História de Sacavém

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Brasão de armas de Sacavém: «Escudo de vermelho, ponte de três arcos, com os flancos incompletos, de ouro, lavrada de negro. Em chefe, cruz em aspa, de prata. Contra-chefe ondado de seis faixas de prata e azul, onde assentam três barcas de ouro vistas de proa. Coroa mural de prata de cinco torres. Listel branco, com a legenda a negro, em maiúsculas: "SACAVÉM".»
Um dos elementos centrais do brasão – a água – recorda o peso dos rios Tejo e Trancão na vida e na economia da cidade, enquanto o outro – a ponte romana – atesta a antiguidade da povoação, remontando pelo menos ao tempo dos Romanos, que aí ergueram essa construção que se manteve a ligar as duas margens do Trancão ao longo de mais de quinze séculos.

A história de Sacavém é a história de uma localidade que, pela sua posição estratégica – situada na encruzilhada dos caminhos que, vindos do Norte e do Este, se dirigiam a Lisboa – esteve presente em inúmeros momentos da História portuguesa.

Povoação antiquíssima, existiu no tempo dos Romanos uma ponte em Sacavém cujos vestígios ainda eram visíveis, pelo menos, no século XVI (segundo o relato de Francisco de Holanda). Do tempo da ocupação mourisca ficou, aparentemente, o topónimo de origem arábica (شقبان, Šaqabān); imediatamente após a tomada de Lisboa pelos cristãos, em 1147, parece ter ocorrido aqui um combate (a Batalha de Sacavém), hoje comummente considerado lendário.

Durante a Idade Média, Sacavém constituiu um reguengo, do qual viriam a ser beneficiários o almirante Manuel Pessanha, a rainha D. Leonor Teles, e depois o Condestável Nuno Álvares Pereira. Por morte deste, passou a sua posse para a Casa de Bragança, à qual viria a pertencer até à queda da monarquia.[1]

Severamente danificada durante o Terramoto de 1755, Sacavém entrou num lento marasmo que durou cerca de um século, até cerca de 1850 se iniciar a sua industrialização – donde ressalta a fundação da célebre Fábrica de Loiça de Sacavém, que espalhou o nome de Sacavém por Portugal e pelo Mundo, e a passagem do caminho-de-ferro pela povoação. Esta situação contribuiu para um aumento populacional sustentado, até meados da década de 1970, favorecendo ainda o desenvolvimento do associativismo (Cooperativa «A Sacavenense», Sport Grupo Sacavenense, entre outros).

No final da década de 1980, a freguesia ganha a sua actual configuração geográfica, com a separação da Portela de Sacavém e do Prior Velho. Em 4 de Junho de 1997, Sacavém vê enfim reconhecido todo o seu valor e potencial, tendo sido elevada a cidade. Meses mais tarde, era inaugurada a Ponte Vasco da Gama, ligando Sacavém a Montijo, e que se tornou uma obra de referência na paisagem urbana da povoação.

Índice

A Pré-História e o domínio dos Romanos e Bárbaros[editar | editar código-fonte]

Neolítico / Calcolítico[editar | editar código-fonte]

Está atestada na região de Sacavém a presença humana desde há vários séculos. A este propósito dizia Pinho Leal no seu monumental Portugal Antigo e Moderno:

«Sacavém é incontestavelmente uma povoação antiquíssima, e já existia no tempo dos Romanos.»[2]

Com efeito, parece ter sido ocupada já na Pré-História (períodos do Neolítico e, com maior probabilidade, do Calcolítico, do qual parecem datar três machados de pedra polida[3] ); há notícia da existência de uma gruta sob o Largo do Terreirinho, junto ao Santuário da Senhora da Saúde, a qual, ao ser escavada na década de 1980, revelou a existência de vestígios pré-históricos.[4]

Os Romanos[editar | editar código-fonte]

A Ponte Romana de Sacavém, desenhada por Francisco de Holanda no terceiro quartel do século XVI e incluída na sua Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, sob o título Lembrança Pera Redificar a Ponte de Sacauem, surge representada com um elevado número de arcos, denotando assim um rio muito mais caudaloso que hoje em dia.

Em finais do [[século III a.C., chegam à península Ibérica os Romanos. OLISIPO (antigo nome de Lisboa), alia-se às legiões romanas, sendo cedo absorvida no Império, e recompensada com a atribuição do estatuto de MVNICIPIVM (isto é, de cidadania plena, estando por isso isenta do pagamento das exacções a que outros territórios, conquistados pela força das armas, estavam sujeitos) e o nome de FELICITAS IVLIA (em honra de Júlio César).

Administrativamente, o município ulissibonense integrava-se no CONVENTVS SCALLABITANVS, e este, por sua vez, fazia parte, primeiro da província da HISPANIA VLTERIOR e, a partir de 29 a.C. (por divisão decretada por Augusto), da LVSITANIA, com capital em EMERITA AVGVSTA (correspondente à moderna Mérida, na Estremadura espanhola).

Este MVNICIPIVM abrangia um extenso território rural, cobrindo uma distância aproximada de cinquenta quilómetros ao redor da área urbana (e destinado à sua autosuficiência), pelo que logicamente o local onde se implanta a moderna Sacavém se achava aí integrado.

Sobre Sacavém em concreto, porém, apenas podermos afirmar que no século I da nossa Era aí passava um troço comum a duas estradas romanas:

Ainda hoje subsistem vestígios desta rede viária, sob o pavimento das ruas António Ricardo Rodrigues e José Luís de Morais (que mais tarde seriam o eixo fundamental à volta do qual se processou a urbanização da povoação, ligando Sacavém de Cima a Sacavém de Baixo).[5]

Já neste tempo parece de relevo a importância de Sacavém e do seu rio; com efeito, os Romanos teriam construído uma ponte sobre o Trancão, da qual ainda existiriam vestígios dos pilares de assentamento no leito no século XVII, segundo diversos relatos – designadamente os de Francisco de Holanda (que a ela alude na sua obra Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, de 1571, na qual anota a necessidade de o rei – então D. Sebastião – proceder à reconstrução da ponte romana, e faz dela um esboço, onde surge representada com quinze arcos, denotando assim a existência de um rio muito mais caudaloso que actualmente[6] ) e de Miguel Leitão de Andrada (no «2.º Diálogo» da sua Miscelânea, datada de 1629). Esta ponte (que ainda hoje constitui o elemento central do brasão de armas de Sacavém) era a continuação natural da via que seguia pelas ruas anteriormente mencionadas, ligando Sacavém à margem Norte do seu rio.

Se se admitir que o célebre Itinerário de Antonino se baseia em trajectos levados a cabo por Antonino Pio, e atendendo ao facto de serem mencionadas na obra as vias em causa, é natural que o dito imperador tenha passado pela povoação e pela sua ponte sobre o Trancão

Há ainda a notícia de em Sacavém ter existido (segundo o relato do Anónimo Napolitano, e incluído no volume II do Corpus Inscriptionum Latinarum – CIL –, relativo à Hispânia) uma inscrição epigráfica (cujo paradeiro é hoje desconhecido) que rezava o seguinte:

SILVIVS
MAG • I • TER
F • DAR • MAG
P • E • LIIII • P • V

Não se conseguiu, porém, até ao momento, aventar uma leitura plausível para este monumento; com excepção da primeira linha, que remete para um nomen ou cognomen inteligível (Sílvio), o conteúdo das três restantes linhas é objecto de grandes conjecturas. Emil Hübner, o redactor do CIL, propôs que as abreviaturas MAG, nas linhas 2 e 3, dissessem respeito a dois magistri, talvez responsáveis por um uicus, uma pequena unidade administrativa a nível rural, o que pressuporia talvez a existência de um vicus no local de Sacavém, junto à ponte, e que seria governado por estes dois magistri; esta tese colheu também a aprovação de Jorge de Alarcão. Vasco Gil Mantas, por seu turno, propõe que se tratassem dos magistri de um santuário que existiria talvez nas proximidades, o que também não seria inverosímil. Seja como for, tal parece testemunhar, sem sombra de dúvida, a presença romana no local.[7]

Alanos e Visigodos[editar | editar código-fonte]

Aos Romanos sucederam-se as ocupações dos povos bárbaros, na sequência das suas migrações para Ocidente: primeiro dos Alanos (que ocuparam todo o Sudoeste peninsular durante cerca de meia década, sem porém deixarem quaisquer vestígios significativos na região), e depois dos Visigodos (que teriam edificado aqui uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Prazeres, sob a qual se encontram hoje as ruínas da capela de Nossa Senhora da Vitória).[8]

Domínio muçulmano[editar | editar código-fonte]

A actual capela de Nossa Senhora da Vitória ergue-se, segundo a tradição, onde se situou outrora a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, existente na povoação durante o domínio muçulmano.

Conquista e coabitação[editar | editar código-fonte]

A partir de 711, tem início o domínio muçulmano da península Ibérica. Lisboa (al-Ušbuna) é tomada em 716 por forças berberes sob o comando de ʿAbd al-ʿAziz ibn Musa ibn Nusayr (que à data exercia o cargo de governador do Ândalus em nome do califa de Damasco, sendo filho do governador da província da Ifriquia, Musa ibn Nusayr), e por essa época devem também ter caído não só as povoações que integravam o termo de Lisboa (entre os quais Sacavém), bem como os vários povoados das redondezas, como aš-Šantara (isto é, Sintra).

Tal como nas demais regiões do Ġarb al-Ândalus (o «Ocidente do Ândalus», região que corresponde, grosso modo, à antiga Lusitânia romana e incluía, portanto, a maior parte do moderno Portugal), número significativo de hispano-romano-godos da região de al-Ušbuna, embora se tenham arabizado (tornando-se bilíngues em árabe – a nova língua da administração – e no baixo-latim medieval que mantinham como língua do culto), não se islamizaram (ou apenas o fizeram tardiamente), tendo remanescido cristãos; entre eles, estariam alguns habitantes do lugar de Sacavém que, de acordo com a tradição, puderam manter o seu culto na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, mediante o pagamento de um tributo monetário (a jizya),[8] tornando-se assim moçárabes, ou seja, cristãos vivendo debaixo do domínio muçulmano, tendo como suma autoridade o bispo moçárabe de Lisboa – algo possibilitado pela relativa tolerância religiosa do Islão para com os chamados «Povos do Livro» (Ahl al-Kitāb), ou seja, judeus e cristãos.

Julga-se mesmo que a torre medieval em Sacavém de Cima, no Largo do Terreirinho, fronteira à Capela da Senhora da Saúde, no centro histórico da povoação, tenha provavelmente origem muçulmana, e seria aí que, de acordo com a tradição, os cristãos pagavam a jizya às autoridades mouriscas. Terá depois sofrido intervenções de restauro durante a Idade Média, achando-se hoje, contudo, bastante arruinada.[9]

Sacavém no al-Ândalus[editar | editar código-fonte]

De acordo com o relato de uma fonte muçulmana (o geógrafo sírio Abu ʿAbd-Allah Yaqut ibn ʿAbd-Allah al-Rumi al-Hamawi), Sacavém era «um dos povoados de Lisboa, a Oriente dela», sendo a povoação classificada como uma qarya (palavra donde deriva o termo alcaria, e que se pode traduzir, precisamente, como pequeno povoado, vila[10] ).

À semelhança de várias outras pequenas povoações ao redor de Lisboa, Sacavém foi integrada administrativamente na kura de al-Ušbuna (sendo a kura uma unidade administrativa muçulmana sensivelmente com a mesma delimitação geográfica dos velhos CONVENTI romanos, embora com diferentes atribuições), à frente da qual se encontrava um qadi, governador com funções militares designado, primeiro pelo wali sediado em Córdova, a capital do al-Ândalus, como representante do califa de Damasco e, mais tarde, pelos emires (756–929) e depois califas (929–1031) Omíadas que governaram o Ândalus a partir daquela cidade.

Ao longo do domínio emiral e califal, várias sedições contra os Omíadas tiveram como placo o Ġarb al-Ândalus (no qual se incluía, como exposto, Sacavém), designadamente a revolta promovida pelos banū Marwān de Mérida/Badajoz ou a de ʿUmār ibn Hafsūn, de Bobastro, apenas sufocadas em finais da década de 920 (de facto, durante a segunda metade do século IX e até a Janeiro de 929, data em que ʿAbd ar-Raḥmān III se proclama ʿAmīr al-Muʿminīn (Príncipe dos Crentes), ou seja, Califa – precisamente após vencer os banu Marwan –, correspondendo a um período de maior fraqueza do poder central, o Ġarb só nominalmente fazia parte do emirato omíada, tendo-se convertido numa espécie de principado autónomo com sede em Batalyaws, isto é, Badajoz).

Mais tarde, durante as últimas agitações (fitna) que levaram à queda do califado em 1031, e subsequente formação dos reinos de taifas, Sacavém ficou integrada no reino de Badajoz (excepto durante um escasso lapso temporal, na década de 1020, em que existiu uma taifa com sede em Lisboa chefiada por ʿAbd al-ʿAziz ibn Sabūr e ʿAbd al-Malik ibn Sabūr, filhos de Sabūr al-Saqlabi, um antigo servo, de origem eslava, que servira o califa al-Hakam II e que lançara o grito de revolta do Ġarb al-Andalus contra o califado em 1009, tendo governado a taifa de Badajoz até ter sido deposto pelos banuʿl-Aftas), após o que regressou à suserania do rei aftássida de Badajoz.

Em 1093, a troco de auxílio contra os invasores almorávidas vindos do Magrebe, o emir de Badajoz cede ao imperator totius Hispaniæ, Afonso VI de Leão e Castela, a posse dos castelos de al-Ušbuna e aš-Šantaryin (Santarém), tendo nessa altura Sacavém passado para mãos cristãs. Por pouco tempo, porém, durou o domínio leonês: em 1095, ante o inexorável avanço dos almorávidas liderados por Yusuf ibn Tašfin, o conde Raimundo da Galiza foi derrotado e a linha de fronteira recuou do Tejo para o Mondego, tendo Sacavém retornado às mãos muçulmanas.

Enfim, o domínio dos rigoristas almorávidas, embora forte nos primeiros anos, estava já em profunda decadência pouco tempo antes da conquista definitiva de Lisboa em Outubro de 1147 por D. Afonso Henriques; a partir de 1144, todo o Ġarb, liderado por Ibn Qasi, entra em revolta contra o domínio almorávida, tendo início o chamado período das segundas taifas. O vale do Tejo tornava-se independente para constituir a taifa de Santarém – efémera, posto que o seu fim chegou três anos mais tarde, com a Reconquista cristã das duas principais povoações da linha do Tejo pelos Portugueses.

Al-Šaqabāni, ou o Sacavenense[editar | editar código-fonte]

De acordo com o já citado Yaqut al-Hamawi, relaciona-se com Sacavém o poeta e místico Taytal ibn Ismaʿīl, chamado al-Šaqabāni (literalmente, o Sacavenense), que viveu no século XI e do qual se conhecem alguns trechos de poesia; para além disso, é citado também por saber de cor poemas de várias poetisas árabes anteriores ao Islão.

Al-Šaqabāni, tendo estudado na sede do Califado Omíada, em Córdova, pouco antes da sua desagregação, e feito o hajj (peregrinação a Meca) tornou-se depois um místico ligado ao sufismo (uma corrente contemplativa dentro do Islamismo e que teve grande sucesso entre alguns habitantes do Ġarb al-Ândalus – cite-se o exemplo de Ibn Marwān, o fortificador de Marvão), instituindo um ribat em Šaqabān, destinado à jihad (conceito que não se relaciona apenas com a luta exterior, tendo em vista a propagação da fé islâmica, mas também e sobretudo, com a luta a nível pessoal, do próprio crente, tendo em vista o seu total auto-controle),[11] tendo depois recolhido-se a um lugar ermo nas proximidades, onde fundou uma az-zāwiya (donde o português azóia, e que está talvez na origem do topónimo da vizinha Santa Iria de Azóia, então conhecida como az-zāwiya at-Taytal, ou seja, a Azóia de Taytal), onde se entregaria à reflexão mística.[10]

Contribuições técnicas e toponímicas[editar | editar código-fonte]

Para além das técnicas de cultivo (como a nora) e da introdução de certas culturas agrícolas (como os citrinos) em toda a Península, o principal vestígio muçulmano está na toponímia, julgando-se que seja do árabe que o moderno topónimo Sacavém proveio (muito embora outra teoria proponha origem francesa – portanto mais tardia, eventualmente na sequência da Reconquista – para o nome da freguesia).

Šaqabān, Sacabis[editar | editar código-fonte]

Com efeito, durante muito tempo os filólogos julgaram que o termo derivasse do étimo árabe šaqabi (que significa «próximo» ou «vizinho» – entenda-se, da cidade de Lisboa, que já então assumia considerável importância), latinizado na terceira declinação em sacabis, -is (o que formaria no acusativo sacabem, donde o nome moderno «Sacavém»); contudo, nunca citaram qualquer fonte árabe que corroborasse tal teoria.[12]

Mais recentemente, descobriu-se, também na obra de Yaqut (o Kitāb Muʿjam al-Buldan ou Livro dos Países, c. 1228, uma descrição geográfica do mundo então conhecido), uma referência mais precisa ao termo usado pelos árabes para designar a povoação – aš-Šaqabān (em árabe, الشقبان), o qual se assemelharia muito, sem sombra de dúvida, com a pronúncia moderna.[10]

Çaca dé Uen[editar | editar código-fonte]

Ainda sobre a origem do topónimo Sacavém, o insigne linguista português José Pedro Machado escreve, no seu Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa, que teria sido a pensar no nome desta povoação que um jogral galego, Pedr'Amigo de Sevilha (activo na corte de Afonso X de Leão e Castela, ou seja, na segunda metade do século XIII), compôs uma cantiga de escarnho (CBN n.º 1687; CV n.º 1199) na qual satiriza um seu colega trovador (Pero Garcia d'Ambroa), desdenhando da sua piedosa intenção de querer ir aos lugares santos de Jerusalém em peregrinação, mas tendo no entanto ficado-se apenas por Sacavém… A cantiga reza o seguinte:

Marinha Meiouchi, Pero d'Ambroa
diz el que tu o fuisti i pregoar
qué nunca foy na terra d'Ultra-mar;
mays non fezisti como molher boa,
ca, Marinha Meiouchi, sy hé sy,
Pero d'Anbroã sey eu ca foy lh'y,
mays queseste lh'y tu mal assacar.
Marinha Meiouchi, sen nulha falha
Pero d'Ambroã en Çaca dé Uen
filhou a cruz pera Iherusalen
e, depois d'aquesto, sé Deus mi ualha,
Marinha Meiochi, com'é, romeu
que uen canssado é tal o ui end eu
tornar, é dizes que non tonrou en.
Maria Meiouchi, muytas uegadas
Pero d'Anbroã ach end eu mal,
mays sé té colhé d el logar atal
com andas tu assy pelas pousadas,
Marinha Meiouchi, a mui gram sazon,
Pero d'Anbroã, se th achar enton,
gram med ey que ti querra fazer mal.

