Hipótese documental

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A hipótese documental, desenvolvida por Julius Wellhausen, também conhecida como Teoria das Fontes, é a teoria segundo a qual os cinco primeiros livros do Antigo Testamento (chamados de Pentateuco) são resultado de uma composição a partir de quatro fontes principais: eloísta, javista, sacerdotal e deuteronomista. Nesta teoria, os escritos veterotestamentarios, principalmente a Torá são divididos em 4 grupos de fontes: 1) A fonte Javista, que contém relatos de diversas épocas diferentes, sendo original de Judá, no sul do antigo Israel e em geral atribui a Deus o nome de Yahweh – conhecida pela letra J; 2) a fonte Eloísta, que também contém relatos de diversas épocas diferentes, sendo original de Efraim, no norte do Antigo Israel, em geral trata Deus com o nome de Elohim e é identificada pela letra E. Ambas as fontes contém documentos tão antigos quanto o próprio surgimento do hebraico enquanto língua gramaticalmente estruturada, por volta do Séc X AEC, baseando-nos no Calendário de Gezer, o documento arqueológico em língua hebraica mais antigo. 3) A fonte Deuteronomista, que provém dos círculos ligados ao ensino doutrinário, contém longos discursos e princípios reguladores, e está espalhada pelos Nebiim além do Deuteronômio e do restante da Torá. É conhecida pela letra D e usa fontes literárias tanto do norte quanto do sul, principalmente do norte, mas seu fechamento redacional ocorreu no sul por volta do período exílico (entre 597 e 538 AEC). 4) Por fim a fonte Sacerdotal, sempre referenciada com a letra P (do alemão Priester e do inglês Priest), é a fonte dos escritos elaborados pelos membros dos grupos de sacerdotes e que estiveram grandemente envolvidos no processo de compilação tardia ou final dos escritos bíblicos que chamamos de Antigo Testamento ou Tanakh, a Bíblia Hebraica. É uma fonte original do sul de Israel e sua datação é próxima do período pós-exílico (a partir de 445 AEC). O uso das letras que caracterizam cada uma das fontes dá à hipótese documental o “codinome” JEDP.


As falácias das Hipóteses Documentárias e seus pressupostos[editar | editar código-fonte]

Mas o que é, efetivamente, a Hipótese Documentária? É ela uma teoria convincente acerca da composição do Pentateuco? E ela uma alternativa viável para os cristãos que levam a Bíblia a sério?

Durante o século XVIII e no início do século XIX, a questão da autoria cedeu lugar ao grande problema das Fontes do Pentateuco. As observações que dependem da lógica literária levaram os exegetas à questão das “Fontes”. Assim, a questão das fontes passou a ser a questão do devir do Pentateuco durante os séculos XIX–XX. Na sua raiz é uma teoria baseada na aplicação dos pressupostos naturalistas de humanistas do século XVII e XVIII para o texto bíblico. Para chegar às conclusões que chegaram, seria preciso abandonar completamente a noção de Escritura inspirada por Deus, dada a quantidade de erros, mitos e falsas declarações de que seu ponto de vista necessariamente exige.

Muitas das instituições teológicas cristãs que exercem repercussão estão agora sob o controle daqueles que sustentam o ponto de vista da Hipótese Documentária, tendo a mesma como provada e estabelecida. Segundo seus adeptos, é absurdo questionar essa teoria, pois seria, em sua opinião, quem não crê nela considerado como obscurantista e pouco atualizado quanto as novas pesquisas bíblicas, e é acusado de falta de fé nas descobertas da ciência. Pensam que todos aqueles que estão “atualizados” com os avanços da pesquisa bíblica acreditam que o Pentateuco é composto de muitas fontes diferentes.

Podemos dizer que resumidamente a Hipótese Documental alega que o Pentateuco não foi escrito por Moisés e muito menos no seu tempo, mas sim cerca de quinhentos a mil anos após sua morte. Nesse período as fontes denominadas JEDP foram passando por processos editoriais e por compilações. Estas fontes são identificadas por quatro documentos distintos um dos outros, que teriam surgido em períodos e regiões distintas da história de Israel, e que em determinado momento foram sendo agrupados e editados até que chegasse a forma como o temos hoje.

