mikoto, a tia do Imperador Sujin (décimo imperador lendário, r. 97-30 a.C.) e filha do Imperador Kōrei; Yamatohime-no-Mikoto, filha do Imperador Suinin (décimo primeiro imperador lendário, r. 29 a.C. a 70 d.C.); e a Imperatriz Jingū (r. 209-269 d.C.), a esposa do Imperador Chūai. Tais datas, porém, não são historicamente verificadas. Uma exceção notável da omissão de Himiko em antigas histórias japonesas é a do Nihon Shoki citando o Wei Zhi três vezes. Em 239, "a rainha [女王] de Wa" enviou emissários a Wei; em 240, eles retornaram "encarregados de um rescrito imperial e de um selo e um laço"; e em 243, "o regente [王 "rei"] de Wa novamente enviou oficias e emissários com tributo" (tr. Aston 1924:245-6). Fica evidente que os editores do Nihon Shoki escolheram omitir os relatos do Wei Zhi sobre Himiko.

Yamato Totohi Momoso himemiko (倭迹迹日百襲媛命), a tia xamã do Imperador Sujin, supostamente se suicidou após saber que seu marido era um deus-serpente trapaceiro. O Kojiki não a menciona, mas o Nihon Shoki a descreve como "a tia do Imperador por parte de pai, uma pessoa inteligente e astuta, que conseguia prever o futuro" (tr. Aston 1924:156). Após uma série de calamidades nacionais, o Imperador "reuniu as oitenta miríades de deidades" e fez perguntas por meio de adivinhação. Yamato-totohi-momoso foi inspirada por Ōmononushi-nushi ("Grande Deidade de Todas as Deidades e Espíritos") para perguntar: "Por que o Imperador está entristecido pelo estado desordenado do país?"; a deidade respondeu: "Se ele nos fizesse adoração reverente, certamente ficaria pacificado por si mesmo." O imperador indagou, dizendo "Qual deus então é que aqui me instrui?" A resposta foi: "Eu sou o deus que habita as fronteiras da terra de Yamato, e meu nome é Oho-mono-nushi no Kami." (tr. Aston 1924:152) Enquanto o culto imperial deste deus (do Monte Miwa) era "sem efeito', Yamato-totohi-momoso depois se casou com ele.

Depois disto, Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto se tornou a esposa de Oho-mon-nushi no Kami. Este deus, porém, nunca era visto durante o dia, apenas à noite. Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto disse ao seu marido: "Como o meu senhor nunca é visto durante o dia, não consigo vislumbrar teu augusto semblante claramente; eu peço a ti, então, que te atrases brevemente, para que durante a manhã eu possa contemplar a majestosidade de tua beleza." O grande deus respondeu, dizendo: "O que dizes claramente é certo. Na manhã de amanhã eu entrarei em teu banheiro e lá ficarei. Eu imploro que não te agites com minha forma." Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto pensou secretamente em seu coração sobre isto. Esperando até o amanhecer, ela olhou em seu banheiro. Havia uma pequena e bela cobra, do comprimento e grossura da faixa de uma roupagem. E então ela se assustou e exclamou. O grande deus se envergonhou, e repentinamente mudou para a forma humana, conversou com sua esposa e disse: "Tu não te contivestes e me causastes vergonha; Então agora eu te envergonharei." Então andando pelo Grande Vazio, ele subiu o Monte Mimoro. Então Yamato-toto-hi-momo-so-hime no Mikoto olhou para cima e sentiu remorso. Ela sentou-se num assento e se perfurou na pudenda, assim então morrendo. Ela foi enterrada em Oho-chi. Então os homens daquele tempo chamaram a tumba de Hashi no haka. (tr. Aston 1924:158-9)

O kofun de Hashihaka em Sakurai, Nara, é associado com esta lenda. Yamatohime-no-mikoto (倭姫命), filha do Imperador Suinin, supostamente fundou o Santuário de Ise em homenagem a Amaterasu. O Kojiki a registra como sendo a quarta dos cinco filhos de Suinin, "Sua Sublimidade Yamato-hime, (era a grande sacerdotisa do templo da Grande Deidade de Ise)" (tr. Aston 1919:227). O Nihon Shoki também registra "Yamato-hime no Mikoto" (tr. Aston 1924:150) e dá mais detalhes. O Imperador deu a Yamatohime a tarefa de encontrar um local permanente para o santuário de Amaterasu e, após vagar por anos, a deusa-sol a instruiu a construí-lo em Ise, "onde ela tinha descido dos céus pela primeira vez" (tr. Aston 1924:176).