Segundo Machado, a forma Çaca dé Uen (leia-se Saca dé Ven) seria uma derivação de Sacavém, propondo o estudioso uma origem francesa para o termo, hipótese geralmente preterida em favor do étimo arábico. Com efeito, existia na Idade Média, no Anjou, a confraria vinhateira du Sacavin, termo derivado precisamente de saca (significando odre para depositar vinho, azeite, ou líquidos em geral), e vin (fr. para «vinho»), termo que em certos dialectos franceses (como o angevino) toma a pronúncia ven (/vẽ/), pelo que, a aceitar esta tese, Sacavém significaria então «odre de vinho» – hipótese que, apesar de tudo, não é de todo despicienda, se atendermos ao facto de a localidade se ter tornado um importante centro produtor vitivinícola (como de resto toda a região envolvente) ao longo da Idade Média.[13]

A versão popular do nome[editar | editar código-fonte]

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Como em muitas outras terras portuguesas, a população tratou de explicar o nome da povoação forjando uma etimologia muitas das vezes à revelia de quaisquer leis linguísticas. Assim, em Sacavém, segundo "boatos mais regionais", o nome Sacavém teria tido a sua origem noutro contexto: os trabalhadores que descarregavam a sua mercadoria nas margens do Rio Trancão, diziam entre eles durante a execução do trabalho, segundo o que é dito, «Saca» e «vem», e daí, portanto, formar-se-ia o nome Sacavém.

Contudo, a origem do nome permanece muito ambígua, e o local certamente mereceria uma mais aprofundada pesquisa e exploração, de forma a averiguar mais concretamente muitos aspectos que continuam controversos nos nossos dias, como por exemplo, a própria origem do nome.

Reconquista[editar | editar código-fonte]

De acordo com a tradição, Sacavém foi tomada aos Mouros por D. Afonso Henriques, em 1147, na sequência da quási-lendária Batalha de Sacavém (cujos primeiros relatos datam tão-só do século XVI, e que, embora coligidos no século XVII na Monarquia Lusitana, têm sido considerados como um mito desde Herculano[14] ).

Idade Média[editar | editar código-fonte]

Século XII[editar | editar código-fonte]

Pela fertilidade das suas terras, Sacavém tornou-se, pouco depois da reconquista cristã, sede de um reguengo da Coroa portuguesa, conhecendo importante incremento agrícola; as principais culturas da povoação, tal como no resto da Estremadura, seriam aquelas tipicamente mediterrâneas: a vinha e a oliveira, a par do trigo, o principal cereal. De destacar também a exploração das salinas, abundantes no seu território até ao século XVIII, bem como ainda o transporte fluvial de vários produtos hortícolas oriundos do interior do Termo de Lisboa para a futura capital do reino, que irão caracterizar a povoação nos séculos vindouros. Nesse contexto começará a ganhar forma um porto fluvial na confluência do Tejo com o Trancão, e que teve relativa importância até ao século XVIII como porto interior. De resto, é em torno do seu rio, da sua ponte e do seu porto que a história de Sacavém ao longo desses séculos se escreverá.[15]

D. Afonso Henriques, mítico conquistador de Sacavém.

A primeira referência histórica escrita que conhecemos relativa a Sacavém data apenas de um documento eclesiástico de 1 de Maio de 1191 (isto é, quarenta e quatro anos depois da conquista de Lisboa); aí se alude à divisão dos bens feita pelo rei D. Sancho I para resolver as frequentes contendas entre o bispo de Lisboa, D. Soeiro Anes, e o seu cabido. Por este documento, o bispo cedia as prebendas da igreja de São Pedro de Alfama ao cabido, e reservava para si as das igrejas de Sacavém, Frielas, Unhos e Vila Verde dos Francos, as quais até então pertenciam à fábrica do cabido.[16]

Sabe-se que a Igreja Matriz de Santa Maria de Sacavém era uma das igrejas colegiadas do Termo de Lisboa (a par das de Nossa Senhora do Carvalho de Bucelas, São Julião de Frielas, São João Baptista do Lumiar e São Silvestre de Unhos),[17] o que significa que a igreja sacavenense era provida de dignidades em tudo semelhantes às do cabido da Sé de Lisboa, sendo regida por um prior, ao invés de um mero presbítero (vulgo padre); por esse mesmo motivo, até hoje a intitulação oficial do pároco de Sacavém continua a ser a de prior.

Século XIII[editar | editar código-fonte]

Do século XIII existem referências à existência de uma gafaria dedicada a Santo André, associada a uma capela com o mesmo orago, e ainda um hospital/albergaria, dito de Gonçalo Vaz, para os pobres (na época, as várias funções assistenciais eram exercidas pelas mesmas instituições – essencialmente corporações religiosas que se uniam debaixo de uma mesma devoção – e assim tratava-se não apenas dos peregrinos, como também dos pobres e dos leprosos). O abastecimento de água potável era feito, quer através do Trancão, quer através de um poço – o Poço dos Trapos.[17]

Sacavém surge referenciada nas inquirições realizadas por D. Afonso II, em 1220, como terra onde exercia a sua autoridade o almoxarife de Lisboa; as inquirições levadas a cabo por D. Afonso III em 1258 dão conta de que as salinas existentes na povoação eram pertença da Ordem de Santiago.[18]

Segundo Pinho Leal, por esta época contaria a freguesia com 900 fogos, número que parece claramente exagerado para uma pequena povoação como Sacavém na Idade Média.[9]

Ainda assim, a povoação devia ser já um centro urbano de alguma importância no quadro do Termo de Lisboa. Uma lei de D. Dinis,[19] datada de 1287, dá conta de um imposto geral aplicado aos tabeliães de uma parte significativa do Reino de Portugal (com exclusão dos da comarca de Antre Tejo e Odiana e Além-d’Odiana – regulamentada por lei posterior –, do Reino do Algarve, bem como ainda de certas terras coutadas – Braga, Porto ou Alcobaça). Aparece aí arrolada, entre várias outras povoações da diocese de Lisboa (Lisboa, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Óbidos, Porto de Mós, Povos, Santarém, Sintra, Torres Novas, Torres Vedras e Vila Nova de Ourém), a paróquia de Sacavém, contando esta com 1 tabelião, mas desconhecendo-se o valor do respectivo imposto (situação, de resto, também verificada nos casos de Alenquer, Arruda, Sintra e Torres Vedras). Como em Porto de Mós e Vila Nova de Ourém, existindo dois tabeliães, estes pagavam 45 libras anuais à Coroa, é de supor que talvez a contribuição pecuniária do tabelião de Sacavém fosse inferior a estas – embora, por exemplo, o concelho de Povos, ao Norte de Vila Franca de Xira, com apenas também um tabelião, pagasse um valor superior (60 libras); esse número, contudo, foi mais tarde reduzido a apenas 24 libras anuais.[20]

Entretanto, dois anos antes, em 1285, a autonomia do reguengo de Sacavém-Frielas havia saído reforçada quando D. Dinis celebrou uma Concórdia com a Câmara Municipal de Lisboa, relativamente a vários agravos que opunham o monarca à edilidade lisboeta. Um desses agravos prendia-se com o facto de os alvazis dos reguengos de Sacavém e Frielas terem ganho, em data um pouco anterior à da Concórdia, autonomia face ao município de Lisboa, podendo julgar os vizinhos de Lisboa que aparecessem no território reguengueiro, não tendo os alvazis que dar justificação ao concelho; a Câmara queixou-se então ao rei, pedindo para que se voltasse à fórmula antiga, que exigia que os alvazis do reguengo se tornassem de novo subalternos, prestando preito e menagem à Câmara de Lisboa, por forma a que os cidadãos de Lisboa não pudessem fugir às justiças municipais. A Câmara, porém, acabou por desistir das suas intenções, de tal forma que, segundo Marcello Caetano, no seu estudo consagrado à administração municipal de Lisboa, em 1319, Sacavém e Frielas possuíam já uma organização que lhes permitia ser chamados de concelhos;[21] de resto, quatro anos antes, em 1314, o mesmo rei havia também concedido autonomia aos reguengos de Ribamar, Oeiras e Algés, na metade ocidental de Lisboa.

No final deste século (1288), o prior da paróquia sacavenense surge entre os nomes dos vários religiosos que pedem ao Papa Nicolau IV a instituição de um studium generale na cidade de Lisboa: nela figuram também como confirmantes os nomes do Dom Abade do Mosteiro de Alcobaça, os Priores de Santa Cruz de Coimbra, de São Vicente de Lisboa, de Santa Maria de Guimarães e de Santa Maria da Alcáçova de Santarém, assim como os reitores das Igrejas de São Leonardo de Atouguia (da Baleia), São Julião de Santarém, São Nicolau de Santarém, Santa Iria de Santarém, Santo Estêvão de Santarém, São Clemente de Loulé, Santa Maria de Faro, Santa Maria e São Miguel de Sintra, Santo Estêvão de Alenquer, Santa Maria e São Miguel de Torres Vedras, São Pedro de Torres Vedras, Santa Marinha de Gaia, Santa Maria da Lourinhã, Santa Maria de Vila Viçosa, Santa Maria da Azambuja, Santa Maria de Sacavém, Santa Maria de Estremoz, Santa Maria de Beja, Santa Maria de Mafra e Santa Maria de Mogadouro.

Em 13 de Maio de 1290, D. Dinis concede a um tal Pedro Martins da Romeira a exploração vitalícia (posto que já lhe fora aforada antes dessa data) da barca do reguengo de Sacavém, «pro multo servicio que fez» a el-rei.

Ainda do final do século (20 de Fevereiro de 1295) é o documento de doação dos reguengos de Sacavém, Unhos, Frielas e Camarate, por D. Dinis, a sua filha D. Constança (futura rainha de Castela pelo seu casamento com Fernando IV), incluindo todos os direitos, padroados de Igrejas, etc. A doação foi feita em sua vida, pelo que com a morte da infanta, em 1313, os reguengos retornaram à posse da Coroa..[22]

Século XIV[editar | editar código-fonte]

Sacavém no património do almirantado…[editar | editar código-fonte]

Tendo os reguengos de Sacavém, Unhos, Camarate e Frielas regressado à posse da Coroa, em 1313, por morte da infanta D. Constança, pôde D. Dinis servir-se dos seus rendimentos para com eles instituir os bens do Almirantado de Portugal.

Assim, por contrato celebrado em 1 de Fevereiro de 1317, D. Dinis encarrega o genovês Manuel Pessanha de reorganizar a armada portuguesa, atribuindo-lhe em recompensa o título de Almirante de Portugal, assim como uma tença anual no valor de 3000 libras «em dinheiros da moeda de Portugal», repartidas por três prestações de igual valor a vencerem nos meses de Janeiro, Maio e Setembro, e oriundas das rendas do reguengo de Sacavém (a par dos de Unhos, Frielas, Camarate e, mais tarde, a partir de 24 de Setembro de 1319, do de Algés e ainda da vila de Odemira). Este contrato viria a ser sucessivamente confirmado na pessoa de Manuel Pessanha por cartas de mercê de 10 e 23 de Fevereiro de 1317, 14 de Abril de 1321, 21 de Abril de 1327, e na de seu filho e herdeiro à frente do almirantado, Lançarote Pessanha, em 20 de Setembro de 1356, e de novo em 1368, 1370, 1371 e 1372.[23]

É compreensível que Sacavém fosse uma das terras doadas ao almirante Pessanha, já que, a nível eclesiástico, tinha das maiores prebendas do concelho e termo de Lisboa; com efeito, segundo um documento de 25 de Março de 1325 – do qual se conhece o traslado efectuado em 1747 pelo engenheiro-mor do Reino e guarda-mor da Torre do Tombo, Manuel da Maia (o reconstructor da Baixa Pombalina), e depois transcrito por Fortunato de Almeida na sua monumental História da Igreja em Portugal –, os juízes executores da cidade e concelho de Lisboa taxaram a Igreja de Santa Maria de Sacavém no valor de 650 libras, e «o comum dos raçoeiros dela, com respectivos apréstimos», em 180 libras, sendo que apenas eram taxadas em valor superior a mesa episcopal (18 000 libras) e a mesa capitular (12 742 libras) do bispado, assim como o Mosteiro de São Vicente de Fora (1300 libras), o convento do mesmo mosteiro (1850 libras), e o Mosteiro das «Donas de Odivelas», com as igrejas anexas de São Julião de Santarém, Santo Estêvão de Alenquer e São Julião de Frielas com a respectiva vigararia (2000 libras) – o que atesta bem a riqueza da freguesia de Santa Maria de Sacavém na Idade Média; a título de exemplo, as igrejas vizinhas de São João Baptista do Lumiar pagava apenas 300 libras, e os seus raçoeiros 80; a Igreja de Santa Maria de Loures, outras 300; a de São Julião do Tojal, apenas 100; a de Santa Maria de Bucelas, 250, e a de São Silvestre de Unhos, 300, com os respectivos raçoeiros a pagarem 80 libras.[24]

…e terra reguengueira[editar | editar código-fonte]

Não obstante a doação ao Almirante, o rei continuava a manter os seus privilégios em Sacavém, dado tratar-se de terra reguengueira. Em 13 de Março de 1338, num contrato de aforamento «de huũa courela de vinha na pelaçam, freguesia de freelas», alude o rei D. Afonso IV a um Gonçalo Martinz, «meu scriuam dos meus Regaengos de Sacauem e de ffreelas»; por aí se depreende que o reguengo de Sacavém e Frielas deverá ter continuado a manter sua importância relativa no quadro das freguesias do Termo de Lisboa, podendo tal depreender-se da referência a dois tabeliães, Afonso Braz (tabelião de Sacavém) e Gomes Perez (tabelião de Frielas), nesse mesmo documento. Em outros dois instrumentos de compra e venda de uma adega em Frielas por el-rei, datados de 17 de Junho e de 25 de Julho do ano seguinte, já o mesmo Gomes Peres surge referenciado como único «tabaliom de ffreelas e Sauauem [sic]».[25]

Mais tarde, de uma carta de doação do Mosteiro de Chelas, datada de 1347, se alude de novo à figura do tabelião público («Gomez Perez Tabellíom de Sacauẽ», provavelmente o tabelião anteriormente citado como estando em Frielas), figurando este entre as testemunhas da dita doação.[26] Por esta época, aliás, as monjas crúzias do Mosteiro de Chelas deveriam deter em Sacavém vários prédios urbanos e rurais; nestes últimos cultivava-se predominantemente a vinha e a oliveira.

Para além de tabelião régio, o reguengo de Frielas-Sacavém dispunha também de um almoxarife próprio (oficial régio responsável pela arrecadação dos tributos), o que vem mais uma vez denotar a importância desta riquíssima terra regalenga: de um documento de 15 de Agosto de 1312, D. Dinis, desejando fazer graça e mercê ao Real Mosteiro de Odivelas, de sua fundação, concede-lhe a posse de uma salina que pertencera a um oficial das justiças de seu pai (Vicente Pássaro), nomeando para tal Silvestre Garcia, seu almoxarife em Frielas-Sacavém, e Estêvão Vicente, seu escrivão no mesmo reguengo, para que logo procedessem à transferência da propriedade para o seu novo donatário.[27]

Deste período conhece-se também o nome do Prior da Igreja Sacavenense, um tal Petrus Iohannis (em vulgar, talvez Pedro Joanes ou Pedro Eanes ou mais provavelmente ainda Pêro Anes), que cumulava o cargo com as funções de cónego das Sés de Braga e Coimbra, figurando o seu nome na descrição de um selo pendente presente num treslado em pública-forma de uma procuração, relativa a uma questão sobre a lezíria da Atalaia, no termo de Santarém, e inclusa no Livro 5 da Chancelaria de D. Dinis (o conhecido Livro das Lezírias). Nela pode ler-se: «Sigillum Petri Iohannis Bracarensis Colimbriensis canonicj et prioris sancte Marie de Sacauen», ou seja Selo de Pedro Eanes, cónego bracarense e conimbricence e prior de Santa Maria de Sacavém.[28]

Entretanto, em 1344, o bispo de Évora D. Afonso, constatando a vaga da paróquia de Sacavém por morte do presbítero Fernando Fernandes, pedia a anexação desta, juntamente com várias outras (Santa Maria de Azambuja, Santa Maria de Guimarães, Santa Maria de Torres Vedras, Santa Maria de Óbidos) e São Tiago de Óbidos, às paróquias de apresentação da Universidade, indicando os rendimentos da paróquia sacavenense, num total de seiscentas e cinquenta libras.

Em 19 de Setembro de 1352, o bispo de Lisboa, Teobaldo de Castillon solicitava ao Papa Clemente VI o canonicato e as prebendas da paróquia de Santa Maria de Sacavém, em favor de Gomes Vasques Moutinho, sacerdote da diocese de Lisboa. Em 30 de Setembro de 1353, era a vez do bispo de Évora, João Afonso, requerer o mesmo canonicato a favor do mesmo presbítero.

