Hiperinflação

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Nota de 100 quintilhões (1020) de pengő, a nota com maior valor numérico já emitida, Hungria, 1946. Notas de 1 sextilhão de pengő foram impressas, mas nunca emitidas. O acréscimo de zeros é sinal da desvalorização do poder de compra de uma moeda.
A hiperinflação na Venezuela representada pelo tempo que levaria para o dinheiro perder 90% de seu valor (média móvel de 301 dias, escala logarítmica invertida).

Na economia, a hiperinflação é uma inflação muito alta e normalmente acelerada. Ela corrói rapidamente o valor real da moeda local, à medida que os preços de todos os bens aumentam. Isso faz com que as pessoas mudem para moedas estrangeiras mais estáveis, como o dólar americano.[1] Quando medidos em moedas estrangeiras estáveis, os preços normalmente permanecem estáveis.

Ao contrário da inflação baixa, onde o processo de aumento de preços é prolongado e geralmente não é perceptível, exceto pelo estudo dos preços de mercado anteriores, a hiperinflação é um aumento rápido e contínuo nos preços nominais, no custo nominal dos bens e na oferta de moeda.[2] Normalmente, no entanto, o nível geral de preços aumenta ainda mais rapidamente do que a oferta de dinheiro, à medida que as pessoas tentam se livrar da desvalorização da moeda o mais rápido possível. À medida que isso acontece, o estoque real de dinheiro (ou seja, a quantidade de dinheiro circulante dividido pelo nível de preços) diminui consideravelmente.[3]

Quase todas as hiperinflações foram causadas por déficits orçamentários do governo financiados pela criação de moeda.[4] A hiperinflação é frequentemente associada a algum estresse no orçamento do governo, como guerras ou suas consequências, convulsões sociopolíticas, colapso na oferta agregada ou nos preços de exportação ou outras crises que dificultam a arrecadação de impostos pelo governo. Uma queda acentuada na receita tributária real, juntamente com uma forte necessidade de manter os gastos do governo, associado a uma incapacidade ou falta de vontade de emprestar, pode levar um país à hiperinflação.[3]

Definição[editar | editar código-fonte]

Em 1956, Phillip Cagan escreveu The Monetary Dynamics of Hyperinflation, o livro muitas vezes considerado como o primeiro estudo sério da hiperinflação e seus efeitos[5] (embora The Economics of Inflation de C. Bresciani-Turroni sobre a hiperinflação alemã tenha sido publicado em italiano em 1931[6]). Em seu livro, Cagan definiu um episódio hiperinflacionário como começando no mês em que a taxa de inflação mensal excede 50% e termina quando a taxa de inflação mensal cai abaixo de 50% e permanece assim por pelo menos um ano.[7] Os economistas geralmente seguem a descrição de Cagan de que a hiperinflação ocorre quando a taxa de inflação mensal excede 50% (isso equivale a uma taxa anual de 12.874,63%).[5]

O International Accounting Standards Board emitiu orientações sobre regras contábeis em um ambiente hiperinflacionário. Ele não estabelece uma regra absoluta sobre quando surge a hiperinflação, mas lista fatores que indicam a existência de hiperinflação:[8]

  • A população em geral prefere manter sua riqueza em ativos não monetários ou em uma moeda estrangeira relativamente estável. As quantias de moeda local detidas são imediatamente investidas para manter o poder de compra;
  • A população em geral considera os montantes monetários não em termos de moeda local, mas em termos de uma moeda estrangeira relativamente estável. Os preços podem ser cotados nessa moeda;
  • As vendas e compras a prazo ocorrem a preços que compensam a perda esperada de poder aquisitivo durante o período de crédito, mesmo que o prazo seja curto;
  • As taxas de juros, salários e preços estão vinculados a um índice de preços; e
  • A taxa de inflação acumulada ao longo de três anos aproxima-se ou excede 100%.

Histórico[editar | editar código-fonte]

Uma nota de Cem trilhões de dólares do Zimbábue de 2009

A hiperinflação não é uma novidade. Em diversos países e outros períodos históricos foram conhecidos também processos inflacionistas extraordinários. O mais estudado de todos eles é o sofrido pela Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial. A obrigação de pagar fortes indenizações às nações vencedoras e a caótica situação interna que impedia obter pela via fiscal os ingressos necessários, induziram a República de Weimar a financiar-se imprimindo papel moeda sem nenhuma contenção. Entre janeiro de 1922 e dezembro de 1923 a taxa acumulada de inflação ascendeu a um bilhão por cento. No ano de 1923 a situação alcançou um nível tão grande que os trabalhadores das fábricas recebiam a diária antecipada e davam o dinheiro a suas esposas para que fossem no mercado comprar tudo o que puder comprar.[9]

Ainda mais grave foi a hiperinflação sofrida pela Hungria imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Os preços se multiplicaram por mais de 1027 em doze meses, multiplicando-se duas vezes cada dia. Países como Rússia, Peru, Bolívia, Polônia, Áustria, Grécia, China, Argentina e mais recentemente Equador, Iugoslávia também tiveram hiperinflação.[10]

Alemanha[editar | editar código-fonte]

Uma moeda de 5 milhões de marcos valeria US$ 714,29 em janeiro de 1923, mas valia apenas cerca de um milésimo de um centavo em outubro de 1923.