A Imperatriz-Consorte Jingū supostamente serviu como regente após a morte de seu marido, o Imperador Chūai (200 d.C.) até a ascensão de seu filho, o Imperador Ōjin (décimo quinto imperador lendário, r. 270-310. O Kojiki (Chamberlain 1919:283-332) e o Nihon Shoki (Aston 1924:217-271) têm registros similares. O Imperador Chūai queria invadir a terra dos Kumaso e, enquanto conversava com seus ministros, Jingū transmitiu uma mensagem xamanística de que ele deveria invadir Silla em vez disso. Compare:

Sua Sublimidade, a Princesa Okinaga-tarashi estava naquela hora divinamente possuída... e o encarregou com este conselho e instrução: "Há uma terra da direção do oeste, e nessa terra há abundância de vários tesouros que brilham aos olhos, de ouro e prata para baixo. Eu te concederei essa terra." (tr. Chamberlain 1919:284-5).
Nesta hora um certo deus inspirou a Imperatriz e a instruiu, dizendo: "Por que o Imperador deveria se incomodar porque os Kumaso não se submetem? É uma terra com falta de suporte. Valerá a pena juntar um exército para atacá-los? Há uma terra melhor do que essa, uma terra de tesouros, que pode ser comparada à aparência de uma bela mulher - a terra de Mukatsu [Contrário; Através], brilhante aos olhos. Naquela terra há ouro e prata e cores brilhantes em abundância. É chamada de Terra de Silla da colcha de papel-amoreira. Se tu me cultuares da maneira correta, a terra certamente se submeterá livremente, e a lâmina de tua espada não se manchará toda de sangue." (tr. Aston 1924:221).

(A reimpressão de Chamberlain de 2005:284 acrescenta uma nota de rodapé depois de "possuída": "Himeko [sic] nos relatos históricos chineses do Japão era hábil em magia, com a qual ela iludia o povo.") O Imperador pensou que os deuses estivessem mentindo, dizendo que havia visto apenas o oceano a oeste e então morreu, talvez imediatamente (Kojiki) ou depois de invadir os Kumaso (Nihon Shoki). Jingū supostamente descobriu que estava grávida, pessoalmente planejou e liderou a conquista de Silla, deu à luz o futuro imperador e voltou a reger Yamato. O Nihon Shoki (tr. Aston 1924:225) acrescenta que porque Jingū quis saber quais deuses haviam amaldiçoado Chūai, ela construiu um "palácio de culto" xamânico, "dispensou pessoalmente o ofício de sacerdote" e ouviu os deuses se revelarem como vindos de Ise (Amaterasu) e Mukatsu (uma divindade coreana sem nome). Apesar de as histórias mitológicas do Kojiki e do Nihon Shoki chamarem Jingū de primeira imperatriz japonesa, historiadores do período Meiji a removeram da lista de imperadores do Japão, deixando a Imperatriz Suiko (r. 593-628) como a primeira regente mulher historicamente verificável do Japão.

Fontes coreanas[editar | editar código-fonte]

O livro histórico mais antigo da Coreia, o Samguk Sagi (三國史記 "Crônicas dos Três Reinos da Coreia"), de 1145, registrou que a rainha Himiko havia enviado um diplomata para o rei Adalla de Silla em maio de 173 (Saeki 1988:35, 113, 154).

Interpretações[editar | editar código-fonte]

Pesquisadores têm se esforçado para reconciliar Himiko/Pimiko entre as fontes históricas chinesas e japonesas mencionadas acima acima. Enquanto o Wei Zhi a descrevia como uma importante governante no Japão do século III, os primeiros historiadores japoneses propositadamente evitaram nomear Himiko, mesmo quando o Nihon Shoki citou o Wei Zhi sobre os emissários de Wa.

Nome[editar | editar código-fonte]

Os três caracteres chineses (卑彌呼 ou 卑弥呼) que representam o nome da antiga regente de Wa podem ser lidos em japonês moderno como Himiko ou Hibiko e como Bēimíhū ou Bìmíhū no mandarim moderno. Porém, tais leituras modernas diferem significativamente da pronúncia do séc. III, tanto pelos escribas chineses quanto pelo povo de Wa.

