História do Amapá

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A História do Amapá tem início antes mesmo do Descobrimento do Brasil.

Povoamento indígena[editar | editar código-fonte]

Megalitos do observatório astronômico do Parque Arqueológico do Solstício.

A região do atual estado do Amapá foi, anteriormente à chegada dos primeiros exploradores europeus no século XVI, originalmente povoada por grupos indígenas das etnias waiãpi, palikur (no norte e noroeste), maracá-cunani e tucuju (ambos extintos;[1] no sudeste amapaense), incluídos nos troncos linguísticos aruaque e caribe.[2][3] Vestígios da ocupação humana pré-colombiana podem ser verificados nos sítios arqueológicos de cerâmicas maracá-cunani e no Parque Arqueológico do Solstício a "Stonehenge do Amapá", em Calçoene, que data de pelo menos 2.000 anos.[4]

O Amapá era bastante populoso na América do Sul no período pré-Colonial devido as áreas para plantio, onde se desenvolveram técnicas milenares. Usavam artefatos de madeira para erguer montes de terras circulares sobre as regiões alagadas, como nos municípios de Calçoene, Amapá, Pracuúba e Oiapoque. Promovendo sistemas de produções agrícolas avançados; que também eram realizados no Suriname e na Bolívia.[5]

Chegada dos europeus[editar | editar código-fonte]

Em sua obra "A Descoberta da Guiana", o navegador e explorador britânico sir Walter Raleigh descreveu uma "Província da Amapaia" como uma terra "maravilhosa e rica em ouro", povoada por indígenas chamados "anebas" que teriam presenteado o espanhol Antonio de Berreo com várias joias daquele metal:

Raleigh narra ainda como o rival espanhol tentou sair da região para tomar a cidade mítica de Eldorado (que então se acreditava ficar na Guiana) e não conseguiu, barrado pelo que seria hoje chamada de Serra Tumucumaque:

Embora várias destas características sejam condizentes com o território do Amapá, no entanto a interpretação da historiografia oficial situa esta terra de "Amapaia" junto ao vale do rio Orinoco, no leste da Venezuela.

O período colonial[editar | editar código-fonte]

Durante a Dinastia Filipina (1580-1640), estabelecida a presença portuguesa em Belém do Pará a partir de 1616, iniciou-se a luta pela ocupação e posse da bacia amazônica, que perdurou cerca de meio século pelas armas, e mais de dois séculos pela diplomacia.

Em 1619, Manuel de Sousa d'Eça foi designado para servir na Capitania do Pará, no Estado do Maranhão, por três anos. As suas funções incluíam a "(...) expulsão do inimigo do Cabo do Norte, e mais descobrimentos (...)", para o que requeria homens, armas e equiiversos. O memorial que apresentou a respeito, detalha a situação estratégica da embocadura do rio Amazonas à época, descrevendo as atividades estrangeiras e sugerindo as providências mais urgentes a serem tomadas pela Coroa.

O Aviso de 4 de novembro de 1621 do Conselho da Regência de Portugal, recomendava que se tomassem as medidas necessárias com o fim de povoar e fortificar a costa que se estendia do Brasil a São Tomé da Guyana e bocas do [rio] Drago [na Venezuela], e os rios daquela costa.

Finalmente, a partir de 1623, Luís Aranha de Vasconcelos e Bento Maciel Parente, tendo como subordinados Francisco de Medina, Pedro Teixeira e Aires de Sousa Chichorro, com forças recrutadas em Lisboa, no Recife, em São Luís do Maranhão e Belém do Pará, apoiadas por mais de mil índios flecheiros mobilizados pelo frade franciscano Cristóvão de São José, atacaram e destruíram posições inglesas e neerlandesas ao longo da embocadoura do rio Amazonas, na ilha de Gurupá e na ilha dos Tocujus. Como consequência, seis fidalgos ingleses foram mortos, os fortes neerlandeses de Muturu e Nassau foram destruídos, centenas de combatentes mortos ou capturados, provisões, armas, munições e escravos da Guiné foram apresados, e um navio neerlandês afundado.

Dois anos mais tarde, em 1625, Pedro da Costa Favela, Jerônimo de Albuquerque e Pedro Teixeira, com destacamentos de Belém e Gurupá, reforçados por algumas centenas de indígenas chefiados pelo franciscano Frei Antônio de Merciana, destruíram novos estabelecimentos na costa do Macapá e no rio Xingu. O Macapá era a designação genérica da região compreendida entre a foz do rio Paru e a margem esquerda da foz do rio Amazonas, abrangendo quatro províncias de indígenas ali aldeados por missionários franciscanos, entre elas a chamada Província dos Tocujus.