O governo recém eleito da jovem república de Weimar queria atender a todos os desejos de seus eleitores, mas não havia receitas de impostos suficientes para isso, então o mesmo recorreu a impressora de dinheiro, a república ainda tinha que pagar reparações de guerra astronômicas aos países vencedores e teve partes de seus territórios produtivos ocupados pelos países vencedores, deixando o estado debilitado.

América Latina[editar | editar código-fonte]

Gráfico da hiperinflação na Argentina

A hiperinflação latino-americana nunca alcançou essas taxas extremas, mas já foram muito mais perduráveis no tempo. A taxa média de inflação anual durante o período 1978-1987, por exemplo, foi de:

Mas não foram as propostas estruturalistas senão as mais clássicas (restrição monetária e contenção do gasto público) as que conseguiram deter a espiral inflacionária. Isso sim, com efeitos muito desagradáveis para a população desses países. De fato, como consequência das repercussões de algumas políticas anti-inflacionistas excessivamente rígidas, no final dos anos 1980 ocorreram em vários países sul-americanos (Argentina, Peru, entre outros) motins espontâneos com assalto a lojas de alimentação por multidões procedentes dos bairros mais pobres. A cultura popular no México atribui a derrota do Partido Revolucionário Institucional (PRI) nas eleições do ano 2000 em parte às más políticas presidenciais diante da inflação e desvalorização que açoitaram aquele país em 1994, sob a presidência de Ernesto Zedillo Ponce de León.

Recentemente, a inflação na Venezuela passou da casa de um milhão porcento ao ano durante o ano de 2018. Estima-se que ela possa passar dos dez milhões por cento no ano de 2019.[11][12][13][14]

Brasil[editar | editar código-fonte]

Base Monetária (M1) e Inflação Mensal no Brasil, a inflação cai de forma brusca devido aos vários congelamentos de preços e a base monetária devido aos sucessivos cortes de zeros na moeda.

A Hiperinflação no Brasil ocorreu durante o período da década de 80 e 90, terminando só em 1994 com o Plano Real. A inflação atingiu 2 708% em 1993 e no período de 1980 a 1994 a moeda foi mudada várias vezes.[carece de fontes?]

O Banco Central do Brasil foi criado pelo decreto 4.595, de 31 de dezembro de 1964. A moeda que circulava na época era o cruzeiro. O cruzeiro novo foi implantado no dia 13 de fevereiro de 1967. O cruzeiro, padrão monetário desde 1942, perdia três zeros e se transformava em cruzeiro novo. Portanto, 1 cruzeiro = 0,001 cruzeiro novo. O cruzeiro substituiu o cruzeiro novo em 15 de Maio de 1970, sendo que um cruzeiro valia um cruzeiro novo. Durou até 27 de fevereiro de 1986. O cruzado é proveniente do Plano Cruzado, implantado pelo governo Sarney. A partir do dia 28 de Fevereiro de 1986, mil cruzeiros passaram a valer um cruzado. Para implantar o cruzado o governo aproveitou as cédulas de 10 mil, 50 mil e 100 mil cruzeiros, carimbando-as para o novo padrão. Portanto, 1 cruzeiro de 1986 passou a valer 0,001 cruzado.[carece de fontes?] o cruzado novo entrou em circulação no dia 15 de janeiro de 1989, no Plano Cruzado II. A nova moeda substituía o cruzado, sendo que 1 cruzado novo valia 1 000 cruzados. O cruzeiro foi reintroduzido como padrão monetário em substituição ao cruzado novo, como parte do Plano Collor, em março de 1990, sem ocorrer a perda de três zeros. O cruzeiro real foi implantado no 1º de Agosto de 1993, substituindo o cruzeiro, sendo 1 cruzeiro real equivalente a 1 000 cruzeiros de 1991. O Real foi lançado em 01 de junho de 1994, pelo Plano Real, no governo Itamar Franco. Um real valia 2 750 cruzeiros reais no momento da conversão.[15][16]

Hungria[editar | editar código-fonte]

A maior hiperinflação da história foi registrada na Hungria, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando sua moeda era o pengő. À época, o país registrou uma taxa de inflação mensal de 41 900 000 000 000 000%, ou 207% ao dia. Assim, os preços duplicavam a cada 15 horas.[17]

Iugoslávia[editar | editar código-fonte]

Nota de 500 bilhões de dinars da Iugoslávia. A hiperinflação cria notas de valores muito altos.