Em termos de fonologia histórica chinesa, o moderno beimihu (卑彌呼) é mais simples do que sua suposta pronúncia do final do século III em Chinês antigo tardio ou do início do Chinês médio. Compare as seguintes reconstruções do nome em "Chinês antigo" ou "chinês médio" (Bernhard Karlgren, Li Fanggui e William H. Baxter), "chinês médio incipiente" (Edwin G. Pulleyblank) e, historicamente mais próximo, "chinês do final da Dinastia Han"(Axel Schuessler).

  • pjiḙmjiḙχuo (Karlgren)
  • pjiemjieχwo (Li)
  • pjiumjieXxu (Baxter)
  • pjimjiχɔ or pjiə̌mjiə̌χɔ (Pulleyblank)
  • piemiehɑ (Schuessler)

Para simplificar sem o uso de símbolos especiais, as duas primeiras sílabas com as consoantes iniciais p(j)- e m(j)- compartilham das vogais finais-i(e), e a terceira sílaba tem um X- de fonação surda e consoante fricativa ou um h- fricativo vocalizado mais a vogal média -u(o). Assim, o nome "Himiko" hipoteticamente pode ser reconstruído como *P(j)i(e)m(j)i(e)hu(o).

Em termos de Fonologia japonesa histórica, himiko provavelmente corresponderia a *Fimeko em Japonês antigo. Porém, Roy Andrew Miller defende que *Fimeko é um erro lexicográfico derivado das transcrições do Wei Zhi

O mais desconcertante de toda a lista é o nome da rainha da comunidade Yeh-ma-t'ai, Pi-mi-hu, chinês médio pjiḙ-mjiḙ-χuo em chinês médio. Tradicionalmente, isso é explicado e entendido no Japão como uma transcrição de uma suposta forma do japonês antigo *Fimeko, considerado um termo inicial que significa "mulher bem-nascida; princesa" e deriva do japonês antigo Fime [ou Fi1me1] (também por vezes Fimë [Fi1me2]), um título elogioso para mulheres que acompanha o termo Fiko [Fi1ko1] para homens. Mais tarde, Fime passa a significar "princesa", mas esse significado é anacrônico para textos anteriores. … A dificuldade diz respeito à suposta palavra japonesa antiga *Fimeko. Mesmo que essa forma tenha encontrado seu caminho em alguns dicionários japoneses modernos (por exemplo, mesmo o "Jikai" geralmente confiável de Kindaiichi), na verdade é simplesmente uma das palavras fantasmas da lexicografia japonesa; quando aparece em fontes lexicais modernas, é uma forma "inventada" listada lá apenas com base no relato do Wei chih do Japão antigo. Nunca houve *Fimeko no japonês antigo; além disso, o espirante do chinês médio χ da transcrição sugere que o elemento final do termo original desconhecido não correspondia ao japonês antigo -ko [-ko1], que é traduzido em outro lugar - em Fiko [Fi1ko1], por exemplo - com o -k- do chinês médio como seria de esperar. O elemento final dessa transcrição, portanto, permanece obscuro, embora haja certamente uma boa chance de que a primeira parte corresponda a uma forma relacionada ao termo Fime do japonês antigo. Atualmente é impossível ir além disso. (1967:22)

Hime < japonês antigo Fi1me1 ( "mulher nobre jovem; princesa"), explica Miller, etimologicamente deriva de hi < Fi2 ( "sol") e me < me1 ( "mulher").

Tsunoda (1951:5) nota "Pimiko vem de um título japonês arcaico, himeko, que significa 'princesa'," ou seja, hime com o sufixo feminino ( -ko?, "criança"), ou seja, o nome próprio incomum Himeko. Outras propostas etimológicas relacionadas a Amaterasu para o nome japonês "Himiko" envolvem ( hi?, "sol") e ( miko?, ou 巫女 "xamã feminina; sacerdotisa"); ou sua combinação hime-miko "princesa-sacerdotisa".

Bentley (2008:18-20) considera a palavra em Língua Baekje *pye 'oeste', o prefixo honorífico *me e * 'herdeiro', interpretando 卑彌呼 como 'o honorífico herdeiro do oeste'.

Identidade e historicidade[editar | editar código-fonte]

Identificar Himiko/Pimiko de Wa é simples quando se diz respeito à História da China, mas problemática quando se diz respeito à História do Japão. O Wei Zhi ("Registros dos Três Reinos") provê detalhes sobre a rainha-xamã Himiko e seu contato com os imperadores Cao Rui e Cao Fang. As obras do séc. VIII Kojiki e Nihon Shoki desconsideram Himiko, a não ser que menções a ela tenham sido implícitas nas passagens sobre a Imperatriz Jingū, sobre Yamatohime-no-mikoto, ou Yamatototohimomosohime-no-Mikoto.

