Ir para o conteúdo

Hojōjutsu

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Hojōjutsu (捕縄術, lit. "técnica de imobilização com corda"), torinawajutsu (捕縄術, lit. "técnica de imobilização com corda") ou simplesmente nawajutsu (縄術, lit. "técnica da corda") é a arte marcial tradicional japonesa de imobilizar uma pessoa utilizando cordão ou corda (designado nawa (, "corda") em japonês), como precursora das modernas algemas. Abrangendo muitos materiais, técnicas e métodos diferentes de várias escolas, o hojōjutsu é uma arte japonesa clássica que constitui um produto único da história e cultura japonesas.[1]

Enquanto prática de artes marciais, o hojōjutsu raramente, ou nunca, é ensinado de forma autónoma, mas como parte de um currículo sob a égide do corpo de conhecimentos abrangido por uma escola mais ampla de bugei ou budō, frequentemente como estudo avançado de jiu-jitsu. Independentemente da sua origem, as técnicas e métodos de hojōjutsu raramente são demonstrados ou divulgados fora do Japão.

Técnicas e métodos

[editar | editar código]

De um modo geral, o hojōjutsu pode ser dividido em duas grandes categorias. A primeira consiste na captura e imobilização de um prisioneiro, efetuada com um cordão forte e fino (normalmente com 3–4 milímetros de diâmetro), denominado hayanawa (早縄, lit. "corda rápida"), sendo por vezes utilizado o sageo transportado pelos samurai nas bainhas das espadas.[2] Na aplicação da lei, este cordão era transportado pelos agentes, que o escondiam num pequeno feixe de onde a corda saía por uma das extremidades. Esta torinawa ("corda de captura") era enrolada de modo que o cordão saísse por uma das extremidades enquanto o feixe de cordão era passado à volta do corpo, pescoço e braços do prisioneiro durante a sua imobilização. Isto era normalmente realizado por um único agente durante uma detenção, enquanto o prisioneiro resistia ativamente, e tinha de ser executado rapidamente.

Mesmo nesta fase, era dada atenção às preocupações visuais e estéticas relacionadas com o método de amarração, bem como às necessidades culturais da sociedade japonesa. Segundo os especialistas, um prisioneiro acusado que ainda não tivesse sido condenado seria amarrado utilizando métodos que permitissem imobilizá-lo com segurança, mas que não contivessem nós, poupando assim ao prisioneiro a vergonha de ser publicamente amarrado.[3][4] Em vez de fixar a amarração com nós, o agente segurava a extremidade livre da corda e caminhava atrás do prisioneiro para o manter sob controlo enquanto este era conduzido para um interrogatório, que podia envolver a aplicação de uma ou mais formas de tortura judicial para obter uma confissão.

A segunda categoria utilizava uma ou, ocasionalmente, duas "cordas principais", ou honnawa, que, tal como a hayanawa, podiam ter muitos comprimentos diferentes, mas eram geralmente feitas de cânhamo. A espessura desta corda tinha, em média, seis ou mais milímetros de diâmetro,[5] enquanto o comprimento podia atingir 25 metros. Era utilizada para proporcionar uma imobilização mais segura e prolongada do que a possível com a hayanawa, para o transporte até um local de encarceramento, a imobilização durante processos judiciais e — no caso de crimes particularmente graves — a exposição pública do prisioneiro antes da execução por métodos como a decapitação, a crucificação (isto é, o prisioneiro era mostrado amarrado a uma cruz antes de serem introduzidas lanças no corpo) ou, no caso de condenações por incêndio criminoso, a morte pelo fogo.

As amarrações com honnawa eram aplicadas por um grupo de pessoas, geralmente não inferior a quatro, cuja presença permitia a utilização de padrões mais complexos e ornamentados do que no caso da hayanawa. Ambas as formas combinavam uma imobilização eficaz com uma estética visual distinta.

