História de Santa Quitéria (Ceará)

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Este artigo trata da História de Santa Quitéria (Ceará) desde o povoamento inicial do território que hoje compõe o município, incluindo o período em que foi distrito de Sobral.

Povoamento inicial[editar | editar código-fonte]

Na primeira década do século XVIII (1708) os irmãos José Machado Freire e Miguel Machado Freire, conseguiram por sesmaria, seis léguas de terra as margens do rio Groaíras, porém foi em 1760 que João Pinto de Mesquita que residia na Fazenda Jacurutu Velho, próximo de onde é hoje o Distrito de Malhada Grande, instalou uma fazenda para abrigar seu filho, João de Mesquita Pinto, recém casado. Esta fazenda, localizada às margens do Riacho Cascavel, foi a primeira fazenda da região e chamava-se Fazenda Cascavel. Outras casas foram sendo construídas ao redor da fazenda, com o aumento da população surgiu a necessidade de ser erigida uma capela, o que aconteceu nas proximidades de onde é hoje o cruzamento das ruas João Rodrigues Pinto e Adroaldo Martins. A família Pinto de Mesquita desejando formar um povoado fez doação do terreno próximo a foz do Riacho Cascavel, estabelecendo a condição de que seus descendentes teriam direito de edificar suas habitações nas térreas doadas.

Elevação a freguesia e criação da comarca[editar | editar código-fonte]

Em março de 1823 o povoado é elevado a freguesia, unida à capela de Santa Quitéria (vide Cap. Paroquial de Santa Quitéria). Assim se reportou Antônio Bezerra a respeito do assunto e sobre os distritos de paz:

“Foi criada freguesia por Decreto de Março de 1823, a que se refere a Lei nº. 224 de 4 de janeiro de 1841. Tem dois distritos de paz: o de Santa Quitéria, criado pela Lei Orgânica de 15 de outubro de 1827 e art. 2º. do Cód. do Processo, e o da Barra do Macaco, criado pela Lei nº. 327, de 6 de dezembro de 1850. Além deste, que são também distritos policiais, tem o do Videu, sobre a Serra das Matas.

No município se encontram, a igreja matriz da vila, criada por Decreto de 22 de março de 1823, e as capelas filiais da Barra do Macaco e do riacho dos Guimarães, a primeira no povoado cabeça do distrito do mesmo nome, e a segunda num pequeno arraial distante da vila 90 quilômetros ao nordeste”. (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965, Pág. 283).

A comarca de Santa Quitéria foi criada pela Lei nº. 1551 de 4 de setembro de 1873, compreendendo os termos de Santa Quitéria e Tamboril, posteriormente tornaram-se independentes, sendo a de Santa Quitéria criada pelo Decreto nº. 8.742, de 18 de novembro de 1884 e a de Tamboril pelo decreto de nº. 5.552, de 20 de fevereiro de 1874. A comarca foi primeiramente Tamboril, depois transferida a sede para Santa Quitéria pela Lei nº. 1.814, de 22 de janeiro de 1879. era comarca de primeira entrância, de acordo com o Decreto nº. 5.641, de 16 de maio de 1874. Segundo o historiador Antônio Bezerra, que visitou Santa Quitéria em 1884, nessa época a Vila contava com aproximadamente 120 casas, o mercado estava em construção, assim como o prédio onde funciona hoje a Câmara Municipal e a Cadeia Pública, o prédio da Câmara Municipal foi inaugurado em 1888. Contam que antes de o mercado ser construído as feiras aconteciam na praça da Matriz. Era ali que comerciantes armavam suas barracas e as pessoas, principalmente da zona rural, vinham vender seus produtos e fazer suas compras.

Desmembramentos[editar | editar código-fonte]

Quando o município foi criado, sendo desmembrado de Sobral em 27 de agosto de 1856, pela Lei nº. 782, possuía uma área bem maior. Com o passar dos tempos foi perdendo parte de seu território para criação de outros municípios. Em 1929 perdeu o distrito de Riacho Guimarães para ser criado o município de Cariré. Riacho Guimarães hoje é a cidade de Groaíras. Em 1951 perdeu parte de suas terras situadas nas Serra das Matas para fazer parte do município de Monsenhor Tabosa. Em 1957 foi a vez do então distrito de Hidrolândia se emancipar e em 1990 o distrito de Senador Catunda também se tornou independente.

