Humanitismo

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Humanitismo é nome da filosofia fictícia criada por Joaquim Borba dos Santos, o Quincas Borba, um dos mais célebres personagens de Machado de Assis, que é exposta fundamentalmente no romance Quincas Borba e de forma secundária em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

A seguir o trecho do livro em que o mesmo explica sua filosofia ao personagem Rubião:

- Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
- Mas a opinião do exterminado?
- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.
Quincas Borba, Capítulo VI[1]
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O Wikisource contém fontes primárias relacionadas com Quincas Borba, Cap. VI

Uso[editar | editar código-fonte]

O "Humanitismo" do filósofo Quincas Borba expõe as dúvidas e perguntas do discípulo e as respostas rápidas e prontas do mestre, em oposição à maiêutica socrática.[2] Surge pela primeira vez na prosa machadiana no Capítulo 157 de Memórias Póstumas de Brás Cubas, recebendo um adendo no Capítulo 141, para comentar uma briga de cães (também é comentada bem antes, no Capítulo 109, numa conversa entre Quincas Borba e o próprio Brás Cubas). A partir disso, as ideias humanitistas acompanham Brás Cubas até o final do livro. A exposição é retomada, para um novo interlocutor e de forma mais explícita, no Capítulo 6 de Quincas Borba. Rubião, este novo interlocutor, ao contrário de Cubas, que era adepto da filosofia e sempre procurava questioná-la,[2] não compreendia suas concepções e considerava Borbas um doido—passando a entender a fórmula "ao vencedor, as batatas" só ao retornar a sua cidade natal no fim de sua vida

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O Wikisource contém fontes primárias relacionadas com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. CLVII

Interpretação[editar | editar código-fonte]

Para os críticos, o "Humanitismo" constitui-se da ideia "do império da lei do mais forte, do mais rico e do mais esperto".[4] Antonio Candido escreveu que a essência do pensamento machadiano é "a transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual."[5] Os críticos notam que o "Humanitismo" de Machado não passa de uma sátira ao positivismo de Auguste Comte e ao cientificismo do século XIX e à teoria de Charles Darwin acerca da seleção natural.[6] Desta forma, a teoria do "ao vencedor, as batatas" seria uma paródia da ciência da época de Machado e sua divulgação, uma forma de desnudar ironicamente o caráter desumano e anti-ético da "lei do mais forte".[6]

A filosofia de Quincas Borba afirma que a substância da qual emanam e para qual convergem todas as coisas é Humanitas, e que a inveja não passa do "nobre sentimento" de contemplação, nos outros, das qualidades de Humanitas.[2] O "Humanitismo", enxerga a guerra como forma da seleção dos mais aptos.[2] Humanitas se projeta por meio de quatro fases: a estática, anterior à criação; a expansiva, início das coisas; a dispersiva, surgimento do homem, e a contrativa, absorção do homem na substância original.[2] A filosofia exclui o sexo e o sofrimento, considerando o Cristianismo uma "moral de fracos" (clara intertextualidade às teorias de Nietzsche), a mulher um ser inferior, e tudo no mundo como algo bom, sendo a única coisa ruim o não nascer.[2] No Capítulo 157 de Memórias Póstumas de Brás Cubas, o "Humanitismo" se proclama "a única verdade", negando a verdade essencial do Budismo, Bramanismo, Islamismo, Cristianismo e de todos os sistemas e crenças da história da humanidade.[7]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Quincas Borba, edição da Klick Editora, Coleção "Ler é Aprender", Estadão, p. 21
  2. a b c d e f "É Help!: Para Entender Quincas Borba", p. 184
  3. "É Help!: Para Entender Quincas Borba", p. 181
  4. Os Livros da Fuvest, 2001, p.82
  5. CANDIDO, 1995, p.28.
  6. a b Os Livros da Fuvest, 2001, p.83
  7. "É Help!: Para Entender Quincas Borba", p. 185

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • "É Help!: Para Entender Quincas Borba", por Frederico Barbosa. In: Quincas Borba, Klick Editora, Coleção "Ler é Aprender", Estadão, 1997.
  • CANDIDO Antonio. "Esquema de Machado de Assis", in: Vários escritos. 3ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Duas cidades, 1995.
  • Os Livros da Fuvest, análises por Francisco Achcar e Fernando Teixeira Andrade. Ed. Sol, 2001.