Entre 1993 e 1994 a Iugoslávia viveu sua pior crise inflacionária. O aumento de preços chegou a uma taxa de 313 milhões por cento ao mês, ou 64,6% ao dia. A cada dia e meio os produtos dobravam de valor.[10]

Zimbábue[editar | editar código-fonte]

Em 2008, a economia do Zimbábue viveu um surto hiperinflacionário que foi um dos maiores da história e o primeiro registrado no século XXI, chegando a 231 000 000% no ano em 2008.[18]

Dez maiores hiperinflações[editar | editar código-fonte]

Taxas de inflação mensais mais altas da história[19][20]
# País Moeda Mês com maior taxa de inflação Maior taxa de inflação mensal Taxa de inflação diária equivalente Tempo necessário para os preços dobrarem Denominação mais alta
1 Hungria Pengő Julho de 1946 4,19×1016 % 207,19% 15,6 horas 100 Quintilhões (1020)
2 Zimbabwe Dólar do Zimbábue Novembro de 2008 7,96 × 1010 % 98,01% 24,7 horas 100 Trilhões (1014)
3 Yugoslavia Dinar iugoslavo January 1994 3,13 × 108 % 64,63% 1,4 dias 500 Bilhões (5×1011)
4 Republika Srpska Dinar da Republika Srpska Janeiro de 1994 2,97 × 108 % 64,3% 1,41 dias 10 Bilhões (10×1010)
5 Alemanha (República de Weimar) Marco de papel Outubro de 1923 29,500% 20,87% 3,7 dias 100 Trilhões (1014)
6 Grécia Dracma Outubro 1944 13,800% 17,84% 4,3 dias 100 Bilhões (1011)
7 China Yuan April 1949 5,070% 14,1% 5,34 dias 6 Bilhões
8 Armenia Dram arménio e Rublo russo Novembro de 1993 438% 5,77% 12,5 dias 50,000 (rublos)
9 Turcomenistão Manate do Turcomenistão Novembro de 1993 429% 5,71% 12,7 dias 500
10 Taiwan Yen taiwanês Agosto de 1945 399% 5,50% 13,1 dias 1,000

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. O'Sullivan, Arthur; Steven M. Sheffrin (2003). Economics: Principles in action. Upper Saddle River, New Jersey 07458: Pearson Prentice Hall. pp. 341, 404. ISBN 0-13-063085-3 
  2. Where's the Hyperinflation? Arquivado 2018-08-02 no Wayback Machine, Forbes.com, 2012
  3. a b Bernholz, Peter 2003, capítulo 5.3
  4. Bernholz, Peter 2003, capítulo 5.2 e tabela 5.1
  5. a b Palairet, Michael R. (2000). The Four Ends of the Greek Hyperinflation of 1941-1946. [S.l.]: Museum Tusculanum Press. p. 10. ISBN 9788772895826. Consultado em 27 de junho de 2015. Arquivado do original em 10 de novembro de 2015 
  6. Robinson, Joan (1 de janeiro de 1938). «Review of The Economics of Inflation». The Economic Journal. 48 (191): 507–513. JSTOR 2225440. doi:10.2307/2225440 
  7. Phillip Cagan, The Monetary Dynamics of Hyperinflation, in Milton Friedman (Editor), Studies in the Quantity Theory of Money, Chicago: University of Chicago Press (1956).
  8. International Accounting Standards. «IAS 29 — Financial Reporting in Hyperinflationary Economies». IASB. Consultado em 10 de abril de 2012. Arquivado do original em 4 de abril de 2012 
  9. Von Mises, Ludwig (2009). As Seis Lições. São Paulo: Instituto Mises Brasil 
  10. a b «Os 6 piores casos de hiperinflação da história | EXAME». exame.abril.com.br. Consultado em 14 de março de 2018 
  11. «Inflação da Venezuela supera 1.000.000% em 12 meses». G1. Consultado em 1 de março de 2019 
  12. Econômico, Brasil (10 de dezembro de 2018). «Venezuela: inflação nos últimos 12 meses ultrapassa 1.000.000% - Home - iG». Economia. Consultado em 1 de março de 2019 
  13. «Inflação na Venezuela ultrapassa 1.000.000% em 12 meses pela primeira vez». Folha de S.Paulo. 11 de dezembro de 2018. Consultado em 1 de março de 2019 
  14. «Bloomberg - Are you a robot?». www.bloomberg.com. Consultado em 1 de março de 2019 
  15. Jorge Iorio, Ubiratan (2013). Dez Lições Fundamentais de Economia Austríaca. São Paulo: Instituto Mises Brasil. 68 páginas 
  16. «História da Inflação no Brasil». br.advfn.com. Consultado em 2 de setembro de 2018 
  17. msn.com/ Como se resolveram os 5 maiores episódios de hiperinflação da história
  18. «Zimbábue chegou a ter nota de 100 trilhões para combater a inflação». R7.com. 9 de dezembro de 2017. Consultado em 24 de janeiro de 2020 
  19. «World Hyperinflations | Steve H. Hanke and Nicholas Krus | Cato Institute: Working Paper». Cato.org. 15 de agosto de 2012. Consultado em 15 de outubro de 2012 
  20. «World Hyperinflations» (PDF). CNBC. 14 de fevereiro de 2011. Consultado em 13 de julho de 2012 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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