No começo do reinado de D. Pedro I (1357), o monarca procede à confirmação de vários privilégios das vilas e povoações do reino, que vinham já dos reinados anteriores, encontram-se nesse contexto duas referências distintas ao reguengo de Sacavém e Frielas na sua chancelaria. Assim, a 11 de Setembro desse ano, em carta dada em Leiria, o monarca confirma e outorga «todos seus priujlegios foros liberdades e bons costumes que sempre ouuerom, etc.» aos concelhos (isto é, à assembleia dos homens-bons das vilas ou povoações reunidas em conselho) de Besteiros, Covilhã, Guarda, Leiria, Mendiga, Monsaraz, Montalegre, Sacavém e Frielas, Santa Comba Dão, Serpa, Serro Ventoso e Soure, bem como ainda aos Mosteiros de Alcobaça e Arouca, ao Bispado do Porto, às Ordens do Hospital e Santiago, ao Estudo Geral de Coimbra e às comunas judaicas de Coimbra e Beja. Em Tentúgal, a 10 de Outubro do mesmo ano, volta a confirmar os privilégios a outras localidades, e desta vez refere-se apenas ao «concelho do reguengo de Sacauém», em conjunto com a aldeia de Cuba, termo de Beja, os concelhos de Asseiceira e Atalaia, e os moradores de Azeitão.[29]

Mais tarde, ainda no seu reinado, em 30 de Julho de 1365, o mesmo monarca deu em tença a um Afonso Domingues os direitos de que auferia sobre as vinhas e oliveiras nos reguengos de Sacavém.[29]

D. Leonor Teles de Menezes, senhora de Sacavém (1371–1384).
D. João, Mestre de Avis, que reintegrou Sacavém no termo de Lisboa e de seguida a doou ao Condestável Nun'Álvares.

Entretanto, em 24 de Janeiro de 1363, o cardeal-bispo de Frascati, Nicola Capocci, pedia ao Papa Urbano V a perpétua porção da paróquia de Santa Maria de Sacavém, em favor de Martinho Anes, presbítero da diocese de Évora; no ano seguinte (10 de Janeiro de 1364), era a vez de essa porção ser pedida para Martinho Rodrigues, clérigo da diocese de Burgos. Por fim, em 17 de Setembro de 1365, era a mesma prebenda requerida para Domingos Lourenço.

Sacavém nas crónicas de Fernão Lopes[editar | editar código-fonte]

… na Casa das Rainhas[editar | editar código-fonte]

Ainda no final do século XIV, D. Fernando I doou solenemente, através de carta de arras, a sua esposa D. Leonor Teles de Menezes, pouco após o seu casamento em Leça do Balio, os reguengos de Sacavém, Frielas e Unhos, e a terra de Melres de Riba Douro, bem como ainda as vilas de Abrantes, Alenquer, Almada, Atouguia da Baleia, Aveiro, Óbidos, Sintra, Torres Vedras e Vila Viçosa, com todos os seus termos, herdades, casais, portos, pescarias, direitos reais, dízimas, rendas, tributos, padroados e jurisdições, passando todas estas terras a integrar o património da Casa das Rainhas (conforme relata Fernão Lopes[30] ).

… nas Guerras Fernandinas[editar | editar código-fonte]

O mesmo Fernão Lopes, no prólogo à mesma crónica, alude ao rio de Sacavém, dizendo que vinham a Lisboa muitos navios de «desvairadas partes», e que «estavam à carga no rio de Sacavém e à ponta do Montijo, da parte de Ribatejo, sessenta e setenta navios em cada logar, carregando de sal e de vinhos».[31] Tal atesta bem a importância que tinha então o porto fluvial de Sacavém.

Ainda na mesma crónica, Fernão Lopes afirma que, durante a terceira guerra fernandina (1381–1382), uma esquadra inglesa, destinada a auxiliar o rei português nas suas pretensões ao trono de Castela, fundeou no Tejo, ao largo de Lisboa; contudo, o seu comandante, o Conde de Cambridge Edmundo de Langley (futuro Duque de York, filho de Eduardo III e irmão de João de Gant, Duque de Lencastre), avisado da eminência da chegada de uma frota castelhana vinda de Sevilha, comandada pelo almirante Fernando Sánchez de Tovar, decidiu conduzir a sua armada para porto seguro, tendo D. Fernando acordado com ele «que era bem que aquela frota e outros navios que hi jaziam, que se fossem todos a Sacavem, que som duas legoas da cidade, e ali se lançassem todos por jazerem seguros».[32] O amontado da frota anglo-lusa no estuário do Tejo, na foz do rio de Sacavém, deveria ter causado um aparatoso efeito dissuasor sobre os castelhanos, de tal forma que «quando chegaram ante a cidade, acharom o mar desembargado de navios, e souberom como todos jaziam em Sacavem; e quando allá forom e virom o rio guardado e as naos estar d'aquela guisa, tornarom-se, e nom acharom em que fazer damno segundo seu desejo, e forom-se pera Sevilha».[32] As naus inglesas estiveram ancoradas em Sacavém desde finais de Agosto até 13 de Dezembro de 1381, data em que rumaram de novo a Inglaterra.

… na Crise de 1383–85[editar | editar código-fonte]

Fernão Lopes volta a citá-la na Crónica de el-rei D. João I, no contexto da crise de 1383–85 e do cerco que os Castelhanos impuseram a Lisboa em 1384:

«Uma barca em que ia Gonçalo Gonçalves Borjas, deferiu por fazer viagem pera o Restelo, e o vento contrairo a levou per força caminho de Sacavém.».[33]

Doação ao Santo Condestável[editar | editar código-fonte]

Não obstante pertencer ao património de Leonor Teles, Sacavém tomou voz pelo Mestre de Avis, sendo como recompensa subtraída (a par de Unhos, Frielas e Camarate) da Casa da Rainha, e reintegrada na jurisdição cível e criminal do Termo de Lisboa, em 4 de Maio de 1384; três dias mais tarde, a 7 de Maio, D. João fez doação, enquanto fosse sua mercê, de todas as rendas e direitos que pudesse render o barco de Sacavém a Álvaro do Rego; finalmente, no dia 7 de Abril de 1385, um dia após a sua eleição como rei nas Cortes de Coimbra, D. João I entregava os reguengos de Sacavém, Camarate, Frielas e Unhos ao Condestável do Reino D. Nun’Álvares Pereira, com todos os seus termos, salinas, e demais direitos, ficando este património adstrito aos bens do Condado de Ourém, no qual Nun'Álvares fora recentemente investido pelo rei.

Entretanto, em Maio de 1393, segundo se relata na Corónica do Condestabre de Portugal, o Condestável procedeu a uma repartição de benefícios e terras pelos cavaleiros que o haviam auxiliado na guerra contra Castela e ao serviço do Mestre de Avis, cedendo para tal o seu usufruto, embora mantivesse a plena propriedade dos mesmos. O «barco de Sacavém» foi assim entregue a João Afonso de Alenquer, (descrito como «contador da sua Casa»[34] ), e que depois viria a ser Vedor da Fazenda de D. João I e um dos principais apoiantes da tomada de Ceuta, em 1415.

Por via da filha do Condestável, Beatriz Pereira de Alvim, que viria a casar com D. Afonso, Conde de Barcelos, filho legitimado do novo monarca e futuro Duque de Bragança, este património acabaria por se tornar numa honra da poderosa Casa de Bragança (a actual Quinta de São José fez inclusivamente parte do património dos Braganças no século XVII), a qual incluía ainda as freguesias da Apelação, Charneca, Camarate, São João da Talha e Unhos.

A actual Quinta de São José fez parte do vastíssimo património da Casa de Bragança em Portugal.

Em 1387, a povoação de São João da Talha (até aí chamada de Sacavém Extra-Muros) autonomizou-se face a Sacavém, ficando também integrada nesta nova honra senhorial; por fim, em 1397, separava-se de Sacavém a nova freguesia de Santa Maria dos Olivais, por acção do arcebispo de Lisboa, D. João Anes.

Século XV[editar | editar código-fonte]

No início do século XV, com o aumento do número de judeus em Portugal, segundo os estudos levados a cabo por vários historiadores, aumentou também o número de comunas judaicas, que passaram de cerca de trinta no século XIV, para quase cento e quarenta, no século XV. Uma delas situar-se-ia em Sacavém, ficando a judiaria confinada nas imediações da povoação.

A morte da rainha Filipa de Lencastre[editar | editar código-fonte]

Surgem alusões a Sacavém nas crónicas de Rui de Pina e Duarte Nunes do Leão, afirmando este último cronista que para esta povoação se retirou a família real quando se iniciou um surto de peste na capital, em 1415, nas vésperas da tomada de Ceuta. Segundo estes cronistas, foi na ermida dos Mártires de Sacavém que teria falecido, a 19 de Julho, a rainha D. Filipa de Lencastre, vitimada pela peste, mesmo antes do embarque do rei D. João I e dos seus filhos para Marrocos. No entanto, segundo Gomes Eanes de Zurara (na Crónica da Tomada de Ceuta), a família real teria procurado escapar para Odivelas, a fim de evitar a peste, advogando assim que o óbito da rainha se teria dado no mosteiro de São Dinis de Odivelas, e não em Sacavém – versão que acabou por se tornar a mais aceite.

Não deixa de ser curioso notar que é de Sacavém que é datada uma carta que Ruy Díaz de Vega (um espião ao serviço do rei de Aragão, Fernando de Antequera), redigida dez dias após a morte da rainha (29 de Julho), e dando conta do enterro da monarca e dos preprativos para a viagem que se suspeitava que iria, ou para Gibraltar, ou para Ceuta.[35]

A rainha-regente D. Leonor de Aragão.

A regência do Infante D. Pedro[editar | editar código-fonte]

No final da década de 1430 e começos da de 1440, face às desavenças entre Leonor de Aragão, a rainha-viúva (que D. Duarte deixara encarregue da regência do reino), e o infante D. Pedro, Duque de Coimbra, seu cunhado, que alguns grupos sociais desejavam ver à frente da regência, durante a menoridade de D. Afonso V, a região de Sacavém foi palco de intensa actividade diplomática por parte dos dois co-regentes. A rainha estabeleceu-se com o Rei, o Príncipe D. Fernando e as restantes infantas na povoação, nos começos de Agosto de 1439, assinando a partir daí inúmeros documentos; D. Pedro deslocava-se entre Lisboa (onde mantinha a sua residência) e Sacavém com relativa assiduidade, a fim de os subscrever.

O infante-regente D. Pedro, Duque de Coimbra.

Esta situação manteve-se até começos de Setembro seguinte, sendo de 16 de Setembro a última carta assinada pelos dois (na vizinha povoação de Camarate, onde acabou por se estabelecer durante algum tempo, dada a maior proximidade com Sacavém), antes de o infante D. Pedro partir para o seu paço senhorial em Tentúgal. A rainha permaneceu em Sacavém até 25 de Setembro, data em que se mudou para Alenquer; sobre este facto escreve Rui de Pina que «a Raynha se partio com ElRey e seus filhos e sua Casa pera Alanquer, muyto revosa dos movimentos e alvoroços de Lixboa, e pouco segura em Sacavem onde estava, por ser Aldea fraca e tam perto da Cidade».[36]

Para se resolver a questão da regência, convocam-se Cortes para Lisboa em 1439, nas quais os Três Estados decidem atribuir a regência ao infante. Nos começos de 1440, passou o Duque de Coimbra cerca de mês e meio em Sacavém (23 de Fevereiro a 6 de Abril), conforme se depreende do escatocolo de várias cartas por si assinadas, relativas a decisões tomadas nas Cortes do ano anterior.[37]

Sacavém, honra da Casa de Bragança[editar | editar código-fonte]

Em 4 de Abril de 1422, pouco antes de ingressar no Convento do Carmo (que fundara anos antes em Lisboa) como Frei Nuno de Santa Maria, O.Carm.), Nun'Álvares Pereira procedeu a uma nova repartição dos seus bens, tendo doado o Condado de Ourém ao seu neto D. Afonso; nesse mesmo documento declara-se também que o Condestável procedera à doação da «barca de Sacavém», com todas as suas rendas e direitos, a Gil Airas, seu escrivão da puridade. A execução do testamento de Nun'Álvares, que faleceu em 1431, conferindo o reguengo e o barco de Sacavém a seu neto D. Afonso, foi confirmada pelo rei D. Duarte por carta de 24 de Novembro de 1434.

Por morte do Conde D. Afonso em 1460, sem filhos lídimos, o seu património reverteu a favor de seu irmão, D. Fernando, Conde de Arraiolos e futuro Duque de Bragança, a posse deste território. O novo chefe da Casa de Bragança congregava assim, de novo, a plenitude do património adquirido por Nuno Álvares Pereira logo no começo do reinado de D. João I.

Pouco tempo volvido, o rei D. Afonso V passa uma temporada significativa em Sacavém (entre 25 de Fevereiro e 1 de Abril de 1463), período em que deu ao despacho quase noventa documentos constantes da sua chancelaria.

Em 22 de Junho de 1476, na sequência de uma longa disputa com a Universidade de Lisboa, é delimitada a paróquia da Charneca de Sacavém, desanexada da freguesia de Sacavém, mas que se mantinha no perímetro do seu reguengo [38] .

Fazendo agora parte do património dos Braganças, Sacavém comungou dos momentos de grandeza (mas também dos de desgraça) daquela casa ducal. Assim, aquando da execução do terceiro duque, D. Fernando II, em Évora (20 de Junho de 1483), e o subsequente confisco dos bens, a honra de Sacavém retornou à Coroa, como reguengo (uma carta régia de 28 de Julho de 1483, subscrita por D. João II em Setúbal, dava a um D. João da Guerra um quarto da fruta, do dízimo e do pescado dos reguengos confiscados ao duque de Sacavém, Unhos, Camarate, Frielas e Charneca).

Em Sacavém pernoitou, a caminho do seu último encontro com o rei D. João II, Cristóvão Colombo, recém-chegado das Américas, como nos relata no seu diário:

«Viernes, 8 de marzo
[…] y así lo hizo por quitar sospecha, puesto que no quisiera ir, y fue a dormir a Sacamben. […]
Sábado, 9 de marzo
Hoy partió de Sacamben para ir adonde el Rey estaba, que era el valle del Paraíso, nueve leguas de Lisboa[…]»

Quando D. Manuel I ascendeu ao trono em 1495, restaurou a Casa de Bragança e devolveu-lhe os bens que outrora detivera, no número dos quais se incluía, naturalmente, a honra de Sacavém. Doravante, e até ao fim da monarquia em 1910, o Duque de Bragança (e, a partir de 1640, o rei de Portugal), seria o senhor de Sacavém, e nessa condição detinha vários privilégios, designadamente o de padroado, apresentando o prior da localidade (o qual recebia 240$000 de réis), e mais seis beneficiados; recebia ainda a portagem cobrada pelo atravessamento da ponte sobre o rio Trancão.

Uma outra referência indirecta à povoação acha-se num pedido dos procuradores da Câmara de Lisboa às Cortes de Leiria de 1438, conforme documento existente no famoso Livro dos Pregos, segundo o qual se pedia que os portos fluviais do Tejo (entre os quais o de Sacavém), onde há muito se verificava o transporte de mercadorias, estando a começar a assorear, devessem ser limpos por forma a evitar o assoreamento.

Idade Moderna[editar | editar código-fonte]

Ruas estreitas, vielas e «escadinhas» (como a da foto – a do Barão de Sacavém) ligando as duas metades de Sacavém (Sacavém de Cima e Sacavém de Baixo) são herança do urbanismo medieval na moderna Sacavém.

Século XVI[editar | editar código-fonte]

Um período de desenvolvimento sem paralelo[editar | editar código-fonte]

Neste período, Sacavém cresceu urbanamente, quer em direcção aos Olivais (através da sua Rua Direita, actual Rua Almirante Reis, orientada no sentido de Lisboa), quer ainda em direcção ao Tejo e ao Trancão, pela Rua dos Mastros (actual Rua José Luís de Morais, que também efectuava a ligação entre Sacavém de Cima e de Baixo, e conduzia à ponte que a ligava à margem a Norte do Trancão). No essencial, as ligações viárias fundamentais permaneceram praticamente inalteradas até meados do século XX.

Era por aqueles dois rios citados que passava o grosso da actividade comercial de Sacavém; o Trancão era mesmo a principal via de escoamento de produtos da zona saloia do Termo de Lisboa, estando repleto de embarcações até ao terramoto de 1755. Na margem do Trancão, onde existiam já um porto fluvial com cais de atracagem, instala-se agora, com o período das descobertas martítimas dos Portugueses, um estaleiro naval (ou terecena), no qual se construíram, quilharam e/ou se calafetaram navios, não só mercantis, como também de guerra.[15] Tanto o porto como o estaleiro estiveram activos até ao século XVIII, por altura do terramoto de 1755, tendo contribuído intensamente para a importância económica do sítio de Sacavém, paralelamente com a produção das mais variadas espécies hortícolas e frutícolas das suas quintas saloias, elogiadas em relatos coevos, e que ao longo dos séculos permitiu o abastecimento de Lisboa com produtos frescos.

De facto, muito embora Sacavém vivesse em grande parte à custa do seu rio, não menos importante era o papel que a actividade agrícola tinha na freguesia: de uma carta de quitação datada de 26 de Janeiro de 1501, sabemos que o reguengo de Sacavém produzia, em igual proporção, o trigo e a cevada.[39]

Referências ao lugar de Sacavém durante o Século de Ouro[editar | editar código-fonte]

Do ano anterior (1500), conhece-se uma importante referência a Sacavém e ao seu almoxarife, na Carta do Achamento do Brasil, de Pêro Vaz de CaminhaPassou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer»). Presume-se que este Diogo Dias almoxarife de Sacavém fosse o irmão do navegador Bartolomeu Dias, e ele mesmo o responsável pela descoberta da ilha de Madagáscar.

Em 1511, a povoação de Camarate, em franco crescimento económico e demográfico, separa-se de Sacavém, por meio de foral outorgado por D. Manuel I, no dia 1 de Maio desse ano, reduzindo sensivelmente em metade a dimensão geográfica da freguesia-mãe.