Muito embora a Hipótese Documental tenha sido substancialmente alterada e modificada por outros modelos paralelos no século XX, sua terminologia e seus insights continuam a providenciar um referencial para as modernas teorias sobre as origens do Pentateuco. Segundo a teoria documental, o leitor “leigo”, não pode se quer imaginar que, por trás do que à primeira vista é um maravilhoso e consistente relato da história de Israel, existe um intricado complexo de coleção, edição e montagem de materiais, cujo valor histórico é altamente duvidoso. Embora suas fraquezas tenham sido expostas, a Hipótese Documetnária continua a pairar sobre os estudos e simpósios veterotestamentários como uma neblina espessa, nada acrescentando quanto à substância, mas efetivamente obscurecendo a visão bíblica do Antigo Testamento.

Conforme Greg King expõe em sua análise da Hipótese Documentária: a Hipótese Documental tem sido caracterizada por uma espécie sutil de raciocínio em círculos; tende a postular sua conclusão “a Bíblia não é uma revelação sobrenatural” como sua premissa básica “não pode existir algo chamado revelação sobrenatural”. Aquela premissa, é claro, era um artigo de fé para toda a liderança intelectual ocidental na época do iluminismo do século XVIII; e estava implícito na filosofia prevalecente do deísmo. Além disto, tomou-se absolutamente obrigatório descobrir explicações racionalísticas e humanísticas para cada aspecto ou episódio no texto das Escrituras que tem algo de milagroso ou que testifica as manifestações sobrenaturais de Deus. “Todas estas ‘fontes’ são puramente ‘hipotéticas’, abstraídas de uma investigação interna do Pentateuco. Ninguém jamais viu um documento que contivesse esses materiais ou fosse intitulado como qualquer uma dessas fontes literárias.” (KAISER, 2007, p. 49).

Se tal hipótese é correta, quais seriam as implicações para nossa compreensão do Pentateuco? Como ela afetaria nosso apreço do valor e relevância dos primeiros cinco livros da Bíblia? Várias são as implicações. Em primeiro lugar, de acordo com a Hipótese Documentária, o Pentateuco é um documento humano. Por isso, tal hipótese não privilegia a inspiração divina. A Hipótese Documentária salienta o componente humano à custa do divino. É principalmente por essa razão que os cristãos têm estado indispostos para com essa hipótese desde seu aparecimento.

Outra implicação de se aceitar tal hipótese é a resultante fragmentação teológica do Pentateuco. De acordo cm a Hipótese Documentária, as várias fontes das quais se originaria o Pentateuco promovem um conjunto heterogêneo de ideias teológicas contraditórias, competindo entre si dentro de um panorama geral conflitante. Essa visão do Pentateuco tem levado à publicação de livros que objetivam explorar a teologia de uma fonte particular e, mesmo, à publicação de uma Bíblia em que cores diferentes são usadas para dar conta de que fonte procede de um  determinado texto no Pentateuco. (KING, 2000, p. 30-38).

Uma terceira implicação é que o autor dos incidentes históricos registrados no Pentateuco é removido para uma distância de muitos séculos dos eventos que registra. Ora, isso já é verdade, em parte, em relação a alguns eventos narrados em Gênesis por Moisés, contudo, se a Fonte P não se tornou disponível até o ano 500 aC, ela fica, então, mil anos distante do estabelecimento do serviço sagrado no Monte Sinai. Isso acarreta para algumas pessoas dúvidas acerca da confiabilidade do relato, pois na mentalidade da maioria das pessoas há uma relação diretamente oposta entre o lapso de tempo no registro de um evento e o grau de acuracidade de tal registro.[1]

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Referências

  1. MORAES, Danilo (2015). O Pentateuco - Uma critica dos pressupostos científicos das Hipóteses Documentárias em face da autoridade bíblica e seus fundamentos. (São Paulo: Fonte Editoral). pp. 189–190. 
  • Norman K. GOTTWALD. Introdução à Bíblia Hebraica. São Paulo: Paulus, 1988. ISBN 85-349-0421-8.
  • Erich ZENGER; Georg BRAULIK. Os livros da Torá/do Pentateuco. Em: Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003. ISBN 85-15-02328-8.
  • Lília MARIANNO; Marcelo S. CARNEIRO. Bíblia e Cultura: Antropologia e Sociologia do AT. Rio de Janeiro: Eagle, 2013. Caderno Didático.