Em ambas as formas, as amarrações de hojōjutsu atualmente conhecidas revelam uma compreensão perspicaz da anatomia humana através de vários temas recorrentes. Estes podem incluir a eliminação da alavanca (amarrando os membros em posições que diminuem a força que estes podem gerar),[6] a colocação da corda para desencorajar a luta ou torná-la menos eficaz, colocando uma ou mais voltas da corda à volta do pescoço e exercendo uma imobilização constritiva em pontos da parte superior dos braços onde uma luta determinada exerce pressão sobre vasos sanguíneos e nervos, entorpecendo as extremidades.[7]

Persistência nos tempos modernos

[editar | editar código]

O hojōjutsu apresenta uma sobrevivência limitada no mundo moderno, tanto no Japão como noutros locais. As técnicas de torinawa são ensinadas como parte do currículo aprendido pelos agentes da polícia japonesa moderna e continuam a constituir um tema avançado nas escolas de jiu-jitsu, acompanhando estas e outras artes marciais tradicionais japonesas na sua difusão pelo mundo, do Brasil à Europa Oriental. A Yoshida ha Shidare Yanagi ryū, arte do falecido Don Angier, contém um extenso currículo de hojōjutsu.

Embora as técnicas de honnawa tenham sido há muito substituídas por algemas e grilhões, alguns professores de artes marciais tradicionais no Japão trabalham para continuar a preservar esta forma de arte. O sōke (chefe e herdeiro do estilo) da Masaki-ryū, Nawa Yumio, escreveu vários livros sobre o assunto e trabalhou como consultor histórico em questões relacionadas com a aplicação da lei. O livro recentemente reeditado de Mizukoshi Hiro, Torinawajutsu, apresenta um enquadramento histórico seguido de instruções práticas pormenorizadas sobre mais de 25 amarrações tradicionais, incluindo algumas recriadas a partir de textos raros e antigos. As ko-ryū citadas são Seigo Ryu Jujutsu, Seishin Ryu Jujutsu, Koden Enshin Ryu Iaijutsu, Nanbu Handen Hojo Jutsu, Kurama Yoshin Ryu Jujutsu, Nagano Ryu Heihou, Mitsuo (Mippa) Muteki Ryu, Bo Ryu e Tenfu Muso Ryu.

A obra de Seiko Fujita, Zukai Torinawajutsu, que pode ser considerada a enciclopédia desta arte, apresenta centenas de amarrações provenientes de muitas escolas diferentes.[8]

  1. «ryuha». Kokusai Hojojutsu Kenkyukai (International Hojojutsu Research Society). Cópia arquivada em 10 de setembro de 2024
  2. Cummins, Antony (2015). The Book of Samurai: Book One: The Fundamental Teachings. Traduzido por Yoshie Minami. Londres, Reino Unido: Watkins Publishing. 11 páginas. ISBN 978-1780288888
  3. Nawa, Yumio (1963). 拷問刑罰史 [History of torture and punishment]. [S.l.]: 雄山閣出版. ISBN 978-4639008859
  4. Nawa, Yumio (1964). 十手捕縄の研究 [Study of the Constables use of Truncheon and Rope]. [S.l.: s.n.]
  5. Fujita, Seiko (2000). 図解捕縄術 [The Illustrated Science of Rope Arresting]. [S.l.]: 名著刊行会. pp. 13–14. ISBN 978-4839002978
  6. Fujita, Seiko (2000). 図解捕縄術 [The Illustrated Science of Rope Arresting]. [S.l.]: 名著刊行会. 169 páginas. ISBN 978-4839002978
  7. Fujita, Seiko (2000). 図解捕縄術 [The Illustrated Science of Rope Arresting]. [S.l.]: 名著刊行会. 78 páginas. ISBN 978-4839002978
  8. Fujita, Seiko (2000). 図解捕縄術 [The Illustrated Science of Rope Arresting]. [S.l.]: 名著刊行会. ISBN 978-4839002978

Referências

[editar | editar código]
    • Torinawajutsu (Hojo-jutsu) — Hiro Mizukoshi
    • Bugei Ryuha Daijiten

    Ligações externas

    [editar | editar código]
    O Commons possui uma categoria com imagens e outros ficheiros sobre Hojōjutsu