Em 1516, ao dar à estampa o Cancioneiro Geral, Garcia de Resende inclui nele algumas trovas onde se faz menção a Sacavém, da autoria de João Fogaça e Diogo Fogaça, respectivamente:

De Joam Foguaça a huuma mula noua do comendador moor, que achou ao barco de Sacauem.
Ho barco de Ssacauem
achey a vossa mulata,
que me pareceo tam bem,
que me mata.
Se vos veyo de Castela,
ou se anda d’andadura,
nam no jurarey por ela,
mas a myn se m’afegura
que naceo em Paradeela.
tudo muy perfeyto tem,
senhor, a vossa mulata,
& pareceo me tam bem,
que me mata.
Ho barco de Ssacauem
achey a vossa mulata,
que me pareceo tam bem,
que me mata.
E que soes d'ela contente,
apostey dous Portugueses,
& fuy-lhe buscar o dente:
achey que no mes presente
çarra çerto trinta meses.
ho barco de Sacauem,
que passas a gram mulata,
a qual nam veraa ninguem,
que nam digua que o mata!
Ho barco de Ssacauem
achey a vossa mulata,
que me pareceo tam bem,
que me mata.
De Dioguo Fogaça a huuma dama muyto gorda, que se encostou a elle, & acahyram anbos, & ella disse-lhe sobre ysso mas palauras.
Que gentill feycam de damas!
nam sey como volo digua:
que tudo he cu & mamas,
& barrigua.
As mamas dam polo ventre,
o ventre polos joelhos,
& do cu at’oos artelhos
gordura sobresalente.
Arreneguo de tais damas,
he forcado que o digua:
ca tudo he cu & mamas,
& barrigua.
Corregeram na muy bem,
pero foy com muyta pena,
ca lhe fizeram querena
no rrio de Sacauem,
Reuolta d'ambalas camas;
ysto com muyta fadigua:
ca tudo he cu & mamas,
& barrigua.
Corregeram-lh’o costado,
mas a quilha fycou podre,
rramendaram-lh’a com hum odre,
do auesso trosquiado
& com tres peles de guamas
muyta estopa d’estrigua:
ca todo he cu & mamas
& barrigua
Nam prestou calafetar,
porque faz aguoa porfundo,
nam ha crespym no mundo
que lh’a podesse vedar.
Ho diabo dou taes damas
he forçado que o digua:
ca todo he cu & mamas
& barrigua.
Mas quebraram-lh’as estoras,
encostou-se sobre mym,
teue debayxo crespym
bem acerca de tres oras.
Ja rreneguaua das damas,
sayo, com muita fadiga,
debayxo de cu & mamas
& barrigua
.

Entre 1531 e 1533, aquando da visita aos mosteiros cistercienses na Península Ibérica (numa tentativa de moralizar a vida monástica dos monges peninsulares), realizada pelo Abade de Claraval Dom Edme de Saulieu, surge uma alusão a Sacavém e ao seu barco na obra Peregrinatio Hispanica, redigida pelo também cisterciense Claude de Bronseval, dizendo o seu relato, no dia 12 de Agosto de 1532, que «exiuit Dominus Vlixbonam et uenit transire barquam a Sacauent et iacere in burgo uocato Poue» (Monsenhor saiu de Lisboa e atravessou na barca de Sacavém e repousou no burgo chamado Póvoa [de Santa Iria]).[40]

O Convento de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição (hoje o Batalhão de Adidos do Exército Português), mandado erguer por Miguel de Moura e sua esposa Brites da Costa em Sacavém.

Em 1535 chegava a Lisboa Diogo Botelho Pereira, que cometeu a heróica proeza de viajar sozinho desde a Índia até Portugal numa simples fusta (uma embarcação de dimensão muito reduzida) aparelhada por si mesmo, a fim de contar ao soberano (que então se achava em Évora) que o se iniciara a construção da fortaleza de Diu sob os auspícios do governador do Estado da Índia, Nuno da Cunha. Segundo a narrativa de Diogo do Couto (na sua Quinta Década da Ásia, Parte Primeira, capítulo II), como Diogo Botelho não trazia cartas do governador que confirmassem a sua história, o rei não o quis crer, mas dirigiu-se porém a Lisboa, a fim de ver a embarcação em que cometera tal empresa. Segundo Couto, a fusta foi levada para terra firme, em Sacavém, aí tendo permanecido por vários anos (até cair aos pedaços), sendo visitada por inúmeras pessoas que não acreditavam no feito de Botelho; porém, Gaspar Correia, nas suas Lendas da Índia, refere que o rei a mandou queimar, para que «não se vulgarizasse a ideia de que era possível fazer a viagem em tão modesto meio».

De meados do reinado de D. João III, existe um documento, patente na chancelaria régia, pelo qual o monarca doou o rendimento de várias saboarias dos arredores de Lisboa (Amêndoa, Abrantes, Aldeia Galega da Merceana, Aldeia Galega do Ribatejo, Alhandra, Alhos Vedros, Almada, Alverca, Azeitão, Barcarena, Barreiro, Benfica, Carnide, Cascais, Castanheira, Cheleiros, Coina, Colares, Ericeira, Lavradio, Lumiar, Mafra, Palhais, Ponte de Sor, Povos, Punhete, Sacavém, Santo António do Tojal, Sardoal, Sesimbra, Sintra, Talha, Torrão, Vialonga e Vila Franca), que constituíam monopólio régio, às freiras do Mosteiro de Santa Clara de Lisboa.[41]

No Tratado da Majestade, Grandeza e Abastança da Cidade de Lisboa: estatística de Lisboa de 1552, composto por João Brandão de Buarcos, dá-se notícia de haver ao redor de Lisboa 1300 barcas para o comércio, sendo 120 partilhadas pelos moradores de Sacavém, Camarate, Unhos, Frielas, Tojal e Povos.

O Regimento dos Oficiais Mecânicos da Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa, composto em 1572, ordena que nenhum barco que passasse no rio de Sacavém pudesse transportar mais de oito pessoas em simultâneo, e estabelece ainda que não pudesse a dita embarcação ter por arrais nem «mouro, nem índio, nem negro, nem mulato», independentemente de ser escravo ou livre.

Os derradeiros anos do século XVI: a crise sucessória de 1580[editar | editar código-fonte]

No último quartel do século XVI, manteve prolífica actividade em Sacavém (onde possuía uma quinta) Miguel de Moura, escrivão da puridade del-rei D. Sebastião, membro do conselho de governadores do reino no tempo de Filipe II e ainda um dos padroeiros do Convento de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição, de Capuchinhas, que mandara fundar em conjunto com sua mulher Brites da Costa, a qual a ele se recolheu após a morte do marido.

Após a morte do cardeal D. Henrique, assume o poder o Conselho de Governadores do Reino de Portugal, por si nomeado; a população, não desejando ver a Coroa nacional unida a Espanha, aclama em Santarém, em 19 de Julho, o Prior do Crato D. António como rei. No dia 21, acompanhado por quinhentos homens a pé e a cavalo, põe-se em marcha para a capital, chegando a 23 a Sacavém, às portas de Lisboa, tendo sido sempre acolhido no meio de grande entusiasmo. Contudo, «à passagem do cortejo por Sacavém sucedia o primeiro episóido dramático do seu reinado: um tiro desgarrado, que alguns supunham ser dirigido contra o próprio monarca, foi atingir em cheio o fidalgo D. Francisco de Almeida, que caiu redondamente no chão».[42]

Por essa mesma altura, quando estava em causa a integração do reino de Portugal na Coroa das Espanhas, as potencialidades de Sacavém e do seu porto não passaram despercebidas a um dos principais militares castelhanos enviados a Lisboa, o almirante Álvaro de Bazán, Marquês de Santa Cruz de Mudela, o qual, numa carta ao rei Filipe II de Espanha (conservada na Sección de Guerra y Marina do Archivo General de Simancas), afirma que:

«[…] tener las naos en este rio de Lisboa no conviene pues se menoscaban y gastan más de amarras con los tiempos tormentosos que en él ay que otras naos ganan y que sería mejor tenerlas en el rio de Sacaven, que es dos leguas desta ciudad adonde con dos cabos de esparto y dos hombres estarían seguras y sin menoscabarse, ni con riesgo de perderse por no entrar allí mar que les pueda hazer daño y tener mucho abrigo que las naos que usan por se tan grandes no pueden entrar en el dicho río ni tampoco dexarían de entrar en los puertos de la Indias y hazer la navegación más a fín de estar allá el verano por negociar y despacharse sin riesgo. […]».[43]

Após a batalha de Alcântara, travada junto à povoação do mesmo nome, nos arrabaldes de Lisboa, em 25 de Agosto de 1580, o Prior do Crato, derrotado pelas forças do Duque de Alba, Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, e ferido com alguma gravidade, decide encabeçar a resistência no Norte do País, partindo de Lisboa rumo a Santarém, a vila que primeiro aclamara a sua realeza. Embora não se conheça o itinerário exacto da fuga, Joaquim Veríssimo Serrão sugere que, na fuga de Lisboa, D. António tenha passado ou por Sacavém, ou pelo Tojal, duas freguesias banhadas pelo Rio de Sacavém e onde existiam pontes que o conduziriam a Vila Franca de Xira, de onde tomou o caminho da Azambuja até Santarém.[44]

A grande peste de 1599[editar | editar código-fonte]

O Santuário da Senhora da Saúde alberga a imagem tardo-medieval da Senhora da Saúde desde a sua descoberta, aquando da grande peste de 1599.

Do final do século (1599), aquando dum grande surto de peste, foi descoberta a estátua da Senhora da Saúde, que a partir de então passou a ser venerada com especial carinho pelos sacavenenses, e colocada na capela de Santo André, então renomeada de Nossa Senhora da Saúde e de Santo André.

Século XVII[editar | editar código-fonte]

Ruína da ponte romana[editar | editar código-fonte]

Entretanto, com a ruína da velha ponte romana (referenciada como estanjo já em ruínas em 1570, como já foi dito, por Francisco de Holanda), sem ter sido jamais reconstruída, por incúria dos governantes, a travessia de pessoas e bens no rio de Sacavém teve que ser feita, doravante, através de uma barca; o Duque de Bragança, donatário da povoação e dos seus direitos alfandegários, arrendou aos barqueiros do Trancão a portagem no valor de 300 000 réis anuais. Inicialmente, cada cavaleiro pagava 3 réis de portagem; mais tarde, o Duque decidiu aumentar o valor do imposto, passando a cobrar 5 réis aos peões (que até então estavam isentos), 20 réis aos cavaleiros e animais de tiro, e 40 réis pelo transporte de carros. Estes preços exagerados levaram o monarca (então Filipe III de Portugal) a comparar com as taxas praticadas noutras vias fluviais, concluindo serem muito onerados os habitantes da região na travessia do rio de Sacavém. Emitiu-se então um regimento (datado de 25 de Maio de 1628), que procurou favorecer as populações, tendo-se regressado, v. g., ao valor de 3 réis de portagem, aplicado a todos os indivíduos.

Como alternativa, muitas pessoas preferiam deslocar-se um pouco mais, até ao Tojal, e aí atravessar o Trancão numa ponte em melhor estado.

Sacavém nas obras seiscentistas[editar | editar código-fonte]

O chantre da Sé de Évora, Manuel Severim de Faria, tendo realizado três viagens por Portugal entre 1604 e 1625, passou duas vezes por Sacavém, na primeira e na terceira viagens, dando conta das suas impressões sobre o local. Assim, da sua segunda viagem, em 1609, deixou-nos o seguinte relato:

«De Lixboa a Sacauem ha duas legoas. Sacauem he hum lugar de 100 vezinhos edificado polla comodidade de hum braço de Teio que polla terra dentro entra duas legoas ate Loures donde toma o nome. He este esteiro quando dezemboca no Teio de gram fundo; tanto que nelle entraõ navios de muitas tonelladas, e alguns galeons de carreira da Jndia, a larguesa naõ he muita e se passa este estreito por huã barca que he estanque do duque de Bragança herdado do Conde Nuno Alvres, a quem deu ElRey D. Joaõ primeiro e lhe rende seicentos cruzados. O Rio se uai estreitando polla terra dentro para a parte do Poente sempre em altura que navegaõ barcas, e de huã parte e de outra da ribeira esta cerquada de quintas fresquissimas, e de muitas marinhas, a ultima parte deste Rio dista pouco do de Alcantara, e rompendose huns valles que entre elles correm, se poderaõ comunicar sem muita deficuldade como o considerou excelentemente Luis Mendes de Vasconcelos. De Sacavém ate Pouoa he legoa e meia».[45]

Da viagem de 1625 deixa-nos Severim de Faria uma notícia muito mais sumária:

«[…] e quinta feira 18 de Setembro partimos todos para Lisboa e viemos jantar aquelle dia a Sacavem, e fomos hospedes dos frades, que assistem as freiras. Dipois do jantar pellas tres da tarde nos metemos em hum barco e fomos navegando rio assima vendo aquelle excelente sitio taõ cultivado de vinhas e pomares, e enobrecido com quintas, fomos ate Frielas donde fizemos volta, e viemos ia tarde a Sacavem e pusemonos logo a cavallo […]».[45]

Anos antes, em 1610, Francisco Rodrigues Lobo, compondo, em honra do seu protector, o Duque de Bragança D. Teodósio II, a epopeia O Condestabre de Portugal, refere-se por duas vezes à povoação que era cabeça de uma honra da Sereníssima Casa de Bragança:

«Deu-lhe Borba, Estremoz, Vila Viçosa,
A Portel, Montemor, e a Evoramonte,
Sacavém desejada, e graciosa
Que sempre o áureo Tejo vê defronte;
Porto de Mós tão fértil quão fragosa;
Rabaçal, e Alvaiázere outro monte;
Barroso, Arco de Baúlhe, Bouças, Pena,
Penafiel, Barcelos, Basto amena
» (Canto Décimo Quinto).
«[…] De Sacavém o barco desejado,
João Afonso por ele há de colhê-lo […]
» (Canto Décimo Sétimo).

Em 1620, aludia assim a Sacavém Frei Nicolau de Oliveira, na sua obra Livro das Grandezas de Lisboa:

«Passando o rio, ficam da parte de Lisboa as freguesias seguintes: Sacavém, onde há um mosteiro de religiosas franciscanas capuchas descalças, em número de trinta, sem terem servidoras; todas servem nas tarefas comuns do convento. Este lugar tem uma freguesia, com duzentos e sessenta fogos, e setecentas pessoas».[46]

Anos mais tarde, em 1629, Miguel Leitão de Andrada dá à estampa a sua Miscelânea do sítio de Nossa Senhora da Luz do Pedrógão Grande: aparecimento de sua imagem, fundação do seu Convento e da Sé de Lisboa, com muitas curiosidades e poesias diversas, na qual alude sucintamente, num registo vivo e curioso, logo nas primeiras páginas do seu «2.º Diálogo» (travado entre as personagens Galácio e Devoto), à barca do Rio Trancão (falando na supramencionada questão dos valores a pagar pela travessia do mesmo rio), à Ponte de Sacavém (então em ruína, lamentando a incúria da Câmara de Lisboa), ao porto onde se querenavam as naus, ao Mosteiro de Nossa Senhora dos Mártires e à Batalha do Rio de Sacavém:

Cquote1.png Diálogo Segundo
Dá-se a razão do Mosteiro de Nossa Senhora dos Martyres de Sacavém. E da ponte de pedra que ali havia e poderia haver agora. […]
Galácio: Pois até aqui viemos andando por todo esse vosso gabado sítio do Convento de Nossa Senhora da Luz, apertemos o passo, que parece vai desamarrando esta barca de Sacavém.
Devoto: Ó da barca!
Galácio: Paciência, que há havemos de esperar que torne.
Devoto: Esta he huma cousa em que eu a perco, haver de estar Lisboa como enfreada com esta barca, tanto contra sua nobreza e commodidade de seus moradores e caminhantes, podendo tão facilmente haver aqui huma ponte de barcas como em Sevilha, a pouco custo ou sem algum.
Galácio: Alguma cousa deve haver nisso de por meio, pois se não faz, sendo notoriamente tão necessária e útil.
Devoto: Nenhuma, que eu saiba, se não se for por se não prejudicar à renda que o Duque de Bragança tem desta barca, que se lhe arrenda em trezentos mil réis cada anno, tendo-a visto muitos que hoje são vivos, andar arrendada em dez ou doze mil réis cada anno, e pagar a três réis cada pessoa a cavalo e agora a vintém, pelo grande descuido dos da Câmara de Lisboa.
Galácio: Não parece deve ser a causa isso que dizeis do Duque, que sendo hum príncipe tão grandioso, não lhe devem de vir em consideração essas pouquidades em respeito do bem commum e grandeza de Lisboa, à qual se lho pedisse lhe largaria muito facilmente esta barca.
Devoto: Se isto não he, menos o deve ser o que dizem, que por causa das náos a que neste rio se dá querena, porque além de que já aqui se lhe não dá, se não da banda d'além; era fácil abrir-se essa ponte, e passada a náo tornar-se a fechar, ou fazer-se onde as náos lhes podessem dar essa querena pera a banda do mar. Nem menos o deve ser a passagem dos barcos, que navegão o rio acima, que podião tirar os mastros e passar; quanto mais, que os deste rio são tão pequenos, que com elles poderião passar por debaixo da mesma ponte; pelo que a razão do Duque, me parece considerável se alguma o causa ou impede, e poderá isso ter remédio muito fácil. Que com esse meio rela que chamão da ágoa, que novamente se impoz para a trazida de ágoa ao rocio, em cada quartilho de vinho, e real em cada arrátel de carne, se poderia satisfazer ao Duque, e fabricar-se aqui huma ponte de barcas.
Galácio: Comtudo, me parece muito custo haver-se de sustentar essa ponte, além do feitio della.
Devoto: Não seria senão muito pouco; porque, que cousa são seis ou sete barcas, que podem durar trinta ou quarenta annos? quanto mais que só as cavalgaduras a três réis bastava bem a esse custo, porque também acudirão os gados a esta passagem.
Galácio: Também haveria difficuldades e brigas sobre essa paga.
Devoto: Se na barca isso não acontece, menos seria na ponte; quanto mais, que se poderia pôr na entrada huma porta, e cessaria esse inconveniente. E eu digo isto em caso que a cidade a não pudesse sustentar de graça, o que fora grande nobreza de Lisboa, a que primeiro se houvera de acodir, que a outras cousas menos necessárias e menos nobres. Pois vemos que quando Lisboa era nada, em comparação do que hoje he, tinha aqui ponte de pedra, segundo agora se parece nos pedaços de piares que della ali vedes, desta banda e da outra.
Galácio: Isso seria há muitos mil annos, em tempo que este rio seria mais estreito, e menos fundo.
Devoto: A largura he a mesma, segundo mostrão os vestígios dos piares que vedes, que chega o rio a elles e não passa; e quanto a profundidade, ainda que seja mais, o que não sabemos, comtudo, bem se pudera refazer de pedra, que no fundo devem estar os alicerces ou bases dos piares; quanto mais, que a arte da architectura com dinheiro muito alcança e pode, pera se fazer de hum só arco: pois dizem, que he infinita esta arte sem termo. E vemos que naquelle tão famoso rio Danúbio, está ainda em pé a ponte que nelle mandou fazer o Imperador Trajano, com quási todos os piares inteiros por cima da ágoa cento e cincoenta pés, os vinte delles, que se parecem, e cada hum de sessenta pés de grossura, e o vão de cada arco de cento e sessenta pés. […] Por onde digno era da grandeza de Lisboa, haver aqui huma famosa ponte de pedra, ainda que se fintasse para isso todo o reino.
Galácio: Já nos contentáramos com ella de barcas.
Devoto: E eu dessa vos trato. Porém, ao que dissestes de se poder ter alargado este rio, o que aqui não fez, bem sei, que os rios vão comendo e abaixando as terras, e tenho pera mim que esses valles grandes e piquenos e essas várzeas e veigas espaçosas foram causadas das ágoas dos rios e enxurradas deles, e das cheias e chuvas, que vão comendo e levando a terra e descobrindo estas ossadas e penedias que o sol foi criando e coalhando debaixo da terra della mesma. […] Porém aqui não há esses milhares de annos, que cuidais havia esta ponte: porque no tempo que el-Rei D. Affonso Henriques, primeiro de Portugal, cercou Lisboa e a tomou aos Mouros, estando sobre ella teve aviso como a vinhão socorrer os Mouros da comarca de Alenquer. E sabendo havião de passar por esta ponte de Sacavém, lhes mandou tomar o passo com gente de cavallo (que não podia ser muita), os quaes achando já os Mouros, que quási todos a tinhão passado, tiverão com elles huma muito perigosa e desigual batalha, porque sendo muito poucos e os Mouros muitos, já a não puderam escusar sem se perderem, e delles houverão huma muito sinalada victória neste plano. Onde disseerão depois os Mouros virão huma molher que os cegava, e os desbaratou, que foi a Virgem Nossa Senhora, a cuja honra e por memória desta victória se edificou aquella igreja que ali vedes. A aqual nestes annos reedificou Miguel de Moura, que foi hum dos cinco Governadores que el-Rei Philippe, primeiro deste reino, deixou nelle, fundando ali aquelle mosteiro tão religioso de Capuchinhas. E a esta igreja de Nossa Senhora dos Mártyres, pelos cavalleiros que nella forão sepultados, que aqui nesta batalha peleijando forão mortos. Que naqueles tempos chamavão mártyres a todos que peleijando contra Mouros, erão mortos; como a igreja de Nossa Senhora dos Mártyres de Lisboa, que os Ingrezes fundarão neste cerco […] pera enterrarem seus mortos. […]
Galácio: Por essa conta não serão passados muitos centos de annos, que aqui havia esta ponte, pois esse cerco e a tomada de Lisboa foi no anno de 1147, segundo se vê nos letreiros que estão na Sé de Lisboa e o dizem os Chronistas todos, e o Padre Frei Bernardo de Brito, depois delles; e se essa ponte nesse anno estava inteira que se passava por ella como dessa batalha e passada dos Mouros se collige, e da tradição antiga e memórias, que disso há nesta igreja; e não devendo logo acabar-se, antes durar muitos annos essa ponte depois disso; fica claro, não serem, nem poderem ser passados muitos annos, ou centos de annos que durava essa ponte, e a havia aqui. Donde considero três cousas: primeira, a força do tempo em gastar e consumir tudo, até a memória do que foi. He que até as pedras têem também sua idade, pois vemos acabadas sem memória alguma, nem rasto, tantas cousas e tão grandes, que sabemos houve de edifícios e cidades. E quão depressa se acabou a memória de tudo, e de como a dessa ponte, de que parece não há outra, se não isso que me contais com estes pedaços que della vemos, por culpa de nossos passados ordinária daquelles tempos, sepultarem cousas grandes nas trevas do esquecimento, contentando-se com só a honra presente de as obrar. […] Cquote2.png.[47]

Sacavém e a Restauração[editar | editar código-fonte]

Segundo o Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico de Portugal, o nome da povoação surge citado numa enigmática carta codificada que um dos Conjurados de 1640, o Dr. João Pinto Ribeiro, dirigiu ao Duque de Bragança D. João; com efeito, tendo-se decidido, no dia 25 de Novembro, que a revolta deveria ter lugar dali a seis dias, João Pinto Ribeiro foi incumbido de comunicar o facto ao futuro monarca português, escrevendo-lhe que seria no dia 1.º de Dezembro seguinte «que se devia de resolver o caso dos freires de Sacavém» – localidade que era, como já foi dito, uma das honras da casa de Bragança, e onde se situava o Convento de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição, fundado por Miguel de Moura e sua esposa Brites da Costa no final do século anterior, e ao qual o Duque tinha isentado do pagamento de certas obrigações; tal alusão ao caso dos freires de Sacavém pressupõe que houvesse, talvez, alguma contenda que opusesse o mosteiro ao Duque, muito provavelmente ao nível de obrigações fiscais. Foi através desta mensagem codificada que se alertou o Duque de Bragança para as movimentações em curso destinadas a restaurar a independência de Portugal.[48]

Após a Restauração, aventou-se várias vezes a ideia (designadamente nos reinados de D. João IV e D. Afonso VI, com a guerra contra Espanha a decorrer), de ligar o rio de Sacavém ao Oceano Atlântico, fazendo-o desembocar na praia do Baleal, constituindo este curso de água que ia desde Sacavém a Peniche uma linha de defesa natural da capital; o projecto nunca foi levado avante, e foi-se gradualmente desvanencendo, embora ainda fosse recordado quando, no início do século XIX, se construíram as Linhas de Torres Vedras para deter os invasores franceses.

Do último quartel deste século, segundo Joaquim Veríssimo Serrão nos diz na sua História de Portugal, há notícia de haver falta crescente de peixe não só no Estuário do Tejo, como também nos rios seus tributários, no número dos quais se contava o rio de Sacavém. Isto porque se usavam redes de pesca com a malha «muito meuda» (os chinchorros), o que levou as autoridades lisboetas a invocarem uma postura municipal de 1591, que proibia a utilização de chinchorros; embora os pescadores se tenham amotinado contra os almotacés da capital (os responsáveis pelo abastecimento urbano, entre outras funções), em 1687, a probição manteve-se.

Em 1690, durante o reinado de D. Pedro II, o soberano financiou parcialmente a reconstrução da capela-mor da Igreja da Senhora da Vitória, a meias com o desembargador José Galvão de Lacerda (futuro chanceler-mor do reino, durante o reinado do seu filho D. João V), e contando ainda com a contribuição de esmolas populares.

Século XVIII[editar | editar código-fonte]

No século XVIII, realizavam-se em Sacavém grandes festas de touros, por ocasião do mês de Setembro, em homenagem a Santa Ana, como memora um curioso fólio conservado na Biblioteca Nacional de Portugal, intitulado Festas de Sacavem em obsequio da Senhora Sta. Anna: descripção dellas em o terceiro dia em que forão os Cavalleiros combatentes Francisco de Mattos e Jozé Roquete, da autoria de um tal Tomás Galo.[49]

Na primeira metade do século XVIII, foi pelo rio de Sacavém que seguiram os torreões do Convento de Mafra, em embarcações, até ao Tojal; só a partir daí faziam o resto do percurso por terra.

Por ordem de D. João V, o matemático Bento de Moura (1706–1776) foi encarregado de reformular a barca do Trancão, segundo refere o Padre João Baptista de Castro na sua obra de geografia Mappa de Portugal Antigo, e Moderno (1763). Este facto deu azo a que Pinho Leal escrevesse que havia sido construída uma ponte de barcas, supostamente anterior à mais conhecida ponte de barcas do País, que ligava o Porto a Gaia. No entanto, parece tratar-se de uma grosseira interpretação de Pinho Leal, jamais tendo existido uma ponte de barcas em Sacavém, pois o que João Baptista de Castro escreve em dois locais da sua obra é: «Por ordem de D. João V se reformou a barca de passagem deste rio pela admirável idéa do nosso insigne maquinista Bento de Moura, com grande commodidade para os passageiros» e «existe hoje uma barca de carreira, que por invenção engenhosa de Bento de Moura, facilita muito a passagem de huma para outra parte».

Sacavém na nova cidade e metrópole de Lisboa Oriental[editar | editar código-fonte]

Em 7 de Novembro de 1716, o Papa Clemente XI criou, a instâncias do rei D. João V, o Patriarcado de Lisboa, funcionando na Capela Real de São Tomé, o qual congregava as quarenta e seis freguesias ocidentais da cidade e do seu termo, e deixando as remanescentes vinte e seis mais orientais integradas na antiga Arquidiocese de Lisboa. Para fazer corresponder a nova divisão eclesiástica à divisão administrativa, D. João V procedeu à repartição da cidade em duas: Lisboa Ocidental, sede do Patriarcado, e Lisboa Oriental, sede do arcebispado. Esta última correspondia, sensivelmente, à cidade velha, intra-muros (paróquias da , São Jorge, São Martinho, Santiago, Santo André, Santa Engrácia, Santo Estêvão, Salvador, São Miguel, São Pedro, São João da Praça, Santa Marinha do Outeiro, Santa Cruz do Castelo, São Bartolomeu e São Vicente de Fora), com as freguesias do termo mais orientais (Nossa Senhora dos Olivais, Nossa Senhora da Purificação de Sacavém, Santiago de Camarate, Nossa Senhora da Encarnação da Apelação, São Silvestre de Unhos, São Julião de Frielas, São Sebastião da Granja, Nossa Senhora da Assunção de Vialonga, São João da Talha e Santa Iria).

Contudo, ao fim de algum tempo se percebeu o erro da divisão, quer da diocese, quer da cidade; desta forma, em 1740, o Arcebispado de Lisboa Oriental (em sede vacante desde a fundação do Patriarcado) foi anexado ao Patriarcado de Lisboa Oriental num único Patriarcado de Lisboa; de igual forma, se procedeu à reunificação das duas cidades de Lisboa numa só, terminando assim a fugaz transferência de Sacavém e demais paróquias da zona oriental para a nova cidade de Lisboa Oriental.

Sacavenenses ilustres[editar | editar código-fonte]

Ainda segundo Pinho Leal, em 16 de Dezembro de 1741 faleceu em Sacavém aquela que terá sido uma das mulheres mais longevas da História de Portugal – uma tal Ana da Silva, natural de Santa Maria dos Olivais, onde nascera em Janeiro de 1626 (tendo, portanto, 115 anos à data do óbito). Desta senhora dizia o corografista [[século XIX|oitocentista]] ter sido casada duas vezes, e deixado larga prole, isto para além de jamais ter feito uma sangria ou uma purga (o que, ironicamente, bem poderia explicar a sua longevidade, numa época em que os cuidados médicos eram, muitas das vezes, uma das mais importantes causas de morte…). Durante os últimos vinte e cinco anos da sua vida, serviu os pobres e doentes do hospital de Sacavém, tendo concluído uma peregrinação ao Senhor da Pedra, no Norte do País, quando contava já 113 anos de idade. Parece ter conservado tão boa memória que, próxima da morte, recordava ainda, com espantosa exactidão e minúcia, os eventos ocorridos em Lisboa, no dia 15 de Dezembro de 1640, aquando da aclamação de D. João IV.

Em Sacavém nasceu, em 7 de Setembro de 1754, Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, o 1.º Conde de Barbacena, o qual viria a ser Governador de Minas Gerais, detendo nesta freguesia os Viscondes seus antepassados uma propriedade senhorial que, a partir do século XIX, passará a ser conhecida como Quinta do Rio; como o seu herdeiro, Francisco Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, tivesse depois tomado o partido de D. Miguel I, o título acabou por não ser revalidado, e a Quinta do Rio, com a sua capela dedicada a São Roque, acabou por cair em ruínas.

Sacavém e o processo dos Távoras[editar | editar código-fonte]

Também os Condes de Alvor tiveram aqui uma quinta, mas o título acabou extinto em 1759, na sequência do processo dos Távoras, visto que o conde era primo dos Marqueses de Távora.

Na sequência desse mesmo processo, viria ficar detida no Convento de Sacavém a Condessa de Atouguia, Mariana Bernarda de Távora (a qual era a filha mais velha de Francisco de Assis de Távora, 3.º Conde de Alvor e Leonor de Távora, 3.ª Marquesa de Távora), e cujo marido, D. Jerónimo de Ataíde, 11.º Conde de Atouguia, fora supliciado juntamente com os Távoras e o Duque de Aveiro no patíbulo em Belém, em 13 de Janeiro de 1759. Aí permaneceu a Condessa ao longo dos vinte e dois anos seguintes, sendo libertada apenas em 1781, após a sentença de 20 de Junho de 1780, promulgada pela rainha D. Maria I, que na sequência da Viradeira demitiu Pombal e reabilitou os Távoras. Com ela foram também encarceradas duas das suas filhas, D. Leonor de Ataíde e D. Clara de Ataíde, bem como com o filho mais novo, D. António de Ataíde, então um bebé de dezasseis meses; D. Leonor e D. Clara acabariam por professar no austero convento franciscano de Sacavém, e aí viriam a falecer, já no segundo quartel do século XIX.[50] As Memórias da Condessa constituem uma importante fonte para o estudo da questão, aparecendo citandos várias vezes o nome do mosteiro e da localidade para a qual foi levada, e onde, segundo o seu próprio relato, se viu «presa […] como traidora sem o ser».[50]

O terramoto de 1755[editar | editar código-fonte]

Sacavém, que com a perda de Camarate em 1511, se viu amputada de mais uma parte considerável do seu território, não deixou de crescer em termos de população; registaram-se apenas decréscimos pontuais, devidos à peste (1599) e ao terramoto de 1755, que a deixou muito arruinada. A primitiva Igreja Matriz de Santa Maria, situada no Largo da Saúde, ficou completamente arruinada (não tendo voltado a reconstruir-se, tendo a Matriz passado, ao longo de um século, para a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, também muito degradada, estando actualmente em ruínas); desapareceram igualmente com o terramoto os últimos vestígios da velha ponte romana sobre o Trancão.

Para solucionar os problemas de urbanismo da capital e prevenir uma mortandade tão grande em caso de novo terramoto, o engenheiro-mor do Reino, Manuel da Maia, previu uma solução arrojada, envolvendo Sacavém e o vale do seu rio, inclusa na sua Terceira parte da Dissertação sobre a renovação de Lisboa:

«8.º - A esta consideração de conservar as ruas de Lisboa livres dos embaraços que as fazem immundas, para o que concorrerá muito a mayor largura das ruas, e a menor altura dos edifícios, não excedendo de dous pavimentos sobre as loges, se segue necessariamente outra não menos importante, e consiste em determinar melhor lugar em que possão os tais embaraços ser lançados com menores inconvenientes; e por que me occorre hum mais livre delles do que os já observados, e promete huma grande conveniencia ao bem publico, sejame licito prezentalo neste lugar. Consiste elle em que os tais embaraços se vão lançar dentro do Rio de Sacavem, para que com este adjutorio se chegue a formar nelle hum valle á imitação do de Chelas, em que as agoas salgadas chegavão em algum tempo ao templo das Virgens Vestaes, hoje Convento de relligiozas de Sancto Agostinho; por que se este pequeno Valle soccorre tão agradavelmente a Corte com as suas hortaliças e frutas, quanto melhor o fará o Valle de Sacavem com a sua muitas vezes mayor grandeza, e sem se poder dizer que os embaraços ali lançados podem cauzar algum impedimento na barra, como se pode temer de qualquer dos outros modos em que se não lanção em terra: pode esta consideração ter contra si o embaraço do refugio das embarcações no tempo em que se recolhem a buscalo; mas a isso se pode responder que nem as embarcações necessitão de todo o esteyo de Sacavem para se refugiarem, nem seria justo que inteiramente se lhe impedice o refugio, mas que só se formasse em Valle aquillo que lho não impedice que sempre será de grandeza muy proveitoza.»[51]

Logo após o terramoto, através do inquérito enviado por Sebastião José de Carvalho e Melo (futuro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal), então Secretário de Estado do Reino, a todas as paróquias do país (1757), a fim de saber os estragos causados pelo sismo, e que teve como resposta as "Memórias Paroquiais de 1758", pôde-se apurar a existência de 353 fogos. De acordo com essas mesmas memórias paroquiais, pode-se também observar a relativa dimensão do porto de Sacavém no quadro dos portos fluvais do Tejo: o Prior sacavenense menciona a existência de três cais de atracagem: o de Nossa Senhora, o da Barca e o do Peixe. No entanto, a importância que este porto tivera começou a esmorecer; ao longo da segunda metade do século XVIII e início do século XIX, o rio Trancão, que até então fora navegável até ao Tojal, começou a ser assoreado, num inexorável fenómeno que desde então impede, até hoje, a navegabilidade no mesmo. De facto, tornou-se um «porto morto», de acordo com a expressão usada pelo naturalista francês Théodore Monod, num estudo intitulado L'île d'Arguin (Mauritanie). Essaie historique,[52] consagrado à antiga feitoria portuguesa na ilha de Arguim, hoje ao largo da Mauritânia, onde afirma que o porto que servia a fortaleza portuguesa na costa magrebina tinha as águas tão calmas como o porto de Sacavém…

A política de fomento industrial e comercial seguida por Pombal, conducente à fixação de novas indústrias no Reino, levou a que o governo subsidiasse um empréstimo de 6$480 contos de réis a um tal William Macormick, para que instituisse uma manufactura têxtil em Sacavém – uma fábrica de chitas muito conhecida ao longo de todo o século XIX.

