Ho Chi Minh

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Hồ Chí Minh
Hồ Chí Minh
Primeiro-ministro do
Vietname do Norte
Período 2 de setembro de 194520 de setembro de 1955
Presidente do Vietnã do Norte
Período 2 de setembro de 19452 de setembro de 1969
Ministro de Relações Exteriores
Período 28 de agosto de 19452 de março de 1946
Período 3 de novembro de 1946março de 1947
Membro do Politburo
Período 31 de março de 19352 de setembro de 1969
Dados pessoais
Nascimento 19 de maio de 1890
Nghe An, Indochina Francesa
Morte 2 de setembro de 1969 (79 anos)
Hanói, Vietname do Norte
Alma mater Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente
Cônjuge Zeng Xueming (1926–1969)
Partido Partido Comunista
do Vietname
Profissão Estadista
Assinatura Assinatura de Ho Chi Minh
Nome vietnamita
Em vietnamita
Vietnamita: Hồ Chí Minh
Nome de nascimento vietnamita
Em vietnamita
Vietnamita: Nguyễn Sinh Cung

Hồ Chí Minh (Kiem Lan, 19 de maio de 18902 de setembro de 1969) foi um militante revolucionário e estadista vietnamita. Nascido Nguyễn Sinh Cung, na província de Nghệ An, foi um persistente militante anti-colonialista, sob forte influência do leninismo e da Terceira Internacional. Somente décadas mais tarde ficaria mundialmente conhecido como Hồ Chí Minh (ou "aquele que ilumina").[1] Falecido em 1969, embora Ho desejasse ser cremado, foi embalsamado e seu corpo atualmente encontra-se no um mausoléu em Hanoi.[2]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A interessante posição geográfica da península Indochinesa logo atraiu a atenção do colonialismo chinês, que pesou já no século I a.C. sob o povo que ali residia.[3] A resistência às invasões estrangeiras durante toda a história da península criará, em determinados momentos, a necessidade de conjugação de forças entre as classes aristocráticas, ora decadentes, e seus servos, criando ferramentas de ação/intervenção baseadas “cooperação de classe”, a partir de linhas gerais como “todo o povo combate o agressor”[4] e “todo o povo é soldado”,[4] possibilitando o desenvolvimento, em determinados momentos históricos, de métodos de luta de guerrilha inovadores, a exemplo da “estratégia de longa duração” arquitetada por Trieu Quang Phuc, nobre do século VI,[5] durante a chamada Segunda Dominação Chinesa (séc. I até VI). Apesar de terem conseguido repelir seus agressores em alguns momentos, a luta contra os estrangeiros permaneceu uma constante durante os séculos, fazendo com que os combatentes vietnamitas continuassem a desenvolvessem formas de organização, como na época das “aldeias de resistência”, ou quando criaram diferentes categorias de tropas para atuarem em diferentes níveis de batalha, e desenvolveram a orientação “todo o povo conjuga suas forças”,[6] todas desenvolvidas entre os séculos XIII e XV. Não podemos deixar de ter em consideração, porém, que o desenvolvimento dessas inovações/possibilidades organizacionais não foram acumuladas ininterruptamente durante os séculos, tendo esse processo se desenvolvimento também a partir de uma faceta de quebras de conhecimento.

Mesmo que as rebeliões e revoltas contra a dominação colonial fossem extremamente constantes em toda a área dominada e durante praticamente todo o período pelo qual a região viet da península foi ocupada, local de especial revolta é a região norte da província de Trung Bo, chamada Nghe An. Foi de lá que emergiu a revolta comandada por Mai Thúc Loan, chamado de Imperador Negro, chefe de uma rebelião camponesa que conseguiu libertar o país durante toda uma década do século VIII, sendo a maior revolta da época conhecida como a Terceira Dominação Chinesa (séc. VII ao X). Foram de regiões perto de Nghe An que surgiram também as revoltas comandadas pelos membros da nobreza chamados Le Loi e Nguyen Trai, seu mentor. Le Loi, vitorioso após uma década de combates contra a Dinastia chinesa Ming, deu início ao segundo Dai Viet (Grande Viet) (1428-1804) e à chamada Segunda Dinastia Le. Foi, provavelmente, o inventor da tática dos “caminhos da montanha”, que evitava os chineses na planície utilizando a cordilheira Truong Son.[7] Já Nguyen Trai, acadêmico confucionista e político hábil, tinha especial atenção para o que chamava de “ofensiva psicológica”, realizando trabalhos de agitação junto às fileiras inimigas e suas tropas, procurando quebrar a moral das tropas inimigas. Estima-se que 100 mil soldados desertaram ou juntaram-se às tropas de Trai[8] durante a guerra.