Em 1637, o Rei Felipe IV de Espanha e III de Portugal concedeu a donataria da Capitania do Cabo Norte a Bento Maciel Parente. A doação foi registrada no livro Segundo da Provedoria do Pará.

Até meados do século XVII foram registrados choques entre portugueses, neerlandeses e britânicos no delta do Amazonas e na Capitania do Cabo Norte. No século XVIII, a França reivindicou a posse da região do Cabo Norte, e embora o Tratado de Utrecht (1713) tenha estabelecido os limites entre o Estado do Maranhão e a Guiana francesa, estes não foram respeitados pelos franceses: o problema da posse da região permaneceria pendente nas relações entre as duas Cortes.

À época, o governador de Caiena, marquês de Férolles, à frente de uma força expedicionária francesa e indígena, arrasou os fortes portugueses na região do Cabo Norte e apossou-se da região. Foram logo expulsos.

Invasão portuguesa na Guiana Francesa[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Invasão da Guiana Francesa
Mapa da Guiana Francesa e Ilha de Caiena, de 1763.

Litígio Franco-amapaense (1713-1809)[editar | editar código-fonte]

Mesmo após o estabelecimento da fronteira entre o Estado do Maranhão e a Guiana Francesa pelo Tratado de Utrecht, a França não aceitava, fazendo com que a posse da região ficasse pendente entre as cortes.[6]

Com a ascensão Napoleônica na Europa, no dia 10 de agosto de 1797 em Paris, Napoleão Bonaparte determina como limite entre a Guiana Francesa e o Estado do Brasil o rio Calçoene. Novamente, em 1801, redefine como novo limite o rio Araguari através do Tratado de Badajós, confirmado pelo Tratado de Amiens em 1802. Assim, anulando os tratados anteriores, como a de Utrecht.[7]

Invasão portuguesa a Guiana (1808-1809)[editar | editar código-fonte]

No contexto da Guerra Peninsular, em 1806 houve a aplicação do Bloqueio Continental imposta pela França. Portugal recusava-se a aderir devido à aliança com a Inglaterra, ocasionando numa invasão francesa. Em 1808, a família real portuguesa (a Rainha Maria I e sua corte) se muda para o Brasil, transferindo a sede da monarquia lusa para o Rio de Janeiro. Como represália, a Coroa portuguesa autoriza a ocupação da área demarcada pelos franceses (o atual Amapá), e a invasão da Guiana Francesa pelas forças luso-brasileiras, com o apoio da Grã-Bretanha.[8]

O contingente Português consistia de 750 soldados regulares do Exército colonial do Brasil, liderados pelo tenente-general Manuel Marques e 550 soldados regulares da infantaria naval da Marinha colonial do Brasil e vários navios de guerra para agir como transportes e prestar apoio de artilharia em mar.[9]

Por terra, a expedição partiu do Pará, compostos por macapaenses e magazanenses. Enquanto que pelo mar eram apoiados pela esquadra da Marinha Real Britânica, comandada por James Lucas Yeo, chefe das forças navais.[10] Os fuzileiros-marinheiros estavam sob o comando de Luís da Cunha Moreira, que foi o primeiro ministro da Marinha do Brasil independente.[11] Os defensores franceses foram enfraquecidos por anos de bloqueio e só conseguiram reunir 400 da infantaria regular e 800 da milícia não confiável, formado em parte da população negra livre do território.

Como uma resistência o resultado foi inconsistente e apesar das fortificações fortes de Caiena, o território caiu dentro de uma semana. O primeiro combate foi travado em 15 de dezembro, às margens do rio Aproak, duas embarcações francesas foram apreendidas. Algumas semanas depois as tropas inglesas e portuguesas partiram para conquistar as principais fortificações francesas no rio Maroni. A tropa sitiou a capital, Caiena, cujo governador Victor Hughes se rendeu sem resistência, em 12 de janeiro de 1809, assinando em Bourda a rendição.[12]

Ocupação de Caiena (1809-1817)[editar | editar código-fonte]

João Severiano Maciel da Costa, futuro marquês de Queluz.

A Guiana Francesa esteve sob domínio português de 14 de janeiro de 1809 a 21 de novembro de 1817, tendo sido seu governador João Severiano Maciel da Costa,[13] com a designação de Colônia de Caiena e Guiana.[14] A ocupação não perturbou a vida diária dos habitantes.