Bocage e as praias de Sacavém[editar | editar código-fonte]

Enfim, nos finais do século XVIII, Sacavém mereceu uma referência num soneto de Bocage, o qual não ficara de todo indiferente à beleza da terra:

«Praias de Sacavém, que Lemnoria,
Orna c’os pés nevados e mimosos,
Gotejantes penedos cavernosos,
Que do Tejo cobris a margem fria.

De vós me desarreiga a tirania
Dos ásperos Destinos poderosos,
Que não querem que eu logre os amorosos
Olhos, aonde jaz minha alegria.

Oh funesto, oh penoso apartamento!
Objecto encantador de meus gemidos,
A sorte o manda assim, de ti me ausento.

Mas inda lá de longe os meus gemidos
Guiados por Amor, cortando o Vento,
Virão, ninfa querida, a teus ouvidos.
»

Idade Contemporânea[editar | editar código-fonte]

Século XIX[editar | editar código-fonte]

Guerra peninsular e guerras liberais[editar | editar código-fonte]

Oleiro da Fábrica de Loiça de Sacavém

No século XIX Sacavém ganha importância acrescida pelo constante crescimento geo-demográfico de Lisboa.

Durante a I Invasão Francesa, o comandante do exército agressor, Jean-Andoche Junot, passa por Sacavém em 29 de Novembro de 1807, vindo de Santarém e dirigindo-se a Lisboa (no encalço do príncipe regente; ao chegar a Belém, porém, vê já as embarcações portuguesas a partir, rumo ao Brasil, onde a Corte se estabelecerá até 1821). Foi em Sacavém que Junot recebeu uma legação portuguesa composta por elementos da regência do reino nomeada pelo príncipe D. João, individualidades ligadas à maçonaria, e ainda membros da Academia das Ciências de Lisboa – entre eles, homens como Francisco de Borja Garção Stockler (futuro Barão da Vila da Praia) e Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro (o Visconde de Barbacena), um natural de Sacavém.

Após o término da Guerra Peninsular, sente-se a urgência de fortificar a capital do Reino. É nesse sentido que têm início obras como a Estrada Militar, ligando Benfica a Sacavém e, mais tarde, a construção do Forte de Sacavém (ou Reduto do Monte-Sintra, do nome do morro sobranceiro a Sacavém de Baixo onde foi erguido), no local onde se ergeu um tosco forte no quadro das Linhas de Torres Vedras, e onde hoje está sediada o arquivo da antiga Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN).

Em 2 de Outubro de 1820 passa por Sacavém, em cortejo, rumo ao Rossio, na capital, a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino, formada inicialmente no Porto na sequência do pronunciamento militar de 24 de Agosto anterior, com o intuito de governar o País e convocar Cortes Constituintes, a qual se fundira em Alcobaça com uma outra Junta Provisional formada em Lisboa, em 15 de Setembro, após a fuga dos governadores do Reino. Neste cortejo seguiam ilustres figuras do movimento liberal, como Manuel Fernandes Tomás, Manuel Borges Carneiro, José Ferreira Borges ou José da Silva Carvalho, todos eles destacados membros do Sinédrio, organização secreta que pugnava pela instituição de um regime constitucional em Portugal.

Também por Sacavém passou o Regimento de Infantaria 23, destinado a guarnecer a fronteira da Beira contra ataques de forças reaccionárias insurrectas foragidas em Espanha, e que bradou vivas ao Infante D. Miguel como rei absoluto, na vizinha povoação de Vila Franca de Xira – foi a Vilafrancada. Foi ainda em Sacavém que D. João VI assinou o decreto em que exonerava D. Miguel das suas funções à frente do exército, e suspendeu a constituição de 1822, com a promessa de a substituir por outra, não tã radical.

Enfim, a 12 de Outubro de 1833, parte das forças miguelistas, após terem sido expulsas da capital pelo Marechal Saldanha, e derrotadas num breve recontro junto a Loures, dirigem-se a Sacavém, a fim de tomarem a estrada rumo a Santarém, para onde fugiam; depois de atravessarem o rio de Sacavém, atearam fogo à ponte de madeira que ligava as duas margens e que havia sido reconstruída pouco depois do terramoto de 1755. Só em 1842 viria a ser reconstruída uma nova em cantaria e ferro. Uma litografia aguarelada dessa ponte, da autoria do pintor Tomás José da Anunciação, datada de cerca de 1850, pode ser consultada na Biblioteca Nacional de Portugal (aqui). A mesma ponte surge também representada numa litografia de Charles Legrand, envolvida em tons mais bucólicos, executada sensivelmente pela mesma época da anterior, e visível aqui.

Industrialização e progresso[editar | editar código-fonte]

Azulejo situado à entrada da antiga Fábrica de Loiça de Sacavém.

Ao mesmo tempo, esta localização geográfica nos arrabaldes de Lisboa conduziu, inevitavelmente, à terciarização da localidade. Instalam-se inúmeras indústrias na região, como a de tinturaria na Quinta das Penicheiras, ou a afamada Fábrica de Loiça de Sacavém, fundada em 1856 (tendo laborado ininterruptamente até 1983). A ela estão ligados nomes indissociáveis da história de Sacavém, como John Stott Howorth (o Barão de Sacavém), James Gilman ou Herbert Gilbert. Foi graças a ela e às louças que aí eram produzidas que Sacavém se tornou conhecida em Portugal e no Mundo; para sempre ficou a famosa frase: «Sacavém é outra loiça!».

Em 1852, extinto o Termo de Lisboa, passou Sacavém a pertencer ao recém-criado concelho dos Olivais. O novo executivo camarário teve que lidar com os problemas de um vastíssimo concelho, numa época de grandes mudanças a nível económico, social e jurídico, e não é de admirar por isso que, no meio da vasta correspondência trocada, se encontre um pedido da junta da paróquia de Sacavém, solicitando que a Câmara nomeasse um guarda para vigiar o cemitério da povoação, pois que aquele era «devassado e profanado por animais em consequência de se não achar devidamente preparado», facto que dava azo a que, em violação das leis aprovadas havia poucos anos relativas aos enterros em cemitérios, se continuasse «n’aquela paróquia, com detrimento da saúde pública», a enterrar os defuntos nas igrejas.[53]

Em 28 de Outubro de 1856, inaugurou-se o troço inicial da linha de caminhos-de-ferro do Norte, entre Lisboa (Estação de Santa Apolónia) e o Carregado, passando por Sacavém e atravessando o seu rio, através de uma ponte construída em Inglaterra. Já antes, a primeira viagem experimental, realizada no dia 8 de Julho de 1854, tivera lugar entre Sacavém e Vila Franca.

A futura 1.ª Marquesa de Rio Maior (Maria Isabel de Lemos e Roxas Carvalho e Menezes de Saint-Léger), então com apenas quinze anos, consagrou, no seu diário, uma referência à inauguração e à (pouco-honrosa) passagem do comboio pela localidade – com efeito, a locomotiva foi gradualmente perdendo composições ao longo do trajecto:

«Algumas, de convidados, nos Olivais. O "wagon" do Cardeal-Patriarca, e do Cabido, ficou em Sacavém; mais um, recheado de dignatários, ficou ao desamparo na Póvoa […][54]

A viagem de regresso a Lisboa, no dia 29 de Outubro, foi igualmente atribulada; com efeito, segundo relata O Comércio do Porto do dia 1 de Novembro:

«Eram 4 horas e meia quando partiu do Carregado o comboy real, e chegando a Sacavém pararam as locomotivas, ignorando-se ao princípio o motivo; mas sabendo-se pouco depois que haviam sido os tubos de uma d’ellas, que haviam arrebentado. Este accidente levou o desgosto a toda a gente, que assim via um erro tão lamentável, que não se pode attribuir nem a desgraça, nem a defeito da construcção do caminho, mas sim a quem consente madeiras más num serviço de tanta circumspecção. Então uma das locomotivas partiu com metade das carruagens para Santa Apolónia, e depois veio buscar o resto a Sacavém. Eram dez horas da noute quando chegou a Lisboa o segundo comboy que conduzia os convidados.[55]

Também Eça de Queirós menciona também a povoação e a sua estação ferroviária na Correspondência de Fradique Mendes, continuando assim a demonstrar a importância que em meados do século XIX o Trancão ainda assumia para a população local:

«Chegámos a uma estação que chamam de Sacavém – e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu país, através dos vidros húmidos do vagão, foi uma densa treva, de onde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram lanternas de faluas, dormindo no rio […]

Em 1863, a igreja do convento de Nossa Senhora dos Mártires foi elevada à dignidade de igreja matriz pelo Cardeal-Patriarca D. Manuel Bento Rodrigues, com o orago de Nossa Senhora da Purificação. O convento, em profunda decadência desde a proibição da admissão ao noviciado nas casas femininas pela lei de Joaquim António de Aguiar de 1834, passou a ser bastante disputado pelas autoridades civis, pressionando a única freira residente para se mudar para outra casa conventual. No entanto, esta resistiu durante catorze anos, até 1877, data em que foi transferida para o convento de Santana, em Lisboa, e o mosteiro de Sacavém foi entregue ao Ministério da Guerra, que aí instalou o Regimento de Artilharia Pesada n.º 1, o qual viria a ter o seu papel na história subsequente da povoação.

O desenvolvimento da cultura de ostras no estuário do Tejo, no século XIX, levou à demarcação de zonas para a exploração daquele recurso natural; por uma lei do ministério do Marquês de Sá da Bandeira de 9 de Setembro de 1868 (confirmada por duas portarias do governo do Duque de Loulé de 10 de Novembro de 1869 e de 26 de Janeiro de 1870, respectivamente) foram estabelcidas, na margem norte do rio, como zonas de cultivo ostreícola, toda a faixa litorânea que ia desde Vila Franca de Xira até aos Olivais, incluindo ainda os mouchões de Alhandra e da Póvoa, mas excluindo a foz do rio de Sacavém. No final do século, porém, devido aos assoreamentos, a prática tinha sido, em grande parte, abandonada.

Fábrica do Grupo Unilever em Sacavém, Portugal; ao fundo a Ponte Vasco da Gama

Entretanto, o desenvolvimento industrial conduziu a um grande crescimento demográfico e urbano. A população aumentou muito em meio século (trabalhando mais de metade só na Fábrica da Louça), e Sacavém ganhou novos contornos; as velhas quintas arruinadas foram dando lugar a vilas operárias. Paralelamente à fábrica da loiça, muitas outras indústrias se desenvolvem na região, designadamente a de moagem, descasque de arroz, têxteis, curtumes, estamparia, transformação de cortiça, saboaria, produção de adubos químicos e óleos alimentares, e já no século XX, a das tintas e produtos de higiene.

Muitos dos seus habitantes virão, quer das Beiras, quer do Alentejo, em busca de trabalho, num movimento populacional contínuo que se manteve até meados do século XX – ainda hoje os Sacavenenses têm orgulho nestes seus antepassados, e ainda hoje aqui se encontram sediadas delegações da Liga dos Amigos da Mina de São Domingos, ou da Associação dos Amigos e Naturais de Loriga (ANALOR); destaque também para a Semana Serrana e para a Semana do Alentejo, iniciativas culturais e gastronómicas realizadas anualmente, respectivamente, por aquelas duas organizações, e que atraem um número considerável, quer de habitantes locais, quer das regiões do país em causa (Serra da Estrela e Alentejo).

Não obstante, na segunda metade do século XIX, a povoação mantinha ainda parte do seu carácter rural e pitoresco; não é por isso de admirar que, em 16 de Maio de 1875, tenha sido inaugurada em Sacavém uma praça de touros particular, por ocasião de uma das maiores festividades locais – a feira do Espírito Santo, que se realizava no Domingo do Espírito Santo. Nesse mesmo ano, a 15 de Setembro, teve início a colocação de candeiros para a iluminação pública, ao longo da Estrada de Sacavém, que ligava a freguesia aos Olivais e a Lisboa.

Povoação cara à aristocracia[editar | editar código-fonte]

Até ao fim da monarquia, a povoação, a par de outras freguesias vizinhas (como Camarate), continuou a ser das preferidas pela nobreza da capital para se estabelecer (no terceiro quartel do século XIX, contavam-se ainda cerca de cinquenta quintas senhoriais em Sacavém). Tal foi o caso da família Braamcamp (na qual se incluía Anselmo José Braamcamp, líder do Partido Progressista e primeiro-ministro de Portugal entre 29 de Maio de 1879 e 23 de Março de 1881), que aqui possuía três quintas (a Quinta das Pretas, do próprio Anselmo Braamcamp, e as da Vitória e da Horta do Meio, pertença de José Augusto Braamcamp), tendo ainda adquirido as ruínas da Igreja de Nossa Senhora da Vitória após a nacionalização dos bens da Igreja (aliás, o Palacete Braamcamp, também hoje em ruínas, situa-se ao lado do dito templo). De resto, o nome de dois membros da família (José Augusto Braamcamp e Maria Luísa Braamcamp), ainda hoje dão o nome a uma rua, a uma avenida e a uma travessa em Sacavém.

Para além disso, num quadro de distribuição de títulos nobiliárquicos pela monarquia portuguesa, foi atribuído, em 16 de Julho de 1885, o título de Barão de Howorth de Sacavém a John Howorth, administrador da Fábrica da Louça, e em 30 de Julho de 1874, José Joaquim Pinto da Silva foi feito 1.º Visconde de Sacavém. O herdeiro deste último sucedeu-lhe no título.

Na década de 1880 (1884), o conhecido artista plástico e caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro executa na Fábrica de Loiça de Sacavém algumas das suas peças cerâmicas, após o que passa a executá-las nas Caldas da Rainha.

Integração no novo concelho de Loures[editar | editar código-fonte]

A 22 de Julho de 1886, dá-se a transferência da sede do município dos Olivais, onde Sacavém se encontrava integrada, para a povoação de Loures, ficando Sacavém repartida em duas freguesias (Intra-Muros e Extra-Muros) pela Estrada Militar, ficando aquela integrada em Lisboa, e esta fazendo parte do novo concelho de Loures. O espaço da freguesia Intra-Muros correspondia, grosso modo, ao das actuais freguesias do Prior Velho e da Portela de Sacavém, e à parte da freguesia de Sacavém delimitada, a Norte, pela Estrada Militar, ficando assim a freguesia Extra-Muros confinada à área remanescente, muito inferior à da actual freguesia de Sacavém.

Como a legislação camarária de Lisboa proibia os mercados de gado no perímetro interior da Estrada da Circunvalação, o executivo demissionário da Câmara dos Olivais determinou, a 14 de Outubro de 1886 (no que viria a ser uma das suas últimas medidas, antes da tomada de posse da primeira vereação do novo concelho de Loures, em 2 de Janeiro de 1887), que o mercado de gado que se realizava no terceiro Domingo de cada mês no largo da freguesia de São Bartolomeu da Charneca (a qual, por se achar dentro da linha da circunvalação, ficou integrada no concelho de Lisboa) passasse a realizar-se, a partir do ano subsequente, no Rossio de Sacavém Extra-Muros (a actual Praça da República), «por ser local mais próximo fora da linha de circunvalação em que o dito mercado pode ter lugar».[56]

Pouco mais de nove anos decorridos, a 26 de Setembro de 1895, a fronteira entre Lisboa e Loures foi redefinida pela Estrada da Circunvalação, e as duas freguesias de Sacavém foram novamente reunidas numa só, tendo então esta nova entidade sido integrada no concelho de Loures.

Século XX[editar | editar código-fonte]

O despertar das colectividades[editar | editar código-fonte]

A mais antiga corporação ainda hoje existente em Sacavém é a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Sacavém, fundada ainda em 14 de Setembro de 1897. As demais associações datam dos inícios do século XX.

Num meio essencialmente industrial, não é de estranhar a difusão de ideologias defensoras dos interesses das classes trabalhadoras, designadamente o socialismo e o republicanismo. Sacavém tornou-se desde finais do século XIX um baluarte republicano (como aliás muitas localidades industrializadas da cintura envolvente da capital); nos últimos anos de agonia do regime monárquico, seria aí fundada uma instituição política de cariz vincadamente republicano – o Centro Democrático de Sacavém, estabelecido em 13 de Junho de 1909.

Mas já antes a força do republicanismo se manifestava pelo surgimento de agremiações e associações de operários, de carácter vincadamente republicano. Um exemplo marcante deste associativismo é o nascimento da Cooperativa de Crédito e Consumo «A Sacavenense», fundada num dia histórico – 31 de Janeiro de 1900, exactamente nove anos decorridos sobre a fracassada intentona republicana no Porto –, e que conheceu particular incremento durante a I República. Ainda hoje existente, trata-se de uma das mais antigas cooperativas de Portugal, tendo sido declarada instituição de utilidade pública em 11 de Outubro de 1924, por portaria do governo de Alfredo Rodrigues Gaspar (publicada no Diário do Governo n.º 243, II Série). Embora hoje tenha perdido muita da sua vertente económica, mantém-se como um importante pólo cultural e de convívio entre todos os Sacavenenses.

Ao virar do século, existiam várias outras associações, que entretanto se foram extinguindo, como o Club Dramático 8 d'Agosto de 1900, a Troupe Familiar ou ainda o Gilman's Football Club (fundado pelo proprietário da Fábrica de Louça James Gilman, para recreio dos seus empregados, o qual viria a anteceder o Sport Grupo Sacavenense).

Entre as associações que chegaram até aos nossos dias, destacam-se o Clube Recreativo de Sacavém (fundado em 11 de Junho de 1909, sob o nome de Clube de Instrução e Beneficência Sacavenense, tendo alterado para a sua actual designação em 22 de Setembro de 1928), o Sport Grupo Sacavenense (criado em 19 de Março de 1910), o Clube dos Caçadores (surgido em 1921), a Sociedade Columbófila de Sacavém e ainda a Academia Recreativa e Musical de Sacavém (aparecida em 1 de Julho de 1927).