Após um período de relativa unificação interna e autonomia durante a Segunda Dinastia Le, a península indochinesa entra no radar europeu. Já no século XVII os missionários jesuítas adentrarão o solo viet,[9] e esse movimento se avolumará até que, no século XIX, seguindo o movimento imperialista europeu de dominação do oriente, a segurança dos missionários presentes na península será utilizada como desculpa pelo governante francês Napoleão III para iniciar à ocupação “formal” do território vietnamita em 1858. Após 26 anos de batalhas e em plena vigência do Tratado de Berlim (1878), o governo francês termina de ocupar oficialmente a península. Entretanto, a fase mais aguda da resistência dura mais 14 anos, indo até 1898.[10]

Nascimento e convivência familiar[editar | editar código-fonte]

Ho Chi Minh, 1921

Ho Chi Minh nasceu com o nome de Nguyen Sinh Cung, na província de Nghe An, em 1890. Seu pai, Nguyen Sinh Sac (1862-1929), foi o primeiro da pequena vila de Kim Lien a formar-se no que à época era reconhecido como “doutorado” (aproximadamente uma graduação nos tempos atuais), e conquistou grande reconhecimento dos demais habitantes do pobre vilarejo quando recusou o cargo de professor no sistema confuciano na cidade de Hue para continuar ministrando aulas aos trabalhadores da vila.[11] Desde cedo o jovem Cung tem contato com o movimento nacionalista vietnamita: diversos parentes são militantes,[12] e seu pai tem estreito contato com Phan Boi Chau (1867-1940), um pioneiro do movimento nacionalista vietnamita no século XIX, fundador de diversos grupos de diferentes orientações políticas mas que tinham em comum um nacionalismo embrionário.[11][13] Aos 10 anos seu pai, segundo as tradições confucionistas rebatizou-o como Nguyen Tat Thanh (Nguyen, o Talentoso).

Juventude[editar | editar código-fonte]

Ao ir estudar na cidade de Hue, já durante a adolescência, o jovem Cung inicia suas atividades junto a grupos nacionalistas. Em 1911 decide emigrar, como um grande número de outros vietnamitas fazia à época,[14] e começa a trabalhar como cozinheiro num navio francês, em que visita o mundo todo. Por volta de 1917 instala-se em Paris, onde mantém contato com o movimento socialista francês, tendo como um de seus colegas mais próximos o neto de Karl Marx, Jean Longuet. Em 1919, tal qual diversos outros vietnamitas, Ho Chi Minh, na época conhecido como Nguyen Ai Quoc (Nguyen, o Patriota) envia uma petição entitulada de "Demandas do Povo Annamês" à diversos participantes das reuniões do Tratado de Versalhes, como o presidente francês Georges Clemenceu e o estadunidense Woodron Wilson, que não se manifestaram sobre o documento.[15] A amizade com Jean Longuet será seriamente abalada quando, durante o XVIII Congresso Nacional do Partido Socialista Francês em dezembro de 1920, Longuet posiciona-se contra a adesão do partido à Terceira Internacional, enquanto Ho Chi Minh ficará junto do movimento leninista que sairá do partido socialista e fundará o Partido Comunista Francês logo depois.[16] Essa mudança foi provocada pela aproximação de Ho Chi Minh com as posições de Lênin alguns meses antes do congresso, sobretudo após o vietnamita ter lido as Teses escritas por Lênin sobre as questões Colonial e Nacional, para o 2º Congresso da Terceira Internacional, em julho de 1920. A sequência de acontecimentos, do incidente sobre petição durante o Tratado de Versalhes aos primeiros contatos com a obra de Lênin e a fundação do PC francês, afastou Ho Chi Minh progressivamente dos socialistas da Segunda Internacional e dos movimentos nacionalistas de caráter liberal ou monárquico, rumo ao movimento comunista internacional, à Terceira Internacional e, epicentro da luta comunista naquele momento, a Rússia revolucionária.