Havia na região de Caiena, um famoso complexo agrícola mantido pela coroa francesa, mais conhecida como La Gabriele. Além de ser uma das principais fontes de renda da colônia, reunia todas as espécies vegetais almejadas pelos portugueses. Em abril de 1809, Rodrigo de Sousa Coutinho, responsável pelos hortos brasileiros, mandou providenciar transporte para enviar a maior quantidade possível de todas as árvores de especiaria para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. No total, 82 espécies foram embarcadas em seis caixas.[15]

Devolução do território (1817)[editar | editar código-fonte]

Em 1814, com a derrota de Napoleão, a posse da colônia voltou a ser reivindicada pelo governo francês, agora sob o domínio de Luís XVIII. Porém os termos da proposta francesa não foram aceitos por Dom João VI e a questão passou a ser discutida pelo Congresso de Viena no ano seguinte. Nessas negociações, a França concordou em recuar os limites de sua colônia até a divisa proposta pelo Governo português,[14] fixando a fronteira entre os dois territórios.[16]

Entretanto, somente em 1817, como resultado do Tratado de Viena, os portugueses deixaram Caiena com a assinatura de um convênio entre a França e o novo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Onde João Severiano passou o governo ao conde Carra de Saint-Cyr, general de Luís XVIII.[13]

Mesmo após ambos os reinos concordarem com o limite através do tratado, a França sempre demonstrava interesse na expansão de seu território, intensificando o litígio com o Amapá.

Cabanagem[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Cabanagem
Cólera Morbus, do pintor Pedro Chaves da Motta, tela de 1858. Retrato da precariedade que se encontrava o Grão-Pará no período da revolta.

A Cabanagem foi uma revolta popular e social que aconteceu na antiga Província do Grão-Pará, onde abrangia os atuais estados do Pará, Amazonas, Amapá, Roraima e Rondônia, no período regencial do Brasil Império. Inicialmente receberam ajuda das oligarquias paraenses, pois estavam insatisfeitas com a falta de participação nas decisões do governo provincial.[17] A revolta estendeu-se de 6 de janeiro de 1835 a 1840, comandada por Félix Clemente Malcher, Antônio Vinagre, Francisco Pedro Vinagre, Eduardo Angelim e Vicente Ferreira de Paula.[18]

Primórdios da revolta[editar | editar código-fonte]

Após o presidente da província, Lobo de Sousa ser morto a tiros por um índio tapuio, os revoltosos liderados por Félix Malcher e Antonio Vinagre tomaram o poder.[19] A notícia chegou a Macapá através do sub-comandante da Fortaleza de São José, Francisco Pereira Brito,[20] que fora a Belém atrás do pagamento dos soldados macapaenses que estavam a sete meses sem receber. Em abril de 1835 a Câmara da vila decidiu não aceitar a nova moeda, e assim tanto Macapá quanto Regeneração (atual Mazagão Novo) foram contra o governo Cabano.[21]

A resistência das vilas[editar | editar código-fonte]

Após as rebeliões em Belém, Clemente Malcher assume o poder, porém negocia com a regência e acaba sendo deposto pelo Francisco Pedro Vinagre, que comete a mesma atitude e entrega o poder a Manuel Jorge Rodrigues em troca de anistia aos revolucionários e outras ações de cidadania. Muitos destes descontentes e desacreditados do cumprimento do acordo, não entregaram as armas e refugiaram-se no interior. Como previsto, Jorge não cumpre o acordo e acaba mandando prender Francisco Vinagre, e manda reforços às vilas e cidades do Grão-Pará.[22]

Ainda em 1835, formou-se uma comissão de cinco membros em 23 de abril na Câmara de Macapá onde apresentaram o plano de defesa,[23] que ficou sob a responsabilidade do capitão José Joaquim Romão, do juiz municipal Manuel Gonçalves de Azevedo, o capitão da guarda nacional Francisco Barreto e o promotor Estácio José Picanço. Aprovou ainda a organização de uma cavalaria de 20 homens, reparo nos armamentos da fortaleza e embarcações para proteção pelo rio Amazonas. Regeneração que também estavam contra, destacaram uma embarcação pelo rio Mutuacá, onde combateram os cabanos quando tentaram entrar no povoado.[24]

Apoio de franceses aos cabanos[editar | editar código-fonte]