Mais recentes (segunda metade do século XX) são já o Centro Social de Sacavém (inaugurado em 2 de Junho de 1979 pelo cardeal-Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, muito embora a sua origem remonte a 15 de Agosto de 1943, quando o Prior Filinto Ramalho instituiu os Serviços de Assistência Materno-Infantil), a Associação Comunitária de Reformados, Pensionistas e Idosos de Sacavém (criada em 6 de Novembro de 1976, funcionando presentemente na Quinta de São José), a Liga dos Amigos da Mina de São Domingos (fundada em 17 de Fevereiro de 1976), a Associação dos Amigos e Naturais de Loriga – ANALOR (criada em 5 de Março de 1987), a Associação dos Amigos da Quinta do Património – AQUIPA, o Clube de Jovens ou ainda o Núcleo Sportinguista de Sacavém (o qual, fundado em 30 de Novembro de 1983, se constitui assim como a sexta agremiação de sócios mais antiga do país ligada àquele clube).

A Revolução Republicana e a revolução toponímica[editar | editar código-fonte]

O incêndio da Ponte do Trancão, ateado pelos revolucionários republicanos.

Aquando da Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910, o povo lançou chamas à ponte sobre o Trancão, para evitar a vinda de reforços monárquicos.

Um dos membros da Comissão Administrativa Provisória do Concelho de Loures, que tomou posse no dia 13 de Outubro, foi o comerciante sacavenense José Pedro Lourenço, destacado membro do Centro Escolar Republicano de Loures, e que viria depois a ser presidente da Câmara Municipal. O seu nome é até hoje recordado na toponímia de Sacavém.

De resto, após a proclamação do novo regime, um pouco por todo o País se assistiu a uma mudança na imagética e nos símbolos, por forma a tentar obliterar aquilo que os Republicanos consideravam ser o nefando passado monárquico, ao mesmo tempo que celebravam a instituição do novo regime. Nesse contexto, Sacavém não foi excepção, e uma vaga de mudanças toponímicas percorreu a localidade.

Assim, por exemplo, em Sacavém de Baixo, o Largo da Feira (ou Terreiro de Sacavém), junto da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação, foi rebaptizado de Praça da República; junto desta, a Rua dos Armazéns e a Rua da Estação viram os seus nomes alterados para Rua Miguel Bombarda (o destacado médico republicano assassinado na véspera da revolução) e Domingos José de Morais (um conhecido industrial local), respectivamente.

Em Sacavém de Cima, o Largo da Saúde (conhecido também ao longo dos tempos como Terreiro ou Largo da Capela), defronte da capela do mesmo nome, foi baptizado como Largo Cinco de Outubro, e a Rua Direita passou-se a chamar Rua Almirante Reis, em honra do chefe da revolução republicana que se suicidara na manhã de 5 de Outubro de 1910, por julgar a sedição perdida.

Da República à instituição do Estado Novo e à resistência à ditadura[editar | editar código-fonte]

A greve dos rapazes em 1937

A revolução republicana não resolveu todos os problemas com que os portugueses se debatiam. As classes trabalhadoras sentiram-se particularmente injustiçadas, e a I República sofreu inúmeras agitações e grandes greves gerais. Durante o grande surto grevista de 1912, o governo de Duarte Leite mandou deter os grevistas em vários fortes ao redor de Lisboa, entre os quais o Forte de Sacavém, o Forte de Monsanto e o Quartel do Carmo.

A situação de instabilidade política ao longo dos 16 anos da República conduziu ao Movimento Nacional de 28 de Maio de 1926, iniciado em Braga pelo general Gomes da Costa e logo secundado em Lisboa pelo comandante Mendes Cabeçadas. As forças sublevadas em Braga dirigiram-se em marcha até Lisboa, tendo sido em Sacavém, a 3 de Junho, que Gomes da Costa e Cabeçadas se encontraram pela primeira vez, aí estabelecendo o seu quartel-general.

Foi também em Sacavém que, a 17 de Junho desse mesmo ano, o general Gomes da Costa se reuniu com os comandantes das unidades que sitiaram a capital durante o Movimento Nacional de 28 de Maio, tendo deliberado forçar nesse mesmo dia o comandante Mendes Cabeçadas – considerado pela ala mais conservadora do exército como o derradeiro representante da I República – a renunciar à presidência da República e do ministério por si encabeçado, confiando o poder ao próprio Gomes da Costa.

Finalmente, o golpe de 9 de Julho, que deu o poder a Óscar Carmona e derrubou Gomes da Costa, foi também preparado no quartel-general de Sacavém.

Entretanto, todo o desenvolvimento sócio-económico que se verificava desde meados do século XIX deverá ter pesado no pensamento dos dirigentes políticos da Ditadura Militar. Assim, e seguindo a elevação da própria sede de concelho a vila (em 26 de Outubro de 1926), na sequência de um pedido da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Loures, foi atribuído idêntico estatuto de vila às povoações de Sacavém e Bucelas, através do decreto n.º 14 676, de 7 de Dezembro de 1927.

O então Presidente do Ministério (Óscar Carmona), na sua qualidade de Presidente interino da República (de acordo com o decreto n.º 12 740), fundamentava assim, no preâmbulo do decreto, a elevação da povoação a vila:

«Considerando que [Sacavém] conta já hoje um apreciável número de habitantes [...];
Considerando que, no que respeita a Sacavém, a sua indústria no fabrico de louças muito se tem salientado, como sendo uma das primeiras da península, e independentemente disto tem ali também a sua sede o regimento de artilharia n.º 8 [...];
Considerando que a dois passos da capital do País, possuídos de tantos recursos, nenhuma razão havia já para que aos referidos lugares não fôsse dado um tratamento condigno; [...]
Hei por bem decretar, para valer como lei, o seguinte:
Artigo 1.º São elevados à categoria de vila, sendo como tais assim considerados, os lugares de Sacavém e Bucelas.
Artigo 2.º Fica revogada a legislação em contrário. [...]
Dado nos Paços do Governo da República, a 4 de Dezembro de 1927. ― ANTÓNIO ÓSCAR DE FRAGOSO CARMONA ― José Vicente de FreitasManuel Rodrigues JúniorAbílio Augusto Valdez de Passos e SousaAgnelo PortelaAntónio Maria de Bettencourt RodriguesArtur Ivens FerrazJosé Alfredo Mendes de MagalhãesFelisberto Alves Pedrosa»[57] .
A marcha da fome das mulheres de Sacavém

Paralelamente, ao longo dos primeiros anos de consolidação da ditadura, o Regimento de Artilharia Pesada 1 (RAP 1), então sediado no Convento dos Mártires, tomou um papel preponderante na defesa do regime vigente – designadamente, na grande revolta de 26 de Agosto de 1931, em que elementos do RAP 1 e da G.N.R. local, fiéis a Salazar, bombardearam unidades revoltosas em Alverca do Ribatejo, Lisboa e até Loures, onde inclusivamente se chegou a proclamar a reposição da República democrática deposta em 1926.

No entanto, os trabalhadores de Sacavém (muitos dos quais ligados ao PCP, então na clandestinidade) por inúmeras vezes mostraram a sua revolta contra o regime ditatorial:

  • em 1937, teve lugar a «greve dos rapazes» (os aprendizes da Fábrica de Loiça de Sacavém), à qual se seguiu a vigília de suas mães e esposas, e a subsequente repressão da polícia política do regime – a PIDE);
  • em 1944, ocorreu a «marcha da fome», a qual foi encabeçada pelas mulheres sacavenenses, pedindo pão e fazendo frente à G.N.R., tendo marchado até à sede concelhia, em Loures – situada a pelo menos dez quilómetros de distância.

Da segunda metade do século XX aos anos 1980[editar | editar código-fonte]

A Auto-Estrada do Norte em Sacavém.

Em meados do século XX, obras como o Aeroporto de Lisboa (chamado da Portela de Sacavém), o troço inicial da Auto-Estrada do Norte (A1) (com o viaduto de Sacavém sobre o rio Trancão) ou da Estrada Nacional 10 favoreceram ainda mais a fixação, não só de novas indústrias, como também de novas gentes. Sacavém conheceu uma grande explosão demográfica, e entre 1950 e 1970 a população quadruplicou. A ela associada, a explosão urbanística, que se pautou pela construção desregrada e, muitas vezes, desqualificadora do meio envolvente. A partir dos anos 1980 o crescimento demográfico estabilizou, atingindo então Sacavém uma população máxima de cerca de 25 mil habitantes.

No dia 25 de Abril de 1974, pelas 5 da madrugada, a coluna da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, comandada pelo capitão Salgueiro Maia, passa as portagens da auto-estrada do Norte em Sacavém, rumo a Lisboa, a fim de dar seguimento àquilo que veio a ser a Revolução dos Cravos. De resto, no quadro dos eventos subsequentes à revolução, teve de novo a vila de Sacavém activa participação: com efeito, o quartel do RALIS situava-se então ainda na dita freguesia (actualmente pertence à da Portela de Sacavém, desde a sua autonomização em meados dos anos 1980), e aí se deram importantes acontecimentos no final do Verão Quente de 1975 – em 15 de Novembro procedeu-se ao célebre juramento de bandeira feito pelos militares com o punho fechado, quebrando assim as normas do exército; a 25 de Novembro do mesmo ano, o quartel foi sitiado pelas forças afectas à facção mais moderada do M.F.A., cujo líder acabara de se tornar o general Eanes.

À semelhança do que ocorrera aquando da proclamação da República, em 1910, de novo se deu uma mudança na toponímia local: o largo da junta é redesignado Largo 1.º de Maio, e são baptizadas ruas com o nome de operários cerâmicos que foram destacados lutadores antifascistas, ou com líderes de relevo da esquerda mundial (v. g., Salvador Allende).

Em 2 de Junho de 1979 é solenemente inagurado, pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa D. António Ribeiro, o edifício do Centro Social Paroquial de Sacavém, a grande obra de assistência à população de Sacavém, fundada originalmente em 1943 pelo Prior Filinto Ramalho sob a designação de Serviços de Assistência Materno-Infantil, e que a população carinhosamente recorda sob o nome de «Obra do Padre».

Assiste-se entretanto, em 1983, ao encerramento da Fábrica da Louça, que laborara ao longo de exactos 133 anos (em 6 de Outubro do ano anterior, Monteiro Pereira, o administrador da Fábrica fora assassinado à saída da sua casa, em Almada, por uma rajada de metralhadora, num atentado perpetrado pelo grupo terrorista FP 25 de Abril); seguiu-se enfim a decretação da sua falência, já nos anos 1990, assim como a venda dos seus bens em hasta pública.

Na segunda metade dos anos 1980, indo de encontro à vontade das populações, foram criadas, por desmembramento da freguesia de Sacavém, as freguesias da Portela (1986) e Prior Velho (1989). Isto, de resto, dava sequência a um movimento que então se verificava em todo o concelho de Loures, de criação de novas entidades administrativas, que aproximassem eleitores e eleitos. Por esta época nasceram também, no concelho de Loures, as freguesias da Bobadela (subtraída a São João da Talha), Famões, Pontinha e Ramada (derivadas de Odivelas), Olival Basto (nascida da Póvoa de Santo Adrião), ou Santo António dos Cavaleiros (desmembrada a partir da freguesia de Loures).

anos 1990[editar | editar código-fonte]

Nos anos 1990, Sacavém vê enfim reconhecido todo o seu valor e potencial, tendo sido elevada a cidade em 4 de Junho de 1997 (através da lei n.º 45/97, de 12 de Julho, após vários anos de projectos apresentados sem sucesso[58] ), em simultâneo com as até então vilas de Alcácer do Sal, Fátima, Sines e Vila Nova de Foz Côa. Para comemorar a data, tem-se vindo a celebrar, anualmente, a elevação de Sacavém a cidade com toda a pompa e circunstância, incluindo as comemorações a Milha Urbana de Sacavém (que já se realizava desde 1987 e passou a ser aproveitada no quadro destes festejos), bem como a Regata Tejo-Trancão, na modalidade de Kayak-Mar (prova iniciada em 1999, com o seu término no rio de Sacavém, e que inclusivamente já está incluída no calendário oficial da Federação Portuguesa de Canoagem).

Com a parte oriental do seu território integrada na zona de intervenção da EXPO 98 (actual Parque das Nações), viu aqui ser instalado o Parque do Tejo e do Trancão, assim como os acessos à nova travessia sobre o Tejo (a Ponte Vasco da Gama, inaugurada em Março de 1998, ligando Sacavém a Montijo), e ainda vários novos acessos viários, como a CRIL (Cintura Rodoviária Interna de Lisboa), ou a Variante à Estrada Nacional 10, que muito contribuíram para um mais fácil escoamento do trânsito desta região.

Ao mesmo tempo, devido à realização destas obras encerrou-se a rodovia que ligava Sacavém directamente à 2.ª Circular, pela chamada Estrada de Sacavém, com a erecção de um muro de betão a separar a localidade de Lisboa (conhecido pelo desditoso nome de «Muro da Vergonha»), o que motivou na altura (e continua a suscitar até hoje) grande contestação por parte dos habitantes de Sacavém.

Este período ficou também marcado por dois tristes crimes relacionados com a G.N.R. de Sacavém, que chocaram os Sacavanenses e indignaram a opinião pública nacional, pela grande repercussão que tiveram nos meios de comunicação social. A 16 de Maio de 1996 foi encontrada no vale de Chelas uma cabeça humana, que se veio a demonstrar pertencer a Carlos Rosa, decapitado pelo capitão da esquadra da G.N.R. de Sacavém a 7 de Maio; pouco mais de cinco anos volvidos, em 12 de Junho de 2001, novo crime ensobrou a terra, quando apareceu enforcado na cela da mesma esquadra um outro jovem, Pedro Morgado, alegando os militares tratar-se de suicídio, mas demonstrando-se, pelas provas, tratar-se de homicídio por estrangulamento. A tudo isto não terá sido indiferente o encerramento da esquadra da G.N.R. (actualmente transformada em ATL para os jovens), e a abertura de uma esquadra da P.S.P., no final desse mês de Junho de 2001.

Século XXI[editar | editar código-fonte]

Entretanto, em 2000, seria inaugurado o Museu de Cerâmica de Sacavém, destinado a conservar o espólio da antiga Fábrica de Loiça (sobretudo o antigo Forno n.º 18, a única parte da antiga fábrica preservada, já que o remanescente deu lugar a novas urbanizações); foi já galardoado com um prémio internacional pela sua reconhecida excelência.

No dia 1.º de Dezembro de 2001, faleceu em condições trágicas o Prior Filinto Ramalho, devido a um incêndio na sua residência (contígua à Igreja Matriz); não obstante a pronta intervenção dos bombeiros, já não foi possível resgatar com vida o seu corpo. Desaparecia assim uma grande referência da população de Sacavém (já que fora pároco da localidade ao longo dos 59 anos precedentes), facto que causou grande constrenação; desde então que a Junta de Freguesia e os movimentos associativos locais têm procurado homenagear esta figura ímpar da vida local sacavenense.

Em finais de 2003, novo escândalo trouxe o nome da terra às primeiras notícias dos media, tendo a Polícia Judiciária investigado o contrabando de jipes topo-de-gama entre a direcção dos Bombeiros Voluntários de Sacavém e o empresário Sousa Cintra (filho do antigo presidente do Sporting Clube de Portugal José de Sousa Cintra).

Em 2005 iniciaram-se, no âmbito do Programa de Requalificação e Ordenamento Urbano das Áreas Suburbanas de Lisboa (PROQUAL), obras destinadas a beneficiar a cidade de Sacavém, enquanto principal pólo urbano da zona oriental do concelho de Loures, cofinanciadas pela Câmara Municipal e o Ministério da Administração Interna. Nesse sentido, tiveram início as obras do novo quartel dos bombeiros (obra muito desejada não apenas da corporação, como também da população em geral, dado que as anteriores instalações, bastante antiquadas e situadas no centro da cidade, em zona de ruas relativamente estreitas, impedia a prestação de um melhor serviço às populações servidas pela corporação de bombeiros sacavenense).

Do mesmo modo, a Avenida do Estado da Índia (antigo troço final da Estrada Nacional 10 e hoje a principal artéria do tecido urbano sacavenense), está a ser requalificada, através do reperfilamento da via, reordenamento do trânsito (com criação de duas faixas de rodagem em cada sentido e um separador central) e ainda vários melhoramentos acessórios nas áreas circundantes.

Por fim, ainda ao abrigo do PROQUAL, e como forma de continuar a valorizar o património cultural da cidade, foi inaugurada, em Julho de 2005, a Casa-Museu José Pedro, imóvel de um antigo operário sacavenense, que deixou vasto espólio cerâmico.

Graças ao renovado mobiliário urbano situado na zona oriental da cidade, na área do Parque das Nações (os Parques do Tejo e do Trancão), a freguesia tem sido palco de diversos eventos culturais e, sobretudo, musicais. Assim, desde 2003 que Sacavém vem acolhendo, nas noites de Verão, sessões de drive-in promovidas pela Câmara Municipal de Loures, e que têm trazido o melhor da sétima arte à foz do Trancão.

Por outro lado, a partir de 2004, têm-se realizado, no Parque do Tejo, no final de cada Primavera, as 10.ª,[59] 11.ª [60] e 12.ª [61] edições do Festival Super Bock Super Rock, patrocinado pela conhecida marca de cerveja Super Bock, tendo contado com a participação de vários artistas de pop, rock e hip-hop nacionais e internacionais (como Alice in Chains, Audioslave, Avril Lavigne, Blasted Mechanism, Blind Zero, Boss AC, Bunnyranch, Clã, Da Weasel, David Fonseca, Deftones, Expensive Soul, Fatboy Slim, Franz Ferdinand, Hoobastank, Incubus, Keane, Korn, Lenny Kravitz, Linkin Park, Loto, Marilyn Manson, Massive Attack, Mind da Gap, Moby, Moonspell, Nelly Furtado, N.E.R.D., New Order, Pixies, Placebo, Primitive Reason, Reamonn, Slayer, System of a Down, Black Eyed Peas, The Gift, The Prodigy, Toranja ou Within Temptation).

A polivalência destes espaços levou-os também a serem o palco escolhido para a realização do Festival Académico da XVII Semana Académica de Lisboa,[62] ocorrido nos dias 3, 4 e 5 de Maio de 2006, assim como da XVIII Semana Académica, nos dias 4, 5 e 6 de Maio de 2007.

Em 2013, na sequência de uma reforma administrativa aprovada pela Assembleia da República, a freguesia de Sacavém foi novamente reunida com a vizinha do Prior Velho na União das Freguesias de Sacavém e Prior Velho[63] .