Em 1923 vai para Moscovo estudar táticas de guerrilha e entra para o Comintern, braço internacional do Partido Comunista Russo.[17][18] Dois anos depois, é enviado para a China, país de onde é expulso em 1927. Vive em vários países até chegar a Hong Kong, de onde dirige o movimento anti-imperialista na Indochina, dominada pela França desde 1854.

Estátua de Ho Chi Minh

Preso pelos ingleses em 1930, consegue escapar e refugia-se em Moscovo. Em 1941 funda a Liga pela Independência (Viet Minh), para lutar contra os franceses. Durante a II Guerra Mundial utiliza a guerrilha no combate aos japoneses, invasores da Indochina. No fim do conflito, forma um Estado independente ao norte da região, o Vietname. A França contra-ataca e a Guerra da Indochina só termina em 1954, com a vitória do Việt Minh. O país é dividido em dois. Ho Chi Minh, presidente do Vietname do Norte, treina e aparelha as forças da Frente de Libertação Nacional do Vietname do Sul (Vietcong), que visam reunificar o país, o que leva à Guerra do Vietname. Morre em Hanói em 2 de setembro de 1969. Em 30 de abril de 1975 um tanque Norte-Vietnamita entrou no palácio presidencial do regime Sul-Vietnamita, apoiado pelos Estados Unidos, encerrando mais de dez anos de conflito. Saigon, antiga capital do Vietname do sul, foi rebatizada posteriormente com o nome de Ho Chi Minh.

Em 1976, o Vietname foi formalmente reunificado sob a bandeira do comunismo.

A Batalha de Dien Bien Phu[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Batalha de Dien Bien Phu
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O comandante das tropas francesas no Vietname, general Navarre, construiu uma fortaleza em Dien Bien Phu para conter a rota de fuga dos Vietnamitas para Laos e forçar uma batalha frontal. Mas, em contrapartida o general Vo Nguyen Giap, braço direito de Ho Chi Minh, cercou a fortaleza de Navarre com trincheiras. Quando os combates se iniciaram em Março de 1954, mais de 70 mil soldados do Vietname encurralaram o inimigo. Os Franceses foram atacados pela artilharia, enquanto os seus helicópteros e aviões eram vítimas de baterias anti-aéreas. A resistência durou 57 dias. Mais de sete mil soldados Franceses morreram e 11 mil foram capturados. A França estava totalmente derrotada.[17]

A Guerra do Vietname em números[editar | editar código-fonte]

O conflito, que perdurou por quinze anos, alcançou proporções catastróficas. Os Estados Unidos perderam 58 224 soldados e, ainda, levaram para casa mais de 300 mil feridos e mais 2 000 capturados. A Austrália, aliada dos norte-americanos, mandou 57 mil homens para o cenário de guerra. Devido à guerra ser travada no território Vietnamita houve um alto número de baixas civis pelo lado vietnamita e não apenas militares. A Nova Zelândia, também aliada dos EUA, contribuiu para aumentar os números: 38 mortos e 186 soldados feridos. O conflito acabou numa perda táctica para França, Japão e Estados Unidos.

As Doze Recomendações de Ho Chi Minh[editar | editar código-fonte]

As raízes da nação estão nas pessoas.

Ho Chi Minh, sem data. Arquivo Nacional.