Com a revolta crescendo no Grão-Pará, muitas pessoas se refugiaram em Caiena. O governador da Guiana Francesa, Jean Jubelin, pretendia expandir o território francês até a área do litigio. Porém havia a necessidade de proteção aos colonos, aventada pelos governadores, deveria estar ligada ao medo que os franceses tinham de ser massacrados pelos rebeldes paraenses. Segundo os jornais, os revoltosos haviam assassinado um grande número de brancos no Pará e poderiam querer fazer o mesmo na Guiana.[25]

Somente no dia 29 de agosto de 1836, o novo governador, Laurens de Choisy, comunica ao ao barão de Cassapava que, nos termos do Tratado de Amiens[26] resolveria ocupar a região do rio Oiapoque até o rio Araguari.[27] Em Paris, o embaixador Araújo Ribeiro conseguiu ordem para evacuação do território, que foi feito em 10 de julho de 1840.[28] Havia também franceses vindos de Caiena que realizavam comércio com os índios desde o século XVII na região. Eles auxiliaram alguns grupos de cabanos com armas, mas essa ajuda foi limitada.[24]

Retrato de Eduardo Angelim, por volta de 1850. O revolucionário se tornou um dos principais líderes da Cabanagem.

A retomada do poder[editar | editar código-fonte]

Após a prisão de Francisco Vinagre, os revoltosos liderados por Antônio Vinagre e Eduardo Angelim, resolveram atacar Belém no dia 9 de agosto de 1835. Mesmo com a morte dos irmãos Vinagre, os cabanos retomam o poder.[17] Angelim assumiu a presidência em 7 de novembro, e durante dez meses, a elite se viu atemorizada pelo controle cabano sobre a província. Após a posse, tomou medidas como a expropriação e centralização de todo o comércio, e a proclamação de independência o Grão-Pará.

Diante da vitória das forças de Angelim, o império reagiu e nomeou, em março de 1836, o brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andrea como novo presidente do Grão-Pará, autorizando a guerra total contra os cabanos. Com sua forte força militar, ataca Belém e ocupa em 13 de maio, por consequência os cabanos fugiram novamente para o interior, e o Soares de Andrea inicia a campanha pró-retomada perseguindo os revoltosos.[29]

O brigadeiro Soares de Andreia, conhecido como Barão de Caçapava, foi nomeado como presidente da província do Grão-Pará. Após combater os Cabanos, retirou-se para conter outras rebeliões no Brasil.

A Câmara de Macapá nomeou o major Francisco de Siqueira Monterozzo e Melo da Silveira Vasconcelos em setembro de 1835 à responsabilidade da proteção da vila contra a invasão dos rebeldes. Monterozzo foi o principal combatente em Macapá, realizou expedições, organizou planos de defesa e costumava enviar relatorias ao governador da província relatando o cotidiano e os combates que haviam, em um desses mencionou a aparição de embarcações norte-americanas na região que estavam querendo realizar trocas de armas por produtos naturais da região.[27]

No dia 15 de abril de 1836, saiu uma expedição de Macapá comandada pelo alferes Brito destinada a desalojar os cabanos do arquipélago do Bailique, somente em 29 de maio os revoltosos foram derrotados. No mês de novembro houve embate com os cabanos que tentaram se refugiar pelo interior de Macapá e próximo de Mazagão, houve combate das forças macapaenses e mazaganistas onde venceram os rebeldes.[21]

O combate aos cabanos[editar | editar código-fonte]

Em fevereiro, quatro navios de guerra se aproximavam de Belém, prontos para atacar a cidade, tomada pela desordem, fome e varíola. Foi realizado um bloqueio naval na cidade pelo brigadeiro Soares de Andrea, que atracou sua esquadra em frente a Belém. Os cabanos insurgentes escapavam pelos igarapés em canoas pequena, enquanto Eduardo Angelim e alguns líderes negociavam a fuga. Angelim conseguiu furar o bloqueio naval e se refugiou no interior e em outubro de 1836, foi capturado numa tapera na selva, ao lado de sua mulher. Foi julgado no Rio de Janeiro e mandado para prisão de Fernando de Noronha.[30]

Alguns dos oficiais subordinados do major Monterozzo, baseados em fatos meramente circunstanciais, passaram a acusa-lo de que estava favorecendo aos cabanos. Os fatos culminaram com uma sedição ocorrida em julho de 1839. Na noite do dia 9 para 10, alguns oficiais se rebelaram e depuseram o seu comandante, estipulando aí um comando alternativo. Mas este comando só durou alguns dias. Por intervenção direta do governador Bernardo de Souza Franco, este fez partir imediatamente reforços, normalizando a situação.[27]

Oiapóquia e Pinsônia[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Projeto Oyapokia
Edição do jornal O Cearense de 26 de julho de 1853. A reportagem menciona que o objetivo do Oiapóquia seria evitar uma "invasão" norte-americana à Amazônia.