Nenhuma dessas três lendárias xamãs reais japonesas corresponde adequadamente à cronologia e descrição chinesas de Himiko. Assumindo o relato de Wei Zhi de que Himiko morreu por volta de 248, se a datação tradicional japonesa duvidosa pode ser considerada, ela estava mais próxima da Imperatriz Jingū do séc. III d.C. do que de Yamatohime-no-mikoto e Yamato-totohi-momoso-hime do sec. I a.C. Por outro lado, se os ajustes pós-datados anteriores ao séc. IV forem considerados, Himiko estava mais próxima das duas outras xamãs. Nem o Kojiki nem o Nihon Shoki mencionam Himiko ou qualquer um dos tópicos importantes de que ela era solteira, foi escolhida como governante pelo povo, tinha um irmão mais novo que ajudou a governar (a menos que isso se refira ao filho de Jingū), ou teve numerosas (figurativamente "mil") servas.

William Wayne revê a história dos debates acadêmicos sobre Himiko e seu domínio de Yamatai. Os filósofos do Período Edo Arai Hakuseki e Motoori Norinaga iniciaram as controvérsias sobre se a localização de Yamatai era em Kyushu ou Yamato e se o Wei Zhi ou o Nihon Shoki era a obra mais fidedigna. Arai aceitava a historia chinesa como a mais confiável e pela primeira vez equiparou Himiko a Jingū e Yamatai a Yamato. Norinaga aceitava a história semi-mitológica japonesa como a mais confiável e rejeitou as citações do Wei Zhi, dizendo que eram meras acreções. Ele hipotetizou que um rei dos Kumaso mandou emissários disfarçados como oficiais de Jingū à corte de Wei, fazendo com que eles os confundissem com representantes de Himiko. Farris 1998, p. 16 diz, "A hipótese de usurpação de Motoori (gisen setsu) teve grande peso no século seguinte."

Himiko pode ter sido ligada a Nakoku, citado como "o estado Na de Wa" em Kyushu, para o qual um selo real dourado foi enviado pelo Imperador Guangwu da Dinastia Han, em vez de Yamataikoku. Na provavelmente existiu do séc. I até o início do séc. III e parece ter sido independente ou até rival dos estados da província de Yamato.

Após a Restauração Meiji em 1868, historiadores japoneses adotaram métodos europeus, especialmente a metodologia baseada em fontes de Leopold von Ranke. Naka Michiyo acreditava que a cronologia do Nihon Shoki não era precisa em passagens de antes do séc. IV, então(Farris 1998, p. 17) "Jingū se tornou uma rainha do século quatro cujo reino não poderia ter coincidido com o de Himiko." O sinologista Shiratori Kurakichi propôs que os compiladores do Nihon Shoki foram tentados a associar Jingū com os poderes religiosos de Himiko. Naitō Torajirō argumentou que Himiko era a alta sacerdotisa do santuário de Ise, Yamatohime-no-mikoto, e que os exércitos de Wa obtiveram controle sobre o sul da Coreia.

Um estudioso [Higo Kazuo] afirmou que Himiko na verdade era Yamato-toto-momo-so-hime-no-mikoto, tia do lendário imperador Sūjin por parte de pai, porque seu suposto túmulo em Hashihaka em Nara media cerca de cem passos em diâmetro, a medida dada para o túmulo de Himiko. Essa teoria ganhou adeptos no período pós-guerra. Outro [Shida Fudomaru] viu em Himiko uma expressão da autoridade política das mulheres no início do Japão.
Farris 1998, p. 20

Alguns historiadores japoneses posteriores reformularam Himiko em termos da historiografia marxista. Masaaki Ueda argumentou que "o estado de Himiko era despótico, com um sistema escravista generalizado" (Farris 1998, p. 21), enquanto Mitsusada Inoue idealizava Yamatai como um "equilíbrio de pequenos estados" com propriedades comunais e expressão política popular. Após o "Boom de Yamatai" dos anos 60, quando vários historiadores, linguistas e arqueólogos japoneses publicaram reavaliações sobre Himiko e Yamatai, nacionalistas japoneses e estudiosos amadores se juntaram ao debate.