Características da Vila de Santa Quitéria[editar | editar código-fonte]

Assim o historiador Antônio Bezerra descreveu a Vila de Santa Quitéria em 1884:

“Assentada sobre a margem ocidental do rio Jacurutu, numa planície em forma de ângulo que descreve o rio deste lado, conta a vila de Santa Quitéria umas 120 casas distribuídas na larga praça, em cujo centro se acha a igreja-matriz, em três ruas, das quais a melhor e bem edificada corre a esquerda do templo em rumo de sul a norte, e ainda em outras com largos intervalos em sentido contrário atravessando estas. Há aqui alguns prédios excelentes, construídos ao gosto moderno: portas altas e frentes terminadas em cimalha. Um edifício elegante que se vê ao lado oriental da praça, destinado a servir para a câmara municipal, está abandonado e tem necessariamente de cair à falta de um pequeno auxílio dos cofres provinciais, visto como faltando-lhe a coberta, as chuvas têm estragado as cadeiras do andar superior e ameaçam as paredes. É pena; não há melhor em outra parte. Está traçado com todas as regras de arte. O mercado, no extremo sul da rua mais extensa, não está ainda acabado, mas, no que se há feito, apresenta quartos de frentes elevadas, que prometem na conclusão um excelente edifício. Perto daqui se levantam diversas casas, pelo que noto que a vila se estende para este lado. É a primeira localidade que se lembrou de construir depois da seca de 1877, não sei se por lhe abundarem os recursos ou por influência de moradores de outros lugares a vila apresenta perspectivas alegre, e como sertão o seu território é um dos mais produtores da província. Tem duas escolas de instrução primária para ambos os sexos, regularmente freqüentadas, e na Barra do Macaco, 60 quilômetros ao sul, o Sr. Raimundo Minervino Ramos, moço habilitado, mantém uma a seu esforço, onde recebem instrução numerosos alunos. A sua população é calculada atualmente em 10.000 almas, tendo tido antes da seca um terço a mais. As rendas provinciais arrecadadas pela Coletoria montaram no último ano a soma de 5:510$498 réis”. (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965, 281).

Antônio Bezerra aborda também as riquezas do município, o seu comércio e fala ainda de seus açudes e até sobre o clima.

“Sua principal riqueza consiste na indústria pastoril, mantida por 350 fazendas de gados e por 90 agrícolas, na serra das Matas e Umburanas, onde se cultivam algodão, mandioca e cereais. Exporta para a capital e para Sobral muito gado, sola, couros salgados, courinhos, queijos, algodão e alguma borracha (Jatropha sp) extraída da parte da serra das Umburanas, que extrema o termo pelo nascente, cujo leite é igual ao do Amazonas: e importa fazendas, estivas e objetos de luxo das mesmas cidades, e farinha de mandioca, rapadura e aguardente da serra da Ibiapaba e Meruoca. Conta somente trás açudes espalhados no município, sendo os demais insignificantes reservatórios que secam quase sempre pelo fim da estação outonal. O clima é, como o de todo o sertão, salubre e agradável”. (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965, 283).

Costuma-se dizer que “as pessoas que aqui chegam e bebem a água do Rio Jacurutu, jamais deixam esta terra”. Antônio Bezerra também falou sobre essa água.

“Adiante notei que as margens do rio são revestidas de arbustos verdejantes, e que a água se encontra em todo o leito quase à flor da terra.

Esta água pura, cristalina, passa com justa razão por ser a mais saborosa da Província, e de feito, à exceção da Serra Grande, que não é menos fina, nenhuma impressão mais agradável ao paladar.

Tive ocasião de experimentar por mim mesmo”. (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965, 286)

Contam que o açude doze Lobo, também conhecido como “açude do 15”, pertencia ao Padre Francisco Manoel L. Albuquerque (1851-1882), era feito de alvenaria, tendo sido arrombado e depois reconstruído de barro. Dizem que na época do Padre Francisco Manoel, atrás da parede existia um belo sítio, com muitas fruteiras e cana de açúcar, disseram-me que existia até um engenho (fábrica de fazer rapaduras). Antônio Bezerra disse o seguinte sobre esse açude:

“Encaminho-nos ao sítio que pertencera ao finado Padre Francisco Manoel, onde fui surpreendido pelas obras feitas de alvenaria para conter as águas que recuam cerca de um quilometro.

Ainda não tinha visto reservatório maior em meu caminho, e não me consta que para o norte da Província se encontre outro com tais proporções. É realmente uma obra gigantesca, na qual deve o seu antigo proprietário ter despendido uma fortuna.

Acresce ainda que se acha a poucos passos da vila, prestando aos moradores grande serviço, já pelo fornecimento dágua, já pela abastança de peixe”. (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965, 286, 287)

Dificuldades ao fim do segundo reinado[editar | editar código-fonte]

Como se vê Antônio Bezerra afirma que a população em 1884 era calculada em 10.000 almas e que tinha sido antes da seca um terço maior. Pode-se imaginar quanto sofrimento a seca de 1877 a 1879 trouxe ao povo. Não tínha-se a infra-estrutura em açudes, transporte, etc. que se tem hoje e como agravantes a ajuda federal demorou muito a chegar, sendo alvo de protestos veementes do ilustre quiteriense na época Senador do Império, Tomás Pompeu de Sousa Brasil, Senador Pompeu. Antônio Bezerra expressou-se sobre o Senador Pompeu nos seguintes termos:

“...foi-me indicada uma casa velha, baixa, de pobre aparência, na qual havia nascido o Senador Tomás Pompeu. Eu não cansava de admirar aquele casebre, que abrigava na primeira idade senão o maior gênio da Província, ao menos o seu melhor amigo. Media-lhe a altura, tocava as paredes, reparava a respeitável vetusta de com a veneração de quem tem presente um objeto sagrado. Vicissitudes da vida! Do quieto remanso deste retiro, abrigando a um canto da aldeia, ergueu-se o moço sertanejo à sumidade das posições sociais e da imortalidade. Todos lhe devemos reconhecimento, pois que enquanto o animou o sopro da vida, foi sua incessante aspiração pugnar pelos interesses e prosperidade da terra natal. Na Câmara Temporária e no Senado sua palavra era continuamente ouvida, exigindo um melhoramento, um benefício, uma verba, que lhe desse azo a apresentar os recursos de sua riqueza natural; e, se nem sempre o conseguiu por esse meio, tornou-a mais respeitada e conhecida pela divulgação dos seus escritos. Nem a posição, nem a fortuna o transviaram do dever que se impusera de a amar do imo d`alma, muito embora açoitada das calamidades da seca; pelo que lhe cabe a glória de ter satisfeito o pensamento de Camões na estrofe estampada na primeira página do seu Compêndio de Geografia: Eu desta glória só fico contente, Que a minha terra amei e a minha gente. Foi nisto sincero até o fim da vida.” (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965)

Antônio Bezerra cita outro ilustre Quiteriense, o qual ele chama de Professor Joaquim Catunda, trata-se de nosso Senador Catunda, diz que ele era instruído, modesto e afirma ser ele um dos que se dedicavam a estudos sérios, entre nós, indubitavelmente o mais adiantado e incansável cultivador, porém diz lamentar que o amigo desacreditasse no potencial da Província e do seu povo. Abaixo o que diz Antônio Bezerra:

“Sinto e sinto profundamente, porém, que amigo como é da Província, descreia do futuro dela, não a considerando senão como uma terra pobre de recursos e por conseguinte impossibilitada de enfrentar com as outras suas irmãs, ainda mesmo dotada de extraordinários melhoramentos vias-férreas, açudes, etc. Não; respeito muito as opiniões do ilustrado professor, mas discordo do seu pessimismo, e alimento robusta convicção de que não por seus recursos naturais ao menos pelo desenvolvimento da indústria, ela se manterá no pé de prosperidade a que tem direito de esperar da energia do povo cearense. Quem soube devassar as insólitas regiões do Amazonas tão célebres em perigos e mortalidade, que outro povo não seria capaz de explorá-las, tem coragem para levantar a terra do berço, dadas certas condições mais favorável. Não deve desanimar quem sabe que de ingrata ilha de pescadores, tornou-se a Grã-Bretanha o empório do comércio e a rainha dos mares. Ainda mais: quando outra província favorecida de todos os dons da natureza, como Maranhão por exemplo, cai em decadência, acabrunhada pela dívida, com minguada receita, quase metade da que produz esta, tão perseguida pelas calamidades da seca, que no entanto nada, deve, não é fora de propósito acreditar que a atividade de seus filhos possa criar recursos que a elevem ao apogeu da glória e do engrandecimento. Falta-nos um pouco de patriotismo e de instrução, e no dia em que forem admitidos os melhoramentos aconselhados pela ciência na agricultura e indústria pastoril, que desaparecerem para sempre a rotina e sistemas primitivos adotados pela ignorância até hoje em todos os gêneros do trabalho humano; que for conhecida a nossa riqueza mineral que ainda se esconde no seio da terra à falta de conhecimentos práticos e aproveitados outras fontes de receita que a experiência há de lembrar, então muito contra a opinião do ilustrado Catunda, a província se erguerá da ruína a que reduziu o atraso dos nossos antepassados para próspera e feliz superabundar em meios de se enriquecer e nada invejar das outras, que confiam de mais na uberdade de seu solo. Elas têm as dádivas da natureza, nós temos o esforço humano que reage contra o gelo dos polos e edifica cidades nos areais do deserto. Eu penso assim, e traço aqui esta página convencido de que no futuro se reconhecerá que predisse a grandeza desta terra querida.” (“Notas de Viagem”, Antônio Bezerra, 1965, 295 e 296)

Antônio Bezerra referia-se ao Estado do Ceará, porém, analisando o que ele disse, se focalizar-se o município de Santa Quitéria, levando em consideração que possui a mina de Itataia, as jazidas de granitos e outras riquezas minerais, verifica-se que ele estava com razão. Antônio Bezerra relata também que os escravos existentes ali, naquela época e que haviam sido libertados a pouco tempo, vieram ao seu encontro para agradecer o que ele tinha feito em favor da libertação dos mesmos.

Fontes[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]