Preocupações actuais e desafios para o futuro[editar | editar código-fonte]

O concelho de Sacavém[editar | editar código-fonte]

As freguesias que integrariam um futuro concelho de Sacavém, cobrindo a metade oriental do actual concelho de Loures: Apelação, Bobadela, Camarate, Moscavide, Portela, Prior Velho, Sacavém, Santa Iria de Azóia, São João da Talha e Unhos.

Actualmente, entre as preocupações que estão na ordem do dia em Sacavém, destacam-se a criação do município de Sacavém (que incluiria as dez freguesias da zona oriental do concelho de Loures – Apelação, Bobadela, Camarate, Moscavide, Portela, Prior Velho, Santa Iria de Azóia, São João da Talha, Unhos, e muito naturalmente, a cidade de Sacavém, que seria a sede da nova edilidade), um propósito já bastante antigo, posto que já nos finais do século XIX, em 17 de Abril de 1897, um jornal local (o Correio de Sacavém: semanário órgão dos interesses locaes do Concelho de Loures, periódico de curta duração, já que se extinguiu ao fim de 35 números, em 16 de Dezembro do mesmo ano) exigia das autoridades centrais a descentralização administrativa:

«A par com a reclamação das providências com que o Estado tem por obrigação acudir, conforme as urgências, visto ser ele o senhor de todos os serviços públicos, reclamaremos também a descentralização desses mesmos serviços tão necessários à boa administração dos povos como bem exercitados[carece de fontes?]

É preciso entretanto esperar por 1912 para ser criada a primeira comissão destinada a reclamar a constituição do concelho de Sacavém, tendo sido subscrito o primeiro abaixo-assinado pelos eleitores de várias freguesias no sentido de ser criado este novo município. Na altura, o projecto contou com as assinaturas dos eleitores das freguesias da Apelação, Camarate, Charneca, Sacavém (incluindo os actuais territórios da Portela e do Prior Velho), Santa Iria de Azóia (que então abrangia as actuais freguesias da Póvoa de Santa Iria, São João da Talha e Bobadela), Unhos, e ainda da povoação de Moscavide (à data, integrada na freguesia dos Olivais como mero lugar). Em 17 de Maio de 1914, foi levado ao Senado o Projecto de Lei n.º 109/A, da autoria do deputado do Partido Democrático João Teixeira de Queiróz Vaz Guedes, acompanhado pelo abaixo-assinado dos eleitores, e que teve até um parecer favorável assinado em 2 de Junho do mesmo ano por Anselmo Augusto da Costa Xavier, Carlos Richter e José Maria de Moura Barata Feio Terenas; no entanto, a dissolução do Congresso da República impediu de levar a bom porto esta iniciativa.

Desde 1987, foram já levados à Assembleia da República cinco projectos de lei (1987, 1990, 1992, 1998 e 2004), apresentados pelo PCP e pelo PSD, no sentido de viabilizarem este desejo das suas populações; se primeiro contaram com a oposição de certas bancadas parlamentares na Assembleia da República, mais recentemente têm esbarrado na oposição demonstrada por algumas Assembleias de Freguesia (designadamente as da Portela e de Moscavide).

A criação do concelho de Sacavém, bem como o de Odivelas, encontra-se contemplada no Plano Director Municipal de Loures desde 1992, tendo sido aprovado na Assembleia Municipal em 27 de Dezembro de 1993.

Aquando da criação do concelho de Odivelas, em 1998, foi levado à discussão um projecto de lei do PCP (n.º 490/VII/3, da autoria de Octávio Teixeira e António Filipe[64] ) que contemplava também a criação do município de Sacavém (idêntico a um projecto já apresentado na anterior legislatura, o n.º 61/VI/1,[65] e subscrito por Jerónimo de Sousa e João Amaral), o qual foi, no entanto, chumbado.

A última proposta (n.º 39/IX/1), de 2004, foi levada ao Parlamento pelas mãos de deputados da coligação governamental PSD-PP,[66] sendo que, depois da dissolução parlamentar em final desse ano, alguns meses após a realização das eleições legislativas em 20 de Fevereiro de 2005, deu de novo entrada idêntico projecto de lei (n.º 99/X/1), desta feita subscrito apenas pelo deputado do PSD, Rui Gomes da Silva.[67]

A eventualmente ser criado, o município de Sacavém recobriria a antiga área de influência do reguengo de Sacavém, com a exclusão das freguesias de Frielas e da Charneca do Lumiar, e a inclusão da de Santa Iria de Azóia. Com aproximadamente 35 km² de superfície, seria o nono mais pequeno concelho do país (superando apenas São João da Madeira, Entroncamento, Corvo, Espinho, Amadora, Vizela, Odivelas, Mesão Frio e o Barreiro), mas um dos vinte maiores, em termos de população (com perto de 130 mil habitantes), ficando integrado na área metropolitana da Grande Lisboa, onde superaria os coeficientes populacionais de concelhos como Mafra, Loures, Vila Franca de Xira e até mesmo Odivelas.

O projecto de criação da Freguesia do Parque das Nações[editar | editar código-fonte]

Outra preocupação prende-se com os desejos autonomistas dos habitantes do vizinho Parque das Nações, que pretendem ver criada a Parque das Nações, cujo limite Norte será, a ser fundada, o rio Trancão – o que, na óptica dos órgãos autárquicos de Sacavém, amputaria uma parte significativa de território da freguesia. Ainda que, em termos funcionais, esse território possa ser considerado como integrante da cidade de Lisboa – visando assim a proposta de criação da referida freguesia adequar a divisão administrativa à realidade das populações – tal desígnio causa veemente repúdio a todos os sacavenenses que habitam fora do Parque das Nações, tendo a Assembleia de Freguesia de Sacavém inclusivamente votado por unanimidade um parecer desfavorável à criação da referida freguesia.

Convém, aliás, frisar que, presentemente, o parque imobiliário construído na área do Parque das Nações situada na freguesia de Sacavém é o mais diminuto das três freguesias pelas quais presentemente aquele se estende (Sacavém, Moscavide e Olivais), sendo como tal, por ora extremamente reduzido o número de habitantes do Parque das Nações na área actualmente ocupada pela freguesia de Sacavém; com efeito, a maior parte do território é ocupada pelo Parque do Tejo e do Trancão.

Contudo, os partidos e organizações que subscrevem esta alteração administrativa (ou seja, a criação da Freguesia do Parque das Nações dentro do Concelho de Lisboa ou, no mínimo, a inclusão de todas as áreas do Parque das Nações na freguesia de Santa Maria dos Olivais) defendem ser esta a forma mais racional de gerir um espaço como o Parque das Nações, que actualmente é dividido por três freguesias e dois concelhos (além de que o concelho de Loures, actualmente, não administra o território do Parque das Nações – por exemplo, não administra a distribuição de água nem os outros serviços municipalizados, ao contrário do que acontece com a parte de Lisboa – recebendo apenas os impostos municipais provenientes do mesmo, o que implica um desfasamento entre quem recebe e quem actua).

Uma proposta no sentido da criação da dita freguesia deu entrada na Assembleia da República ainda em 2004, por deputados do PSD e do CDS-PP, mas com a dissolução parlamentar em finais desse mesmo ano, ordenada pelo Presidente da República (então Jorge Sampaio), essa iniciativa legislativa caducou; porém, já na presente Legislatura, foi de novo apresentada à discussão pelo PSD, achando-se de momento na comissão de ordenamento territorial, para discussão (projecto de lei n.º 100/X/1).[68]

Do ponto de vista religioso, já se operou a erecção canónica da paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes do Parque das Nações, com territórios desmembrados das paróquias de Sacavém, Santo António de Moscavide, Santa Maria dos Olivais e Nossa Senhora da Conceição dos Olivais-Sul, por decreto do Cardeal-Patriarca D. José Policarpo de 25 de Julho de 2003, pelo que a paróquia de Nossa Senhora da Purificação de Sacavém deixou de abranger, territorialmente, a parte mais oriental da freguesia, compreendida entre o rio Tejo e a linha ferroviária do Norte/da Azambuja.[69]

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. Cf. Nova História de Portugal, dir. de Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, vol. X – Portugal e a Regeneração, coord. de Fernando de Sousa de A. H. de Oliveira Marques, Lisboa, Editorial Presença, 2004.
  2. Cf. LEAL, Pinho, Portugal Antigo e Moderno: Diccionário Geográphico, Estatístico, Chorográphico, Heráldico, Archeológico, Histórico, Biográphico & Etymológico de Todas as Cidades, Villas e Freguesias de Portugal e Grande Número de Aldeias. Facsímile da edição de Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira, 1873–1890, vol. 8, Lisboa, Cota d’Armas, 1990, p. 310.
  3. Vide Património de Arqueologia.
  4. Vide Sítios Arqueológicos, do Ministério da Cultura Português.
  5. Vias Romanas em Portugal - Itinerarios
  6. Cf. HOLANDA, Francisco de, Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, introdução e notas de José da Felicidade Alves, Lisboa, Livros Horizonte, 1984, pp. 26–28 (Capítulo 7.º – Das Pontes e Calçadas Públicas de Lisboa).
  7. Inscrições romanas do termo loures (pdf)
  8. a b Cf. LEAL, Pinho, op. cit., p. 313.
  9. a b Cf. LEAL, Pinho, op. cit., p. 311.
  10. a b c MEDIEVALISTA
  11. Cf. Helena CATARINO, «O Castelo de Povos (apontamentos para o período islâmico em Vila Franca de Xira)», Catálogo da Exposição Senhor da Boa Morte – Mitos, História, Devoção, 28 de Junho a 8 de Agosto de 2000, Celeiro da Patriarcal, Vila Franca de Xira, ed. da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, 2000, pp. 43–51.
  12. A Cidade de Sacavém - Filipe Rocha
  13. Cf. MACHADO, José Pedro, Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa, vol. III, Lisboa, Confluência, 1984, p. 1290.
  14. Cf. HERCULANO, Alexandre, História de Portugal. Desde o começo da Monarquia até o fim do reinado de Afonso III. Prefácio e notas de José Mattoso e verificação do texto de Ayala Monteiro, tomo I, Amadora, Livraria Bertrand, 1980, pp. 679 e 694.
  15. a b Cf. BLOT, Maria Luísa Pinheiro, Os portos na origem dos centros urbanos. Contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal, Lisboa, IPA, 2003, passim.
  16. Cf. CUNHA, Dom Rodrigo da, Historia Ecclesiastica da Igreia de Lisboa, Em Lisboa, Por Manuel da Silva, 1642, fól. 99 <http://purl.pt/12033/2/P205.html>.
  17. a b Cf. Atlas de Cidades Medievais Portuguesas (Séculos XII a XV). Org. de A. H. de Oliveira Marques, Iria Gonçalves e Amélia Aguiar Andrade, vol. 1, Lisboa, Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa e Instituto Nacional de Investigação Científica, 1990.
  18. Cf. BLOT, Maria Luísa Pinheiro, op. cit., p. 112.
  19. Cf. DGARQ/ANTT, gaveta 13, maço 6, doc. n.º 7.
  20. Cf. OLIVEIRA MARQUES, A. H. de, «A população portuguesa nos fins do século XIII», Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa, Editorial Vega, 1980, pp. 51–92.
  21. Cf. CAETANO, Marcelo, A Administração Municipal de Lisboa durante a Primeira Dinastia (1179-1383), Lisboa, Livros Horizonte, 1990, pp. 31-36.
  22. Cf. AZEVEDO, Pedro de, «Os Reguengos da Estremadura na 1.ª Dinastia», Revista da Universidade de Coimbra, vol. XI - Miscelânea de estudos em honra de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, pp. 577-634.
  23. Cf. FERREIRA, João Pedro Rosa, «Manuel Pessanha», Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, dir. de Luís de Albuquerque; coord. de Francisco Contente Domingues, vol. II, Lisboa, Editorial Caminho, 1994, pp. 896–898.
  24. Cf. ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em Portugal, nova ed. preparada e dirigda por Damião Peres, vol. 4, Porto, Portucalense Editora/Livraria Civilização-Editora 1971, pp. 127-128.
  25. Cf. Livro de Chancelaria de D. Afonso IV.
  26. Cf. Maço 17 do espólio do Mosteiro de Chelas do DGARQ/ANTT.
  27. Cf. RAU, Virgínia, Estudos sobre a História do Sal Português, Lisboa, Editorial Presença, 1984, p. 64.
  28. Cf. O Livro das Lezírias d'El-Rei Dom Dinis. Tradução, estudo introdutório e notas de Bernardo de Sá-Nogueira, Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa, 2003, p. 128.
  29. a b Cf. Livro de Chancelaria de D. Pedro I.
  30. Cf. LOPES, Fernão, Crónica de el-rei D. Fernando, capítulo LXII.
  31. Cf. LOPES, Fernão, Crónica de el-rei D. Fernando, Prólogo.
  32. a b Cf. LOPES, Fernão, Crónica de el-rei D. Fernando, capítulo CXXXIII.
  33. Cf. LOPES, Fernão, Crónica de el-rei D. João I – parte primeira, capítulo CXXXIII.
  34. Cf. Corónica do Condestabre de Portugal D. Nun'Álverez Pereira, capítulo LXI.
  35. Cf. Documento 71, Monumenta Henricina, vol. II (1411-1421), Coimbra, Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1960, pp. 166-168.
  36. Cf. PINA, Rui de, Crónica de D. Afonso V, capítulo XXXI.
  37. Cf. MORENO, Humberto Baquero, A Batalha de Alfarrobeira. Antecedentes e Significado Histórico, Lourenço Marques, 1973. Estes factos encontram-se também narrados nos primeiros capítulos das Crónicas de D. Afonso V da autoria de Rui de Pina e Duarte Nunes de Leão.
  38. Artur Moreira de Sá (ed.), Chartularium Universitatis Portugalensis, vol. VII (1470-1481), Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1978, pp. 367-369.
  39. Cf. OLIVEIRA MARQUES, A. H., Intodução à História da Agricultura em Portugal, Lisboa, Edições Cosmos, 1978, p. 76.
  40. Cf. BRONSEVAL, Claude de, Peregrinatio Hispanica. Introduction, traduction et notes par Dom Maur Cocheil, tome I, Paris, Presses Universitaires de France, 1970, p. 363.
  41. Cf. DGARQ/ANTT, Chancelaria de D. João III, Ofícios, Padrões e Doações, livro 72, fól. 11.
  42. Cf. VERÍSSIMO SERRÃO, Joaquim, O Reinado de D. António, Prior do Crato, vol. I – 1580–1582, Coimbra, MCMLVI, p. 43.
  43. Vide CEHA-Madeira.
  44. Cf. VERÍSSIMO SERRÃO, Joaquim, O Reinado de D. António, Prior do Crato […], pp. 116–117.
  45. a b Cf. FARIA, Manuel Severim de, Viagens em Portugal de Manuel Severim de Faria (1604-1609-1625). Introdução, transcrição e notas de Joaquim Veríssimo Serrão, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1974, pp. 74-76.
  46. Cf. OLIVEIRA, Frei Nicolau de, Livro das Grandezas de Lisboa. Prefácio de Francisco Santana. Actualização do texto por Maria Helena Bastos. Facsílime da edição de Lisboa, 1620, Lisboa, Vega, 1991, p. 553.
  47. Cf. ANDRADA, Miguel Leitão de, Miscelânea. Facsímile da 2.ª edição de Lisboa, Imprensa Nacional, 1867; introdução de Manuel Marques Duarte, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1993, pp. 32–35.
  48. PORTUGAL - DICIONÁRIO HISTÓRICO: João Pinto Ribeiro
  49. Vide Terceiro dia, de touros no sitio de Sacavem por obsequio á senhora S. Anna, no fim do mez de septembro do anno proximo passado : No qual forão cavaleyros combatentes Francisco de Mattos Ferreira e Souto e José Moquete. (Sylva.) e Festas de Sacavem em obsequio da Senhora Sta. Anna: descripção dellas em o terceiro dia em que forão os Cavalleiros combatentes Francisco de Mattos e Jozé Roquete no sítio da Biblioteca Nacional de Portugal.
  50. a b Portal da História - Memórias: Condessa de Atouguia
  51. Cf. AIRES, Cristóvão, Manuel da Maia e os engenheiros militares portugueses no terremoto de 1755, Lisboa, Imprensa Nacional, 1910, p. 44 (versão online na Biblitoeca Nacional Digital).
  52. Cf. MONOD, Théodore, L'île d'Arguin (Mauritanie). Essaie historique, Lisboa, Instituto de Investigação Científica Tropical, 1983.
  53. Cf. Arquivo Municipal de Loures, Correspondência da Câmara Municipal dos Olivais.
  54. Aqui (não) houve Portugal e os passageiros foram largados no caminho
  55. O comboio em Portugal
  56. Cf. Arquivo Municipal de Loures, Actas da Câmara Municipal dos Olivais, livro 17, fólio 186.
  57. Decreto n.º 14676, de 4 de Dezembro de 1927 (Diário do Governo, n.º 270, I Série, de 4-XII-1927).
  58. Vide os projectos 579/VI/4 ou 120/VII/1, ambos do PCP.
  59. Vide Super Bock 2004.
  60. Vide Super Bock 2005.
  61. Vide Super Bock 2006
  62. Vide XVII Semana Académica de Lisboa.
  63. Lei n.º 11-A/2013, de 29 de Janeiro
  64. Vide Projecto de Lei n.º 490/VII/3: Criação do município de Sacavém (proposta do PCP).
  65. Vide Projecto de Lei n.º 61/VI/1: Criação do município de Sacavém (proposta do PCP).
  66. Vide Projecto de Lei n.º 39/IX/1: Criação do município de Sacavém (proposta do PSD e CDS-PP) (DOC), no sítio do Parlamento Português.
  67. Vide Projecto de Lei n.º 99/X/1: Criação do município de Sacavém (proposta do PSD) (DOC), no sítio do Parlamento Português
  68. Vide Projecto de Lei n.º 100/X/1: Criação da freguesia do Oriente (proposta do PSD) (DOC), no sítio do Parlamento Português.
  69. Vide Decreto do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, pelo qual é erecta canonicamente a Paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes do Parque das Nações (DOC), no sítio do Patriarcado de Lisboa.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]