Província de Oiapóquia (1853-1859)[editar | editar código-fonte]

Com a independência do Brasil em 1822, as capitânias foram transformadas em províncias, que até então existia somente 18 delas: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Grão-Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, São Pedro do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe.[31]

Na metade da década de 1840, se via a necessidade de uma divisão na região amazônica para prover a segurança das fronteiras, que eram extensas e abandonadas.[32] No mesmo período ocorreu a revolta da Cabanagem, que por consequência, ocasionou o surgimento da Província do Amazonas em 1850.[33]

A decisão do Imperador do Brasil de criar a província animou os defensores de uma divisão mais substancial da Amazônia. Entre os quais se encontrava o geógrafo e senador pelo Maranhão, Cândido Mendes de Almeida,[34] que no dia 1 de julho de 1853 propôs um projeto na Assembleia Geral Legislativa, no Rio de Janeiro, a criação de uma província ao extremo norte do Brasil, que compreendesse as terras e águas entre o rio Nhamundá e o Atlântico, sendo nomeada de “Oyapókia”, cuja capital seria a vila de Macapá.[34]

Enquanto o projeto tramitava no parlamento, a vila de Macapá foi elevada à categoria de cidade pela lei provincial Nº 261 de 6 de setembro de 1856. Essa resolução do governador do Pará, tenente-coronel Henrique Beaurapaire-Rohan, que, inclusive esteve participando das solenidades, foi entendida pelos macapaenses como providências necessárias para viabilizar a autonomia.[34] A escolha da cidade pelo Cândido Mendes para se tornar capital foi por uma questão geográfica, onde o senador menciona:

A demora de uma decisão por parte do parlamento levou as populações de Macapá e Mazagão, em 1859, a enviar-lhe um documento pleiteando a aprovação do projeto de Cândido Mendes para a criação da Província.[32] O apelo foi inútil, fazendo com o que o senador retira-se o projeto do parlamento e buscasse atrair o apoio de outros setores da sociedade brasileira para seus estudos sobre a questão.[34]

Província de Pinsônia (1868-1880)[editar | editar código-fonte]

Face do diplomata e professor Joaquim Caetano da Silva num selo postal de 1958. Influenciado pelo projeto de Cândido Mendes, publicou em 1861 o livro "Oiapóquia e o Amazonas" em Paris. Também defendeu as posições brasileiras na questão do limítrofe com a Guiana Francesa, na região chamada "Contestado do Amapá".

Em 1868, Cândido Mendes publica o “Atlas do Império do Brazil” dedicada a instrução pública, reforçando a ideia de uma nova geopolítica. Composto por 27 grandes mapas coloridos e em grandes escalas diversas, sendo o primeiro deles o mapa-múndi. Dentre as divisões das províncias foi mencionada a demarcação de “Pinsônia”.[36] Em 1868, o senador fez menção da ineficiência do sistema adotado na época,[37] onde cita:

Em 23 de setembro de 1873, Cândido Mendes volta a Assembleia novamente com o projeto Oiapóquia. A principal alteração foi o nome, que havia sido modificado para “Província de Pinsônia” em homenagem ao navegador Vincente Pinzón.[39] A nova representação feita foi assinada por 387 macapaenses rebatendo os argumentos usados pelos opositores paraenses. Que se baseavam na ideia de que as terras de Macapá ofereciam muitos perigos à saúde, especialmente sobre as frequentes febres palustres, águas paradas em pântanos e lagos, córregos e igarapés contaminados por seiva venenosa de assacuseiro, afirmando que era comum neste lugar.[40]

Localização do Província de Pinsônia no mapa do Cândido Mendes de 1868.

Os apoiadores do projeto esclareceram que Macapá não possuía pântanos nem áreas pantanosas, e era cortada por dois igarapés; destacavam também que nas várzeas não havia assacuseiros. As causas de endemias de febres eram falta de higiene das casas e a inexistência da coleta de lixo urbano. O texto terminava destacando o descaso da Assembleia Legislativa Provincial do Pará em relação às necessidades da cidade, pois a manutenção dos prédios públicos (casa de alfândega, cadeia, casa da câmara e matriz) era feita exclusivamente pelos assinantes.[40] Porém, não obtiveram êxito.

