Hoje Avental, Amanhã Luva
Hoje Avental, Amanhã Luva é a primeira peça teatral escrita por Machado de Assis, ainda jovem. Trata-se de uma comédia em um ato, dividido em doze cenas, com apenas três personagens, "imitada do francês" e publicada originalmente em A Marmota nos números de 20, 23 e 27 de março de 1860.[1]
O "imitada do francês" do subtítulo indica que não é um texto original do autor, como as peças subsequentes, e sim uma adaptação livre, à realidade carioca de 1859, de uma peça francesa.
Nessa peça o autor não só traduziu o original francês para a língua portuguesa, mas cuidou, também, de adaptá-lo à realidade nacional, o que acabou por dar à obra um sotaque brasileiro. Machado de Assis, além de ter transposto a ação para a cidade do Rio de Janeiro, durante o carnaval, inseriu na comédia várias referências locais, muito precisas, que acabaram colocando o leitor/expectador em contato com os hábitos e costumes do Brasil na segunda metade do século XIX."[2]
Mário de Alencar situa as peças teatrais de Machado de Assis num esforço coletivo de criar um teatro genuinamente nacional que inspirou uma grande produção nas décadas de sessenta e setenta no século XIX.[3]. Mas em vez das tragédias neoclássicas, dramas românticos e comédias realistas de origem ou inspiração francesa, em voga na época, Machado preferiu o chamado "provérbio dramático" (ou "comédia-provérbio"), gênero surgido no final do século XVII, nos salões aristocráticos franceses,[4] uma "comédia elegante", "em um ou no máximo dois atos", "que tira partido da vivacidade dos diálogos e da espirituosidade das personagens",[5], praticada na França por autores como Octave Feuillet e Alfred de Musset.[6]
Origem da peça
[editar | editar código]A peça original francesa em que se baseia Hoje Avental, Amanhã Luva só foi identificada mais de um século depois pelo machadólogo francês Jean-Michel Massa em seu livro Dispersos de Machado de Assis, onde a publicou. Trata-se de La Chasse au Lion (A caça ao dândi), de Gustave Vattier e Émile de Najac, que estreou em 1852.[7] "Assim, a 'caça ao dândi', [...] que na comédia é uma 'caça' a um marido, ganha na versão de Machado uma série de referências ao Rio de Janeiro, cidade onde se passam os eventos, que têm como protagonista uma personagem de larga tradição cômica no teatro ocidental: a criada esperta."[8]
Encenação
[editar | editar código]Não há informação de que esta peça tenha sido encenada na época de Machado de Assis.[9] Mais recentemente, pesquisa na Hemeroteca Digital Brasileira revela que ela foi encenada em uma única apresentação, em 1o novembro de 1990, no Auditório do BNDES, sob a direção de Gilberto Gawronski .[10]
Em 6 de novembro de 1998, o grupo Nós no Morro estreou na Casa de Cultura Laura Alvim a peça Machadeando, adaptação de três obras de Machado de Assis: as peças Lição de Botânica e Hoje Avental, Amanhã Luva, e o conto em forma de diálogo em versos Antes da Missa.[11]
E em 24 de maio de 1999, o Projeto Machado de Assis encenou esta peça na Lona de Cultura Hermeto Paschoal, em Bangu.[12]
Publicação
[editar | editar código]A peça não foi incluída pelo autor em nenhum dos livros seus publicados em vida. Foi publicada pela primeira vez, junto com outros textos esparsos, em 1939 por Eloy Pontes nas Páginas Esquecidas, "com vários erros de transcrição".[13] A primeira publicação cotejada com o texto original foi publicada pelo francês Jean-Michel Massa em seu livro Dispersos de Machado de Assis de 1965.[14]
Personagens
[editar | editar código]- Durval: Homem elegante que chega de uma estadia no interior em busca da Sra. Sofia de Melo, com quem teve um caso amoroso, mas depara com sua criada, Rosinha, que ele tentara seduzir no passado.
- Rosinha: Criada de Sofia, procura desviar Durval de Sofia, conspirando com seu cocheiro a fim de conquistá-lo.
- Bento: Boleeiro (cocheiro) de Durval.
Enredo
[editar | editar código]Rosinha, criada de Sofia (que embora citada, não aparece em cena), usa um estratagema para conquistar Durval, homem de boa posição social, e assim trocar o avental pelas luvas.
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, 2a edição de 2021, verbete "Hoje avental, amanhã luva".
- ↑ Nilton de Paiva Pinto, Teatro de Machado de Assis: Alternativa para a dramaturgia brasileira. Contagem, MG: Edição do Autor, 2023, pág. 34. ISBN 978-65-00-80708-0.
- ↑ Machado de Assis: Teatro Completo. São Paulo : Editora Mério SA, 1961. Pg. 8.
- ↑ João Roberto Faria, "O Comediógrafo". Jornal da Unicamp, 25-31/8/2008, pág. 12. Disponível em João Roberto Faria. «O Comediógrafo» (PDF). Consultado em 13 de março de 2026
- ↑ Dicionário do Teatro Brasileiro: Temas, Formas e Conceitos, 2009, págs. 280-1. ISBN 978-8598112886
- ↑ Nilton de Paiva Pinto, op. cit., pág. 30.
- ↑ Jean-Michel Massa, Dispersos de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura e Instituto Nacional do Livro, 1965, págs. 135ss (texto) e 502ss (notas).
- ↑ João Roberto Faria, "Machado de Assis e o Teatro", Revista Brasileira no 55, abril-maio-junho de 2008, pág. 166, acessível no site da ABL.
- ↑ Nilton de Paiva Pinto, op. cit., pág. 41.
- ↑ «"Coluna Bis" na Tribuna da Imprensa de 1/11/1990». Consultado em 10 de novembro de 2012
- ↑ «"Nós no Morro Estreia Musical em Ipanema", Jornal do Brasil de 5/11/1998, Caderno B, pág. 3». Consultado em 13 de março de 2026
- ↑ «TEATRO - CONTINUAÇÃO, Jornal do Brasil de 24/5/1999, Caderno B, pág. 4». Consultado em 13 de março de 2026
- ↑ Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, 2a edição de 2021, verbete "Hoje avental, amanhã luva".
- ↑ Jean-Michel Massa, op. cit.
Ligações externas
[editar | editar código]- «Texto da peça em PDF para download»
- «"CÁ ESTÁ A CRIADINHA!": UMA ANÁLISE DA IMITAÇÃO HOJE AVENTAL, AMANHÃ LUVA DE MACHADO DE ASSIS (1860)»
- «Jornal A Marmota de 20/3/1860 (pág. 2) com a primeira parte da peça»