Na periodização histórica e arqueológica do Japão, a era da Rainha Himiko, entre os séculos II e III, ocorreu entre o final do Período Yayoi e o início do Período Kofun. Kofun (古墳 "túmulo antigo") refere-se aos montes funerários com forma de fechadura característicos do período e a passagem do Wei Zhi "um grande monte foi erguido, com mais de cem passos de diâmetro" sobre a tumba de Himiko pode ter sido a referência escrita mais antiga sobre um kofun. Várias escavações arqueológicas de sítios dos períodos Yayoi e Kofun na região de Kinki revelaram espelhos de bronze do estilo chinês, chamados de shinju-kyo (神獣鏡 "espelho decorado com deuses e animais"). Muitos estudiosos que apoiam a teoria Kinki associam os shinju-kyo com os "cem espelhos de bronze" dados pelo Imperador Cao Rui como presente a Himiko que o Wei Zhi (Tsunoda 1951, p. 15) registra, enquanto outros estudiosos rejeitam o fato (Edwards 1998, 1999). O kofun de Hashihaka em Sakurai, Nara, recebeu um aumento de sua idade por datação por radiocarbono (~240–260 d.C.) (Japan Times 2009). Os antigos registros chineses de Himiko/Pimiko e seu regime de Yamatai continuam sendo como um teste de Rorschach. Para diferentes interpretações, a antiga rainha-xamã japonesa pode representar a evidência de comunalismo (marxistas), de governantes-sacerdotisas de Jomon (história feminista), da conquista japonesa da Coréia (Akima 1993), da conquista mongol do Japão (teoria dos cavaleiros de Namio Egami), do sistema imperial que se originou com o domínio conjunto de xamãs femininos e monarcas masculinos (Mori 1979), a "revolução patriarcal" que substituiu divindades e sacerdotisas femininas por contrapartes masculinas (Ellwood 1990) ou uma conselheira xamânica da federação de chefaturas de Wa que "deve ter parecido uma rainha na visão dos emissários chineses" (Matsumoto 1983).

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

A Rainha Himiko aparece como antagonista no enredo do jogo eletrônico Tomb Raider (versão de 2013), onde Lara Croft e os tripulantes do navio Endurance se perdem em Yamatai, uma ilha no Triângulo do Dragão chinês. De acordo com o enredo do jogo, Yamatai fora envolvida pelas tempestades dos poderes xamânicos de Himiko, que não acabariam até que a rainha fosse destruída e sua alma não fosse para mais nenhum novo corpo pré-escolhido (no caso a amiga de Lara, Samantha Nishimura), ela tambem aparece em Kamen Rider Ghost como um de seus poderes secundários.[carece de fontes?]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. 研究社新和英大辞典 [Kenkyusha's New Japanese-English Dictionary] (em japonês). [S.l.]: Kenkyūsha 
  2. 岩波文庫 では書名の一部として「魏志倭人伝」の五文字を採用している。(和田 & 石原 1951)、(石原 1985)。
  3. The Kojiki (古事記 "Records of Ancient Matters"), tr. Basil Hall Chamberlain 1919.
  4. The Nihon Shoki (日本書紀 "Chronicles of Japan"), tr. William George Aston 1924.
  5. Miller, Laura. 2014. "Rebranding Himiko, the Shaman Queen of Ancient History." In Mechademia, An Annual Forum for Anime, Manga and the Fan Arts: Issue #9: Origins. Minneapolis, MN: University of Minnesota Press, 179-198.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Akima, Toshio (1993), «The Myth of the Goddess of the Undersea World and the Tale of Empress Jingū's Subjugation of Silla» (PDF), Nanzan U, Japanese Journal of Religious Studies, 20 (2): 95–185, arquivado do original (PDF) em 3 de maio de 2004 .
  • «Himiko tomb in Nara: Group experts date site to reign of fabled queen», Kashihara, Nara Pref. (Kyodo), JP, The Japan Times, 20 de maio de 2009 .
  • Aston, William G, tr. 1924. Nihongi: Chronicles of Japan from the Earliest Times to CE 697. 2 vols. Charles E Tuttle reprint 1972.
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  • Chamberlain, Basil Hall, tr. 1919. The Kojiki, Records of Ancient Matters. Charles E Tuttle reprint 2005.
  • Edwards, Walter (1998), «Mirrors to Japanese History», Archeology, 51 (3) .
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