Em 1876, o coronel Fausto de Souza propôs dividir o Brasil em 40 províncias. E toma para si o projeto do Cândido Mendes sobre a Pinsônia,[41] onde publica em 1880 uma nova divisão territorial na Amazônia constituída de 9 províncias: Japurá, Solimões, Madeira, Rio Negro, Amazonas, Tapajós, Xingu, Grão-Pará e Pinzônia. Esta última constituída pelas terras amapaenses, onde a capital novamente seria Macapá. Na justificativa de seu projeto, afirmou ser a política-administrativa amazônica, a causa determinante da decadência socioeconômica regional.[42]

Da Independência à Proclamação da República[editar | editar código-fonte]

Monumento Cabralzinho no Centro histórico de Macapá. O apelido diminutivo foi dado a Veiga Cabral devido a sua baixa estatura.

Após a Independência do Brasil (1822), a região mergulha em relativo esquecimento, entrecortada por episódios da história regional, como a Cabanagem (1835-1840).

A descoberta do ouro e a valorização da borracha no mercado internacional, no último quartel do século XIX, promoveram o povoamento do Amapá e acirraram as disputas territoriais. Uma comunidade de colonos russos foi fundada em Calçoene em fins do século XIX.

Da proclamação da República aos nossos dias[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Território Federal do Amapá

Graças à brilhante defesa da diplomacia do Barão do Rio Branco, a Comissão de Arbitragem em Genebra, na Suíça, concedeu a posse do território disputado ao Brasil (1 de maio de 1900), incorporado ao Estado do Pará com o nome de Araguari.

Em plena Segunda Guerra Mundial, visando fatores estratégicos e de desenvolvimento econômico, a região foi desmembrada do estado do Pará pelo Decreto-lei n° 5.812, de 13 de setembro de 1943, constituindo o Território Federal do Amapá.

A descoberta de ricas jazidas de manganês na Serra do Navio, em 1945, revolucionou a economia local.

Com a promulgação da Constituição brasileira de 1988, a 5 de Outubro, o Amapá foi elevado à categoria de Estado.

Guerra da Lagosta[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Guerra da Lagosta

Em 1961, o então presidente da república brasileira, Jânio da Silva Quadros, preparou um plano secreto para a invasão e consequente anexação brasileira da Guiana Francesa. A operação chegou a entrar em fase de treinamento militar, mas foi abortada pela inesperada renúncia de Quadros.

Referências

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  42. Suplemento Cultural, Tipiti. Diário Oficial do Amapá. 1991. Nº 2

Ver também[editar | editar código-fonte]


Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ALICINO, Rogério. Clevelândia do Norte. Rio de Janeiro: BibliEx (Coleção Taunay), 1971.
  • GOMES, Flávio dos Santos. Nas Terras do Cabo Norte: fronteiras, colonização e escravidão na Guiana Brasileira - séculos XVIII/XIX. Belém: EdUFPA, 1999.
  • LINS, Cristóvão. Jari: 70 anos de história. Rio de Janeiro: edição do autor, 2001.
  • MEIRA, Silvio. Fronteiras Sangrentas: heróis do Amapá. Rio de Janeiro: Conselho Estadual de Cultura do Pará, 1975.
  • MEIRA, Silvio. Fronteiras Setentrionais: três séculos de luta no Amapá. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: EdUSP, 1989.
  • PICANÇO, E.V. Informações sobre a História do Amapá: 1500-1900. Macapá: Imprensa Oficial, 1981.
  • PORTO, Jadson. Amapá: principais transformações económicas e institucionais - 1943 a 2000. Macapá: SETEC, 2003.
  • REIS, Arthur Cezar Ferreira. Território do Amapá: perfil histórico. Rio de Janeiro: Imprensa Oficial, 1949.
  • SAMIS, Alexandre. Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil. São Paulo: Imaginário, 2002.
  • SARNEY, José e COSTA, Pedro. Fotos de Paulo Uchôa. Amapá: a terra onde o Brasil começa. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 1999, 2ª ed. Coleção Brasil 500 Anos. Livro disponível online.
Introdução
I. O lugar
II. A terra
III. As feitorias
IV. Reação portuguesa
V. Firmando posição
VI. A ocupação

VII. A colônia chega ao fim
VIII. La République du Counani
IX. A República do Cunani
X.Tragédia em Amapá
XI. A negociação
XII. A nova ocupação
XIII. Esperança e certeza