Na guerra de Resistência e na reconstrução nacional, a principal força está no povo. Assim, todas as pessoas no exército, na administração e nas organizações de massa que estão em contato ou que convivem com o povo devem lembrar e levar consigo as seguintes doze recomendações.

Seis proibições:

1 - Não danificar de nenhuma maneira a terra e as plantações ou as casas e bens das pessoas;

2 - Não insistir em comprar ou tomar emprestado o que as pessoas não desejam vender ou emprestar;

3 - Não levar galinhas vivas para as casas das pessoas nas montanhas;

4 - Nunca faltar com a palavra;

5 - Não ofender a fé e os costumes das pessoas (como mentir perante o altar, levantar os pés mais alto que o coração, tocar música em casa, etc.);

6 - Não fazer ou falar coisas que façam as pessoas pensarem que as desprezamos.

Seis permissões:

1 - Ajudar as pessoas em suas tarefas diárias (colher, juntar lenha, carregar água, costurar, etc.);

2 - Sempre que possível comprar mercadorias para aqueles que vivem longe dos mercados (facas, sal, agulhas, fios, canetas, papel, etc.);

3 - Nas horas livres, contar pequenas estórias divertidas e simples úteis à Resistência, mas não revelar segredos;

4 - Ensinar à população a escrita nacional e a higiene básica;

5 - Estudar os costumes de cada região para se familiarizar com eles, de forma a criar uma atmosfera de simpatia no início e então explicar às pessoas gradualmente que diminuam suas superstições;

6 - Mostrar às pessoas que você é correto, diligente e disciplinado.


Referências

  1. Trần Quốc Vượng. «Lời truyền miệng dân gian về Hồ Chí Minh». BBC Vietnamese. Consultado em 24 de abril de 2014 
  2. William J. Duiker; 2000; Ho Chi Minh: A Life, pagina 78; Theia.
  3. «First Chinese domination of Vietnam». Wikipedia (em inglês). 14 de maio de 2020 
  4. a b Giap, Vo Nguyen (2016). Armamento das massas revolucionárias, edificação do exército do povo. São Paulo: Nova Cultura. p. 73 
  5. Giap, Vo Nguyen (2016). Armamento das massas revolucionárias, edicicação do exército do povo. São Paulo: Nova Cultura. pp. 76–77 
  6. Giap, Vo Nguyen (2016). Armamento das massas revolucionárias, edificação do exército do povo. São Paulo: Nova Cultura. pp. 70–89 
  7. Lacouture, Jean (1979). Ho Chi Minh. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p. 12 
  8. Giap, Vo Nguyen (2016). Armamento das massas revolucionárias, edificação do exército do povo. São Paulo: Nova Cultura. p. 85 
  9. Visentini, Paulo Fagundes (2007). A revolução vietnamita. São Paulo: Unesp. p. 23 
  10. Lacouture, Jean (1979). Ho Chi Minh. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. pp. 12–16 
  11. a b Morris, Virginia (2018). Ho Chi Minh's Blueprint for Revolution: In the words of vietnamese strategists and operativs. Jefferson, North Carolina: McFarland & Company, Inc. Publishers. p. 7 
  12. Lacoutore, Jean (1979). Ho Chi Minh. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. pp. 17–19 
  13. Lacouture, Jean (1979). Ho Chi Minh. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p. 19 
  14. Morris, Virginia (2018). Ho Chi Minh's Blueprint for Revolution: in the words of vietnamise strategists and operatives. Jefferson, North Carolina: McFarland & Company, Inc. Publishers. pp. 11–12 
  15. Morris, Virgínia (2018). Ho Chi Minh's Blueprint for revolution: in the words of vietnamese strategists and operatives. Jefferson, North Carolina: [s.n.] p. 13 
  16. Morris, Virginia (2018). Ho Chi Minh's Blueprint for revolution: in the words of vietnamese strategists and operatives. Jefferson, North Carolina: McFarland & Company, Inc. Publishers. pp. 15–16 
  17. a b Obituary in The New York Times, 4 September 1969, acessado em 24 de abril de 2014
  18. Cf. Duiker (2000), p.92
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